Vida social alagoana na década de vinte

Da fundação do Cenáculo Alagoano de Letras à Revolução de Trinta

Casa Gerbase na Rua do Comércio
Rua do Comércio na década de 20

Rua do Comércio na década de 20

A. S. de Mendonça Júnior 

(Depoimento lido na sessão conjunta da Academia, Instituto e Reitoria da Universidade Federal de Alagoas, em 02 de setembro de 1978).

Em 1927 se comemorava o primeiro centenário da criação dos cursos jurídicos de Olinda e São Paulo, vigente a Constituição de 1891; emendada durante o governo de Artur da Silva Bernardes, sem prejuízo de suas franquias e prerrogativas liberais.

Pleno estado de direito com os três poderes funcionando normalmente, e, tanto quanto possível, harmônicos e independentes entre si, embora o executivo costumasse, às vezes, extrapolar de sua competência privativa e invadir a esfera alheia, na intenção de impor-se como um verdadeiro Leviatã.

Ainda éramos os Estados Unidos do Brasil. Unidos sem embargos de velhas questões de limites ou de pruridos regionalistas. A união era perfeita desde que São Paulo e Minas Gerais se revezassem na Presidência da República, no famoso rotativismo da política do café com leite.

A sensibilidade federativa, herança das capitanias que a centralização da Monarquia não conseguira diluir, se revelava palpitante e viva sempre que o governo acionava o artigo sexto da Constituição para intervir nos Estados.

Depois de um verdadeiro ciclo de intentonas e pronunciamentos, Washington Luis Pereira de Souza administrava sem tropeços, eleito sem competidor. A opinião pública, saturada das violências do governo anterior, esperou inutilmente fosse decretada anistia para os crimes políticos com o fim de pacificar a nação e reconduzir à pátria os exilados.

Governar é abrir estradas, proclamava Washington Luis. A frase foi entendida em seu sentido literal quando talvez tivesse uma conotação muito mais ampla. Mas, seja como for, ele iniciou a abertura de rodovias com a implantação da que liga o Rio a Petrópolis e a que se estende de São Paulo ao Rio.

Sem estradas, a coluna Prestes cortava o território nacional, conduzindo a bandeira de ideais um tanto quixotescos.

Eleições diretas. Voto descoberto. Eleitores conduzidos pelos régulos municipais. Erros de soma nas apurações. Reconhecimentos ditados pelo governo. Compensando, no entanto, os vícios formais dos pleitos, a representação era de elevado nível. Com atas falsas ou não, o Congresso Nacional, tanto na Monarquia como na República, congregou sempre a elite nacional.

Rua do Comércio em 1920

Rua do Comércio em 1920

As Câmaras e Senados Estaduais, por sua vez, se compunham das figuras mais expressivas da sociedade local. Exemplo disso se encontra na eleição realizada em 1927 para a renovação do terço do Senado e a constituição da Câmara dos Deputados alagoanos. Dos cinco senadores eleitos um era sacerdote católico, outro usineiro e bacharel em direito, um farmacêutico e agricultor, que já exercera duas vezes o cargo de intendente de Maceió, um senhor de engenho e advogado e o último grande comerciante em Penedo. Dos trinta e cinco deputados, dezoito tinham curso superior e sete pertenciam à Academia Alagoana de Letras. Entre estes o biógrafo de Tavares Bastos, Carlos Pontes de Almeida Marques, além de Guedes de Miranda, Alfredo de Barros Lima Júnior, Jaime d’Altavila, Américo Melo, Artur Acioli e Tito de Barros. E, ainda, os escritores Otávio Amazonas, autor de um soneto denominado Ingenuidade, presente em mais de uma antologia, e José Calheiros que acabava de publicar o livro de contos Fogo de Palha. (Fogo de palha foi também a passagem de José Calheiros nas Alagoas. Surgiu nos últimos anos do governo Fernandes Lima, foi oficial de gabinete de Costa Rego, elegeu-se deputado estadual e, findo o mandato, desapareceu).

Além do centenário dos cursos jurídicos, acima mencionado, Alagoas comemorava também o primeiro centenário de nascimento do marechal Deodoro da Fonseca, cantando um hino, especialmente composto para as solenidades, em que se dizia:

Deodoro, o valente soldado
teve a sorte da pátria na mão.

Governo de Pedro da Costa Rego que, no ano anterior, rompera com o senador Fernandes Lima, patrono de sua candidatura. Houve a história de uma tentativa de morte contra a pessoa do governador, cuja autoria intelectual se atribuía a um dos filhos de Fernandes Lima, o comerciante, deputado estadual e vice-prefeito de Maceió, José Fernandes de Barros Lima Filho.

Sem disparar um tiro ou fazer um simples gesto agressivo, um pobre débil mental foi denunciado, pronunciado e condenado por crime de tentativa de morte. O incriminado mandante perdeu tudo. Cassaram-lhe os dois mandatos eletivos. Para não ser preso, abandonou a casa comercial e fugiu do Estado. Decretaram a sua falência fraudulenta. Jonas Viana, acusado de ter aliciado o autor material do delito, acossado pela polícia que queria prendê-lo, suicidou-se no banheiro da casa de Waldemar Lima, filho do senador, que ali se encontrava hospedado.

Rua do Comércio no início do século XX

Rua do Comércio no início do século XX

Moreira Lima, prefeito de Maceió, por se ter declarado solidário com Fernandes Lima, numa reunião do Partido Democrata, foi deposto e substituído no cargo pelo Presidente do Conselho Municipal da cidade, Anfilófio Melo, mais conhecido pelo pseudônimo de Jaime d’Altavila. O estado de direito existente no País não impediu que Costa Rego praticasse esta e outras violências. Uma delas se cometeu contra um conhecido comerciante de antiguidades, ele próprio com o tempo de serviço suficiente a incorporar-se ao acervo do seu ramo de negócio. Acusado de ser um dos mais atuantes boateiros que circulavam entre o relógio oficial e o café do Cupertino, o antiquário teve os bigodes extraídos a torquês. Um deputado, residente em Mata Grande, apontado como coiteiro de Lampião, foi preso, sem embargo das imunidades parlamentares que o protegiam. Ninguém protestou. Costa Bivar, por denunciar um dos primeiros excessos, teve de ingerir, sem receita médica e sem precisão, um violento purgante de óleo de carrapato. O Correio da Tarde, de sua propriedade, deixou de circular. Vendo a barba do vizinho arder, Oiticica Filho, diretor do Diário da Manhã, e Baltazar de Mendonça, diretor de A Noite, deram às de Vila Diogo. Como o Jornal do Comércio, de Guedes de Miranda, o Brasil Jornal, de Raul Falcão, e o Diário de Alagoas, de Povina Cavalcanti e Tito de Barros tinham desaparecido, a imprensa local ficou reduzida ao Jornal de Alagoas, órgão do Partido Democrata, que apoiava o governo. O Semeador, porta-voz da igreja católica, o Diário Oficial, que se restringia à publicação dos atos oficiais, e o jornal humorístico O Bacurau, que, seguindo os preceitos da comédia grega, rindo, procurava corrigir os costumes, o que não me consta tivesse conseguido…

O Jornal de Alagoas e O Semeador exerceram acentuada influência na vida literária alagoana daquela época, acolhendo a colaboração dos novos valores que despontavam. Assim é que Waldemar Cavalcante e Emílio de Maya atuavam em O Semeador, enquanto eu, Arnon de Melo, Raul Lima, Mário Brandão, Salustiano Euzébio de Barros pertencíamos ao Jornal de Alagoas. Feito por amadores, o velho órgão da rua da Boa Vista, de propriedade do então deputado Luis Magalhães da Silva, congregava um grupo selecionado de intelectuais da província. Lima Júnior, seu diretor, foi um dos mais completos jornalistas que tivemos. Lobão Filho, autor de Os Versos que eu não disse e Frutidor, também de poesia, dirigia a página literária dos domingos. Nelson Flores, inteligência ágil, de estilo plástico e envolvente, escrevia os tópicos, auxiliado por José Dantas Mendes, cronista delicioso, cheio de boutades e de verve. Herbert Cavalcante Costa e Fernandes da Costa, noticiarista e revisores. Fulgêncio Paiva se dedicava a assuntos internacionais em artigos eruditos e brilhantes. Barreto Cardoso redigia a crônica carnavalesca sob o pseudônimo de Falstaff, com muito espírito, e Carlos Garrido o Registro Social, as festas da Fênix, dos Aliados e as reuniões familiares ainda em voga. Entre os colaboradores José Lins do Rego, recentemente chegado à terra, Jorge de Lima, Aloísio Branco, Carlos Paurílio. O próprio governador Costa Rego redigia sueltos e editoriais, no seu estilo marcado pela influência de Eça de Queiroz e Anatole France. De sua autoria foi o artigo de fundo Palavras a Macobeba, dirigido ao senador Fernandes Lima, contra quem se declararam todos os antigos chefes políticos que antes o incensavam, os deputados estaduais e os prefeitos municipais. No Senado local houve uma exceção: o senador Angelo Martins. Dos deputados federais apenas o deputado Hermilo de Freitas Melro não figurou no noticiário telegráfico do Diário Oficial, com protestos de apoio e irrestrita solidariedade ao governador.

