Zequito Porto, um monarca alagoano

Lição de vida, lição de futebol

Praia do Aterro de Jaraguá em 1920, onde Zequito Porto e sua geração praticavam futebol
Zequito Porto e Márcio Canuto

Zequito Porto e Márcio Canuto. Acervo Museu do Esporte

Luiz Sávio de Almeida*

O monarca José Porto nasceu na Princesa da Mata, a nobre e valorosa cidade: Viçosa das Alagoas, reino de muita gente boa como o velho e sempre honrado mestre Théo Brandão. O monarca Zequito Porto, exatamente o monarca do “foot-ball”, nasceu nas vésperas de um Natal. Era o ano de 1910 e começava a lenda viva, de seis décadas de presença nos campos das Alagoas; seis décadas como jogador, dirigente, cronista, técnico.

A senhora sua mãe, Josefa Porto, dona de uma pequena bodega em Viçosa, abandonada pelo marido, com quatro filhos nas costas, resolve, em 1920, vir para Maceió e montar seu negócio na rua do Queimado; é ali, perto do pessoal do terno do raspa, imprensado entre a quase favela e a riqueza da Avenida da Paz, que Zequito Porto começou a ser bom de bola, terminando por, durante um bom tempo, assombrar Maceió com sua forma rápida e hábil de postar-se lá na meia esquerda de um campo. Era ali, que se faria o grande “inside”.

Foi lá pelo terno do raspa, região onde morou, também, durante muito tempo a família do escrevinhador destas notas, que Dona Josefa montou sua bodega, possivelmente, concorrente de nosso avô, Fausto Vieira de Almeida.

A freguesia era pobre, como seria pobre o mais da gente do lugar. Dona Josefa colocou na bodega o feijão, arroz e coisas do mesmo gênero, no acanhado da pequena venda de secos e molhados. Fazia concorrência ao nosso avô, vendendo para estivadores carroceiros, lancheiros, agulheiros, trapicheiros e toda a gama das pessoas do complexo econômico do fundeadouro de Jaraguá; gente que recebia o dinheiro contado, no fim de semana e vinha se abastecer.

Time do CRB campeão de 1927

Time do CRB campeão de 1927. Acervo Museu do Esporte

Na verdade, Dona Josefa instalou sua bodega num pedaço de terra, que seria um celeiro de craques em Maceió. Foi por ali que um ex-seminarista por nome Waldemar, morador da Praça Rayol, termos por onde estivemos nascendo, fundou o Uruguai Foot-Ball Club, time em que Zequito seria a estrela principal, da mesma forma em que foi a estrela do time do Diocesano e do Clube de Regatas Brasil, após uma ultrarrápida temporada nos juvenis do CSA, levado que foi pelas mãos de Hebel Quintela.

Hebel levou Zequito para o azulino, mas logo e logo ele saiu. Sempre foi Galo-de-Campina. Depois disso, a única vez em que Zequito vestiu a camisa do CSA, foi em jogo contra o América do Recife, convidado por outro grande jogador da época: Tininho.

Zequito agradece tudo à tenacidade de sua mãe, que por cima de todas as dificuldades, no fim do mês, tirava o dinheiro do pequeno lucro da bodega e pagava a mensalidade do externato, no Diocesano. Era um colégio caro, frequentado pela alta classe média e pelos filhos do pessoal da elite econômica, mantendo alunos externos e internos.

Apesar das dificuldades, Zequito estava no meio deles, vivia com eles, mas na hora do recreio, dá-se a célebre cena da criança pobre, no meio das ricas; enquanto as outras comiam, ele ficava sentado em um banco, olhando. Acontece que Zequito era o cobra do colégio e entre os alunos, faziam-se disputas entre internos e externos.

Time do CRB de 1953. Em pé: Mogi, Luiz, Miguel Rosas, Ferrari, Castanha, Tadeu e o técnico Zequito Porto. Agachados: Miro, Perereca, Deluva, Dario e Eraldo

Time do CRB de 1953. Em pé: Mogi, Luiz, Miguel Rosas, Ferrari, Castanha, Tadeu e o técnico Zequito Porto. Agachados: Miro, Perereca, Deluva, Dario e Eraldo. Acervo Museu do Esporte

Quem olha hoje, para o antigo prédio do Diocesano, não imagina a existência de dois campos de “foot-ball”. É claro que o externato sempre vencia, contando com a habilidade do menino pobre e é, justamente, daí, que vem o primeiro dinheiro pago ao Zequito, por conta da habilidade com a bola.

