Zé Antônio, o padre que enfrentou a Ditadura Militar

Zé Antônio sendo homenageado por alunos e professores da Ufal
Zé Antônio participa do Seminário promovido pela Ufal em 31 de março de 2014

Zé Antônio participa do Seminário promovido pela Ufal em 31 de março de 2014

Edberto Ticianeli

No dia 9 de novembro de 2011, encontrei o Zé Antônio na sua casa para conversarmos sobre a sua trajetória como militante político. A intenção era colher informações para uma reportagem sobre a história da Ação Popular em Alagoas. Além dele, ouvi também outras lideranças políticas ligadas à AP dos anos 60, mas a reportagem não foi concluída.

Mesmo tendo uma relação política de muita proximidade com o ele, em virtude de termos atuados juntos por muito tempo no PCdoB, notei que ele não ficava à vontade quando tinha que lembrar alguns momentos difíceis da sua vida.

Publico a entrevista como homenagem a uma das pessoas mais íntegras que conheci. A minha admiração pela sua postura corajosa era maior porque sabia que ele, como um humanista, odiava os conflitos humanos, mas isso nunca impediu de enfrentar a Ditadura Militar, colocando em risco a própria vida.

Em junho de 1999, quando o presidente Fernando Henrique Cardoso indicou o delegado da Polícia Federal João Batista Campelo para diretor-geral da instituição, foi Zé Antônio quem alertou ao então ministro da Justiça Renan Calheiros que esse policial foi um dos que o torturou durante sua prisão no Maranhão em 1970. A denúncia forçou o governo a demitir o delegado 72 horas após a sua nomeação.

A sua última atividade política foi em 31 de março de 2014, quando participou da Mesa Redonda organizada pela Ufal no dia 31 de março (Vídeo AQUI). José Antônio de Magalhães Monteiro, natural de São Luis, Maranhão, era dirigente do PCdoB e faleceu no dia 19 de junho de 2014 em Maceió.

P. O que o levou e ser padre?

Decidi desde criança. Meu pai, e uma tia que me criou, me botaram na cabeça que poderia ser padre. Tudo porque eu tive um tio que foi padre, e que morreu tuberculoso quando eu tinha seis anos, um pouco depois de eu ter perdido a minha mãe. Meu pai achava que eu poderia ser o substituto do irmão dele. Assim, com 12 anos eu fui estudar no seminário.

Zé Antônio ainda no seminário

Zé Antônio ainda no seminário

Fui também porque meu pai era muito pobre e no seminário eu ia estudar de graça. Depois de seis anos de seminário, quando terminei a parte dos estudos que se chama seminário menor, que correspondia ao ginásio e científico da época, fui cursar Filosofia, ainda no Maranhão.

P. Como se deu a sua vinculação à Ação Católica?

Foi no curso de Filosofia que tive contato com um padre que era o assistente estadual para a JOC (Juventude Operária Católica) do Maranhão, que atuava praticamente com comerciários, pequenos comerciantes e empregadas domésticas, já que no Maranhão, naquela época, não havia um operariado. O objetivo era trazer para a Igreja Católica os trabalhadores.

Terminei o curso de filosofia em 1962 e fui para Fortaleza estudar teologia. Lá continuei vinculado à JOC, até que 1964, o Seminário de Fortaleza fechou e fui terminar o curso em Recife, onde mantive meus vínculos com a JOC, mas ainda no objetivo de trazer jovens para a Igreja. Em Recife também me aproximei da JUC (Juventude Universitária Católica) através de um grande amigo meu, o Rui Frazão.

Foi com ele que comecei a questionar o porquê de somente levar jovens para a Igreja se também podíamos fazer um trabalho de conscientização por melhores condições de vida, como a JUC vinha fazendo. Aí eu adquiri a consciência de que o caminho era esse: fazer caridade e assistência, mas também conscientizar. Foi também através da JUC e do MEB (Movimento de Educação de Base) que eu me aproximei do método Paulo Freire de educação. Eu cheguei a ser monitor do MEB em Recife.

Zé Antôniocomo padre em Urbano Santos no Maranhão

Zé Antôniocomo padre em Urbano Santos no Maranhão

Na JOC éramos movidos pela reflexão de que toda ação é política, não a política partidária, mas a política como ação da cidadania à luz da fé cristã. Nos anos 70 éramos guiados pelo lema de que a fome de Deus é necessária, afinal somos evangelizadores, mas compreendemos que a fome de pão é mais urgente. Essa visão de parte da Igreja apareceu quase que como uma reação ao golpe militar. Era uma motivação para a gente se empenhar na luta pela libertação da opressão ditatorial.

