Você viu acontecer?

Rua do Comércio no início dos anos da década de 1960
Cláudio Alencar foi tetemunha e ator de vários episódios da história do rádio alagoano

Cláudio Alencar foi testemunha e protagonista em vários episódios da história do rádio alagoano

Cláudio Alencar*

Com essa chamada – Você Viu Acontecer? – a Rádio Gazeta de Alagoas incentivava os seus ouvintes a telefonarem informando o fato que viram acontecer e concorrendo a prêmios na seleção mensal da melhor notícia. Com essa promoção o ouvinte se sentia estimulado a colaborar com a emissora e a ter o seu nome divulgado, satisfazendo a sua vaidade e premiando a sua contribuição.

A receptividade foi boa. Havia trote, sim, mas na medida em que o público ouvinte entendeu a seriedade do trabalho, era inexpressivo o número daqueles ouvintes que procuravam perturbar esse trabalho. Os telefonemas eram confirmados. E, em razão dessa programação radiojornalística, muitos foram os “furos” de reportagem através dessa participação do ouvinte.

Um deles, por exemplo, ocorreu em 1965, exatamente na noite do dia dois de abril. Estava nos estúdios da Rádio Gazeta, para a apresentação de um programa que mantive no ar durante anos, o “Chão de Estrelas“. Recebo, então, um telefonema de ouvinte, cujo nome não mais recordo, avisando que acabara de ser assassinado o Secretário de Segurança de Alagoas, dr. Luiz Augusto de Castro Silva, “Tininho“. O ouvinte telefonara do Bar do Rex e a cena do delito tinha sido a residência daquela autoridade, ali perto, no gramado da Pajuçara. Confirmei a notícia, joguei no ar a “extraordinária”, realmente um grande “furo” e o ouvinte recebeu o prêmio mensal pela sua informação.

Prédio da Gazeta de Alagoas na Rua do Comércio

Prédio da Gazeta de Alagoas na Rua do Comércio

Foi uma época muito boa em termo de radiojornalismo essa em que a Rádio Gazeta de Alagoas, sem demérito, claro, para as demais emissoras de Maceió, adquiriu a confiança do público em seus noticiários, notadamente na chamada “extraordinária”. No momento em que o prefixo musical que precedia a notícia era irradiado, as pessoas paravam para escutar o relato do fato, sabendo que algo de muito importante acabara de acontecer.

Tive a satisfação de contribuir para o sucesso desse trabalho de afirmação do Departamento de Notícias daquela emissora, mercê do entusiasmo e do apoio do seu Diretor Geral, José Barbosa de Oliveira, que vibrava com as notícias “quentes”. Jurandir Tobias teve uma eficiente atuação, tão eficiente quanto discreta. A ele competia a tarefa principal de compilar as matérias dos repórteres e redatores dando-lhes a forma final. Destaque para Ailton Vilanova o qual, dirigindo por muito tempo citado Departamento, dava, ao microfone, como excelente locutor noticiarista que sempre foi, a ênfase adequada à informação.

Para se chegar, entretanto, a esse estágio, o melhor em radiojornalismo no Estado, houve necessidade de muita disciplina, de muita competência, de muita empolgação e, claro, de apoio material e técnico. A propósito, os sistemas de escuta da Rádio Gazeta não sofriam interrupção. Encerrado o expediente da redação, lá pelas 23 horas, o vigia da noite e madrugada era orientado e gratificado para ligar o gravador, de hora em hora, com o “O Globo no Ar”, transmitido pela Rádio Globo, do Rio de Janeiro. No começo do dia, quando a equipe de redatores chegava, era só voltar a fita e selecionar as notícias de maior importância, incluindo-as nos próximos noticiários.

Ailton Villanova, noticiarista da Rádio Gazeta de Alagoas

Ailton Villanova, noticiarista da Rádio Gazeta de Alagoas

Recordo, quando na tragédia de Dallas, em que o Presidente Kennedy foi assassinado, no dia 22 de novembro de 1963, que as emissoras de rádio do sul do país estavam fora do ar em virtude de greve dos radialistas, justamente de onde “corujávamos” as notícias.

