Uma história do Pescoço

Praça Emílio de Maya com o Restaurante Gracy
Pescoço, Antônio Moreira, Nilson Miranda (de costas) e José Reis no Gracy

Pescoço, Antônio Moreira, Nilson Miranda (de costas) e José Reis, no Restaurante Gracy

Para o garçom Pescoço, do extinto Restaurante Gracy, um dos fregueses mais chatos era um empresário bem-sucedido e arrogante, que, como todo novo-rico, fazia questão de ostentar e demonstrar sua boa condição financeira.

Entrava no restaurante com estardalhaço, sentava nas mesas centrais, pedia os pratos mais caros em voz alta para que todos ouvissem e cometia a heresia de tratar o Pescoço como garçom, como se fosse um desconhecido. Pescoço gostava da intimidade, que lhe permitia fazer o tipo rude que o tornara popular entre os clientes.

Mas, como o tempo é o senhor da vingança, o dito empresário entrou em falência dos seus negócios e deixou de frequentar o Gracy para a alegria do Pescoço.

Passados uns dois anos, o tal cidadão começa a se recuperar e, certa noite, reaparece no famoso restaurante da Praça Emílio de Maya. Entrou discretamente e procurou a mesa mais escondida, nos fundos do salão. Quando Pescoço se aproximou, disse, em voz baixa quase inaudível:

— Pescoço, traz pra mim uma macarronada simples e me ajude com um pãozinho.

Para quem não conheceu o Gracy, a macarronada simples era a mais barata e o prato se reduzia ao macarrão com molho, a famosa “coitadinha”. Quanto ao pão, que era cobrado por fora, dependia do garçom fazer a gentileza de ofertá-lo pão. Vinha fatiado e a pior parte dele, os cotovelos, eram jogados fora por serem duros.

Pescoço, que não era de perdoar, mesmo percebendo a mudança de atitude do antigo freguês, resolveu se vingar das humilhações que sofrera. Sem se afastar da mesa para que todos ouvissem, gritou para o balcão da cozinha:

— Salta uma “coitadinha” e duas cutuvas (cotovelos de pão) para o cidadão aqui, que ele está a perigo.

Nesse dia, teve gente que jurou ter visto um ar de riso no rosto do Pescoço.

4 Comments on Uma história do Pescoço

  1. Fernando Augusto de Araujo jorge // 21 de outubro de 2015 em 05:36 //

    Fui frequentador do Bar Gracy, tinha como proprietária D. Iracy, genitora do amigo Bob Maia, que nos anos sessenta foi sub gerente do Banco Com. Ind. da Paraíba, localizado na rua do Comércio onde funcionou a loja Capitólio Modas. Pescoço, com o fechamento do restaurante trabalhou no Bar Cristal, vizinho ao cine São Luiz. Garçom dos bons.

  2. Fernando Silveira // 21 de outubro de 2015 em 08:11 //

    Grande pescoço. Meu avô, sempre comentava. Maravilha voltar ao tempo. Dizia à turma, que o sucesso era uma loira muito boa.

  3. m. matheus.y@hotmail. com // 21 de outubro de 2015 em 09:38 //

    Estou tentando me lembrar onde ficava o estabelecimento que ele trabalhava. Porque eu lembro dele. Qual é a localidade hoje. Obrigado.

  4. Matheus, ele trabalhava no Restaurante Gracy, na Praça Emílio de Maya, que não existe mais. Foi tomada por barracas e ficava atrás do Cine Ideal. Veja mais aqui: http://www.historiadealagoas.com.br/praca-emilio-de-maya/

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