Rompendo os laços

Historiadores, em 1988, divergiam sobre participação popular na emancipação de Alagoas

Fuzilamento do Padre Roma
Revoltosos no Campo das Princesas em Recife durante a Revolução Pernambucana em 1817.

Revoltosos no Campo das Princesas em Recife durante a Revolução Pernambucana em 1817

“O padre Roma atravessa Alagoas, aturdida pela novidade sensacional, como um meteoro, lançando fagulhas revolucionárias com os panfletos, proclamações e decretos que espalhou profusamente. E depois de confabular com Vitorino Borges da Fonseca, comandante das armas, lá se foi, numa jangada arranjada precipitadamente em Maceió, rumo à Bahia, às garras do terrível Conde dos Arcos“. Este é o relato primoroso do historiador Craveiro Costa, num ensaio publicado no “Jornal de Alagoas” em 16 de setembro de 1923, trazendo à tona um dos momentos mais dramáticos da Revolução Pernambucana de 1817 que culminou na Emancipação Política de Alagoas, há 171 anos.

Moacir Santana: "O povo não teve nenhuma participação"

Moacir Santana: “O povo não teve nenhuma participação”

O desfecho desse episódio caracteriza o clima de efervescência política da época. “O padre Roma fora fuzilado ao quarto dia de sua chegada à Bahia… A comarca toda já sabia do fuzilamento, da concentração de forças legais em Vila Nova, do bloqueio de Recife, das reuniões de elementos militares em Maceió, Porto de Pedras e outros lugares… E toda gente logo percebeu que o ato do ouvidor, declarando a comarca separada de Pernambuco, judiciária e administrativamente seria a autonomia que todos desejavam ardentemente… Desaderiram todos, ou quase todos à Revolução”.

E dias depois de sufocada a rebelião dos nativistas pernambucanos, como penalização ou não ao vizinho Estado, o Imperador decretou a independência política de Alagoas. Para Craveiro Costa “um fato natural, infugível, e dar-se-ia com a revolução de 6 de março ou sem ela”. Outros historiadores culpam os conterrâneos de conseguirem a emancipação através de delações e combates diretos aos insurretos: “a Emancipação foi um desejo de Dom João Sexto de enfraquecer Pernambuco, amesquinhando-lhe a vastidão territorial e querendo também galardoar os serviços prestados por Alagoas na debelação do movimento de 1817″, afirma no livro “Esboço da História de Alagoas” o historiador Moreno Brandão.

Alagoas emancipada

Medeiros Neto: "O povo levantava suas vozes"

Medeiros Neto: “O povo levantava suas vozes”

Passados os episódios e assinada a decretação da independência, que dizia em um de seus trechos que “em benefício geral do Estado, em particular dos seus habitantes, e da minha real fazenda”, Alagoas tem seu primeiro governante, Sebastião Francisco de Mello Póvoas, que pegou o Estado como uma simples comarca. Neste tempo contava com cem mil habitantes, duzentos engenhos, próspera vida agrícola, onde prosperavam culturas de algodão, fumo, mandioca e vários cereais. Foi talvez por esse desenvolvimento, que outro historiador, Jaime de Altavila, explicou de maneira diferente a emancipação. “A desligação política das Alagoas, de Pernambuco, foi, pois, o resultado de um fator econômico que se impunha à Coroa, e não obra de agraciamento à Comarca”.

Cientistas e historiadores mais contemporâneos, como o professor Medeiros Neto, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, ressalta a participação popular na emancipação. “O povo levantava suas vozes e pedia ao Rei que lhe desse a separação da Capitania de Pernambuco. Atendendo a esse apelo, partindo da alma alagoana, o Rei assinou o ato de independência. Era a justa correspondência ao direito dos alagoanos de se autodeterminarem. Foi assim conseguida a emancipação, não como galardão ao lealismo, como afirmava Cândido Mendes, nem como traição aos movimentos nativistas, como proclamava Pereira da Costa”. Ele também cita o polígrafo Aurino Maciel, que teria dito: “a emancipação de Alagoas se deveu à evolução natural, como se fora vestida para casar-se com o próprio destino”.

Jaime de Altavila: "Foi o resultado de um fator econômico que se impunha"

Jaime de Altavila: “Foi o resultado de um fator econômico que se impunha”

Para o diretor do Arquivo Público, Moacir Santana, ao contrário de Medeiros Neto, o povo não teve nenhuma participação ativa nos episódios da independência. Mostrando números de alfabetização nos idos de 1817, onde apenas 4,7 por cento de toda população era semi-analfabetizada, Moacir Santana revela que a população nesse tempo servia apenas de “carneirinhos de batalha” e tinha como característica uma verdadeira idolatria pelo monarca e pela divina realeza.

Porém, Santana não descarta que muitos homens do povo prestaram bons serviços aos movimentos de libertação da época, principalmente na Revolução debelada de Pernambuco. Ele cita por exemplo o vendedor de peixes Cristóvão Correia de Barros, “mais revoltado que propriamente revolucionário”. Ele foi um dos 21 indiciados alagoanos na devassa promovida pelo governo da Coroa. Recusando-se a escrever a carta dos motivos de sua prisão para os militares de plantão, Cristóvão Barros falou em viva voz: “o pobre é sempre aperrinhado (sic) e que por ser pobre e miserável é que veio preso, porque os vigários cantaram Te-Deuns; o tenente Coronel Antônio José Vitoriano (seu interpelador) com trinta soldados de linha e com toda tropa de milícia não fizeram coisa alguma a bem de sua majestade, reconheceram o governo da independência, rebelaram-se, e lá ficaram”. Cristóvão de Barros, logo depois foi anistiado.

Publicado na revista Última Palavra de 16 de setembro de 1988.

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