A Bota de Ouro

A Bota de Ouro

Patrocinado pelo Jornal, procedeu-se a eleição de miss Alagoas, a rainha da beleza, como se dizia então, sendo eleita Helena Taveiros, moça muito bonita e de conhecida família maceioense. O noticiário policial e o esportivo não mereciam o destaque que tem atualmente. Isso não impedia que os crimes fossem cometidos, sobretudo no sertão, onde o famigerado Virgulino Ferreira, recentemente repelido de Mossoró, no Rio Grande do Norte, praticava tropelias, desafiando a polícia comandada pelo major José Lucena de Albuquerque Maranhão e enriquecendo o folclore com a melodia do é Lampe, é lampe, é Lampião ou a música de

Olê, mulher rendeira,
Olê, mulher rendá
se chorar por mim não fica
só se eu não puder levar,
a menor levo no bolso
a maior vai no borná.

Costa Rego tentou, por todos os meios, reprimir a criminalidade. Proibiu o porte de arma, desprestigiou coronéis em cujas terras se homiziavam criminosos. Chegou mesmo a tomar medidas contra a concessão de habeas-corpus. Em 1924, logo no início de seu governo, irrompeu a revolta de São Paulo, com deposição do presidente Carlos de Campos, seguida da de Sergipe, onde foi deposto o governador Grace Cardoso.

Temendo que o movimento sedicioso se estendesse a Alagoas, Costa Rego convocou os coronéis do interior, com a sua capangada, para prestarem auxílio à polícia militar no caso de um levante da guarnição do exército. Maceió se encheu de pistoleiros vindos de todos os quadrantes do Estado. Durante dias, essa gente estadeou a sua valentia pelas ruas e praças da cidade. Passado o perigo, houve a desmobilização. Mas, os que tinham contas a ajustar com a justiça foram encarcerados, e as armas, velhos rifles e bacamartes, apreendidos.

Do futebol ainda não se esbatera a paixão que, alguns anos antes, levara dois excelentes alagoanos a trocarem tiros. Entre o Regatas, dirigido pelo banqueiro Raul Brito, e o Centro Sportivo, presidido pelo industrial Gustavo Paiva, se dividiam os torcedores alagoanos.

Existiam outros clubes, como o Ipiranga, o Brasil, o Barroso, o Vera-Cruz, mas somente os encontros do C.S.A. com o C.R.B. arrastavam a multidão aos campos do Mutange e da Pajuçara com os bondes da Catu superlotados e os frequentes desaguisados entre os mais ardorosos partidários dos dois times.

Como eram emocionantes as partidas de futebol da década de vinte com as vozes das moças e dos rapazes fundindo-se num alarido de procela ao vento da Pajuçara ou se derramando em cachoeiras de sons sobre o dorso prateado da lagoa Mundaú. Ao som da banda musical do 20° Batalhão de Caçadores ou da Policia Militar, cantava-se o hino do Regatas (versos de Jaime d’Altavila e música de Tavares de Figueiredo):

Argonautas da esperança,
vamos bem longe embalar
nosso sonho de bonança
ao mar, ao mar

ou do Centro (versos de Cipriano Jucá):

Alvi-celeste bandeira
do Centro, eterno fanal,
se tremidas, altaneira,
nas cores não tens rival.

Como me lembro ainda hoje do time do Regatas, que vi jogar contra o Centro de Mimi, Nelsinho, Bráulio, Hilário, Cavendish e outros, no field da Pajuçara, como diziam os cronistas da época. Mendes, Apolonio e Sidney, Raimundo, Mário Gomes, Barbosa, Edgar, Abel, Júlio Pedro, Azevedo e Otacílio Maia. Muitos desses rapazes tiveram relevo na vida pública ou se destacaram no comércio e na indústria, como Mário Gomes de Barros, prefeito de União dos Palmares, deputado estadual e federal ou Antonio de Goes Barbosa, tesoureiro do Estado, Abel Falcão Lima, funcionário público federal, Otacílio Maia, agente do Lóide (Lloyd) Brasileiro em Maceió e em Vitória. Mas nenhum deles atingiu o nível em que os colocara a minha admiração de menino recém-chegado do vale do Camaragibe.

Voltando, porém, aos jornais, devo recordar que, além dos que circulavam em Maceió (em Penedo, Palmeira, Viçosa e Pedra existiam excelentes semanários) o alagoano lia o “Diário de Pernambuco“, “O Jornal do Recife” e a “Província” que chegavam pelo trem de Recife. O “O Jornal“, do Rio, e o “Estado de São Paulo“, também eram lidos, com dias de atraso.

O “Diário de Pernambuco“, em 1925, comemorava o primeiro centenário de sua fundação, publicando um livro com a colaboração de escritores do nordeste. Alagoas se fez representar pelo dr. Francisco de Paula Leite e Oiticica, antigo senador federal, presidente do Instituto Histórico e membro da Academia Alagoana de Letras, e pelo professor Francisco Henrique Moreno Brandão, polígrafo notável e talvez o nosso maior historiador. Nesse livro apareceu o ensaio “Cem anos de Vida Social“, de Gilberto Freire, marco inicial da obra sociológica do autor de “Casa Grande e Senzala“. Creio que esse ensaio, “A Bagaceira“, de José Américo de Almeida, e a poesia nova de Jorge de Lima, constituíram os pontos de maior relevo na paisagem cultural do nordeste da década de vinte.

Ainda na área da imprensa regional, o aparecimento do “Diário da Manhã“, de Carlos de Lima Cavalcante, marcou época, pois renovou os métodos jornalísticos e, de certa maneira, influiu para a deflagração do movimento revolucionário de trinta, com a sua pregação cotidiana contra o obscurantismo e os erros acumulados durante três gerações republicanas.

Em Alagoas, surgiria “A Pátria“, tabloide em que o senador Fernandes Lima investia contra o situacionismo local, em linguagem desabrida. A Pátria conseguiu apenas tirar seis números. No sétimo descansou, isto é, foi empastelado, o que também sucedeu a um jornalzinho de Penedo, dirigido por Hidelbrando Falcão. Possivelmente em homenagem à linha d’água do papel em que era impresso, jogaram-no no rio São Francisco. Esses dois acontecimentos ocorreram no governo do jornalista Álvaro Correia Paes com a conivência do jornalista e senador Pedro da Costa Rego, o que demonstrava a inteira procedência do antigo prolóquio: em casa de ferreiro, espeto de pau.

