Igreja de São Gonçalo era a Casa da Pólvora

Foto de Abílio Coutinho de 1869.
Localização da Casa da Pólvora, do Farol e da Catedral de Maceió

Localização da Casa da Pólvora, do Farol e da Catedral de Maceió

O primeiro registro sobre a Casa da Pólvora foi feito por um marinheiro britânico, Sir Ross. Segundo J.F. Maya Pedrosa, em seu livro Histórias do Velho Jaraguá, o navegante fez elogios às boas condições de ancoragem, os serviços do prático e o fácil acesso à água e alimentos em Jaraguá, e indicou como ponto de referência para outros navegadores, um pequeno edifício branco que chamou de Paiol.

O Paiol da Pólvora fazia parte de um complexo de construções que visava a garantia do porto de Jaraguá e era formado ainda pelo farol, casa do faroleiro, casa do guarda do paiol e uma bateria de “vinte e tantas peças”. O terreno foi doado ao governo imperial em 15 de junho de 1834 por Bento Ferreira Guimarães.

Não se tem a data da construção do paiol da pólvora, mas a pedra fundamental para a construção do farol de Maceió foi lançada festivamente no dia 2 de dezembro de 1851, pelo presidente da província, José Bento da Cunha e Figueiredo, acompanhado de mais algumas autoridades, atendendo a uma reivindicação antiga que beneficiaria o meio de transporte mais utilizado na época, a navegação.

O farol foi muito útil, mas a bateria, felizmente, nunca foi utilizada para seus fins. Quando D. Pedro II chegou a Maceió em 31 de dezembro de 1859, a bordo do vapor “Apa”, foi saudado com 21 tiros peal bateria do Farol. Da mesma forma, nos dias 18 e 19 de junho de 1870, para avisar da aproximação do transporte de guerra Leopoldina” com os Voluntários da Pátria do 20º BC que retornavam da Guerra do Paraguai.

Localizado no Morro do Farol, numa área que ficaria depois conhecida como Alto do Jacutinga – na cabeça da Ladeira da Catedral onde hoje fica a sede do CRE-AL -, o Farol estava a poucos metros da Casa da Pólvora, “um vulcão que está a cavaleiro da cidade e que em um abrir e fechar d’olhos pode faze-la voar pelos ares, senão toda, a maior parte”, como o definiu Thomaz Espíndola em seu livro Geografia Alagoana.

Cartão Postal de Maceió do final do século XIX

Cartão Postal de Maceió do final do século XIX

O problema não era desconhecido para José Bento. Meses antes, em junho de 1951, em sua “Falla” anual para a Assembleia, ele informou que tinha mandado fazer um inventário da quantidade de pólvora do paiol para retirá-la de dali, mas, por cautela não deixou que a mudasse daquele local. “Julgo conveniente que neste particular se obre sempre com pausa, e sob as cautelas da Polícia”.

A pausa aconteceu e somente em 1869, o assunto volta a ser abordado, desta feita pelo filho de Bento Figueiredo, José Bento Figueiredo Júnior, que presidia a Província e registrou em sua “Falla” a existência de planta e orçamento para adaptar a casa que teria sido destinada para ser o Matadouro em depósito de pólvora.

Segundo Craveiro Costa no seu livro Maceió, que deveria ser o Matadouro era um galpão construído no lugar chamado Paus-Secos. A construção foi ideia do presidente Sá e Albuquerque, em 1855, que queria o matadouro na beira da lagoa, no final do que seria o prolongamento da Rua do Livramento (hoje esse prolongamento seria a Rua Formosa), criando um porto para Marechal Deodoro e Pilar. Após a construção do Matadouro, o local foi considerado impróprio.

Igreja de São Gonçalo nos anos da década de 1980

Igreja de São Gonçalo nos anos da década de 1980

Em 1870, José Bento Figueiredo Júnior ainda insistia com os deputados da necessidade de mudar a Casa de Pólvora para o Matadouro sem uso. Ele argumentava que o prédio estava minado por formigueiros e era uma ameaça, em caso de explosão, aos moradores vizinhos e ao próprio farol. Outro problema eram os incêndios de verão nos terrenos adjacentes.

