Teotônio Brandão Vilela, o boiadeiro menestrel

Teotônio Vilela discursa no dia 28 de agosto de 1979, após a votação da Anistia
Família Vilela em 1951

Família Vilela em 1951

Teotônio Brandão Vilela nasceu em Viçosa no dia 28 de maio de 1917, filho de Elias Brandão Vilela e Isabel Brandão Vilela. Entre os dez filhos do casal – foram cinco homens e cinco mulheres -, quem também cumpriu papel importante na história do país foi dom Avelar Brandão Vilela, que foi cardeal primaz do Brasil. Elias Brandão Vilela era um dos sete filhos de José Aprígio Vilela.

No Rio de Janeiro aos 17 anos

No Rio de Janeiro aos 17 anos

Seus primeiros estudos foram com sua mãe ainda no Engenho Mata Verde, mas logo foi para a casa de um tio em Viçosa, onde poderia concluir o primário na escola do professor João Domingues. Teotônio dizia que este professor “muitas vezes trocava o giz do quadro por um charuto e tentava acender o giz. Ele tomava uma cana violenta, mas era um velho adorável.

Com 13 anos, em Maceió, foi aprovado nos exames de admissão para o Liceu Alagoano, mas não teve condições de ficar na capital. A solução que seu pai encontrou foi interná-lo no Colégio Nóbrega em Recife, que era dirigido por padres jesuítas e onde Teotônio passou cinco anos.

Antiga Usina Boa Sorte, em Viçosa. Hoje abriga o Haras Boa Sorte

Antiga Usina Boa Sorte, em Viçosa. Hoje abriga o Haras Boa Sorte

Como tinha a pretensão de ser aviador, convenceu seu pai a enviá-lo para o Rio de Janeiro com o intuito de prestar exames para a Escola Militar, o primeiro passo para chegar à Aeronáutica. No dia do exame, os alunos ficaram enfileirados num pátio embaixo de muito sol. Teotônio teve a infeliz ideia de improvisar com jornais um “chapéu de almirante”. A situação foi mal-entendida, houve um bate-boca e ali mesmo a aeronáutica perdeu um aviador.

Pouco tempo depois Teotônio é reprovado em exame para a Escola Politécnica, onde pretendia cursar engenharia. Nesta época, se aproxima de José Lins do Rego e Aurélio Buarque de Holanda, a quem começa a auxiliar, principalmente na escolha das expressões típicas do Nordeste. Esse ambiente foi o passaporte para a entrada na boemia carioca de corpo inteiro.

Viçosa em 1940. Trecho da Avenida Firmino Maia

Viçosa em 1940. Trecho da Avenida Firmino Maia

Conheceu o Rio de Janeiro de ponta a ponta, chegando a ser diretor da Gafieira Aliança, nas Laranjeiras. “Era o clube da turma do morro que ficava atrás da pensão em que eu morava. A turma do morro descia e nós convivíamos ali, tranquilamente em boa paz”. Essa era a sua vida no final dos anos 30.

De repente resolveu voltar para Alagoas. Não estava satisfeito e não achava que continuar recebendo mesada estivesse correto, mesmo trabalhando para a Prefeitura do Rio de Janeiro. A sua volta sem ter terminado os estudos frustrou seu pai, que não queria que ele trabalhasse na agropecuária. Teotônio insistiu e como era bom boiadeiro, resolveu investir na profissão.

Família de Teotônio Vilela

Família de Teotônio Vilela

“Comprava gado na beira do Rio São Francisco, gado novo, garrote, e trazia para a minha região, que era muito rica em pastagens, e normalmente vendia aos fazendeiros”. Trabalhou por quatro anos nesse negócio, chegando a tanger gado até Feira de Santana, na Bahia.

Com 28 anos de idade, juntou os ganhos com o gado e entrou de sócio na montagem de uma usina. Os outros sócios eram seu pai, seu irmão mais velho e alguns tios. “Passei um ano e meio com medo de perder o que tinha numa aventura, uma indústria que nós não conhecíamos”.

Coordenando o empreendimento, Teotônio teve que tomar empréstimos hipotecando seus bens e dos sócios. Trabalhou muito, mas quatro anos depois a Boa Sorte estava moendo e prosperando, ampliando suas terras.

Entretanto, em 1951, há uma crise no setor e o açúcar cai de preço. Com todas as propriedades hipotecadas, a família pressiona Teotônio a vender a usina. Ele pediu o direito de preferência e levantou mais dinheiro emprestado, hipotecando outros bens e assume integralmente a propriedade da Boa Sorte, que funciona até 1970, quando Teotônio investe na Usina Seresta, nos tabuleiros de Junqueiro.