A renda orçamentária das Alagoas não atingia a dez mil contos de réis, o que, na moeda desvalorizada dos nossos dias, equivale a dez mil cruzeiros. Com essa importância pagava-se ao funcionalismo e, no governo Fernandes Lima, ainda sobrou dinheiro para a construção de Grupos Escolares em Passo de Camaragibe, São Luiz do Quitunde, Capela e Maceió, e para a abertura da estrada de rodagem do norte, tão combatida pelo “Jornal do Comércio“, de Guedes de Miranda, “O Correio da Tarde“, de Costa Bivar, e “A Noite“, de Baltazar de Mendonça, que davam à rodovia um relevo escandaloso de verdadeiro Panamá. Com a mesma arrecadação, Costa Rego fez a estrada do Pilar. É verdade que a situação financeira do Estado se debilitou tanto que o governador, por sugestão do seu secretário da fazenda, Mário Alves da Fonseca, adotou uma medida inusitada: tomou empréstimo compulsório, vinte por cento dos vencimentos do funcionalismo…

O açúcar, ditador da economia alagoana, estava em crise, o que, de resto, acontecia com frequência, pois, antes do Instituto do Açúcar e do Álcool, o preço desse produto era imposto pelos açambarcadores estabelecidos em Pernambuco e no Rio de Janeiro, Usinas passaram das mãos dos seus fundadores para o acervo da Squire, firma americana, com filial em Maceió, vendedora de máquinas, turbinas e outros implementos. Bom Jesus, Unussú, Água Comprida, em Camaragibe, Pindoba Grande e Roncador, em São Luiz do Quitunde, Pau Amarelo, em Rio Largo, Campo Verde e Esperança, em Murici, deixaram de moer ou foram entregues aos credores, enquanto os antigos donos se abrigavam na ilha da burocracia ou se anulavam no anonimato dos destinos que falham.

Poucos Bancos: “Brasil”, “Norte do Brasil”, “Alagoas”, “Banco de Londres”. Operações puramente comerciais à base da duplicata. Agricultores não tinham crédito. Houve tempo em que a firma Brasileiro Galvão, compradora de açúcar, se tornara credora hipotecária de cerca de oitenta por cento dos engenhos e usinas. Apesar das garantias reais, superiores ao passivo, terminou falindo. Como no trocadilho de Emílio de Menezes, quebrou por excesso de fundos…

Maceió era, então, uma cidadezinha de pouco mais de quarenta mil habitantes. Casas velhas, de paredes-meias, espremidas umas nas outras, sem aeração nem luminosidade. Serviços sanitários precaríssimos. O máximo do conforto consistia no piso de mosaico e no forro de madeira.

Os mesmos edifícios públicos de hoje: Palácio do Governo e o Teatro Deodoro, construídos no governo Euclides Malta, e edifício do Tesouro, do tempo do presidente da província, José Bento da Cunha Figueiredo, a Delegacia Fiscal, a sede da Prefeitura, onde funcionavam o Conselho Municipal e o Senado Estadual. A Associação Comercial ia concluindo a sua sede, planta de Fulgêncio Paiva Filho, primeiro lugar no concurso instituído, sendo presidente Francisco Polito.

Existia ainda o edifício barroco do palácio velho, na rua Barão de Anadia, com o seu calçadão, e as suas lendas. Dali, pressionado pelo povo, fugira o governador Gabino Besouro, inspirando a quadra:

Não tenho medo da onça
nem do ronco que ela tem
o besouro também ronca
vai se ver não é ninguém.

Outros prédios públicos menos imponentes: O Tribunal de Justiça, o Liceu Alagoano, dois ou três Grupos Escolares, a Perseverança e Auxílio, com o seu dístico: o possível está feito, o impossível far-se-á, a estação da Great Western, o Palácio do Arcebispo.

Alguns palacetes particulares: vila Lilota, casa do comendador Tavares, de Ezequiel Pereira, em Bebedouro, residência dos Teixeira Bastos e Antônio Machado, na Praça dos Martírios, Artur Machado e Levindo Madeira na Avenida da Paz.

A Companhia Alagoana de Trilhos Urbanos (Catu) ligava o centro a todos os arrabaldes com os seus bondes ronceiros, mas baratos. Automóveis particulares eram um luxo e os de praça não chegavam a vinte. Maceió foi uma das primeiras cidades do Brasil a instalar telefones automáticos.

O serviço de água não tratada, segundo as más línguas, causava uma série de moléstias, entre as quais a erisipela, doença que tinha especial predileção pelas pernas das moças bonitas.

A luz elétrica cerrava o seu expediente à meia noite, acontecendo ainda que a pública não aparecia em noites de lua. Costa Rego acabou com esse regime e, fato singular, acabou também com os mosquitos. A água, porém, só melhorou muitos anos depois, no governo de Silvestre Péricles de Góes Monteiro.

Apesar disso ou por isso mesmo, Maceió era uma cidadezinha encantadora onde todos se conheciam. A sua fisionomia urbana, no centro, se conserva a mesma e as ruas apenas mudaram de nome. Já não são do Sol, da Boa Vista, do Alecrim, do Araçá, do Sopapo, da Floresta, do Jogo, da Maraba, do Ganso, do Apolo, tantas outras. Um dia, porque mudassem a denominação de uma delas, o poeta Carlos Paurílio, perguntou:

Quem foi esse Joaquim Távora
que tirou a alegria da minha rua?

Mas, além da rua da Alegria, propriamente dita, que ostenta o nome do revolucionário Joaquim Távora, morto em combate, as demais eram alegres, alagadas de sol, com pássaros nas árvores, com cadeiras nas calçadas e os pregões matinais, desde o do vendedor dos jornais

Jornal de Alagoas,
Jornal do Comércio
e o Estado.
Traz importantes telegramas do Rio
um artigo do dr. Pedro Valeriano
o tiroteio do Cinema Floriano,
a vitória do C.R.B.

até a do Preto, vestido de fraque que cantava, como um tenor desgarrado do palco para os anúncios comerciais:

Mas quem quer comprar
sedas, mais sedas
na Loja Progresso
de Virgílio Cabral.

O Teatro Deodoro abria as portas, de quando em quando, para temporadas de companhias teatrais do sul que chegavam pelos navios do Lóide Brasileiro, da Costeira, dos Aras, que, duas vezes por semana, escalavam em Jaraguá, ainda sem o cais, indo-se ou descendo-se dos navios em pequenas catraias ou saveiros.

Os cinemas Floriano e Capitólio iniciavam o sistema sonoro com a Melodia da Broadway e a Marcha dos Granadeiros. O Odeon, o Delícia e o Ideal continuavam a exibir os filmes mudos com os astros e estrelas tradicionais Pola Negri, Tom Mix, Eddie Polo, Dolores del Rio, Greta Garbo, Gloria Swanson, símbolos vivos da força física ou da beleza feminina através dos quais o estilo de vida da América do Norte ia se impondo ao mundo. Rodolfo Valentino, recentemente falecido, virara mito.

Por esse tempo, surgiu o “charleston” mais dançado nos cabarés, como o Gato Preto, no Trapiche da Barra, do que nos clubes mundanos.

As festas de igrejas, ainda transbordavam para os adros ornamentados, em jogos de caipira e roleta, trivolis, pastoris e cheganças. Os majores Camelo e Acioli, vestidos a caráter, comandavam os dois grupos que se enfrentavam na arte de bem cavalgar numa sela, como diria o rei D. Diniz nas suas ensinanças, nas cavalhadas. Festas de São Benedito, natais na Rua do Ganso, no Parque dos Eucalípitus, na Levada, ou em Bebedouro, a República da Alegria do major Bonifácio Magalhães da Silveira. Havia ainda a missa das dez, aos domingos, na Catedral, frequentada mais por elegância do que por devoção, as orações de maio, no Livramento, em que os maiores oradores sacros exaltavam a Virgem Maria, enquanto rapazes e moças iniciavam namoros que, às vezes, terminavam em casamento e outras vezes em sonetos parnasianos.

Mas, no capítulo religioso, convém lembrar as sessões de caboclo da Miúda, na Estrada Nova, com os seus deliciosos cantos rituais:

Cana caiam, cana caiá,
desce, caboclo, pró trabaiá
Mestre Carlos é bom mestre,
aprendeu sem se ensiná,
passou três dias caído
no tronco do juremá
e quando se levantou
foi logo pra trnbaiá.

Cadê a minha saudade
que mandei você guardar
Este mundo é uma ilusão
da vida material.

Na penumbra da sala, em que mal se divisavam os vultos concentrados, Miúda ia cantando dolentemente os versos ritualísticos, até que o caboclo invocado aparecia e a medium caía em transe. Depois de desvendar o futuro ou de esclarecer casos complicados, de dar remédios, o caboclo deixava o aparelho:

Vou-me embora, vou-me embora
pro sertão da Paraíba
eu vou ver Joana d Arc
com a planta dos pés pra riba.

A freguesia da Miúda se recrutava nas mais elevadas camadas sociais da terra.

