São Miguel dos Campos, a trincheira da República

Vista parcial de São Miguel dos campos nos anos 50
Antiga feira em São Miguel dos Campos

Antiga feira em São Miguel dos Campos

O município de São Miguel dos Campos foi, pode-se afirmar, um dos primeiros do Estado de Alagoas, e quiçá de quase todo o Brasil, que teve a visita da gente portuguesa, pois nele, no ano seguinte ao do descobrimento, a primeira expedição enviada por El-Rei Dom Manoel, o Venturoso, comandada por Gonçalves Coelho e tendo como piloto Américo Vespúcio, transpôs a barra do rio São Miguel, que recebeu este nome por se ter dado o fato no dia 29 de setembro de 1501, consagrado pela Igreja Católica ao Arcanjo São Miguel.

No decorrer dos tempos, muitos dos portugueses que vinham para o Brasil em busca de fortuna foram atraídos pela fertilidade das terras adjacentes ao rio São Miguel, dedicando-se à agricultura, principalmente da mandioca, milho, arroz e cana-de-açúcar, e à exploração das riquezas florestais, especialmente do pau-brasil, que existia em abundância. A fertilidade dos terrenos era tão prodigiosa que um diretor holandês, em relatório de outubro de 1643, foi levado a escrever que “eram campos tidos e reconhecidos como os mais ricos pastos de todo o Brasil”.

Matriz de Nossa Senhora do Ó

Matriz de Nossa Senhora do Ó

É possível que no início os exploradores costumassem desembarcar no lugar denominado Roteio, que dizem tratar-se de uma corruptela de Roteiro, seguindo daí por uma estrada por eles aberta, e muito frequentada antigamente, para os diversos pontos do município, estabelecendo-se à margem direita do rio São Miguel. A margem esquerda foi também sendo habitada, abrindo-se caminhos na mata virgem para as comunicações com a vila de Madalena, depois cidade de Alagoas, e atual Marechal Deodoro.

Quer por uma, quer por outra margem, a exploração foi subindo o rio até as suas cabeceiras, nas terras do atual município de Anadia, então denominado Campos dos Arrozais de Inhauns. Pela ligação que existia entre os dois municípios, que nesse tempo não estavam ao menos delineados, ao nome de São Miguel foi acrescentada a denominação restritiva “dos Campos” que ainda conserva.

Praça Joaquim Távora em São Miguel dos Campos

Praça Joaquim Távora em São Miguel dos Campos

Não se pode precisar a época exata da formação do núcleo que se tornou povoado, vila e atual cidade de São Miguel dos Campos. Supõe-se, no entanto, que é tão velho quanto a vila de Madalena (Marechal Deodoro). Sabe-se que quando os holandeses invadiram o Brasil já encontraram muito povoada esta zona, havendo diversos estabelecimentos agrícolas às margens do rio (denominado “Si-nimby” pelos holandeses, conforme consta de mapas e plantas por eles levantados em 1645), notadamente as propriedades Sinimbu (então Sinimby) e Sebastião Ferreira.

O engenho Sinimbu foi provavelmente o que muitos anos depois veio a pertencer ao capitão-de-ordenanças Manoel Vieira Dantas e sua esposa D. Ana Maria José Lins, progenitores de João Lins Vieira Cansanção do Sinimbu, visconde de Sinimbu.

Rua Barão de Jaraguá em São Miguel dos Campos

Rua Barão de Jaraguá em São Miguel dos Campos

No desenvolvimento e progresso, nas glórias e sofrimentos pelos quais passou Alagoas, ao povo de São Miguel dos Campos coube sempre parte concomitante. Na devastação holandesa, durante o largo período em que esses inimigos estiveram assenhoreados de diversas localidades do território alagoano, foram os miguelenses vítimas de espoliações em suas fazendas e propriedades.

Sebastião Ferreira, proprietário das terras onde está hoje edificada a fábrica de tecidos pertencente à Companhia de Fiação e Tecidos São Miguel, foi, em 1639, juntamente com Manoel Pinto e o Alcaide-mor da vila de Madalena, Gabriel Soares da Cunha, barbaramente martirizado. Os holandeses, no intuito de apossarem-se dos bens que eles possuíam, depois de maltratá-los, queimaram-lhes as plantas dos pés, o que resultou ficarem suas vítimas aleijadas, salvando as vidas à custa de grande resgate em dinheiro. O lugar de sua residência passou a ser chamado Sebastião Ferreira, até hoje conservado.

