Pedro Teixeira, o guerreiro do folclore alagoano

Os pastoris organizados por Pedro Teixeira fizeram muito sucesso nas festas natalinas de Maceió

Pedro Teixeira de Vasconcelos nasceu em 12 de outubro de 1916 na casa-grande no engenho Bom Sucesso, em Chã Preta, quando este município ainda era um distrito de Viçosa. O Bom Sucesso pertencia ao seu avô.

Foi o primeiro filho do casal Aureliano Teixeira de Vasconcelos e Maria Alzina Rebelo de Vasconcelos.

Seu pai era o  proprietário da Fazenda Medina, onde o menino Pedro Teixeira teve contato com a rica cultura popular nordestina. Em seu livro Andanças pelo Folclore revelou que foi nos alpendres da casa-grande da Medina que viu pela primeira vez um reisado vindo de Quebrangulo, com todas as figuras do sexo masculino.

Lá também acompanhava o seu tio Antônio Teixeira de Vasconcelos nas cavalhadas e via com brilho nos olhos o pastoril de sua tia Beatriz Vasconcelos.

Pedro Teixeira foi professor de Francês em vários colégios de Alagoas

Começou seus estudos ainda no Bom Sucesso com as professoras Santa Souza e depois Odete Bonfim. Iniciou o primário em Chã Preta e concluiu em Viçosa em 1929, mesmo ano em que foi matriculado no curso básico do Seminário Metropolitano de Maceió.

Fugiu do Seminário de Maceió em junho de 1933, “impressionado com o meigo olhar de Olívia, menina-moça que bulira com meu coração adolescente”, lembrou.

Concluiu este depoimento recordando que este episódio terminou “com um célebre purgante de óleo de rícino com as sete sementes concentradas, que a tia Iaiá preparou, julgando que o sobrinho estivesse doente de verdade. Mamãe castigou-me com mais um ano de batina”.

De volta à Viçosa, foi trabalhar no Cartório do 1º Ofício, onde somente permaneceu até janeiro de 1935, quando foi nomeado professor da Escola Pública do povoado Cigana em Chã Preta. Por lá permaneceu até 1943.

Pedro Teixeira foi seminarista em Maceió

Neste mesmo ano participou da fundação, foi professor e diretor de disciplina do Ginásio São José, que depois veio a ser o Colégio de Assembleia, onde respondia pelas disciplinas de Francês, Latim, Português e História do Brasil.

Após lecionar em Capela e Palmeira dos Índios, regressou a Viçosa em 1948 para ocupar a cadeira de professor de Francês da Escola Normal Joaquim Diegues.

Em 1953 foi aprovado como professor catedrático em Francês e ajudou a fundar e a dirigir a Escola Técnica do Comércio daquele município.

Chegou a Maceió em 1960 para ser Inspetor de Ensino e professor de Francês em escolas públicas. No mesmo ano assumiu o cargo de Chefe do Serviço de Orientação Educacional da Secretaria Estadual de Educação e Cultura.

Ainda como professor e envolvido com a Educação estadual, ajudou a criar em Palmeira dos Índios o Colégio Cristo Redentor e o Colégio Pio XII.

Em Chã Preta, constituiu a Escola Cenecista Professora Amélia Vasconcelos, em 1977, e a Coordenação dos Folguedos de Chã Preta, depois transformada no Núcleo Folclórico Beatriz Vasconcelos.

Escreveu alguns livros, mas destacou-se mesmo como estudioso e incentivador das manifestações folclóricas em Alagoas, particularmente utilizando-se da sua função de professor para mobilizar os alunos e organizá-los em grupos de brincantes.

Em Maceió, ficou muito conhecido nos anos 60 e 70 por organizar as apresentações de pastoris na Praça do Pirulito e Praça da Faculdade durante os festejos natalinos. Dividia o palco com o radialista Luiz de Barros e cada um deles promovia o seu cordão. Pedro Teixeira sempre com o encarnado.

Sem esquecer sua formação religiosa, ajudou a organizar a comunidade católica de Chã Preta na participação da construção da Igreja Matriz, em 1971. Era ativista religioso, Catequista, Ministro da Eucaristia e Diácono.

Foi membro e presidente da Comissão Alagoana de Folclore e do Conselho Estadual de Cultura, da Sociedade de Cultura Artística.

Pedro Teixeira e amigos

Participou por diversas vezes dos jogos escolares brasileiros, os JEBs. Chefiava a turma do folclore alagoano, que se apresentava ao lado de grupos de todo o Brasil. Foi em Porto Alegre, num desses jogos, que Pedro Teixeira surpreendeu seus alunos ao entrar embaixo da cama ao ouvir poderosos trovões. Diante do espanto, disse que tinha medo mesmo e que não escondia isso.

Em um dos seus últimos textos, Folclore alagoano e a transição Reisado X Guerreiro, deixou suas impressões sobre o folclore alagoano.

“Quanto é deslumbrante a apresentação de um Guerreiro!

A beleza das vestes, de cores variadas, o esplendor dos chapéus, das coroas, dos diademas, cheios de espelhos, de contas de aljofre, de fitas, de areia brilhante, trazendo formatos exóticos, copiando o feitio de igrejas e mesquitas orientais. E a melodia dos cantos, a dinâmica da difícil coreografia, o gingado do corpo, a agilidade das figuras na parte da Guerra, do índio Peri, da Sereia, da Lira e dos “Caboclinhos da Lira”.

Estas coisas da nossa tradição cultural não podem morrer, não devem desaparecer do nosso meio-ambiente.