As bandas de música do Vigésimo Batalhão de Caçadores e da Polícia Militar realizavam retretas dominicais nas Praças dos Martírios e Deodoro. O maestro Passinha musicara recentemente o Essa Nega Fulô, de Jorge de Lima e compusera uma canção, a Maritana:

Maritana, meu amor,
como és bela, minha flor
da verbena tens o suave odor
Maritana, meu amor.

Os versos, com rima em or, eram muito ruins, mas a melodia ótima, não tanto, porém, como a da Ramona, coqueluche dos seresteiros, dos tenores de banheiros, dos assoviadores, até que se descobriu que a bela canção dava azar.

As vitrolas divulgavam músicas cariocas. Canções de Heckel Tavares, compositor alagoano, radicado no Rio de Janeiro: Sussuarana, Casa de Caboclo, Azulão. Por toda parte se cantava a Ave-Maria:

Cai a tarde tranquila e serena
Em macio e suave langor.

Mas os namorados gostavam do Amor Secreto:

Queres dizer, porém tens medo,
tu tens receio de contar
triste de quem ama em segredo
e nunca pode revelar, o seu amor.

Música gostosa mesmo era a da Carapeba, banda sediada no Prado, que passava pelas ruas, seguida pelos meninos, tocando, o famoso Carapeba, peixe, pirão d’água.

Sorveterias, casas de chá e bares não eram muitos. O mais luxuoso, A Nacional, de propriedade de Manoel Tavares agente de Seguros de Vida, recentemente chegado a Maceió, além de sorvetes, sisi, guaraná e outros refrigerantes inofensivos, abrigava, no andar superior, amplo salão de roleta. Costa Rego, que proibira o jogo, ali entrou um dia, de surpresa, e quebrou todo o material da tavolagem prendendo alguns frequentadores do “antro”, como diziam as pessoas de boa formação moral… A Nacional fechou as portas e o seu proprietário mudou-se para outras paragens mais acolhedoras. Ficaram a Porta do Sol, a Porta da Chuva, a Santa Laura, a Helvética, o Ponto Central, o Bar Colombo, o Ponto Chic e, principalmente o Bar Alemão, famoso pelos pudins que servia e pela beleza ariana da mulher do proprietário, uma valquíria esmadrigada do “Niebelungem” para o comércio maceioense de doces e gelados. Havia ainda o sorveteiro ambulante que carregava a sua pequena sorveteria na cabeça.

Na cidade de gente explosiva e ardente, o sorveteiro, pelo menos, era um homem de cabeça fria…

Baile nos Aliados, no Regatas, no Clube Aliança Familiar. Na Fênix, além de reuniões frequentes, eram notáveis o Zé Pereira e o réveillon. Os saraus familiares ainda estavam em moda e além das danças, ao som de orquestras, das vitrolas ou dos pianos, havia os recitativos, com habituais e chistosas intervenções do sereno, como da vez em que o poeta José Pinho, estufando o peito, declamou: roubaram o meu amor e um assistente gritou: pega o ladrão.

Os banhos de mar ainda não se haviam incorporado aos hábitos locais. Só as senhoras residentes no Aterro de Jaraguá se atreviam a enfrentar o salso elemento, como era de bom gosto dizer-se, os olhares masculinos cintilantes de concupiscência, e, principalmente, a língua bisbilhoteira e ferina das damas domiciliadas em artérias urbanas mais recatadas. Por isso mesmo, segundo a opinião de pessoas respeitáveis, morar no Aterro de Jaraguá não recomendava quem quisesse ter conduta ilibada.

No ambiente da província, os entretenimentos eram poucos. Além dos namoros nas missas, nas retretas, na sala de espera dos cinemas, à janela das casas, o futebol ou a leitura. Creio que se lia muito mais do que hoje. Pelo menos a cidade possuía maior número de livrarias. Alencar, Machado de Assis, Aluísio de Azevedo, Graça Aranha, Castro Alves, Casemiro de Abreu, Camilo Castelo Branco, Bilac, Alexandre Herculano, Eça de Queiroz, Alberto de Oliveira, Euclides da Cunha, Perez Escrich, Jorge Onhet, Blasco Ibanez, Papini, Pittigrilli, Alexandre Dumas, Victor Hugo, Michel Zevaco entre outros autores nacionais e estrangeiros, eram vendidos nas livrarias Ramalho, Vilas Boas, Lavenère, Santos, Antônio Cândido e passavam de mãos em mãos no internato dos colégios 15 de Março, do mestre Agnelo Marques Barbosa, 11 de Janeiro, do Professor Higino Belo, Ginásio de Maceió, dos cônegos Cícero de Vasconcelos, José Pimentel e João Vasconcelos, Diocesano, dos irmãos Maristas. As meninas do Santíssimo Sacramento, das irmãs sacramentinas, e do Coração de Jesus, de D. Ana Prado, preferiam os romances de Delly, de Ardel, de Manoel Joaquim de Macedo. Só uma outra, mais evoluída ou menos tímida, se deleitava nas páginas de A Carne, de Júlio Ribeiro; La Garçone, de Vitor Marguerite, ou Mademoiselle Cinema, de Benjamin Costalat.

Os livros de Oliveira Viana iam surgindo e empolgando aos que se interessavam pelos problemas fundamentais do país. Alberto Torres, editado, figurava ao lado de escritores novos Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida, Ronald de Carvalho, Plínio Salgado, tantos outros, pregando uma arte nova ou defendendo os velhos cânones literários.

A Academia Alagoana de Letras, presidida por Demócrito Gracindo, e o Instituto Histórico, sob a direção de Orlando Araújo realizavam solenes sessões públicas em que os acadêmicos trajavam casacas bem talhadas, a gravata branca, o colarinho de pontas viradas, os discursos ditos com ênfase as frases escandidas, a gesticulação estudada. Presentes o governador, o Prefeito da Capital, o Arcebispo D. Santino Coutinho, recentemente chegado, senhoras, banda de música, intelectuais, estudantes.

Nas duas entidades se encontravam os mais expressivos valores da cultura alagoana. Poetas: Fernando de Mendonça, Jaime d’Altavila, Jorge de Lima, Lima Júnior, Tito de Barros, Barreto Cardoso, Júlio Auto, Cipriano Jucá, Esechias da Rocha; historiadores Moreno Brandão, Craveiro Costa, Joaquim Diégues; oradores Demócrito Gracindo, Guedes de Miranda, Orlando Araújo, Alfredo de Maya; polígrafos Luis Lavenère, Paulino Santiago, Carlos de Gusmão, Rodriguez de Melo, também poeta e orador primoroso, panfletário, teatrólogo. Jorge de Lima que, anteriormente, em acirrada disputa com Fernando Mendonça, se elegera príncipe dos poetas alagoanos, transferiu-se da poesia parnasiana de O Acendedor de Lampiões da Rua para os poemas telúricos de Essa Nega Fulô.

O movimento bibliográfico é que era pequeno pois não possuíamos, como não possuímos ainda, casas editoras. A quase totalidade dos fundadores da Academia e seus patronos não deixou livro publicado.

A obra mais importante que se editou na década de vinte foi, sem dúvida nenhuma, o Terra de Alagoas, organizado por Adalberto Marroquim que o foi imprimir na Itália, e continha amplo material geográfico, histórico, econômico, político e cultural do Estado. Ao final, a primeira antologia de poetas alagoanos, com o resumo biográfico de cada um feito com muito humor.

Dos alagoanos domiciliados no Estado, apenas Jaime d’Altavila mereceu a honra de ser editado pela Companhia Editoral Nacional de Monteiro Lobato, publicando Memórias de um Burro e O Destino tem Coisas. Os demais publicaram os seus livros nos pequenos prelos locais como Aurino Maciel com Gonçalves Ledo, o Homem da Independência; Moreno Brandão, Herói Sem Medo e Sem Mancha; Fernando de Mendonça, Poema das Criadinhas e Antonia; Tito de Barros, Poesias; Nilo Ramos, No Miradouro das Ilusões; Carlos Paurílio, Reflexos; Luis Lavenère, Zefinha, O Padre Cornélio; Costa Bivar, A Virgem da Barraca; Lobão Filho, Os Versos que eu não disse, Frutidor; Craveiro Costa, O Fim da Epopéia; Mário dos Wanderley, Elogio da Força; José Calheiros, Fogo de Palha; Esechias da Rocha, Lusitania; Cipriano Jucá, Os Quarenta e Jaime d’Altavila, Diário de Todos os Amantes. Jorge de Lima publicou livros de prosa, de poesia antiga e moderna.