Povo idealista associou-se sempre aos levantes em favor da liberdade da Pátria. Em 1817, tomou parte na revolução republicana de Pernambuco, cuja ideia principal era a separação e independência do Brasil de Portugal. Logo que em Pernambuco rebentou a revolta, o capitão Manuel Vieira Dantas e seu filho Manoel Duarte Ferreira Ferro aderiram ao movimento.

Rua João Pessoa em São Miguel dos Campos

Rua João Pessoa em São Miguel dos Campos

O mais forte esteio da revolução nas Alagoas foi sem dúvida D. Ana Lins, esposa do primeiro e mãe do segundo. Fez do seu engenho Sinimbu o grande centro de combate às forças régias. A cavalo, de engenho em engenho, vencendo léguas sem desânimo, encorajou os receosos e convenceu os descrentes; angariou adeptos e aos escravos prometeu alforria para que pegassem em armas como homens livres.

Vencida a resistência republicana pela atividade reacionária do conde dos Arcos, e nas Alagoas, em particular, pela reação do Ouvidor Batalha, não perdeu a senhora do Sinimbu sua crença republicana. Nem ela, nem o marido. Não arrefeceu seu idealismo diante da reação surgida. Ei-la em 1824, ao lado do marido e dos dois filhos, Francisco Frederico Vieira da Rocha, 2º tenente de artilharia e capitão Manoel Duarte Ferreira Ferro, o futuro Barão de Jequiá, com grandeza, à frente dos rebeldes alagoanos.

A revolução proclamou a república, sob o nome de Confederação do Equador. Vieira Dantas concentrou-se em São Miguel dos Campos, onde houve o terceiro e violentíssimo combate verificado em Alagoas. Vieira Dantas foi preso, juntamente com seu filho Frederico. No engenho D. Ana Lins levantou barracas da mais feroz resistência, concentrando os últimos fiéis à revolução.

Trecho das ruas Benjamin Constant e João Pessoa em São Miguel dos Campos

Trecho das ruas Benjamin Constant e João Pessoa em São Miguel dos Campos

Na casa-grande do Sinimbu, que Craveiro Costa chamou de “essa trincheira da República“, combateram os últimos rebeldes até terminar a pólvora e acabar-se o chumbo. A senhora do engenho dirige a resistência; assiste ao incêndio dos seus canaviais e das casas dos moradores, pelas tropas legais. Nada, porém, lhe quebrava a fibra. Quando as forças da legalidade entraram na casa-grande, “já não havia homens na última trincheira da República em Alagoas”.

Ana Lins garantiu a evasão de sua gente e enfrentou a prisão, a que foi acompanhada, por pedido por seu filho João, então com 14 anos, e que seria o visconde de Sinimbu. Manoel Vieira Ferro e Frederico procuraram as matas como refúgio. Ferro escapou à sanha inimiga; mas os outros dois foram presos e levados ao cárcere do Convento do Carmo, no Recife.

Foram condenados à morte, pena que depois foi comutada em degredo para as inóspitas margens do rio Negro, habitadas unicamente por índios antropófagos. Ferro, com coragem inaudita, conseguiu voltar ao Recife, onde deu escapula aos seus, voltando à seguridade primitiva. D. Ana Lins, após a anistia, assumiu o encargo de restaurar sua propriedade. E quando seu marido regressou, ao lar, livre pela fuga da cadeia e pela anistia concedida, já encontrou o Sinimbu em fase de plena restauração, reingressando na sua importância de antes.

