Tipos populares de Maceió

Levada em Maceió no início do século XX

Rua da Lama em 1908, também foi conhecida por Rua do Governador. Atual Rua Dr. Pontes de Miranda

Félix Lima Júnior

Olô, viva Deus! Era um preto que vivia pelas ruas, há muitos anos, cantando: Olô, viva Deus! Já não é desse mundo. Vez por outra, não sei se por efeitos de um avantajado cálice de caninha, arranjava um cabo de vassoura, que promovia a fuzil, punha-o no ombro e marchando, passava a dar guarda à casa do coronel Aragão, tesoureiro da Secretaria da Fazenda, na Rua do Sol. No seu livro “A Festa dos Martírios”, página 16, Virgílio Guedes relembrou o preto Olô, que eu não conheci.

O negrinho Olô
Cantando,
rodando,
dançando,
fazendo pirueta…
Olô, viva Deus!
Olô… e com seus poderes…
Olô, da soletração…
É de pimenta malagueta…
Olô!…

Lucio Suteriano

Homem de idade avançada, veterano do Paraguai, onde combatera como Voluntário da Pátria, era monarquista de quatro costados e pau d’água habitual. Quando estava de veneta ou influenciado pelo Deus Baco parava numa esquina qualquer e pronunciava, sem que ninguém pedisse ou esperasse, violentos discursos defendendo a monarquia e atacando a República. Terminava gritando: Sou liberal. No Brasil não há soldados suficientes para prender todos os ladrões! Viva o imperador! No seu entusiasmo por D. Pedro II parecia um daqueles barbudos veteranos da Velha Guarda, morrendo em Waterloo, debaixo do fogo dos granadeiros de Wellington e Blucher, vivendo, porém, o pequeno caporal. Faleceu Suteriano na primeira década deste século.

Maria das Dores

Rua Barão de Anadia em 1910

Figura muito conhecida, andava pelas casas de família pedindo vestidos usados, meias, bolsas e especialmente chapéus já a caminho da lata do lixo. Por um chapéu velho, bem enfeitado, dava um quarto ao diabo. Feia como ela só, magra, quase esquelética, puxando uma perna, era um tipo estranho, esquisito, sendo porém, muito calma, amável, bondosa, não se zangando quando a aperreavam. Havia quem, propositadamente, lhe contasse histórias escabrosas, inconvenientes, que ela ouvia pacientemente, pedindo, ao terminar, que a respeitassem, pois era donzela… Quando pedia um níquel e não lhe davam, saia calmamente, respondendo: Deus o proteja. Logo tem.

Cabo Pires

Asilado da Marinha de Guerra, morava na rua do Cravo, em Pajuçara, e de há mito deixou este mundo. Era mentiroso célebre, formando dupla notável com outro loroteiro famoso e seu vizinho: Chico Variedade, carpinteiro de profissão.

Pacífico Pacato Cordeiro Manso

Poeta popular, pelo nome não se perdia… Escrevia uma versalhada incrível, registrando os acontecimentos da cidade, principalmente os que se relacionavam com a política. Mandava imprimir e vender seus folhetos pelas ruas e no Mercado Municipal, que naquela época não havia ainda a tão pitoresca feira de passarinhos… Noivou com uma moça débil mental pertencente a uma distinta família alagoana, não tendo se casado. Morava no Prado e há muito está numa vala comum no cemitério de Nossa Senhora da Piedade.

No Gutemberg de 31 de julho de 1910, Cordeiro Manso publicou a biografia de Pelado, isto é, do afamado curandeiro e cantador Raimundo Pelado, residente em Viçosa, neste Estado:

Preciso narrar ao público,
Quem é Raimundo Pelado,
Este gigante poeta
Que floresce em nosso Estado.
Faz do mundo um paraíso,
Há tempos fez-se preciso,
Seu nome imortalizado.

N’“O Combatente”, terrível pasquim que circulou em Maceió nos anos de 1914 e 1915, publicou de Cordeiro Manso, em 3 de dezembro de 1914, os seguintes versos:

Coisinhas que me dão tête

Um banho pela manhã,
Um sonho de madrugada,
Uma quadrilha animada,
Uma mulher folgazã,
Um cortinado de lã,
Uma roupagem de cor,
Uma viagem a vapor,
Uma mobília decente,
Uma dormida no quente,
Uma palestra de amor!

Um cortinado de lã,
Uma quadrilha animada,
Um sonho de madrugada,
Um banho pela manhã,
Uma mulher folgazã,
Uma viagem a vapor,
Um vestuário de cor,
Uma mobília decente,
Uma dormida no quente,
Uma palestra de amor!

Canivetinho

Faleceu há muitos anos o popular canivetinho. Era maior de 50 anos e vendia bilhetes da Loteria Federal. Conduzia sempre um cacete. Os meninos assoviavam primeiro, e depois gritavam: Canivetinho! Ele fingia não ter ficado zangado, aproximava-se dele e dizia calmamente: Canivetinho é a …
Publicado no jornal Diário de Pernambuco de 31 de agosto de 1952.

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