Das atividades da época participava a Escola Normal, nas festas cívicas em que, depois dos discursos de professores e alunas, havia números de canto e declamação. Sob a direção de Adalberto Marroquim, a Instrução Pública editava uma revista de excelente feição gráfica, com escolhida colaboração, sobre temas pedagógicos e literários. Adalberto Marroquim, pernambucano que se transferiu para Alagoas depois da vitória de Dantas Barreto, era uma inteligência ágil e empreendedora. Poeta inconfessável, são de sua autoria os versos de duas ou três canções escolares, musicadas por Mário Marroquim do Nascimento, seu sobrinho, mais tarde secretário do Interior e professor de Direito. Os seus poemas matutos, muito bons, figuravam nos programas das festas escolares. A Sociedade de Medicina, recentemente criada, se tornara famosa em virtude de frequentes polêmicas entre Jorge de Lima e Estácio de Lima.

Insignificante a contribuição da mulher alagoana durante os anos vinte. Os preconceitos da época possivelmente tolheram as vocações femininas para as boas letras, ou talvez, a mulher alagoana desse razão a Rostand quando este, pela voz do Cyrano de Bergerac, aconselhava: formosas filhas de Hebe, inspirai-nos canções, mas sem fazê-las.

Em fins de vinte e seis ou começo de vinte e sete, aos domingos, o Jornal de Alagoas publicou uma série de crônicas da melhor qualidade assinadas por Lúcia Edelwais, heterônimo sob que se escondia a menina-moça Rosinha Coelho. Mais tarde, ao encerrar-se a década, outro nome surgia, o de Ligia Menezes, declamadora e poetisa. Do Cenáculo Alagoano de Letras fez parte Yolanda Mendonça e da Academia Guimarães Passos, Maria José Salgado Lages, diplomada em Medicina, na Bahia. Vivia ainda a velha poetisa Rosalia Sandoval, residente no Rio.

São da época as duas agremiações literárias cujo cinquentenário se comemora: O Cenáculo Alagoano de Letras e o Grêmio Literário Guimarães Passos. O Cenáculo Alagoano de Letras surgiu em junho de 1926 em consequência de cisão verificada no Centro de Estudantes de Alagoas do qual nos retiramos eu, Arnaldo Lopes de Farias, Mário Brandão Maia Gomes e José Joel Salgado Bastos. A sessão de fundação se realizou na casa de propriedade do Coronel José Gomes de Oliveira Maia, na antiga rua da Verdura (hoje Pontes de Miranda) no local onde atualmente existe um posto de gasolina. Além dos estudantes acima referidos, Zeferino Lavenère Machado e Emilio Eliseu de Maya figuraram entre os fundadores. Emilio de Maya, no entanto, afastou-se declarando-se solidário com os seus companheiros do Centro dos Estudantes. José Joel Salgado Bastos, logo em seguida, indo residir no Rio de Janeiro para onde seu pai, gerente do Banco do Brasil, se transferira. Foi a seguinte a primeira diretoria do Cenáculo: Presidente Mendonça Júnior, vice-presidente Lavenère Machado, secretários Arnaldo de Farias e Mário Brandão. Durante o ano de 1926, em sessões públicas, realizadas no salão nobre do Instituto Histórico e no auditório da Sociedade Perseverança e Auxílio, foram recebidos mais dois sócios: Salustiano Euzébio de Araújo Barros e Yolanda Mendonça. Fechamos a porta, ciosamente, com a cautelosa vigilância de verdadeiros cérberos, a outros candidatos. Alguns rapazes, mais moços, inutilmente tentaram transpor as muralhas do clube fechadíssimo que criáramos. Em face das reiteradas recusas sofridas, resolveram eles fundar a sua própria agremiação literária.

Reunidos na residência de Manuel Diégues Júnior, em nove de agosto de 1927, à rua do Araçá, em Pajussara, o dono da casa e mais Aurélio Buarque Ferreira, como então se chamava Aurélio Buarque de Holanda, Raul do Rego Lima, Valdemar Cavalcante, Paulo Malta Filho, Francisco Marroquim, Arnon Afonso de Farias Melo, Abelard José de França, Aristeu de Bulhões, Felino Mascarenhas, Gilberto Blazer, José Mota Maia e outros, fundaram o Grêmio Literário Guimarães Passos. Em pouco tempo, a nova instituição realizava sessões públicas, quase sempre com a presença de Demócrito Gracindo, presidente da Academia Alagoana de Letras, cujo filho, Pelópidas Gracindo, o atual astro de teatro e televisão Paulo Gracindo, se encontrava entre os fundadores ou entre os que vieram depois como Salustiano Euzébio de Araújo Barros e Joaquim Maciel Filho.

Em 1928, o Cenáculo Alagoano de Letras e o Instituto Rosalvo Ribeiro promoveram a festa da Arte Nova, realizando duas sessões literárias e uma exposição de pintura de que participaram os pintores Lourenço Peixoto, Zaluar de Santana, Eurico Maciel, Luiz Menezes e outros.

A República, jornal de Maceió, assim noticiou o acontecimento: realizou-se no último domingo (17 de junho) a encantadora festa de mocidade que constituiu um dos nossos maiores acontecimentos literários deste ano. Às dezesseis horas teve lugar a inauguração da amostra de quadros modernos, falando Mendonça Júnior sobre O incêndio de Olimpo e os símbolos de nossa raça. Abrilhantou esta parte do programa a banda de música do 20º Batalhão de Caçadores, gentilmente cedida pelo seu digno comandante, Coronel Ciro Daltro, que, em companhia de vários oficiais da guarnição, esteve presente. A assistência foi muito numerosa e seleta e apreciou os quadros expostos por Lourenço Peixoto, Messias, Zaluar de Santana, bem como a decoração das paredes e a ornamentação da sala de tonalidade verde-amarela”.

Às vinte horas começou a hora de arte, presidida pelo talentoso intelectual José da Costa Aguiar que produziu um lindo discurso em que estabeleceu a diferença entre a literatura que se ia fazer e o futurismo de Marinetti, sinônimo de absurdo. Em seguida, Carlos Paurílio leu Água de Açude, encantadores versos de Jorge de Lima, que a assistência aplaudiu calidamente. Mário Brandão leu um bonito conto regional que muito agradou. Ritmos Bárbaros, versos modernos de Mendonça Júnior, foram muito apreciados e Valdemar Cavalcante leu uma magnífica página sobre literatura moderna e arte nova. Carlos Paurílio disse três delicados poemas. Encerrando a festa, Emilio de Maya declamou versos modernos que estavam deliciosos, que só não foram a chave de ouro porque a poesia moderna já não admite chaves, ainda que sejam do mais precioso metal. Jaime d’Altavila, que deveria ler Casa Colonial, deixou de fazê-lo por ter chegado atrasado, não podendo, assim, romper a muralha humana que se interpunha entre a porta e a mesa da sessão, encerrada por Da Costa Aguiar, num discurso eloquente que foi demoradamente aplaudido. Seguiram-se danças, ao som de um excelente “Jazz-Band” e que se prolongaram pela madrugada. A comissão organizadora da festa, constituída por Lourenço Peixoto, Mendonça Júnior, Valdemar Cavalcante, Mário Brandão e Carlos Paurílio, foi pródiga em gentilezas para com os presentes. (A República, diário de propriedade de Tancredo Jambeiro Gomes, 19 de junho de 1928, segunda página).

