Wanderley de Mendonça e o Empréstimo Francês

Teatro Deodoro logo após sua inauguração. Sua construção foi concluída com recursos do Empréstimo Francês

Chalet Wanderley, em frente a Estação Ferroviária, que depois foi vendido para ser o Palácio Episcopal

O engenheiro José de Barros Wanderley de Mendonça foi o político da família Mendonça a ter mais destaque na virada do século XIX para o XX. Era filho do senador Jacinto Paes Mendonça e de Francisca de Barros Wanderley. Nasceu em Porto Calvo, Alagoas, no dia 27 de agosto de 1868.

Após cursar o preparatório em Recife, concluído em dezembro de 1981, foi aprovado para cursar engenharia na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, em 1882, com 14 anos de idade, mas como não tinha ainda a idade mínima exigida, foi impedido de realizar a matrícula.

Mas por pouco tempo. Seu pai, então senador do Império, fez aprovar o Decreto nº 3.107, de 19 de agosto de 1882, cuja ementa era a seguinte: DISPENSA A IDADE EXIGIDA POR LEI AO ESTUDANTE JOSÉ DE BARROS WANDERLEY MENDONÇA AFIM DE QUE POSSA SER ADMITIDO À MATRÍCULA NA ESCOLA POLITÉCNICA.

Trabalhou como engenheiro na Estrada de Ferro de Caruaru (PE), Estrada de Ferro da Bahia (BA), Estrada de Ferro de Ribeirão (PE) e na Estrada de Ferro de Maceió a Leopoldina.

Era sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, onde tomou posse no dia 26 de agosto de 1898.

Foi deputado estadual na legislatura 1895-96. Assumiu a Intendência de Maceió de 1901 a 1903. De maio de 1903 a dezembro de 1905 esteve na Câmara dos Deputados.

Era o proprietário do prédio que veio a ser o Palácio Episcopal, em frente à Estação Ferroviária de Maceió. Quando noticiou a inauguração da linha de bonde para a Levada, o jornal O Orbe de 26 de julho de 1899 se referiu ao prédio como o Chalet Wanderley.

Em dezembro deste mesmo ano, o endereço Rua Barão de Anadia, nº 14 também era divulgado como sendo o do escritório e tipografia do jornal A Ordem. Lá, Wanderley de Mendonça instalou a Companhia Promotora de Industrias e Melhoramentos, onde também funcionava o seu escritório de engenharia e a administração de várias de suas empresas.

Utilizando das influências políticas da família, sempre conseguiu acesso a empréstimos públicos e outras vantagens para os seus empreendimentos.

Assim, recebeu do governo federal, pelo decreto nº 616, de 31 de julho de 1890, autorização para contrair empréstimo de 1.500:000$000 com garantias de juros de 6% ao ano. Em sociedade com Luiz Felippe Alves da Nobrega, pretendiam estabelecer em Porto Calvo e Maragogi dois engenhos centrais. Em novembro, a autorização foi transferida para a Companhia Fabricação e Comércio de Açúcar.

Em maio de 1894, executou na Justiça a Companhia Industrial São Bento, em Satuba, e recebeu além da fábrica de tijolos e olarias, todas as benfeitorias e os terrenos da empresa. A ação tinha o valor de sessenta e quatro contos de réis. Tomou posse do imóvel a partir de setembro de 1899, quando fez um acordo para pagar 20% do valor arrecadado na execução para os sócios da Companhia São Bento no prazo de 30 dias.

Estação Agronômica de Alagoas em 1908, onde funcionou por pouco tempo a Destilaria Wanderley

Criou então, ainda em Satuba, a Destilaria Wanderley e para se beneficiar de empréstimo público conseguiu que fosse classificada indevidamente como usina. Foi inaugurada em 31 de março de 1895. Sem conseguir pagar os compromissos com o governo do Estado, o empreendimento fechou as portas em poucos meses e teve suas terras desapropriadas.