P. Como foi sua passagem da Ação Católica, uma organização de base da igreja, para a Ação Popular, uma organização política de esquerda?

Começou com Rui Frazão em 1964, mas não era uma relação como era com a JUC. Eu nem entendia muito o que era a AP. Foi o Rui Frazão, já depois que eu tinha sido ordenado sacerdote, que foi me conscientizando dessa necessidade de não só exercer o cristianismo, mas ser cidadão cristão com uma prática política.

P. A Ação Católica aceitava bem essa aproximação com a Ação Popular?

Não era toda a Ação Católica que tinha essa compreensão, era somente uma ala, uma ala de esquerda, que entendia a ação católica como também política. Essa visão da Ação Católica também tinha muita coisa de, digamos assim, aperfeiçoamento da prática da educação de Paulo Freire. O exemplo eram os monitores do MEB no interior, que tinham muito clara essa compreensão, de que ser cristão é ser bom político.

Zé Antônio teve a coragem de enfrentar seu torturador, denunciando publicamente

Zé Antônio teve a coragem de enfrentar seu torturador, denunciando publicamente

Tudo que nós fazemos é política. Nós nos relacionamos com a natureza, o homem também é natureza, e esse relacionamento homem a homem é uma relação política. Isso levava a compreensão de conduzir, através da prática católica-cristã-cidadã, à libertação e o bem-estar material do homem.

P. Depois da ordenação, como se deu a sua militância política?

Voltei para o Maranhão em 1965, designado para uma paróquia muito pobre, no município de Urbano Santos. Eu sabia que a situação do camponês no Maranhão era ruim, mas não sabia que ela era tão trágica, tão opressora, como a que eu vi lá. A minha opção foi tentar aplicar na minha evangelização a prática do método Paulo Freire, de conscientização. Atuávamos juntos aos sindicatos rurais, considerando que eles mesmo estando amordaçados, sob intervenção e com os presidentes indicados pelo presidente da República, mas era a única organização onde o camponês valia a pena participar.

P. Com quem você se articulava politicamente em Urbano Santos?

Eu tinha amigos na AP. Minha articulação era com o pessoal de AP que tinha ligação com a guerrilha do Araguaia. Na época eu não tinha conhecimento disso, mas depois eu soube que eles me consideravam uma referência, que justificava a ação guerrilheira deles. Tanto que, em 1968, Manoel da Conceição, quando foi baleado e internado em um hospital de lá, me pediu para que escrevesse uma carta respondendo ao governador José Sarney, que havia oferecido uma perna mecânica para ele. Na carta ele não aceitava a doação e dizia que a perna dele eram os companheiros que ficaram no Pindaré (município do Maranhão). A redação da carta foi minha e chegou até ele escondida. Ele reescreveu com o próprio punho e enviou para as comunidades.

Essa minha ação em Urbano Santos, fazendo um trabalho além da evangelização, principalmente nos sindicatos, foi notada. Os sindicalistas me procuravam para pedir apoio e eu ajudava, mesmo achando que na sua grande maioria eles eram alienados. Eu chegava a participar, mesmo discretamente, de algumas reuniões deles. Em 1970, o delegado de Urbano Santos escreveu um bilhete para a Polícia Federal dizendo que eu era subversivo, que pregava a libertação dos povos. Fui preso por causa dessa denúncia.

Quando eu estava preso, no final de uma das sessões de tortura, o célebre João Batista Campelo, leu o bilhete que me denunciava. Eu só reconheci que tinha sido escrito pelo delegado da minha cidade porque tinha uma frase que ele sempre usava: eu sou brasileiro e amo a minha pátria.

P. Após a prisão e a tortura, seu trabalho político ficou mais difícil em Urbano Santos?

Depois da prisão eu não tive coragem de ficar no Maranhão. Tinha alguns amigos na Polícia Federal que me disseram que eles me pegariam ainda. O resultado é que eu fui exilado para o Canadá, onde fiquei de 1970 até 1974, e fiz o curso de Sociologia. Em 1974, morrendo de saudades, voltei para o Maranhão, mas não pude ficar lá. Fui para Recife ainda em 1974 e lá eu rompi com a Igreja. Foi uma decisão difícil, mas era uma questão pessoal: a Igreja não me atraia mais.