Sobre o movimento de renovação estética que se preconizava, houve polêmicas na imprensa alagoana, destacando-se a que se feriu entre José da Costa Aguiar e Luis Lavenère. Publicamos a revista Maracanã. Com essa movimentada festa, o Cenáculo encerrou as suas atividades. Dispersamo-nos. Mário Brandão, o grande conteur machadiano de Almas do Outro Mundo e Freud e o meu personagem Emerenciano, foi morar no Rio de Janeiro, Zeferino Lavenère Machado matriculou-se na Faculdade de Direito de Recife, Arnaldo de Farias, um dos sujeitos mais talentosos que conheci, foi exercer as funções de secretário do seu irmão Esperidião Lopes de Farias Júnior, Prefeito de Murici. Eu era Promotor Público de Porto Calvo, Yolanda Mendonça passou a residir no Rio. Salustiano Euzébio de Araújo Barros entrou para o Grêmio Literário Guimarães Passos.

Em 1928 ocorreram fatos de relevo no Estado de Alagoas. Costa Rego terminou o mandato de governador, entre banquetes, missas gratulatórias, homenagens, afirmando numa dessas manifestações de apreço: posso não ter sido estimado, mas fui muito respeitado. Respeitado não era, positivamente, a palavra exata para o sentimento que inspirava e, sim, temido.

Governo forte, por vezes violento, Costa Rego combateu o crime, o jogo, mandou cobrar impostos de correligionários e adversários, sem discriminação, não respeitou os privilégios um tanto feudais de senhores de engenho, usineiros e fazendeiros. Estes, principalmente, foram atingidos pela cobrança do novo imposto territorial no seu governo, instituído que, de certa forma, limitava o direito de propriedade. Mas, contrabalançando os descontentamentos, alguns políticos militantes se lhe afeiçoaram de tal maneira que, muito tempo depois, eram conhecidos como o grupo do Costa Rego.

Morreu Demócrito Gracindo, sucedido na presidência da Academia por Guedes de Miranda, e na cadeira que ocupava por Costa Rego que lhe traçou o perfil, a vida e a obra num discurso que figura no livro de sua autoria Na Terra Natal.

Substituiu-o, no governo, o deputado federal Álvaro Correia Paes, de quem Adalberto Marroquim, secretário do interior e vice-governador, era um espécie de primeiro ministro todo poderoso. Álvaro Paes pregava a diversificação da lavoura, a avicultura, caminhando pelo interior do Estado, enquanto Marroquim governava. Um ano mais tarde, já exercendo a Promotoria Pública de Camaragibe, e fui eleito sócio efetivo do Grêmio Guimarães Passos, de que já se haviam retirado Diégues Júnior, Raul de Lima, Aurélio Buarque de Holanda, Paulo Malta Filho, Carlos José Duarte, Francisco Marroquim e outros, agastados com a eleição da nova diretoria, presidida por José da Mota Maia.

A defecção, contudo, longe de arrefecer, estimulou o entusiasmo dos remanescentes. Entre estes se encontrava Joaquim Maciel Filho, que, às qualidades de escritor, aliava uma enorme capacidade de aglutinar. Novos elementos foram levados ao Grêmio. Não mais estudantes secundários e sim universitários, sacerdotes, médicos, advogados, engenheiros, sendo Álvaro Dória, Sebastião da Hora, Félix Lima Júnior, padre Sizenando Silva, Mendonça Braga e Paulino de Araújo Jorge os primeiros admitidos.

Meses depois, houve uma sessão agitada em que dois confrades andaram perto da luta corporal, evitada pela intervenção do professor Aurino Maciel, diretor da Perseverança, local da reunião. Em consequência da exaltação de ânimos, José Mota Maia renunciou à presidência, sendo eleito como seu sucessor o dr. Álvaro Dória, médico conceituado, mais tarde catedrático da Faculdade de Medicina da Bahia e, anos, depois, da Universidade do Brasil, e orador notável.

Mudou-se o nome da agremiação para Academia Guimarães Passos.

Corria o ano de 1930. Ano histórico. Marco de uma nova era no país. 1929 fora de comícios de propaganda das candidaturas de Júlio Prestes e Vital Soares, para a presidência e vice-presidência da República, apoiados ostensivamente por Washington Luis e pelos governadores de dezessete Estados, e Getúlio Dorneles Vargas e João Pessoa Cavalcante de Albuquerque, candidatos da Aliança Liberal, lançados por Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba e com os aplausos das oposições. A campanha foi empolgante. De um lado e do outro as caravanas percorriam as capitais e algumas das mais importantes cidades do interior, realizando “meetings” de que participavam famosos oradores políticos da época: João Neves da Fontoura, Plínio Casado, Flores da Cunha, Batista Luzardo, Lindolfo Collor, Maurício de Lacerda e outros desdobravam sobre a cabeça das multidões os eternos temas democráticos, condenando veementemente a intervenção do Presidente da República no processo político de sua sucessão. Pelo situacionismo falavam também as figuras conhecidas nos círculos partidários e do Congresso Nacional, como Gilberto Amado, Irineu Machado, Otávio e João Mangabeira.

Em Alagoas, Fernandes Lima, com um grupo de correligionários, percorria os municípios, fazendo a propaganda dos candidatos da Aliança, enquanto Costa Rego, senador da República, se desdobrava em favor de Júlio Prestes, proferindo, geralmente em ambiente fechado, notáveis discursos. Em Porto Calvo, de que eu era Promotor Público, participei do comício com o deputado estadual Guedes de Miranda. Acompanhei a caravana a Porto de Pedras, onde ocorreu um fato inusitado. Depois da oração de Costa Rego, o dr. Sebastião da Hora, médico em Maceió, de que era o filho mais ilustre, pediu a palavra. Todos supúnhamos uma adesão ao governo. Sebastião começou contando uma pequena história: “iam por uma estrada dois amigos. De súbito, à sua frente, surgiu uma faixa de pano, que um sustentou ser verde e o outro vermelha. Discutiram e ainda hoje discutiriam se ali não aparecesse um médico para verificar que um dos dois era daltônico”. A assistência, que se comprimia no salão da Câmara Municipal, na manhã ensolarada e quente, aguardava o desfecho da história. E esta veio, surpreendente: Ele, Sebastião da Hora e o senador Costa Rego estavam ali na mesma situação dos viajantes a que aludira. Um dos dois era daltônico, pois enquanto o senador pregava os méritos de Júlio Prestes, ele se declarava decididamente a favor de Getúlio Vargas, cuja eleição constituía um imperativo da vontade popular para o restabelecimento das liberdades públicas. Tão grande foi o impacto produzido pelo discurso que ninguém o aplaudiu. Todos esperavam uma violenta reação de Costa Rego, cujo temperamento explosivo era demasiadamente conhecido. Um silêncio de mosteiro trapista se fez quando Costa Rego se ergueu da poltrona e, lentamente, se aproximou de Sebastião da Hora e o abraçou. Então os aplausos irromperam freneticamente.

Volvidos quase cinquenta anos, verifico que foi aquele o comício mais democrático a que tive a fortuna de assistir.

Com a morte do senador João Batista Acioli Júnior, ocorrida na Usina de sua propriedade, em Maragogi, Costa Rego, então deputado federal, na vaga de Álvaro Paes, foi indicado pelo Partido Democrata, elegeu-se para o Senado. Marroquim, tendo abusado do seu prestígio, foi demitido da Secretaria do Interior e cassado do cargo de vice-governador, sendo substituído pelo senador estadual Francisco Cavalcante, e na secretaria do interior por Osório Calheiros Gato, promotor de União e figura muito estimada nos meios culturais e desportivos da cidade.

As eleições para Presidente e Vice-Presidente da República, para a renovação do terço do Senado e composição da Câmara dos Deputados, realizaram-se numa atmosfera de guerra, mas sem maiores consequências. Em Minas, no Rio Grande do Sul e na Paraíba os candidatos da Aliança Liberal venceram de ponta a ponta como se diz em corrida de cavalos, assegurando os perrepistas, como se chamavam os partidários do governo, que naqueles Estados, campeara a mais desbragada fraude. Nas demais unidades, a vitória de Júlio Prestes foi barbada, como se dizia em alusão ao cavanhaque do Presidente Washington Luis, sustentando os aliancistas que esse resultado fora o produto de atas falsas e de violências policiais cometidas contra os adversários.

Em Alagoas, com exceção do senador Fernandes Lima e de um reduzido número de seus seguidores, todos éramos perrepistas. Por isso e mais ainda em consequência da habilidade prestidigitadora dos mesários, a maioria esmagadora dos eleitores sufragou os nomes dos candidatos do Partido Democrata que, com a deposição de Euclides Malta em 1912, ascendera ao poder e nele se conservava airosamente.