 Grupo Escolar Visconde de Sinimbu na praça Cristo Rei em São Miguel dos Campos

Grupo Escolar Visconde de Sinimbu na praça Cristo Rei em São Miguel dos Campos

Em 1839, quando o Presidente da Província, Doutor Agostinho da Silva Neves, recebeu ordens para mudar a tesouraria geral de Alagoas (Marechal Deodoro) para Maceió, o Dr. João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu, vice-Presidente da Província, com habilidade extraordinária, assumiu a Presidência em Maceió e conseguiu repor no governo o Dr. Agostinho da Silva Neves, e para garantir-se contra qualquer surpresa dos amotinados reuniu forças em São Miguel dos Campos e Atalaia, enquanto chegavam reforços requisitados às Províncias da Bahia e Pernambuco.

Por essa época, São Miguel dos Campos apresentava considerável desenvolvimento e que perdurou até enquanto Alagoas era a capital da Província. Mantinha relações de comércio com as praças de Maceió, do Recife e da Bahia por meio de pequenas embarcações que sulcavam frequentemente a barra do rio, subindo muitas delas, as de menor calado, até ao porto da povoação, donde saíam com carregamento de açúcar, madeira, algodão, fumo e outros produtos, não só do município como de Anadia, Palmeira dos índios e outras partes do sertão.

Na sedição de 1844, conhecida como guerra dos Lisos e Cabeludos, e uma das mais curiosas existentes nas Alagoas, pela circunstância particular de terem os rebeldes entregue o Governo vitorioso ao Presidente deposto, muitos miguelenses tomaram parte ativa, sendo a vila teatro de exaltação e desvarios preparados por vários acontecimentos políticos anteriores, formando a parte mais triste da história de São Miguel dos Campos.

Companhia de Fiação e Tecidos São Miguel, em São Miguel dos Campos

Companhia de Fiação e Tecidos São Miguel, em São Miguel dos Campos

O Dr. José Tavares Bastos, que estivera à frente do movimento contra a mudança do cofre para Maceió, não se esqueceu da intervenção do Dr. João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu, que fez abortar a revolução de Alagoas. Movimentou uma campanha pelo jornal “Alagoano”, dizendo que a família Sinimbu queria dominar a Província, fazendo eleger dois irmãos em detrimento das demais famílias. Conseguiu, assim, invadir a capital com coluna de revoltosos, prendendo Manoel Duarte Ferreira Ferro e outros. O Presidente, não tendo forças para reagir, retirou-se para bordo do iate Caçador.

Depois de ligeiro combate, os revoltosos apossaram-se da capital e enviaram um emissário ao Presidente, convidando-o a assumir o Governo, nas condições de conceder anistia e eleger o Dr. José Tavares Bastos e Francisco Joaquim. O Presidente prometeu anistia e os revoltosos retiraram-se da capital. Invadiram-na posteriormente, mas tendo o Governo recebido reforços, bateu os revoltosos.

Francisco Joaquim conseguiu chegar ao Rio de Janeiro, onde seu irmão, senador Antônio Luiz Dantas de Barros Leite, obteve do Gabinete, não obstante ser liberal, a anistia dos Lisos, revoltosos e conservadores, e a mudança do Presidente.

Barra do Taboado em 1957

Barra do Taboado em 1957. Hoje o Riacho do Taboado é fronteira entre Jequiá da Praia e Roteiro

A mudança da capital para Maceió, os movimentos políticos que se seguiram, a luta fratricida e sanguinária por que passou o município com os acontecimentos de 1844 e o desenvolvimento da povoação do Pilar, que atraiu a si grande parte do centro que anteriormente se encaminhava para São Miguel dos Campos, diminuíram consideravelmente a atividade comercial, e consequentemente a prosperidade da comuna.

No dia 3 de outubro de 1930, rompeu a revolução. Os Governos estaduais de todo o Norte, que não tinham o apoio do povo, caíram quase sem luta, e no dia 12 de outubro era instalado em São Miguel dos Campos o Governo revolucionário. Em 1932, quando irrompeu a revolução de São Paulo, São Miguel dos Campos deu um grande contingente para a defesa do Governo revolucionário.

Formação Administrativa

Elevado à categoria de vila com a denominação de São Miguel dos Campos, pelo decreto de 10 de julho de 1832, desmembrado do município de Alagoas. Sede na antiga vila de São Miguel dos Campos. Instalada em 14 de janeiro de 1833.

Elevado à condição de cidade com a denominação de São Miguel dos Campos, pela lei provincial nº 423, de 18 de junho de 1864.

