Vida de repórter, o sigiloso jornal de PC Farias

A rotina de trabalho era normal, incomum era a não divulgação das edições

Prédio que abrigou a Tribuna de Alagoas e onde atualmente funciona a Tribuna Independente

Texto da jornalista Eliane Aquino, publicado no site Cada Minuto no dia 31 de maio de 2015.

Estávamos em janeiro de 1992.

Em Alagoas, dois assuntos eram pauta da imprensa: eleição municipal e o jornal do empresário Paulo César Farias, pivô da briga entre os irmãos Collor, Pedro e Fernando. O primeiro, responsável no estado pelo complexo de Comunicação da família, a Organização Arnon de Mello, o segundo, presidente do Brasil.

Stefani Brito, editor-geral, comunicando o fim da Tribuna de Alagoas à redação em 1992

Stefani Brito, editor-geral, comunicando o fim da Tribuna de Alagoas à redação em 1992

Pedro botou na cabeça que a Tribuna de Alagoas, reeditada por PC Farias, era projeto bancado pelo irmão presidente, o que fragilizaria comercialmente as empresas gazetas: uma emissora de TV, um jornal impresso, duas rádios na capital e uma rádio no interior, em Arapiraca, Agreste de Alagoas.

O jornal de Paulo César Farias estava em andamento. Prédio arrumado, equipado, a equipe sendo formada, e os projetos gráfico e editorial definidos. A oferta salarial alta impactou o mercado.

Eu fui convidada pelo jornalista Anivaldo Miranda para ser subeditora do Caderno Alagoas (política e economia), que ele iria conduzir. Fui conhecer o empreendimento e fiquei encantada. O editor-geral era o jornalista Stefani Brito.

Para nos acompanhar na editoria, foram contratados os competentes repórteres Rachel Rocha e Hélder Bayma.

Havia muitos jornalistas notáveis, como Gabriel Mousinho, Bernardino Souto Maior, Manoel da Nóbrega, Luiz Pompe, Plínio Lins, Vladimir Calheiros, entre tantos outros, igualmente dos melhores.

Equipe completa, a ordem era fazer o melhor.

Joaldo Cavacante, presidente do Sindicato dos Jornalistas à época do fechamento, em 1992

Joaldo Cavacante, presidente do Sindicato dos Jornalistas à época do fechamento em 1992

Trabalhávamos normalmente, no ritmo comum a qualquer redação, cobrindo os eventos factuais, fazendo reportagens especiais, buscando no fechamento das edições as melhores fotos, as manchetes mais calorosas.

Tínhamos, naquela redação, um espírito de competitividade contagiante. Todas as editorias se esforçavam para assegurar a manchete de Capa, a foto do dia.

Havia um cronograma de horário de fechamento que era rigorosamente cumprido. A gráfica trabalhava a todo vapor para que, nas primeiríssimas horas do dia, o jornal já pudesse estar pronto para ir às ruas.

E aí é que existia o nó.

O jornal não ia às ruas. Não saia daquele prédio, por nada nesse mundo.

Chegava um ou dois exemplares na redação para avaliarmos, compararmos, e até darmos seguimento a um ou outro caso no decorrer do dia.  As máquinas rodavam pouco mais que oito ou dez exemplares diariamente. Nada mais que isso.

Muitas vezes, éramos quatro, cinco, jornalistas a manusear minuciosamente um exemplar.

Olhávamos e tratávamos aquela edição como um tesouro, ansiosos de que pudéssemos compartilhar o nosso trabalho, lá fora, com os leitores, com a sociedade. Em muitas edições, demos “furo” nos demais jornais diários (Jornal de Alagoas, Diário de Alagoas, Gazeta de Alagoas).

E vibrávamos, festejávamos o feito, como se ele também estivesse em bancas de venda, na casa de assinantes.

E mesmo sem o jornal ir às bancas, ninguém se negava a nos dar entrevistas, a falar em off, a fazer denúncias.

Vivíamos uma gestação, uma feliz gestação, onde estávamos sempre aguardando a hora de parir.

Foi um momento ímpar no jornalismo alagoano.

A Tribuna de Alagoas não saia do prédio para não colocar mais lenha na fogueira da discórdia entre Pedro e Fernando Collor.

Pedro não admitia a concorrência, diziam os diretores do jornal de PC. À imprensa nacional, Pedro ameaçava balançar o governo do irmão e levar, junto, Paulo César Farias.

Fizemos o jornal de fevereiro até final de maio, de 1992, quando, finalmente, Pedro Collor venceu. A Tribuna de Alagoas estava sendo fechada, sem nunca, de fato, ter sido aberta. A direção negociou as nossas demissões com o sindicato dos jornalistas, à época presidido por Joaldo Cavalcante.

Em cada um de nós, ficou a sensação de ter vivido um sonho no jornalismo alagoano.

O fato é que, o fechamento da Tribuna de Alagoas não resolveu a pendenga entre Pedro Collor e o irmão Fernando. A coisa tomou um rumo que acabou no impeachment do presidente da República, em várias ações penais contra ele e outros membros do governo, além da prisão de Paulo César Farias acusado de corrupção.

Em 1996, PC retomou o projeto do jornal, porém bem mais modesto nos custos. A Tribuna de Alagoas estava prevista para ser lançada em junho, mas isso só aconteceu em agosto. Em junho, Paulo César Farias foi assassinado. Também, dessa vez, ele não viu o seu jornal nascer.

Com o jornalista Gabriel Mousinho na direção de jornalismo, eu fui editora-geral da Tribuna de Alagoas, de 1996 a 1998, sob a gestão empresarial dos irmãos de Paulo César Farias.

Experiência a ser contada em outros escritos, com certeza.

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*