Os candidatos a deputados e senadores federais, eleitos pela Oposição, foram depurados pela Comissão de Reconhecimento de Poderes das duas Casas Legislativas. Entre os sacrificados pelo facciosismo, figurou o paraibano José Américo de Almeida, que se tornara famoso, combatendo o caudilho José Pereira e pela publicação do seu grande romance A Bagaceira, que iniciou um novo ciclo na literatura brasileira de ficção.

A verdadeira espoliação de que foram vítimas deputados e senadores mineiros e paraibanos agitou, durante algum tempo, os debates no Congresso Nacional na imprensa. Depois apareceram outros assuntos mais palpitantes, que agitaram o país, de norte a sul, gerando um clima de indisfarçável nervosismo.

Os boatos fervilhavam. Surgiam no Relógio Oficial e se espraiavam pela cidade inteira: Minas e Rio Grande estavam importando armas e aumentando os seus batalhões policiais, para fazerem a revolução. Juarez Távora e João Alberto passaram por Maceió, de passagem para Paraíba, onde a luta de Princesa continuava. Apesar de tudo, viveríamos no melhor dos mundos possíveis não fosse a avassaladora crise do açúcar que atingia a lavoura e o comércio, refletindo-se na receita orçamentária do Estado. Isso não impedia, contudo, que o tranquilo e bondoso governador Álvaro Correia Paes ouvisse discos na sua vitrola, se deliciasse com a melodia do Pinião e de outras peças populares da sua discoteca.

A Academia Guimarães Passos realizava festas memoráveis ou enriquecia o seu quadro social com novos elementos como Lavenère Machado, Esdras Gueiros, Álvaro Fagundes, Freitas Cavalcante.

De repente, os tiros desfechados no Presidente João Pessoa por João Dantas, na Confeitaria Gloria, em Recife, comoveram a Nação. Os acontecimentos se precipitaram. Irrompeu a Revolução de Trinta. Luta no Recife, em Belo Horizonte, em Porto Alegre. Na Paraíba assassinaram o general alagoano Lavenère Wanderley. Estácio Coimbra, o senhor de engenho aristocrata do Morim, pela segunda vez, abandonou o Governo de Pernambuco, inspirando versos populares, cantados com a música de Dedé, canção carnavalesca em voga:

Já duas vezes tu fugiste, Estácio,
numa barcaça, num rebocador.
Não eras digno de ocupar Palácio,
foste um mulambo de governador.

Estácio, Estácio,
tu deixaste o Palácio,
ai fujão, ai fujão,
tu não passas de um poltrão.

Injustiça gerada pela paixão política. Estácio Coimbra foi um dos brasileiros mais eminentes do seu tempo, honrando as posições que ocupou com sua elegância inata, inteligência, cultura e inatacável honradez.

Encontrava-me no Palácio dos Martírios na madrugada em que o rebocador, conduzindo o ex-governador de Pernambuco, escalou em Jaraguá. Álvaro Paes designou o secretário do Interior, Osório Calheiros Gato para convidá-lo a desembarcar e ser seu hóspede. Estácio recusou o convite e prosseguiu viagem para o Sul. Foi uma noite de tensão, aquela noite. Dizia-se que o Vinte atacaria o Palácio para depor o governador. Cerca de vinte ou trinta amigos de Álvaro Paes, portando rifles e armas curtas, cochilavam pelos divãs e sofás no à vontade que se estabelece nos velórios. E era, realmente, um velório. Estávamos fazendo sentinela ao regime democrático, nunca mais restabelecido. Notícias alarmantes lançadas dos aviõezinhos, vindos do Recife, caíam com os manifestos, intimando o Governo alagoano a render-se, a fim de evitar inútil derramamento de sangue e prejuízos materiais desnecessários. Colunas de soldados e de civis desciam do Norte, comandadas por nomes legendários: Juracy Magalhães, Agildo Barata, Juarez Távora. Tentando evitar a invasão pelo litoral, o delegado regional de Porto Calvo, dr. José Faustino de Miranda, mandou picar as balsas que faziam a travessia dos rios Manguaba, Camaragibe e Santo Antônio Grande. Mas as tropas entraram no Estado por outros setores. O povo aderia, se enfeitando de ganga vermelha. Subitamente, o alagoano, quase unanimemente governista, se tornou revolucionário e, se maiores não foram as adesões, é que, em diversas cidades, se esgotou o estoque de fazenda encarnada. Nos grupos e nas escolas isoladas, os meninos cantavam:

“Alagoas não procria escravos,
vence ou morre mas sempre de pé.”

Contudo, pelo sim, pelo não, o governador Álvaro Paes seguiu o exemplo dos seus colegas nordestinos: deu no pé, rumando para o Sul, em companhia dos secretários e do coronel José Lucena de Albuquerque Maranhão. O comandante da Polícia Militar, Pedro Reginaldo Teixeira, assumiu o Governo, interinamente. Esperava-se fosse o Governo entregue a Fernandes Lima que, chefiara a Aliança Liberal em Alagoas. Por isso, o Sítio Britânia, sua residência, logo se encheu de velhos e novos amigos. Mas para decepção dos adesistas, a escolha recaiu no ex-deputado federal e ex-vice-governador dr. Hermilo de Freitas Melro.

Das vitrolas escorria a música esfuziante de Dedé:

“Dedé, Dedé,
você diz que me quer
mas você me enganou
deu a outro o seu amor.”

A Revolução de Trinta enganou muito mais do que Dedé. Feita para aprimorar os costumes políticos, instaurou a ditadura que, com pequeno intervalo, durou quinze anos. Começou por suprimir o Poder Legislativo no país. Cassou governadores e prefeitos, com a única exceção de Minas Gerais, cujo presidente, Olegário Dias Maciel, continuou no exercício do mandato. Vieram os tenentes interventores, tantos e para tantas funções que o poeta Lamartine Babo, em ritmo de frevo, os glosou:

“Mulata, mulatinha, meu amor,
fui nomeado teu tenente interventor.”

A liberdade de imprensa e as demais liberdades foram suprimidas. Do Hino da República, versos de Medeiros e Albuquerque, podiam-se riscar das estrofes, por sinal, muito bonitas: “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós, da luta na tempestade, dá que ouçamos tua voz”. Como um pássaro de asas partidas, a liberdade perdera a voz. E muitos já não ouviam sequer a voz da própria consciência…

Empossado o interventor e seus secretários, Orlando Araújo, do Interior, e Alfredo de Maya, da Fazenda, a vida social se normalizou. A Academia Guimarães Passos promoveu a última sessão do ano histórico, dando posse ao poeta Pedro Lobão Filho, por mim saudado. Depois dos dois discursos protocolares, o maestro Heckel Tavares, compositor alagoano, há muitos anos ausente do Estado, ofereceu uma audição de suas canções, muitas das quais com letras dos poetas alagoanos Mendonça Júnior, Jorge de Lima, Jaime d’Altavila, Lobão Filho, Manuel Diégues Júnior.

Os poetas, jornalistas e oradores, da melhor categoria, integrantes da Academia Guimarães Passos, da Cenáculo Alagoano de Letras e da Academia dos Dez Unidos, que existira no começo da década, um chegou à Academia Brasileira de Letras, dois no Instituto Histórico Brasileiro, vários à Academia Alagoana de Letras e outras Academias Estaduais, ou ocuparam cargos de relevo, de nomeação e de eleição na vida pública, honrando as tradições de civismo da pequenina província das Alagoas.

____ * ____

Pela voz angustiada de Francesca de Rimini, o poeta Florentino exclamou: — “Não há maior dor do que recordar na desgraça o tempo feliz”. Penso, ao contrário, que recordar é sempre grato, em qualquer tempo. É mesmo o maior prazer que podem ter os velhos, como afirmou Júlio Dantas, na Ceia dos Cardeais. Por isso, mesmo antes do mandato que me foi conferido pelos reitores da Universidade Federal de Alagoas, meus jovens amigos professores Manoel Machado Ramalho de Azevedo, José Medeiros e João Azevedo costumo voltar à década de vinte, em longas viagens proustianas. Subo o rio do tempo. Mergulho nas suas águas, na inútil procura da Atlântida submersa. Reconstruo o mundo perdido.