Em 1948, Teotônio casou-se com Helena Quintela Brandão Vilela, Lenita, com quem teve sete filhos. José Aprígio Vilela, Teotônio Vilela Filho, Rosana Vilela, Maria Helena Vilela, Janice Vilela, Fernanda Vilela e Elias Vilela.

Na política

Julgamento do impeachment de Muniz. Deputados Mário Guimarães, Aroldo Loureiro, Teotônio Vilela, Luiz Coutinho em 13 de setembro de 1957

Julgamento do impeachment de Muniz. Deputados Mário Guimarães, Aroldo Loureiro, Teotônio Vilela, Luiz Coutinho, em 13 de setembro de 1957

Como sua família era adversária histórica dos Góes Monteiro, que controlavam o Partido Social Democrático (PSD), Teotônio não tinha outro caminho a não ser entrar para a UDN. Inicia sua carreira política em 1954, quando se candidata e é eleito deputado estadual.

Foi durante este mandato que aconteceu o fatídico tiroteio na Assembleia Legislativa de Alagoas, no dia 13 de setembro de 1957, quando tentava-se votar o impeachment do governador Muniz Falcão. Teotônio era da bancada de oposição e atuou anteriormente junto ao presidente Juscelino Kubitschek para tentar impedir que a crise entre os poderes estaduais ampliasse a violência existente na política alagoana.

Antônio Gomes de Barros, Teotônio Vilela, Sandoval Caju e Luiz Cavalcante

Antônio Gomes de Barros, Teotônio Vilela, Sandoval Caju e Luiz Cavalcante

Em 1960, Teotônio Vilela era o vice da chapa ao governo que tinha o general Luiz Cavalcante à frente, mas tinha que ser votado separadamente, o que o levou a ter mais votos que o candidato ao governo. Saiu muito fortalecido destas eleições.

Com a renúncia de Jânio Quadros no dia 25 de agosto de 1961, instala-se uma crise política no país, já que o vice, João Goulart, estava na China e a UDN não queria aceitar que ele assumisse. Na famosa reunião da UDN no Palácio Guanabara sobre a posse ou não de Jango, Teotônio se opôs a posição de Carlos Lacerda e defendeu a posse do vice.

Abreu Sodré, Carlos Lacerda e Teotônio Vilela em Maceió, agosto de 1964

Abreu Sodré, Carlos Lacerda e Teotônio Vilela em Maceió, agosto de 1964

Seu argumento era que a posse estava determinada pela Constituição. Teotônio recordou que depois que todos falaram contra a posse de Jango, “eu levantei o meu dedinho e pedi licença para falar. E disse humildemente que era a favor e ia para a rua defender a posse de João Goulart na Presidência da República”. Falou e se retirou.

Após 1964, quando João Goulart foi derrubado por um golpe militar, Teotônio migra para a Arena. Na sua avaliação, a “Revolução” não foi ideológica, mas um movimento político que pregava o “propósito de revitalizar a democracia, que estaria ameaçada por Jango e suas hostes esquerdistas, e caiu imediatamente na vala comum do autoritarismo, da violência, etc, etc”.

Com José Moura Rocha e Marcos Freire, já no MDB

Com José Moura Rocha e Marcos Freire, já no MDB

Nos anos 70, inicia um processo de distanciamento do governo militar. Em 1978, como presidente da comissão mista que apreciou o projeto de anistia enviado ao Congresso Nacional pelo presidente João Figueiredo, percorre as prisões dando voz aos presos políticos e clamando por suas liberdades. É a gota d’água para o rompimento com os militares.

No dia 25 de abril de 1979 filia-se ao MDB e, em seguida, engaja-se na fundação do PMDB. Neste período, consegue impedir uma repressão maior aos trabalhadores do ABC paulista que estavam em greve e se dispunham a mantê-la, mesmo enfrentando as forças da repressão.

Com o afastamento político do governo, logo vieram as perseguições. Em 1981, o projeto de instalação da Destilaria Indiana no município de Saõ Sebastião, que tinha a participação de Teotônio como acionista minoritário, foi vetada pelo BNDE à pedido do general e presidente João Figueiredo.

A decisão do BNDE foi entendida pelo PMDB alagoano como boicote. O então deputado estadual Renan Calheiros reagiu dizendo que “só os irresponsáveis do Planalto poderiam atentar contra Teotônio, contra o Pro-álcool, contra o Estado de Alagoas. Até mesmo o senador Luiz Cavalcante, da base do governo militar, condenou a negativa de investimento no projeto.

