São José da Laje e a tromba d’água de 1969

A cidade de São José da Laje foi parcialmente destruída pela tromba d'água de 1969
Entulhos na rua em São José da Lage após a cheia de 1969

Entulhos na rua em São José da Lage após a cheia de 1969

Severino Francisco de Araújo acordou com o filho recém-nascido chorando. Olhou o relógio viu que passava da meia-noite do dia 14 de março de 1969. O comerciante da cidade de São José da Laje, em Alagoas, ainda estava se levantando quando ouviu gritos de uma mulher que corria assustada avisando a todos que o rio tinha transbordado e que vinha uma enchente.

Padre Severino Brás, pároco local na época da tragédia, em entrevista ao Diário de Pernambuco lembrou dos detalhes da catástrofe, mas com horário de início diferente. “Tudo começou no início da tarde, com simples aviso de que as águas do Canhoto estavam crescendo de volume. A população não se alarmou, pois isso já era rotina. As chuvas aqui caíram normalmente durante todo o dia. Ainda celebrei o novenário de São José, nosso padroeiro. Às 3 horas e 15 minutos da madrugada, precipitou-se a tragédia e cinco minutos após a cidade estava devastada e meus fiéis apavorados”.

Foi o próprio padre Brás quem deu o alarme fazendo soar os sinos da nova Matriz. Ele lembra que após tocar os sinos, atravessou a rua correndo para sua residência e não conseguiu mais voltar à Matriz. De lá viu desabar a torre da antiga igreja.

São José da Lage submersa em 1969

São José da Laje submersa em 1969

Há ainda o registro de que o primeiro aviso foi dado por rapaz que trabalhava na rede ferroviária. Ele recebeu um telefonema do chefe da seção da Usina Serra Grande avisando do rompimento da barragem, fato que provocou uma tromba d’água de aproximadamente 2,5 metros de altura.

Em pânico, os moradores subiam às cumeeiras das casas na tentativa de se salvarem. Alguns escaparam, mas a maioria foi arrastada pela violenta correnteza que sucedeu à tromba d’água. Só pela manhã é que a fúria das águas diminuiu.

O Diário de Pernambuco de 16 de março assim descreveu São José da Laje vista de um avião do Aeroclube de Pernambuco: “Ali, às dez horas de ontem, as águas já haviam baixado, mas a marca da tragédia permanecia bem viva. Ruas de casebres completamente destruídas, pontes danificadas. Uma barra marrom indicava nas casas de alvenaria a impressionante altura atingida pelas águas. Filas de flagelados postavam-se ao rés das estradas ao que parecia aguardando socorro. Carros de boi transportando móveis e gêneros”.

O Diário da Noite, do Rio de Janeiro estampou a seguinte manchete para informar sobre a tragédia: Cadáveres boiam nas ruas.

Naquela mesma noite caíram chuvas pesadas em Pernambuco, Paraíba e Ceará. No Vale do Mundaú foram atingidas as localidades de Barra do Canhoto, em Pernambuco, e São José da Laje, Rocha Cavalcante, Santana do Mundaú, União dos Palmares, Branquinha, Murici, Messias, Rio Largo, Satuba e Maceió.

Sobreviventes procuram seus bens entre os entulhos

Sobreviventes procuram seus pertences entre os entulhos

As águas vieram pelo Rio Canhoto, passaram em São José da Laje e um pouco abaixo recebeu as águas do Rio Inhaúma e foi se juntar ao Rio Mundaú em União dos Palmares, compondo um imenso volume d’água que veio provocando destruição até a Lagoa Mundaú, em Maceió, que sofreu inundações no bairro do Trapiche da Barra.

Os técnicos avaliaram na época que o volume de água de 1969 era inferior ao da cheia de 1962. Os danos teriam sido ampliados por causa da destruição da barragem da Usina Serra Grande, que provocou a tromba d’água, arrasando a cidade e a própria usina, que era considerada a segunda maior de Alagoas e sofreu perdas materiais superiores a 4 milhões de cruzeiros novos. Só de açúcar essa perda foi de 100 mil sacas.

Mas as maiores perdas foram mesmo de vidas humanas. Até hoje não se sabe com precisão a quantidades de mortos daquela cheia. O levantamento do número de corpos encontrados ultrapassa os 400, mas pode ter sido maior.

São José da Laje, que na época tinha uma população de 20 mil habitantes, festejava seu padroeiro. A cidade recebia inúmeros visitantes nesse período, que se hospedavam nas casas de parentes. Isso aumentou o número de vítimas e dificultou a identificação dos desaparecidos.

Mais de 800 casas foram destruídas nas cidades do Vale do Mundaú

Mais de 800 casas foram destruídas nas cidades do Vale do Mundaú

No dia 20 de março, o secretário de Segurança de Alagoas, coronel Adauto Gomes Barbosa, informou à imprensa os números dos mortos até aquela data: União dos Palmares, 129; São José da Laje, 114; Murici, 3 e Branquinha, 2. Mais de 8 mil desabrigados foram atendidos pelas equipes de socorro. Muitos dos corpos encontrados nos municípios que ficavam rio abaixo vieram de São José da Laje. No dia 5 de abril esse número foi atualizado para 304 mortos no Estado de Alagoas.

A cheia destruiu aproximadamente 800 casas na região, a maioria em São José da Laje. O prefeito de então era Oscar Alves de Andrade e o governado do Estado estava sob o comando de Lamenha Filho, que trataram de mobilizar a ajuda para os atingidos.