O governador Joaquim Paulo Vieira Malta fez a doação da destilaria à Sociedade Agronômica de Alagoas. O Decreto n° 346, de 7 de outubro de 1905 estabelecia que as terras seriam destinadas para a construção de uma estação agronômica e um posto zootécnico, que funcionariam como Escola Prática de Agricultura em regime interno e semi-interno. Hoje é o IFAL – Campus Satuba.

O Empréstimo Francês

Entretanto, o seu nome entrou para a história de Alagoas após o escandaloso empréstimo de 500 mil libras esterlinas ou 12.500.000 francos tomado pelo governo alagoano ao Crédit Départémental em Paris no dia 1º de agosto de 1906, ao juro de 5% ao ano. O contrato havia sido autorizado pela Lei nº 465, de 27 de outubro de 1905, durante o governo de Paulo Malta.

Após a contratação do empréstimo, celebrada pelo representante do governo alagoano Conde Gosling, a instituição creditícia francesa ficou de repassar os recursos das primeiras 200.000 libras em parcelas de 40 mil libras.

Entretanto, o Crédit Départémental decretou falência e não repassou a quarta parcela, mas o governo alagoano teve que pagar a dívida para depois cobrar o repasse na Justiça. Para tomar as medidas cabíveis, o vice-governador José Miguel de Vasconcelos, substituindo Euclides Malta em 1909, enviou o Secretário da Fazenda Wanderley de Mendonça à Europa com o objetivo de resolver o problema.

Euclides Malta, a quem Wanderley de Mendonça era vinculado politicamente

Em maio de 1911, o governador Euclides Malta relata que o secretário Barros Wanderley, em 1907, orientava que a única forma do estado escapar dos prejuízos era contratar o empréstimo das outras 300 mil libras. “Efetivamente, só pela fé que então me inspirou a palavra do Sr. Dr. José Wanderley de Mendonça assenti em que fossem tomadas as últimas lbs. 300.00”, explicou Euclides Malta e acrescentou que ainda não tinha recebido o relatório sobre as negociações das 40 mil libras, mas informou que Wanderley Mendonça já tinha enviado 1.000:000$000 e mais 72.000 libras, além de ter indenizado a Hottinguer & Cia de Paris em 20.000 libras.

Foi com recursos deste empréstimo que o governador Euclides Malta concluiu algumas obras em Maceió, entre elas a do Teatro Deodoro.

Com a queda de Euclides Malta em 1912 e ascensão do governador Macário Lessa e depois Clodoaldo da Fonseca, é aberta uma investigação sobre este empréstimo. O relatório de Clodoaldo da Fonseca em abril de 1913 revela que até março de 1912, Wanderley de Mendonça não tinha apresentado relatório algum e que no dia 30 daquele mês o governador Macário Lessa cassou a procuração que lhe dava poderes de negociar os empréstimos na Europa, além de chamá-lo de volta a Maceió por ação judicial.

Como o intimado não atendeu as cobranças do Estado de Alagoas, Clodoaldo da Fonseca acionou o dr. Amarílio Olinda de Vasconcelos, um alagoano residente em Londres, para conhecer as operações dos empréstimos. Em setembro, o dr. Amarílio já orientava para a contratação de um advogado de sua confiança e se estabelecer um acordo com o governo brasileiro para a utilizar as Legações ou pelo menos os banqueiros do Brasil em Londres para colher informações.

Em março de 1913, o ministro do Exterior informou ao governador que o ministro das Finanças da França denunciou que os juros dos empréstimos estavam sendo pagos irregularmente e que Wanderley de Mendonça se recusava a pagar alguns cupons por duplicata de títulos.

Clodoaldo da Fonseca explicou ao ministro que o Estado de Alagoas tinha pago regularmente todas as prestações, juros e amortizações e que nenhuma responsabilidade tinha pelas novas transações feitas por Wanderley, destituído desde de 30 de março de 1912.