Revejo a minha cintilante cidade de Maceió, balizada pelo velho farol e as torres da matriz de Nossa Senhora dos Prazeres, desnatando-se das praias do mar às margens da lagoa ou subindo o planalto de Jacutinga, à procura de maiores espaços para expandir-se. Década de almofadinhas e melindrosas. Almofadinhas que usavam sapatos pé-de-anjo, comprados na Casa Clarck, de Clemente Magalhães da Silveira e seu filho Baby, na Casa Fox, dos Perrellis ou na Mundial, do Bento Valença, que se vestiam na alfaiataria da Casa Londres ou nos alfaiates da moda: Pedro Codá, Gracindo, Sales, Savastano. Das melindrosas que compravam chapéus e se vestiam nos ateliês da Miné Guerra e d. Júlia Tavares, que faziam o “footing” às quintas olhando as vitrines da A Brasileira, Loja América, Nova Aurora, Loja Iracema, Casa Gerbase, Loja Paris, Loja do Noivo, Loja Progresso, Tira-Teima ou namoravam as jóias da Joalheria Lordsleem ou da Casa Machado, enquanto as mamães cautelosas compravam na Despensa Familiar de Manoel Afonso Viana ou na Feira Franca de Benjamin Medeiros, os gêneros de primeira necessidade, numa fase ainda sem poluição nem supermercados. Poucas farmácias: A Globo, do dr. Manoel Brandão; a Industrial, dos Fontes Lima; a São Paulo, do Ageu Pimentel; a Pasteur, de Ramos de Oliveira. Médicos: Sebastião da Hora, Afrânio Jorge, Álvaro Dória, Esechias da Rocha, Manoel Oiticica, Albino Magalhães, Sampaio Marques, Egas Duarte, Zacarias de Azevedo, Odilon Mascarenhas, Abelardo Duarte, João Eulálio, Seixas Barros, Hebreliano Maurício Wanderley. Advogados: Guedes de Miranda, Hermínio Barroca, Demócrito Gracindo, Rodriguez de Melo, Mário Mendonça, Baltazar de Mendonça, Inácio Brandão Gracindo, Luis de Mascarenhas, Alfredo de Maia, Lima Júnior, Artur Acioli, Rodolfo Lins Carneiro de Albuquerque, Quintela Cavalcante e Antonio Leite. Nas festas de igreja exibiam-se os grandes oradores sacros: Cícero Teixeira de Vasconcelos, Luis Barbosa, Amaro Falcão, Júlio de Albuquerque.

Ainda se dançavam quadrilhas, valsas, xotes. O Foxtrot e o ones-step chegavam dos Estados Unidos. As moças dos colégios, e mesmo algumas solteironas inconformadas, possuíam álbuns de poesias em que os poetas locais lançavam autógrafos. Festas familiares com recitativos ao som da Dalila, tocada nos pianos ingleses ou alemães, enquanto declamadoras diziam poemas de Olavo Bilac, Casemiro de Abreu, Castro Alves, Gonçalves Dias, Olegário Mariano, Guerra Junqueiro. Cantavam-se modinhas sentimentais ou lúgubres como o Noivado do Sepulcro ou o Perdão Emília. A Casa Branca da Serra, de Guimarães Passos, figurava nos repertórios, enchendo a noite de lirismo: na casa branca da serra que eu fitava horas inteiras, entre as esbeltas palmeiras…

Maceió, em que quase tudo de bom revelava a iniciativa de Francisco de Amorim Leão, era chamada a terra de seu Chico, apelido do industrial da Usina Utinga Leão. No carnaval cantava-se:

Ai Juvenília, ai Juvenal
na terra de seu Chico
só é bom o carnaval.

Mas, além do carnaval, existiam alguns lugares de recreação: os banhos no Banheiro do Cego, na Bica da Pedra ou nas noitadas na Pensão Espanha ou no Hotel Pimenta. E, por falar nisso, convém lembrar o Hotel Petrópolis, o único que não tinha mosquitos, instalado no velho e imponente edifício do Barão de Jaraguá, hoje sede da biblioteca pública, o Hotel Luso-Brasileiro, na rua Senador Mendonça e o Nova Sintra, na rua do Sol, famoso pelo tiroteio que ali se verificara no governo de Gabino Besouro ou de Araújo Góes, inaugurou-se, em prédio novo, o Palace Hotel Bela Vista, à rua Barão de Anadia. De um dos andares mais elevados, fui ver as evoluções que Gago Coutinho e Sacadura Cabral fizeram sobre Maceió, no reid pioneiro de travessia do Atlântico Sul. Depois dos portugueses, os tripulantes do Jaú, Monteiro de Barros, Pinto Martins e Newton Braga, fizeram o mesmo percurso. Outros reides, uns bem-sucedidos outros marcados pela morte de aviadores, empreenderam espanhóis, italianos e franceses.

A década assinalou os primeiros ensaios da aviação comercial. Em Maceió se inaugurou, com aeroplanos da Air France, o aeroporto Costa Rego, enquanto na lagoa pousavam os hidroplanos, o que levou um dos mais conhecidos vereadores a propor que o local se chamasse de “aério-porto das lanchas”…

Pequenos aviões apareciam, de quando em quando, proporcionando voos sobre a cidade, por preços razoáveis. Um deles, o Garoto, levou o comerciante de secos e molhados Portela que se apavorou com a altura atingida e se molhou todo. A aventura foi registrada em versos cantados com a música do Moleque Namorador.

O seu Portela quis subir no avião para mostrar que era mesmo valentão e, depois de contar o sucedido, aconselhava o comerciante a não mais comer sururu, um fruto da lagoa então muito abundante e que hoje existe apenas na nostalgia gustativa.

O rádio começava no sul, mas em Alagoas apenas o médico viçosense Nelson Maciel Pinheiro dele se ocupava em artigos no Jornal de Alagoas.

Na intersecção das ruas Senador Mendonça e Comércio, o Relógio Oficial, matriz de boatos, abrigava os derrotistas de todos os matizes a agourar os serviços novos com o velho ditado nativo Maceió um dia só. Em câmbio, os cambistas da Casa Feliz, de José Magalhães da Silveira, vendiam a sorte grande. Alguns pistoleiros faziam ponto no relógio, local também da preferência dos eternos facadistas e de tipos populares como o Jocão, o Manoel Bolachinha, o Guabiraba, único alagoano que se atrevia a dizer verdades ao governador Costa Rego, que as ouvia sorrindo, com a condescendência de um potentado da renascença para com o bobo da corte.

Em frente do relógio, o Ponto Central, do Cupertino. Aí se reuniam os intelectuais da província. Já se comentava Marcel Proust e se faziam tímidas incursões pelos domínios da psicanálise.

Proust fora dissecado em tese de Jorge de Lima a concurso da cadeira de Literatura do quase centenário Liceu Alagoano. Entre os frequentadores do café se encontravam José Lins do Rego, fiscal de bancos, há pouco vindo de Minas Gerais, onde exercera as funções de Promotor de Justiça, e Graciliano Ramos, ex-prefeito de Palmeira dos índios, nomeado diretor da Imprensa Oficial no governo de Álvaro Paes.

Maceió, na década de vinte, amanhecia cantando na voz dos pregões, dos sinos e dos meninos que, nas escolas, com entusiasmo nativista, proclamavam:

Alagoas, estrela radiosa
que refulge ao sorrir das manhãs.

Extraído do livro ” Tempo de Falar”, de A. S. de Mendonça Júnior, Sergasa, 1983.

 

 

3 Comments on Vida social alagoana na década de vinte

  1. Bernardo de Mendonça // 26 de agosto de 2015 em 10:23 //

    Já vinha, há algum tempo, desde que descobri sua página, agradecer os momentos de satisfação que essa memória visual me tem proporcionado.
    Meu abraço afetuoso,
    Bernardo

  2. Muitas saudades do velho Tê.

  3. Achei interessante o seu tópico. É importante que mantenha a qualidade do seu material, isso é complicado no momento na
    net. As vezes visito aqui para me informar. Mas eu tenho uma pergunta, como
    eu faço para curtir esse post no Facebook? Parabéns!

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