Presos políticos recebem a vista de líderes políticos no Frei Caneca

Presos políticos recebem a vista de líderes políticos no Frei Caneca

Em maio de 1982, descobre que tinha nódulos cancerosos no pulmão e no cérebro. Doente, desiste da sua reeleição ao Senado, mas inicia uma das maiores cruzadas políticas da história do país. A doença não o impediu de participar da campanha dos seus correligionários.

Suas últimas forças foram utilizadas para divulgar o Projeto Emergência, que surgiu no início de 1983 e o levou a percorrer o Brasil pregando novos caminhos para o desenvolvimento da nação. Em novembro de 1983, cai em coma em São Paulo.

Em um momento de lucidez, fez dois pedidos aos filhos: morrer em casa e ver a natureza. Morreu em casa, em Maceió, às 16h40 do dia 27 de novembro de 1983, com a janela do quarto aberta e ouvindo o canto de um canário que tinha sido de sua mulher Helena.

Fontes:
Fazedor de História, um depoimento de Teotônio Vilela, Editora Três.
Berra Teotônio, um grito de liberdade no Rio Grande do Sul. Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.

 

Reunião de campanha

Reunião de campanha

Teotônio Vilela e amigos

Teotônio Vilela e amigos

Teotônio e Jorge Amado

Teotônio e Jorge Amado

Teotônio Vilela e Luiz Cavalcante

Teotônio Vilela e Luiz Cavalcante

Teotônio, Arraes e Luiz Cavalcante em 1963

Teotônio, Arraes e Luiz Cavalcante em 1963

O deputado Macelo Cerqueira MDB-RJ) e o senador Teotônio Vilela saindo de visita a uma prisão no Rio de Janeiro em 1979

O deputado Macelo Cerqueira MDB-RJ) e o senador Teotônio Vilela saindo de visita a uma prisão no Rio de Janeiro em 1979

Com Lamenha Filho

Com Lamenha Filho

Com apresença de Marcos Freire, um comício de lançamento do PMDB em Alagoas

Com a presença de Marcos Freire, um comício de lançamento do PMDB em Alagoas

Teotônio Vilela na campanha de 1982

Teotônio Vilela na campanha de 1982

Inauguração da Sucursal da Tribuna de Alagoas em Arapiraca. Teotônio Brandão Vilela e o prefeito de Arapiraca João do Nascimento Silva

Inauguração da Sucursal da Tribuna de Alagoas em Arapiraca. Teotônio Brandão Vilela e o prefeito de Arapiraca João do Nascimento Silva

Com Divaldo Suruagy e Guilherme Palmeira em palestra na CNI-Rio no dia 22 de novembro de 1977

Com Divaldo Suruagy e Guilherme Palmeira em palestra na CNI-Rio no dia 22 de novembro de 1977

Com Paulo Brossard, Ulysses Guimarães e Renan Calheiros

Com Paulo Brossard, Ulysses Guimarães e Renan Calheiros

Recepção no aeroporto de Maceió. Foto de Josival Monteiro

Recepção no aeroporto de Maceió, com José Costa, Bráulio Cavalcante e José Moura Rocha. Foto de Josival Monteiro

Homenagem da Sociedade Alagoana dos Direitos Humanos, com Messias de Souza e Marcelo Lavenère

Homenagem da Sociedade Alagoana dos Direitos Humanos, com Messias de Souza e Marcelo Lavenère. Foto de Plínio Nicácio

O corpo de Teotônio ficou exposto a visitação pública no saguão da Assembleia Legislativa de alagoas

O corpo de Teotônio ficou exposto a visitação pública no saguão da Assembleia Legislativa de Alagoas. Foto de Plínio Nicácio

Foto de Plínio Nicácio

Foto de Plínio Nicácio

Hermes, motorista de Teotônio Vilela, despede-se do menestrel. Foto de Plínio Nicácio

Hermes, motorista de Teotônio Vilela, despede-se do menestrel. Foto de Plínio Nicácio

Enterro de Teotônio na passagem pela Rua do Sol. Foto de Plínio Nicácio

Enterro de Teotônio na passagem pela Rua do Sol. Foto de Plínio Nicácio

1 Comentário on Teotônio Brandão Vilela, o boiadeiro menestrel

  1. Cármen Lúcia Dantas // 29 de julho de 2015 em 06:14 //

    Excelente matéria que muito contribuirá com a memória histórica de Alagoas. A trajetória de Teotônio emociona, pela coragem política, pela vivência com os livros e as ruas, pela oratória e pela inteligência cívica.

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