Com a posse de João Batista Acioly, o tom das referências ao episódio muda e no relatório apresentado à Assembleia no dia 15 de abril de 1916, o governador se refere a autorização de Euclides Malta a Wanderley de Mendonça como o início da “série de abusos e crimes que havia de realizar a ‘debacle’ completa do crédito do Estado”.

“Sem documentos oficiais, sem uma escrituração perfeita e minuciosa, sem dados, sequer, que pudessem orientar o Governo nas pesquisas de suas próprias responsabilidades, como conhecer-se do mecanismo do Empréstimo Esterno?”, questionava João Batista Acioly.

Esclareceu ainda o governante que depois de demorada coleta de informação conseguiu saber dos destinos de 280.000 libras e regularizou o seu serviço de juros e amortização. Sobre as 220.000 libras restantes, nada sabia sobre a situação devido a falência do Credit Departamental, cujo diretor faleceu, “e a intervenção infeliz e desastrosa do sr. Wanderley de Mendonça, retraíram-se misteriosamente, sem deixar no Tesouro do Estado, nem em parte alguma, a mais ligeira notícia de sua onerosa existência”.

Revela ainda o relatório que Wanderley de Mendonça continuou a negociar títulos clandestinamente após ter sua procuração cassada, “quando, em virtude do processo instaurado perante a justiça francesa, foi ele obrigado a fugir de Paris”.

O governo de Clodoaldo da Fonseca entregou a investigação ao general José Alipio Macêdo da Fontoura Costallat na praça de Paris. Em seguida, Alfredo Duclos assume a pesquisa sobre “O procedimento do sr. W. de Mendonça de Mendonça na Europa”, como denominou seu relatório ao governo alagoano.

Em resumo, o inquérito apresentou o seguinte:

Que Wanderley de Mendonça podia ter sido um homem honesto antes de assumir a missão; que se achou numa situação difícil, mal assessorado pelo Conde Gosling; que após a segunda procuração, viu as facilidades que obteria se fizesse operações por conta própria; que estava sempre rodeado de agentes financeiros sem escrúpulos e que tratou de aproveitar-se da situação, já que não prestava contas do que fazia; que iniciou operações com a Bolsa utilizando o dinheiro do Estado, onde teve um “krach” de 800.000 francos, que o levou à falência.

Terminou por se envolver no jogo dos cassinos, perdendo somas consideráveis, sempre comprando ações de diversas sociedades criadas na praça de Paris, pagando com títulos de Alagoas, conseguindo ganhar alguma coisa para pagar os cupons, dissimulando uma situação que se agravava constantemente.

O relatório indica ainda que “inebriado por essa nova e suntuosa vida, o sr. W. de Mendonça não tinha mais limites ‘aux jeux de l’amour et du hasard’, sendo todas as despesas satisfeitas com o dinheiro do Estado de Alagoas!”.

“Finalmente, toda a sua preocupação era fazer operações para as suas necessidades pessoais e retardar o mais possível a sua ruína”, passando inclusive a fabricar títulos em séries duplicadas e “outras combinações fraudulosas até o dia da sua fuga”.

De fato, em junho ou julho de 1914, Wanderley de Mendonça fugiu de Paris e refugiou-se em Genebra, na Suíça, onde foi descoberto e preso no início de junho de 1917 e extraditado para Paris no início de outubro do mesmo ano, após ter sua transferência consentida pelo governo suíço.

O relatório do governador José Fernandes Lima, em abril de 1924, revela que enviou, em agosto de 1918, correspondência a Wanderley de Mendonça, então detido há 18 meses na prisão la Santé em Paris, pedindo explicações sobre o empréstimo.

Wanderley de Mendonça responde em 10 de setembro dizendo que somente escrevia confiando na afirmativa do governador que “só fará uso da presente para si”. Em resumo a carta pede a retirada da acusação apresentada por Clodoaldo da Fonseca, que o mantinha preso e impossibilitado de reunir provas da sua inocência.

O governador se negou fazer este pedido e reafirmou a sua convicção que esse problema não afetava somente a situação financeira de Alagoas, mas prejudicava a imagem do Brasil, o que exigia uma ação do governo federal.