Precisamos incentivar os remanescentes, ajudá-los para que não desanimem, continuem em frente e conservem os nossos folguedos e nossas danças com toda sua beleza, porém com toda sua autenticidade.

Que venha o progresso, que venha o adiantamento, mas que eles não empanem a beleza do nosso folclore e não abalem as estruturas da nossa cultura popular.

Dizem os entendidos que um povo sem tradições é um povo sem história, é um povo sem vida. É verdade!

Precisamos reviver o nosso passado, não esquecer a nossa história, para que sejamos um povo que tem vida.

Ai de nós se banirmos nossas tradições e nossos costumes!

Nunca! Nunca! Nunca!”.

Teve uma única filha do casamento com Edite Rodas de Vasconcelos. Esta filha lhe deu três netos e três bisnetos.

Aposentou-se do Estado em 1979.

Faleceu no dia 12 de junho de 2000, quando ainda lecionava em Maceió, deixando um enorme legado de incentivos aos grupos de pastoris, guerreiros, maracatus, baianas, negras da costa e reisados. Foi sepultado no Cemitério Público de Chã Preta.

Pedro Teixeira dedicou sua vida à educação e ao folclore alagoano

Em sua homenagem, seu nome denomina escolas em Chã Preta e Maceió. Seu busto também está erguido nestes dois municípios.

Publicou os seguintes trabalhos:

– Sobrevivência da lúdica folclórica de Alagoas, em 1976, com José Maria Tenório da Rocha.

– Artesanato de Alagoas, também com José Maria Tenório da Rocha.

– “Advinhas”, “Pastoril”, “Adivinhações e Superstições”, com Luís Sávio de Almeida.

– Folclore, dança, música e torneio, em 1998.

– Gorjeios do Sabiá.

– Andanças pelo folclore, em 1998.

– Lendas e “causos” da minha região, em 2000.

Peças teatrais:

– Juliana, a escrava.

– Chamada da Pátria.

– Doutora em apuros.

– Os magos de Belém.

Foi também compositor dos hinos de Chã Preta, Santa Luzia do Norte e Quebrangulo.

8 Comments on Pedro Teixeira, o guerreiro do folclore alagoano

  1. André Soares // 14 de junho de 2019 em 07:54 //

    Parabéns por recordar nossa querido mestre Pedro Teixeira.
    Conheci mestre Pedro a partir do Grupo Folclórico do extinto Colégio Sagrada Família. Nasceu a simpatia, o respeito e a amizade, que me levou a convidá-lo para ser meu padrinho de Crisma.
    Sou muito grato pelo exemplo desse grande alagoano.

  2. Affonso Furtado // 14 de junho de 2019 em 19:19 //

    Pedro Teixeira. Insigne Mestre de nossa cultura popular. Conheci-o no transcurso dos Festivais de Folclore de Olimpia SP a frente de seu brilhante grupo folclórico de Chã Preta. Discorria ao microfone sobre cada cena do repertório. Nossos contatos se davam nos períodos livres do dia, quando abordava emocionado detalhes de cada manifestação apresentada. Facilitou-me sobremodo, meu antigo relacionamento com José M. Tenório
    Enfim, inesgotável fonte do saber folclórico. Guardo registros, escritos e fotos desses tempos inesquecíveis. Affonso Furtado

  3. Arnon Monteiro // 5 de julho de 2019 em 13:37 //

    Foi uns dos alunos desse mestre alagoano q muito me honrou pelas suas palavras e simplicidade grande mestre saudade

  4. Josiane da Rocha // 12 de julho de 2019 em 22:21 //

    Eu tive o prazer e a honra de ter conhecido ele, o meu muito obrigada vai a Professora Margarida Santos, que quando foi Pro-Reitora de Extensão da UFAL, me deu a missão de colher informações para a publicação de um dos seus livros “Andanças pelo Folclore”. Um homem muito culto e fiel a sua paixão pelo Folclore Alagoano.

  5. O site História de Alagoas resgata os maiores valores culturais que, não fosse este abnegado jornalista, Edberto Ticianeli, o esquecimento teria lugar privilegiado em nossas mentes, além do desconhecimento geral sobre a história do nosso povo.

  6. José Carivaldo Brandão Júnior // 22 de agosto de 2022 em 15:27 //

    Estou orgulhoso de saber a importância do prof⁰ Pedro Teixeira na cultura do meu estado de Alagoas. Quando adolescente e atleta de Judô nos anos de 74 a 77, o vi pessoalmente nas viagens aos JEB’s – Jogos Estudantis Brasileiros, onde ele comandava a delegação de folclore.

  7. Silvio faria // 28 de agosto de 2023 em 08:17 //

    Gostaria de adquirir os livros.
    Alguém poder me ajudar 22999511765

  8. Tereza Padilha // 30 de março de 2024 em 11:55 //

    “Professor Pedro”, era assim que todos nós, que fazíamos parte do seu grupo folclórico o chamava. Tínhamos muito respeito e admiração por ele. Eu tive a honra de participar desse grupo folclórico dos meus 9 até os 15 anos. Participei do Presépio, Pastoril, Reisado, Guerreiro, Baiana, Taieira, Roda e Côco. Era como um pai para todos os que estavam sob sua responsabilidade, e ai daquele que o desobedecesse!
    Fizemos muitas viagens para o interior do estado e para fora. Iniciei como Anjo Gabriel do Presépio e Borboleta do Pastoril, depois fui ser a penúltima do vermelho e terminei como Diana. Foi através dele, que consegui uma bolsa escolar para estudar no Colégio Sagrada Família, onde fiz o ginásio e o científico. Muitas lembranças boas me veio a mente. Obrigada Prof⁰ Pedro, por tudo o que me ensinou!

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*