Finalmente, em 1875, o presidente da província, João Thomé, informa que o paiol de pólvora já estava funcionando improvisadamente no Matadouro da cidade. Entretanto, o local que tinha sido impróprio para ser um matadouro, também não servia para depósito de pólvora. Três anos após a mudança, durante o governo de Torquato Barros, as reclamações foram registradas na “Falla” do presidente.

Como lá eram guardadas pólvoras do estado e de particulares, a deterioração do material desagradava principalmente aos comerciantes e particulares, que eram obrigados por lei a deixarem suas mercadorias sob os cuidados do estado.

Atendendo aos reclamos, o presidente solicitou do Ministério da Guerra autorização para a construção de um paiol em local adequado, que seria escolhido por uma comissão composta pelo major do estado maior da artilharia, Candido José Costa, do bacharel Bernardo Pereira do Carmo e do major de engenheiros Inocêncio Galvão de Queiroz. O orçamento e projeto da obra também foi solicitado à comissão.

Em 1879, em aviso do dia 14 de setembro, o Ministério da Guerra ordenou que fosse escolhido o local para a construção do novo paiol. A comissão encarregada indicou “um local na colina, que domina a cidade, em ponto bastante afastado das estradas frequentadas e do centro da população, de modo a não haver que recear danos, ocasionados por explosão inesperada”. Não há registro preciso deste local proposto.

Entretanto, o Ministério da Guerra resolveu adotar as “pausa” e “cautelas” propostas por José Bento Figueiredo quase 30 anos antes. O silêncio imperial incomodou ao presidente Cincinato Pinto, que em 1880, cobrou ao ministro da Guerra uma definição sobre a construção do novo paiol. Como a pausa continuou, Magalhães Sales, presidente da província em 1884, voltou a questionar o ministério sobre o novo paiol.

Igreja de São Gonçalo do Amarante

Igreja de São Gonçalo do Amarante

A resposta só veio em 1882, quando o Ministério da Guerra pede novo orçamento. O governador Domingos Antônio Raiol decide, antes de fazer o orçamento, nomear outra comissão para definir o local. São indicados o Diretor de Obras Públicas, engenheiro Inocêncio Galvão de Queiroz, o engenheiro da província Manoel Candido Rocha de Andrade e um empregado da Tesouraria da Fazenda.

Nova pausa e, no governo de Pedro Paulino da Fonseca, em 1890, a localização do paiol volta a ser questionada, sob o argumento que não tinha as condições de segurança exigidas para este fim. A única vantagem apontada era o de estar distante do centro da cidade, à margem do Canal do Trapiche da Barra.

Seis anos depois o problema continuava. Em 1896, o jornal Gutemberg denuncia que duas carroças transportando barris de pólvora do porto para o paiol passaram pelas ruas centrais da cidade. A reportagem diz que um dos carroceiros estava fumando enquanto conduzia a carga perigosa.

Em agosto de 1905, o paiol já não funcionava no prédio do antigo Matadouro. O Gutemberg registra que o local estava deteriorado e recebendo bexigosos. A partir desta data, não há mais informações sobre o destino que tomou o paiol de pólvora de Maceió.

Enquanto as pausas não deixavam ser resolvido o paiol encontrar o seu melhor local, a antiga Casa de Pólvora do Alto do Jacutinga era destinada a novas funções. Provavelmente no ano de 1888, ela foi cedida à igreja católica que a adaptou para receber a Igreja de São Gonçalo do Amarante, homenageando novamente o santo que deu nome à primitiva capela e que tinha ficado sem igreja quando que deu lugar à Catedral de Maceió.

1 Comentário on Igreja de São Gonçalo era a Casa da Pólvora

  1. Rennany Gomes // 24 de julho de 2015 em 22:22 //

    Parabéns, pelo belíssimo trabalho!

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  1. Maceió - ALAGOAS - O paraiso das águas

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