Cabeças dos cangaceiros chegam a Maceió em 1938

Cabeças de cangaceiros expostas ao público
Exposição das cabeças em Santana do Ipanema

Exposição das cabeças em Santana do Ipanema

Com a morte de Lampião e seu bando na madrugada do dia 28 de julho de 1938, na grota de Angicos, em Sergipe, os cangaceiros foram decapitados e suas cabeças transportadas para Maceió, onde foram necropsiadas.

Praça da Cadeia, local onde as cabeças foram expostas em Maceió

Praça da Cadeia, local onde as cabeças ficaram expostas em Maceió

Antes de chegar à capital, o cortejo macabro fez exposição das cabeças numa verdadeira via sacra por cidades e vilarejos do trajeto até a capital. Em Santana do Ipanema, por exemplo, as cabeças foram expostas na calçada da igreja.

Segundo o perito criminal Ailton Vilanova, o guardião das cabeças foi um militar conhecido como Azogado. Foi ele quem pôs sal nas cabeças para mantê-las conservadas durante todo tempo em que foram exibidas como troféus em Alagoas, Sergipe e Bahia.

Em Maceió, as cabeças receberam a visitação pública na praça da Cadeia, em frente ao Quartel da Polícia Militar. Uma verdadeira multidão ocorreu ao local nos dias 30 e 31 de julho, e milhares de pessoas de todas as classes sociais viram o espetáculo grotesco de cabeças de cangaceiros em decomposição.

Multidão tenta invadir a Santa Casa de Misericórdia de Maceió para ver as cabeças dos cangaceiros

Multidão tenta invadir a Santa Casa de Misericórdia de Maceió para ver as cabeças dos cangaceiros

Mesmo quando as cabeças foram levadas para o necrotério da Santa Casa de Misericórdia de Maceió, às 22 horas do dia 31 de julho, a multidão insistiu em acompanhar de perto os trabalhos dos legistas. Toda a área teve que ser isolada pela polícia diante das ameaças de invasão.

A necropsia ficou a encargo do médico-legista da Polícia, Dr. José Lages Filho, que foi auxiliado por José Aristeu, que acumulava a função de necropsista com a de motorista do veiculo que transportava cadáveres, segundo informações de Ailton Vilanova. Devido ao péssimo estado de conservação após cinco dias de exposições, somente a cabeça de Lampião pôde ser aproveitada para os estudos científicos.

Professor Ezechias da Rocha, chefe da Clínica da Santa Casa, jornalista Melchiades da Rocha e Dr. Lages Filho

Professor Ezechias da Rocha, chefe da Clínica da Santa Casa, jornalista Melchiades da Rocha e Dr. Lages Filho

Sobre a cabeça do Rei do Cangaço, o Dr. José Lages Filho informou que ela havia perdido toda a massa encefálica em virtude das extensas e múltiplas perda de material ósseo. Isso impossibilitava os estudos sobre possíveis anomalias cerebrais do cangaceiro.

Sobre o estudo antropológico, necessário para identificar o criminoso nato segundo as teorias de Lombroso – muito em voga na época –, o legista disse que os únicos sinais de degenerescência eram a assimetria das orelhas, microdontia e a forma ogival da abóbada palatina.

Para Lampião ser um criminoso nato faltavam, ainda segundo o legista, os indícios de pragmatismo maxilar, deformações cranianas e outras características do perfil da Escola Lombrosiana.

A conclusão do laudo é: “Todavia, nem por isso os dados anatômicos e antropométricos assinalados perdem sua valia pelas sugestões que oferecem na apreciação da natureza delinquencial do famoso cangaceiro nordestino. – (a.) Dr. José Lages Filho, médico-legista da Polícia”.

Estes estudos eram tão importantes na época, que o governo de Alagoas recebeu um pedido do professor F. A. Nóbrega, de Curitiba, que pretendia enviar as cabeças dos cangaceiros para estudos no Instituto Guilherme II em Berlim. O governo negou.

Depois dos estudos em Maceió, os restos mortais dos cangaceiros foram levados para Salvador, onde ficaram expostos do Museu Antropológico Estácio de Lima, localizado no prédio do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues.

Foi a luta de Dadá, companheira de Corisco – que passou a viver em Salvador -, que exigiu o cumprimento da legislação que assegura o respeito aos mortos.

Só no dia 06 de fevereiro de 1969, no governo Luiz Viana Filho, foi que os restos mortais dos cangaceiros puderam ser inumados definitivamente – tendo, porém, o museu feito moldes para expor, em substituição.

Fonte: Livro Bandoleiros das Catingas, de Melchiades da Rocha.

6 Comments on Cabeças dos cangaceiros chegam a Maceió em 1938

  1. Pelópidas Argolo // 20 de junho de 2015 em 14:35 //

    Meu caro amigo Edberto, pelo que eu colhi junto ao meu pai, que era telegrafista dos antigos correios e telégrafos, em Santana do Ipanema, a época que em as cabeças decepadas de Lampião e seus cangaceiros, foram exibidas na cidade, elas estava depositadas em latões de querosene. Depois, levadas para Maceió, foram, também, exibidas e estudadas, como você disse. Essa estória de LOMBROSO com sua absurda tese, já não vale mais nada, pois sua tese não tem mais sentido. As cabeças de Lampião e seus cangaceiros, que se encontravam em um museu de Salvador, foram sepultadas por decisão judicial, que atendeu pedido dos familiares.

  2. lauthenay perdigão do carmo // 20 de junho de 2015 em 16:00 //

    São histórias e comentários muito importantes para nossa história.

  3. As teses de Lombroso não tem mais validade na atualidade mas durante o século XIX e início do século XX eram tidas como Ciência, se constituindo muitas vezes na base de politicas públicas que tinham na ideia de superioridade e inferioridade de raças um importante elemento no desenvolvimento das mesmas.

  4. america Macedo cardoso // 21 de junho de 2015 em 17:12 //

    Hoje se lesa o país, desvia todo dinheiro, abrem conta no exterior e nada sofre.

  5. Charles André // 8 de dezembro de 2017 em 15:15 //

    Olá, Ticianelli, parabéns pela matéria.
    Sou profesor associado de Neurologia da UFRJ e escrevo artigos em revistas científicas de minha área, inclusive sobre frenologia.
    Você poderia me enviar – ou me instruir sobre como conseguir – cópia do laudo da autopsia?
    Antecipadamente agradeço sua atenção,
    Saudações acadêmicas,
    Charles André

  6. Charles, vou enviar por email.

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