Naquela tarde os companheiros do radiojornalismo estavam sintonizados com a Emissora Nacional de Lisboa e foi de lá que captaram a notícia que abalou o mundo: acabara de ser morto, com o crânio esfacelado, o Presidente dos Estados Unidos, John Fitzgerald Kennedy, no Texas. Não esperei pelos detalhes. Subi, correndo ao andar seguinte, onde ficavam os estúdios da Rádio Gazeta e, embora profundamente emocionado, soltei no ar a informação, com a característica musical da “extraordinária”.

Foi um reboliço. Os telefonemas não paravam de chegar à emissora. Imagine-se a nossa angústia, acompanhando apenas pela rádio da capital portuguesa os detalhes do que ocorrera naquele dia fatídico para a história daquele país e, sem exagero, para a própria história da humanidade, pois a morte de um estadista do porte de Kennedy abalou as estruturas políticas do mundo contemporâneo. Ainda assim cumprimos, e bem, o nosso dever.

No desempenho das nossas tarefas no radiojornalismo não fazíamos milagres para manter o setor atuante e sempre presente em cima da notícia. Equipe competente, dedicada, sabendo bem utilizar os recursos materiais disponíveis, os resultados eram os melhores. Verdade que, às vezes, a sorte ajudava.

O assassinato do deputado Moacir Peixoto foi testemunhado por Cláudio Alencar em 1961

O assassinato do deputado Moacir Peixoto foi testemunhado por Cláudio Alencar em 1961

Uma tarde [7 de dezembro de 1961], voltando aos estúdios da Rádio Gazeta, então situados na Rua do Comércio, vindo da Praça da Catedral (o trânsito era no sentido inverso do de hoje) na Camionete Rural de Frequência Modulada, exatamente no momento em que passávamos em frente à Farmácia Minerva, na Rua 2 de dezembro, presenciamos, o motorista, eu e o técnico Eutêmio Baracho – o assassinato do deputado estadual Moacir Peixoto.

Jamais poderei esquecer aquela cena trágica. O parlamentar, corpulento, cai ao chão com o impacto dos tiros, enquanto dois indivíduos, de armas em punho, correm em direção ao Bilhar do Comércio, que ficava onde hoje estão situadas as Lojas Brasileiras. O tumulto foi grande naquela tarde movimentada da Rua do Comércio. Refazendo-me da surpresa, identifico o deputado estendido na calçada, ensanguentado, e, de imediato, transmito a notícia pelo microfone da motorola, outro grande “furo”.

Baracho tem uma atitude surpreendente: corre em direção aos fugitivos e se atraca com um deles, tomando-lhe a arma e dando tempo a que a polícia o detenha. Coube-me, assim, por uma circunstância, presenciar um crime que teria grande repercussão, informando em cima da notícia.

No cotidiano, os nossos repórteres eram orientados a estarem sempre vigilantes e a perseguirem as notícias ou a criarem notícias, jamais serem notícias. Neste relato, destacando algumas ocorrências de extrema violência, ressalvo que, para o público ouvinte, os acontecimentos dessa natureza, despertam maior atenção, notadamente quando envolvem pessoas de destaque.

Há, ainda, a diferença das notícias “quentes” e “frias”. Se um cachorro morde uma pessoa essa notícia já não desperta interesse, pois é um fato comum; entretanto se uma pessoa morde um cachorro… bem aí, a coisa muda de figura.

Em verdade, não existe, como não existia, melhor estimulo para o profissional da informação do que a sensação do trabalho bem feito e a recompensa do público auferida nas pesquisas de audiência.

*Publicado no livro Contando Histórias, de Cláudio Alencar, Maceió, 1991.

1 Comentário on Você viu acontecer?

  1. Show de matéria. Continue postando, pois é preciso, que se conheça o trabalho feito com garra e coração. Coloque também fotos da equipe. Parabéns!

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