Pelo decreto estadual nº 100, de 24 de março de 1891, é criado o distrito de Barra de São Miguel e anexado ao município de São Miguel dos Campos.

Em divisão administrativa referente ao de 1911, o município e aparece constituído de cinco distritos: São Miguel dos Campos, Barra de São Miguel, Campo Alegre do Mosquito, Boca da Mata e Jequiá da Praia.

Em divisão administrativa referente ao ano de 1933, o município aparece constituído do distrito sede. Não figurando os distritos da divisão de 1911.

Em divisão territorial datada de 31 de dezembro de 1936, o município volta a ser constituído de quatro distritos: São Miguel de Campos, Barra de São Miguel, Boca da Mata e Campo Alegre. Não figurando o distrito de Jequiá da Praia.

Em divisão territorial datada de 31 de dezembro de 1937, o município está grafado São Miguel dos Campos é constituído dos mesmos municípios da divisão anterior.

No quadro fixado para vigorar no período de 1939-1943, o município é constituído de quatro distritos: São Miguel de Campos, Barra de São Miguel, Boca da Mata e Campo Alegre.

Pelo decreto lei estadual nº 2909, de 30-12-1943, o distrito de Campo Alegre passou a denominar-se Mosquito.

No quadro fixado para vigorar no período de 1944-1948, o município já grafado São Miguel os Campos é constituído de quatro distritos: São Miguel dos Campos, Barra de São Miguel, Boca da Mata e Mosquito ex-Campo Alegre.

Assim permanecendo em divisão territorial datada de 1º de julho de 1950.

Pela lei nº 1637, de 05 de agosto de 1952, o distrito de Mosquito voltou a denominar-se Campo Alegre.

Em divisão territorial datada de 1º de julho de 1955, o município é constituído de quatro distritos: São Miguel de Campos, Barra de São Miguel, Boca da Mata e Campo Alegre ex-Mosquito.

Pela lei estadual nº 2085, de 26 de dezembro de 1957, desmembra do município de São Miguel dos Campos o distrito de Boca da Mata. Elevado à categoria de município.

Pela lei estadual nº 2086, de 26 de dezembro de 1957, desmembra do município de São Miguel dos Campos o distrito de Campo Alegre. Elevado à categoria de município.

Pelo Acórdão do Superior Tribunal Federal, de 18 de agosto de 1958, (representação nº 538), São extintos os municípios de Campo Alegre e Boca da Mata, sendo seu território anexado ao município de São Miguel dos Campos, como simples distritos.

Pela lei estadual nº 246, de 11 de novembro de 1958, desmembra do município de São Miguel dos Campos o distrito de Boca da Mata. Elevado novamente à categoria de município.

Pela lei estadual nº 2241, de 08 de junho de 1960, desmembra do município de São Miguel dos Campos o distrito de Campo Alegre. Elevado novamente à categoria de município.

Em divisão territorial datada de 1º de julho de 1960, o município é constituído de dois distritos: São Miguel dos Campos e Barra de São Miguel.

Pela lei estadual nº 2612, de 02 de julho de 1963, desmembra do município de São Miguel dos Campos o distrito de Barra de São Miguel. Elevado à categoria de município.

Em divisão territorial datada de 31 de dezembro de 1963, o município é constituído do distrito sede.

Jequiá da Praia é elevado à categoria de município e distrito pelo Art. 41, inciso I, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, da Constituição Estadual de 05 de outubro de 1989, confirmado pela lei estadual nº 5675, de 03 de fevereiro de 1995, que define os seus limites, desmembrado de São Miguel dos Campos e Coruripe. A sede do novo município é o distrito de Jequiá da Praia, ex-povoado de São Miguel. Foi instalado em 1º de janeiro de 2001.

Fonte: IBGE

1 Comentário on São Miguel dos Campos, a trincheira da República

  1. Eduardo Jorge // 30 de setembro de 2015 em 11:36 //

    Parte da minha família é de São Miguel dos Campos, inclusive eu que, segundo meu saudoso e querido pai, fui forjado (fabricado)(kkk ali; mas vim nascer em Maceió. E por isso trago um grande carinho por essa terra.

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