Fui trabalhar numa ONG chamada FASE (Federação de Órgãos para a Assistência Social e Educacional). Era uma organização nacional que também atuava com os camponeses. Em 1977, um amigo alagoano, o arquiteto Oscar Miranda, me informou que o Pólo Nordeste, em Alagoas, estava precisando de um sociólogo. Foi assim que eu vim para a Secretaria de Agricultura. Eu fui trabalhar na área da educação e saúde no meio rural.

P. Foi difícil recomeçar a luta política em Alagoas?

Em Alagoas eu tive contato com os “Antigos da JOC”, como a Alba Correia e a Lígia Frota. Eu já vim recomendado pelo pessoal da JOC de Recife. Em Maceió, até hoje, continuamos a nos encontrar. A novidade é que surgiu uma nova JOC, com outro pessoal e com compreensão diferente da JOC da minha época. Mesmo assim, ajudo eles como assessor. É uma JOC que não tem relação com a Igreja.

P. Você tinha uma militância política que defendia a Teologia da Libertação. Como reagia a igreja em Alagoas a essas ideias?

Quando eu cheguei em Maceió, o arcebispo era dom Miguel Fenelon Câmera, que foi meu professor no Seminário de Fortaleza. Ele era de uma linha que não deixou proliferar a Teologia da Libertação em Alagoas. Era mais um trabalho com as pastorais da juventude, da terra, era outro tipo de trabalho, diferente da JUC e da JOC. Me parece que foi na Pastoral da Terra que houve alguma aproximação com a Teologia da Libertação.

P. Existia em Alagoas alguma liderança da igreja que defendia a Teologia da Libertação?

Não me lembro de nenhuma. Lembro bem do bispo que lhe sucedeu, dom Adelmo Machado, que era mais atrasado que o antecessor. Ele voltou a acionar as pastorais, mais num sentido claramente só de evangelização. Tive contato também com dom José Lamartine Soares, que também foi meu professor no Seminário. Era meu amigo, mas muito cioso com a Ação Católica. Uma vez, eu levei uns jovens lá no Seminário, onde ele morava. Falei para ele e para alguns seminaristas sobre o movimento da Ação Católica, a JOC e o método Paulo Freire. Ele ofereceu alguns seminaristas para trabalhar com a gente, mas nenhum se interessou. Uma vez, no Bom Parto, onde a JOC era forte, fizemos uma atividade de conscientização sobre a gravidez na adolescência, e o único que apareceu rezou o terço e foi embora. Nunca mais apareceu.

P. Qual a sua avaliação da ação política da Igreja hoje?

Acho que a Igreja no Brasil tem uma preocupação mais avançada do que nos anos 70. Houve certo avanço, mas o conservadorismo prevalece. O pessoal que tem uma visão dos problemas sociais é mínimo. Eu conheço dois padres aqui Alagoas que têm uma visão maior, mas me parece que eles não são bem vistos. Padre Manoel Henrique e outro padre, que não me recordo o nome e que foi assistente de JOC aqui.

O que eu vejo em quase toda parte é uma certa preocupação com a evangelização. Mas há exceções: lá na Paraíba tem alguma coisa um pouco mais à frente.

1 Comentário on Zé Antônio, o padre que enfrentou a Ditadura Militar

  1. Messias de Souza // 29 de setembro de 2015 em 12:41 //

    O episódio da denúncia de tortura sofrida por José Antonio Magalhães Monteiro, feita quando da nomeação do Delegado João Batista Campelo para a Diretoria-Geral da Polícia Federal, em 1999, teve como desfecho político a saída do Senador Renan Calheiros do Ministério da Justiça. Contra Zé Antonio e o Correio Braziliense, entretanto, foi movido um processo judicial de indenização por danos morais que tramitou na Justiça do Distrito Federal, tendo como autor o Delegado Campelo e como patrono o Ex-Ministro do TSE Eduardo Alckmin, titular de um dos grandes escritórios de advocacia de Brasília.
    Em Brasília fui procurado por Zé Antonio – velho companheiro das lutas políticas em Alagoas – e patrocinei sua causa. Conseguimos uma vitória importante: a Justiça do Distrito Federal e Territórios reconheceu que os fatos alegados faziam parte da História do Brasil e que a sua divulgação pela vítima e pela imprensa não podiam constituir dano moral. Zé Antonio foi absolvido e o Delegado Campelo condenado ao pagamento de honorários de sucumbência. Messias de Souza (OAB/AL 1419).

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*