Mas a novela não acabou aí. Anos depois, em 1927, o governador Costa Rego assinou um acordo questionável com um cidadão desconhecido de nome Hennequin, representante de um grupo financeiro francês, assumindo em nome do governo parte da dívida e também os títulos emitidos individualmente por Wanderley de Mendonça.

Para honrar estes pagamentos, Costa Rego fez aprovar a Lei nº 1.109, de 17 de julho de 1927, voltada especificamente para arrecadar fundos para a liquidação da dívida. A Lei foi regulada pelo decreto nº 1.225, de 7 de janeiro de 1928, que estabeleceu uma taxa adicional de 10% sobre os impostos de exportação, transmissão intervivos e causa mortis, selo de verba sobre guias de despacho, indústria e profissão, e renda e consumo.

Com estes recursos, o governo enviou para a Embaixada Brasileira em Paris até 1930 a quantia de Frs. 3.960.000,00, que foram administrados por Alfredo Duclos e, depois, por sua esposa M. C. Duclos.

Com a revolução de 1930, parte deste dinheiro — Frs. 1.798.475,00 — foi devolvido.

Entre 1936 e 1940, durante a gestão do interventor Osman Loureiro, entretanto, o governo voltou a pagar estes títulos “falsos”, como acusou Silvestre Péricles, lembrando que esta decisão contrariava a orientação da Contadoria Geral.

Silvestre Péricles denunciou a “grossa negociata”. Na foto entre Arnoldo Jambo e Deraldo Campos

Silvestre Péricles também fez duras críticas a Euclides Malta e classificou o empréstimo na sua origem em 1906 como realizado com “manobras caracterizadamente criminosas”.

Sobre Costa Rego e as medidas adotadas em 1927, Silvestre considerou que o governador agiu “impatrioticamente e com fins ladravazes”. Tratava-o como “pervertido” e “mestre da corrupção”.

Ao se referir ao seu Secretário da Fazenda, bacharel José Quintela Cavalcanti, afirmou que ele era “useiro e vezeiro em fraudes e escamoteações. O acordo de 1927 foi para Silvestre uma “grossa negociata”.

Morte na cadeia em Paris

Notícia publicada no Jornal de Recife de 25 de março de 1926 informava que o governador Costa Rego havia recebido no dia anterior telegrama de Paris comunicando que os tribunais franceses haviam condenado Wanderley de Mendonça a três anos de prisão.

Prisão de “la Santé” em Paris

No início de fevereiro de 1928, o governo alagoano recebeu comunicação oficial do governo francês informando que a Corte de Apelação daquele país aumentou a pena de três anos para cinco anos.

Uma nota do serviço telegráfico da Western Telegraph Company Limited enviada de Paris por cabo submarino no dia 24 de outubro de 1928, assim noticiava o seu fim: “Faleceu aqui, em extrema miséria, o sr. Wanderley de Mendonça, autor do desfalque do empréstimo que o Estado de Alagoas contraíra nesta praça”.

Nos jornais, a única nota de pesar foi assinada por sua irmã Annita Mendonça Dias, que mandou celebrar, um mês depois, missa na Igreja de São Francisco de Paula, Rio de Janeiro, e rogou “a todos os parentes e amigos, como também algum amigo do morto, que ainda conserve uma saudade da pobre vítima, o caridoso obséquio de assistir à missa que por sua alma manda celebrar”.

A Praça Dois Leões em Jaraguá ostentou por muitos anos a denominação de Praça Wanderley de Mendonça. A homenagem partiu do Intendente Dr. Manoel Sampaio Marques em 1905, após restaurar o então Jardim de Jaraguá.

Por força do decreto nº 33 de 29 de setembro de 1936, a praça passa a se denominar General Lavenère Wanderley, em homenagem ao militar alagoano morto na Paraíba durante a Revolução de 1930.

Atualmente é a Praça Dois Leões, definida como tal por legislação municipal de autoria do vereador Enio Lins.

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