Equipes da Polícia Militar foram deslocadas para os locais atingidos e logo começaram a chegar suprimentos e água, além de equipes médicas. Uma campanha de vacinação em massa foi iniciada imediatamente.

Edécio Lopes, em seu livro Vaias e Aplausos, dedica um capítulo ao episódio. Ele narra que as primeiras notícias sobre a cheia vieram de União dos Palmares por meio de um telefonema de Rubens Holanda no começo da manhã. Somente às 8h é que uma professora de São José da Laje entrou nos estúdios da Rádio Gazeta, desesperada, anunciando que a tragédia acontecia em seu município e que o que acontecia em União dos Palmares era consequência.

A reconstrução da cidade, em outro local, durou mias de 10 anos

A reconstrução da cidade, em outro local, durou mais de 10 anos

Com as comunicações por telefone interrompidas, as informações sobre São José da Laje passaram a chegar em Maceió por meio do rádio amador Moacir J. Santos, que mantinha no local contato com um helicóptero que sobrevoava os destroços.

Edécio Lopes revela que foi Marcelo Barros quem se deslocou com uma equipe para montar uma estrutura de rádio no município de um serviço de rádio para manter a capital informada sobre os acontecimentos no local da tragédia.

No livro, Edécio critica as providências governamentais e faz uma denúncia: “O Brasil inteiro e, ao que me parece, parte do mundo, mandou socorro para os sobreviventes. Infelizmente, houve tanto desvio de material, aconteceram tantos fatos escabrosos que nem vale a pena lembrar porque, também não seria o caso”.

Em abril de 1969, um plano coordenado pela Sudene foi apresentado ao Governo do Estado para a reconstrução da cidade. Os investimentos seriam na ordem de NCr$ 1 milhão, oriundo de crédito aberto pelo presidente da República por meio do Ministério do Interior. A primeira parcela no valor de NCr4 402 mil foi liberada no início de abril. A nova cidade foi planejada para ser construída em uma área mais elevada. A reconstrução durou mais de 10 anos.

7 Comments on São José da Laje e a tromba d’água de 1969

  1. edvaldo pereira silva // 25 de janeiro de 2017 em 21:17 //

    Sou serra grandes e Lajense de corpo e alma,quando leio estas parabolas eu sinto a perda de todos os familiares e me orgulho muito desta terra querida!

  2. crutiane batista de araujo // 8 de fevereiro de 2017 em 22:37 //

    Nossa! A minha mãe é uma das sobreviventes desta tragédia e ela me contou essa história. Ela perdeu quase toda família que estavam comemorando a festa do padroeiro da cidade em um parque. Ela sobreviveu graças primeiramente a Deus e a uma roda gigante. Meu avô e um tio sobreviveram pq ñ foram a essa festa mais o resto da família infelizmente morreu. Muito triste.

  3. Quem acordou minha família, foi eu, me acordei para ir ao banheiro, a casa estava alagada, gritei mamãe a caixa de água estourou, quando meu cunhado ouviu meus grito, pulou da cama e ouviu o barulho, o mesmo abriu a porta e água vinha derrubando tudo. Às vezes fecho os olhos e vejo àquela cena horrível. Ele fechou a porta e escorou com a máquina de costura e o sofá, saímos por trás, já tinha água por todo canto, subimos em uma escada, ficamos no telhado da casa vizinha até o dia amanhecer. Fomos puxado por cordas. Um detalhe, quando abrimos a porta tínhamos vários vizinhos aos gritos, todos entram na minha casa e ficaram no telhado. O restante da madrugada só ouvíamos os gritos de socorro, quando amanheceu a tristeza foi grande. Tivemos que lidar com a tristeza de perder familiares, amigos íntimos, conhecidos etc. 14.03 de 1969, foi uma data que deixou sequelas até hoje em minha vida.

  4. Ivanise Rodrigues de Oliveira // 28 de maio de 2017 em 12:59 //

    Um tia de minha mãe(tia Chiquinha),
    primos e primas residiam em São José da Lage e, graças ao Bom Deus,
    todos se salvaram subindo em cima de mesa, de telhados. Mas, um fato que chamou atenção, foi o de D. Zefinha, madrinha de uma das filhas de Tia Chiquinha, com mais de oitenta anos, que morava na mesma casa, ter sido encontrada com vida, ilhada em cima de uma pequena mesa rezando o Terço. Todos consideraram que fora um milagre por intercessão de Nossa Senhora. Nesta época eu tinha dez anos e morava em Maceió como até hoje.

  5. Reginaldo Lins // 28 de maio de 2017 em 19:36 //

    A Laje sempre nas manchetes.

  6. Ana Luiza // 29 de maio de 2017 em 08:54 //

    Muito triste, toda essa tragédia… Marluce Ferreira de Carvalho, você é a irmã da Tania, da Salete, filha de D. Anita? Sou Ana, filha da D. Rosinha. A Salete morava na Pajuçara na mesma rua . Como você está? Se for voce, quanto tempo que não vejo vocês é também sem noticias. Você tem face? Saudades de todos. Um grande abraço#

  7. jose firmino bastos // 4 de junho de 2017 em 09:10 //

    Nesta época eu trabalhava na trasportadora estrela do norte. Na rua Buarque de Macedo. Em frente a estação ferroviária em Maceió e fazia cobrança naquela cidade e conhecia muitos comerciantes

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*