Recebe uma proposta para jogar pelo internato, em troca do lanche. E como seria de esperar, aceitou. Os externos disseram não e Zequito passou vexame. O craque se arrepende da atitude e tenta voltar para seu antigo grupo. Dona Josefa, inclusive, não estava de acordo. Zequito tenta voltar para os externos e estes o rejeitam. Terminam por fazer uma reunião; espécie de julgamento. Finalmente, Zequito volta.

Fosse outro, tudo ficava no seu cada qual; sendo Zequito, deu-se a volta. Naquela época, havia campeonato entre os colégios de Maceió e Zequito era vital. Não podia pagar o lanche e nos últimos dois anos, não podia pagar a própria mensalidade. O Irmão Flávio deixa que ele fique estudando por conta dos “padres”, não iria perder algumas dezenas de goal. Se o complexo do terno do raspa era um celeiro de craques, o Colégio Diocesano também. Diz Zequito, que o Hebel Quintela levou muitos jogadores do Diocesano para o CSA.

Time de futebol de salão do Jaraguá Tênis Clube em 1955. Em pé: Zequito Porto (técnico), Murilo Mendes, Tadeu e Santa Rita. Agachados: João Beltrão, Lailton e Cedrim. Acervo Museu do Esporte

Time de futebol de salão do Jaraguá Tênis Clube em 1955. Em pé: Zequito Porto (técnico), Murilo Mendes, Tadeu e Santa Rita. Agachados: João Beltrão, Lailton e Cedrim. Acervo Museu do Esporte

Dona Josefa Porto nunca havia tomado posição quanto ao futebol. Sabia que, em termos de estudo, eia somente poderia atingir o máximo que tivesse condições de pagar. Dona Josefa falava sempre, na necessidade de conseguir um emprego. Zequito já era conhecido em Maceió e um belo dia, Hebel Quintela o convidou para jogar no juvenil do CSA. Foi e passou bem pouco tempo. Recebe convite e vai para o juvenil do CRB. Nenhum outro motivo o levou, a não ser gritar por seu próprio futuro. Passa para o primeiro quadro, na época em que o grande e esquecido dirigente, dos maiores dentre os melhores das Alagoas, Teófilo Saraiva, pertencia ao comando do CRB.

A recompensa chega e Zequito consegue o seu primeiro emprego; foi ser caixa de Pontes & Cia. Ganha o seu primeiro salário; nunca havia visto tanto dinheiro e sai pelo comércio a fora, comprando roupa e sapato: ainda hoje se lembra da calça de flanela e do par de chiquito novo, tudo comprado na Loja América.

Não foi de uma hora para outra, que Zequito teve condições de calçar chuteira. O material esportivo era caro. Lá no Diocesano, os “padres” não forneciam equipamento; daí, cada qual jogava com o tipo de sapato que tivesse condições de comprar. Nosso amigo somente foi calçar chuteira, quando ingressou no juvenil do CSA. Ali, o clube dava tudo. Teófilo Saraiva ouviu falar do talento e se mandou a procurá-lo. Falou com Dona Josefa. Veio a cantada; no CRB ele arranjaria futuro. Vai ser na Pajuçara, que começa e termina a sua carreira profissional.

Time de futebol de salão do Jaraguá Tênis Clube em 1956. Zequito Porto (técnico), Gilson, Santa Rita, Francisco, Bira, Louvai Ayres e Daniel Benard (diretor). Agachados: Deda, Napoleão, Toroca, Zito Sarmento e João Moura. Acervo Museu do Esporte

Time de futebol de salão do Jaraguá Tênis Clube em 1956. Zequito Porto (técnico), Gilson, Santa Rita, Francisco, Bira, Louvai Ayres e Daniel Benard (diretor). Agachados: Deda, Napoleão, Toroca, Zito Sarmento e João Moura. Acervo Museu do Esporte

Fica no juvenil do alvirrubro, em torno de um ano; entra para o segundo time, faz algumas partidas e, finalmente, era titular do primeiro esquadrão. Naquela época, o técnico do CRB era um sargento da Marinha, por nome Fiel. Um bom técnico e que gostava de jogadores que trabalhavam com virilidade, chegando mesmo, na escalação, a privilegiar um atleta viril, em detrimento da performance técnica.

Fiel começava o treinamento, exatamente, às seis horas da manhã. No campo do Regatas tinha alojamento; era pequeno, estreito e tinha um punhado de camas. Os atletas profissionais e amadores dormiam ali, na véspera do treinamento; às cinco horas estavam de pé e às seis, começava o treino. Quem os acordava era José de Barros; comiam mungunzá, tomavam café.

