Sobrinha de Solano Lopez viveu em Maceió

Religioso e soldados brasileiros juntos a civis paraguaios. Foto entre 1869 e 1870
Última foto de Solano Lopez, 1870

Última foto de Solano Lopez, 1870

A história do marechal Francisco Solano Lopez, presidente paraguaio que governou o seu país de 1862 até a sua morte em 1º de março de 1870, quando tinha 42 anos, é muito conhecida, principalmente por ser atribuída a ele a responsabilidade de ter arrastado o Paraguai para um conflito envolvendo o Brasil e a Argentina, com resultados catastróficos.

Entretanto, o que poucos sabem é que uma sobrinha de Solano Lopez viveu e morreu em Alagoas. Petronila Sofia Roldan Wanderley, que por aqui constituiu família, era casada com o capitão Teodósio Mauricio Wanderley, com quem teve dois filhos: o médico Dr. Hebreliano Maurício Wanderley e D. Belona Emília Wanderley.

A sua morte foi anunciada na Gazeta de Alagoas de 9 de novembro de 1948 com os seguintes dizeres: “Finou-se, ontem, em sua residência, à rua Santana nº 113, distrito da Levada, a exma. Sra. D. Petronila Sofia Roldan Wanderley”. A nota continuava informando que ela tinha 92 anos, que era viúva e deixava filhos e netos.

A longa história de como a sobrinha de Solano Lopez veio parar em Alagoas começa no início do ano de 1865, quando o imperador D. Pedro II cria as unidades militares denominadas de Voluntários da Pátria como forma de reforçar o pequeno Exército que o país dispunha para enfrentar o Paraguai no conflito iniciado por Solano Lopez no mês anterior.

Prisioneiros paraguaios fotografados durante a ocupação de Assunção, capital do país

Prisioneiros paraguaios fotografados durante a ocupação de Assunção, capital do país

Em Passo de Camaragibe, o jovem Teodósio Maurício Wanderley, com 17 anos, resolve dar a sua contribuição participando do conflito. Era filho de Antônio Maurício Wanderley, tenente da Guarda Nacional e tabelião público do município. Temendo que sua mãe, d. Josefa Francisca Acioli Wanderley, não autorizasse a sua partida, Teodósio fugiu para Maceió onde sentou praça e foi promovido a 2º cadete em 15 de março de 1865.

O jovem soldado embarcou para o teatro da guerra incluído no 38º Batalhão de Voluntários da Pátria, sob o comando do major de artilharia José Clarindo de Queiroz, que faleceu marechal. Após cinco anos participando de vários combates, o condecorado e já 1º tenente Teodósio vê a guerra chegar ao final incluído no 10º Batalhão de Infantaria, encarregado de ficar na capital paraguaia, Assunção, por mais algum tempo.

Foi durante esse período de ocupação que, durante um baile, conheceu Petronila Sofia Roldan Garcia, nascida em 1º de agosto de 1857 e filha do então coronel Dom Venâncio Lopez, ministro da Guerra e da Marinha do governo do seu irmão. Em pouco tempo ficaram noivos.

Dom Venâncio Lopez, pai de Petronila

Dom Venâncio Lopez, pai de Petronila

Petronila tinha perdido seu pai em 1869, quando tinha 11 anos. Solano Lopez, suspeitando que existia uma conspiração para afastá-lo do poder, mandou fuzilar o próprio irmão Benigno, o bispo Palacios, o cunhado general Vicente Barrios, o ministro do exterior Borges, o cônsul português Leite Pereira, o armador italiano Fidanza e três senhoras da alta sociedade.

Venâncio, pai de Petronila, também foi atingido pela desconfiança de Solano e teve sua prisão decretada. Foi barbaramente maltratado por ordem do irmão até a sua morte durante uma caminhada forçada na estrada de Chiriguêlo.

A orfandade paterna de Petronila facilitou o seu casamento com Teodósio, que aconteceu no dia 12 de outubro de 1874, na Igreja de São Roque, em Assuncion. Petronila tinha então 17 anos e Teodósio 26 anos. No ano seguinte, no dia 15 de abril, o casal desembarcou no Rio de Janeiro, onde Teodósio iniciaria o curso na Escola Militar do Realengo. Oito dias após a chegada à capital do país, nasceu Hebreliano Maurício Wanderley.

Hebreliano formou-se em Medicina na Bahia e participou do corpo de saúde da Guerra de Canudos. Em Alagoas, foi médico da Polícia Militar e aposentou-se como funcionário da Saúde Pública Estadual. Não há registro de quando a família foi morar em Maceió.

Os corpos de Petronila Sofia Roldan Wanderley e Teodósio Maurício Wanderley repousam no Cemitério de Nossa Senhora da Piedade, em Maceió.

Prisioneiros paraguaios em 1866

Prisioneiros paraguaios em 1866

Essa história de amor, entretanto, não foi única. No período imediatamente posterior à Guerra do Paraguai foram registrados inúmeros casos de relações estabelecidas entre militares brasileiros e mulheres paraguaias.

Gustavo Barroso, ao escrever sobre o episódio para a revista O Cruzeiro, confirma esses fatos. “Poderiam citar-se às centenas os tenentes e capitães que casaram com senhoras paraguaias. Alguns deles atingiram o generalato e essas damas, assim, chegaram também à primeira camada de nossa sociedade no fim do Império e no começo da República”.

E continua. “Acima dos ódios gerados na luta e do sangue derramado em rudes pelejas, o amor espalhou suas bênçãos e fez com que os males fossem esquecidos e as penas olvidadas no seio do afeto e da compreensão“.

Fonte: Reportagem de Félix Lima Júnior para o Diário de Pernambuco de 23 de julho de 1950; e Texto de Gustavo Barroso para a revista O Cruzeiro de 9 de agosto de 1953.

2 Comments on Sobrinha de Solano Lopez viveu em Maceió

  1. Excelente contribuição. Parabéns!

  2. Delma Conceição de Lima // 15 de novembro de 2015 em 12:05 //

    Que maravilha! até uma simples informação como o nome que deram a uma das principais ruas da zona sul do Rio de Janeiro; “Voluntários da Pátria”, que foi dado às unidades militares, por D. Pedro II, para reforçar o pequeno exército da época em 1865.

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