Nas vésperas, ficava uma base de 16 atletas dormindo. Não havia qualquer confusão. José de Barros era um disciplinador e qualquer falta era comunicada ao diretor de Esportes Terrestres: Otacílio Maia. José de Barros era o faz-tudo: enchia bola, era roupeiro, cozinhava e, finalmente, dava o jogador completo ao técnico.

Fiel, o treinador, era um homem duro, punha disciplina e todo o mundo respeitava. O fato de ter vindo do sul, já era um cartão de visita respeitável. Correu em Maceió a notícia de que havia chegado em Maceió um sargento que entendia de “foot-ball“. O CRB convidou-o. O treino durava uma hora e era como se fosse um jogo normal. Não havia esquentamento; era apitar e começar. Tinha um médico que cuidava dos ferimentos: Dr. Jacques Azevedo. Entrou no primeiro time e ganhou um emprego. De Pontes & Cia. foi trabalhar com Patterson.

Colégio Diocesano, onde Zequito Porto revelou-se como jogador profissional. A foto é de 1950

Colégio Diocesano, onde Zequito Porto revelou-se como jogador profissional. A foto é de 1950

Zequito joga “foot-ball” no CRB até 1935. Neste ano, acontece o inesperado: menisco e ninguém sabia o que era isto. Tratava sem qualquer resultado. Aparentemente, ficava bom. Voltava ao campo e aí, vinha, novamente, a dor. Não foi pancada, apesar de que as defesas de Maceió jogavam forte, eram pesadas. Escapou de muita cipoada, mas não conseguiu fugir da má sorte. Pulou para dar uma cabeçada e voltou errado. Entronchou a perna e daí por diante, era um suplício.

O CRB custeou todas as despesas. Não ficou bom e tudo isto acontece, justamente, na época em que havia sido convocado para jogar na seleção. Nasceria o técnico, o jornalista e o dirigente. Parte para sua carreira de técnico e vai ser o treinador do Vasco da Gama, um time que era mantido por um português, dono de A Despensa Familiar. O português dedicava-se integralmente ao Vasco; pagava jogadores e arrebanhava o que havia de melhor no Vergel do Lago e Ponta Grossa.

O Vasco formava entre os melhores dos pequenos de Maceió. Teve um goleiro excelente: o Epaminondas, que chegou a jogar na seleção alagoana. Zequito treinava o time no campo do CSA, no campo do CRB e de um pequeno time que existia no Farol: o Ipiranga. Pertencia à Liga Suburbana.

Os que iam despontando no Ipiranga, Zequito levava para o Vasco. Pouco a pouco seu trabalho vai aparecendo; aliás, havia sido discípulo de um famoso treinador que aportou nas Alagoas; era um húngaro e chamava-se Franz Gaspar.

O húngaro funda escola em Maceió e universaliza no meio do sururu o esquema do WM. Quem trouxe Franz Gaspar foi Antônio Gomes de Barros, ganhando a fortuna de setecentos mil réis, além de casa para alojar-se com a família. Franz Gastar precisava de um assistente e escolhe Zequito. Nesta época, o Zequito já estava bem de vida e não precisava de “foot-ball” para ganhar dinheiro.

Admirava, profundamente, o trabalho de Franz Gaspar; entendia que se tratava de um treinador completo. Dava preparo físico, esquemas táticos e cuidava da parte técnica do jogador, treinando chute, cabeça, controle de bola. Além disso, dispunha de muita habilidade para lidar com os jogadores. Franz Gaspar achava que o jogador deveria dormir agarrado com a bola. Daí, o CRB ter sido transformado no famoso esquadrão de aço.

Aprendendo com Franz Gaspar, Zequito consolidou a sua fama. Foi treinador e campeão pelo CRB, sendo bicampeão em 50/51. De técnico foi ser juiz de “foot-ball”, posição que abominou. Depois, cronista de “foot-ball”, usando o pseudônimo de Zeprietro. Durou pouco, mas deu para ser um dos fundadores da Associação dos Cronistas Desportivos de Alagoas, publicando bons trabalhos.

Hoje, Zequito Porto guarda duas coisas; a paz do guerreiro e o respeito de toda a comunidade esportiva de Alagoas. O monarca está aí, dando uma lição de vida. Saiu para o futebol com a habilidade nos pés. Fez de tudo. A nova geração conta com um Zequito Porto? Conseguiria sair de tanta batalha com a cabeça levantada, na dignidade de sua vida desportiva? Deus guarde o velho Zequito Porto e mantenha a juventude de seu exemplo.

*Luiz Sávio de Almeida é pesquisador e professor de sociologia da Universidade Federal de Alagoas.
Texto publicado originalmente no jornal Última Palavra de 2 de setembro de 1988.

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