Rodrigues de Melo, negro triunfante num mundo de hegemonia branca

Rodrigues de Melo foi um dos fundadores da Academia Alagona de Letras
Rodrigues de Melo concluiu o curso de Ciências Jurídicas e Sociais foi na Faculdade de Direito de Recife

Rodrigues de Melo concluiu o curso de Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito de Recife em 1909

Manoel Rodrigues de Melo nasceu em Maceió no dia 27 de junho de 1876. Era filho de Manoel Rodrigues, um fogueteiro, e de Florinda Joaquina Rodrigues de Melo, que vendia tapiocas nas calçadas das ruas da capital alagoana para garantir o sustento dos oito filhos.

Com sacrifícios, conseguiu fazer o curso de Humanidades no Lyceu Alagoano. O seu bacharelado em Ciências Jurídicas e Sociais foi na Faculdade de Direito de Recife, onde conseguiu estudar graça à ajuda de uma família abastada.

A ajuda desta família foi encerrada quando resolveu casar-se com Cecília Pires Rodrigues de Melo, com quem teve os seguintes filhos: Hermano, Aderbal, Hercília e Guiomar (que faleceram cedo) e Gilberto, Cordélia, Hemengarda e Desdêmona.

Abandona o curso e volta à Maceió, onde começa a trabalhar na imprensa e no Tribunal do Júri. Indicado pelo governador de Euclides Malta, que admirava sua inteligência, foi curador-geral de órfãos, delegado-geral da Polícia da Capital e secretário do governador.

Com a ajuda de Euclides Malta, consegue terminar o curso de Direito em 1909. Depois ocupou a 2ª Promotoria da Capital e a 1ª Promotoria. No Aprendizado Agrícola de Satuba, foi vice-diretor. Ocupou ainda a promotoria pública de Santa Luzia do Norte e Penedo. Passou 34 anos de sua vida em promotorias públicas de Alagoas.

Cecília Pires Rodrigues de Melo, esposa de Rodrigues de Melo

Cecília Pires Rodrigues de Melo, esposa de Rodrigues de Melo

Como 1º Promotor da Capital, provocou intensa celeuma a sua decisão de colocar em liberdade os detentos que estavam presos ilegalmente. Argumentou que a Constituição Federal definia que ninguém seria preso, senão nos casos expressos em lei.

“Homens deformados pela miséria física, ali se acham há 5, 6, e 8 meses, sem processo e sem culpa formada e, consequentemente, sem um motivo legal que justifique sua prisão. Muitos já teriam cumprido a pena se fossem condenados, pois são ladrões de galinha uns, outros furtaram uma lata de banha, um pedaço de carne ou um objeto sem valor”, justificou Rodrigues de Melo.

Foi eleito deputado estadual durante o governo de Batista Acioli, na legislatura de 1917-18. Seu mandato foi marcado pela defesa dos direitos dos trabalhadores e dos mais humildes. O historiador Douglas Apratto ressalta que neste período, “a questão social ainda era considerada simples caso de polícia”.

Denunciou a exploração estrangeira dos nossos recursos naturais. Posicionou-se contra o Governo Federal por ter feito concessão à Itabira Iron, em Minas Gerais, para a exploração estrangeira do nosso ferro. Da mesma forma externou sua discordância às concessões de terras na Amazônia ao grupo norte-americano de Henry Ford.

Rodrigues de Melo e o poeta Cipriano Jucá

Rodrigues de Melo e o poeta Cipriano Jucá

A transferência da Fábrica de Linha de Pedra pelos herdeiros de Delmiro Gouveia para um grupo estrangeiro, da mesma forma foi denunciada por Rodrigues de Melo. Teve ainda atuação destacada como presidente da Comissão Permanente Pró-Petróleo em Alagoas. Argumentava que era falta de patriotismo a retirada das sondas de petróleo de Riacho Doce, um atentado à nossa soberania.

Em 1934, volta à Assembleia Legislativa, como constituinte. Foi eleito pelo Partido Republicano e cumpre a legislatura 1935-38. Participa, em 1936, juntamente com Freitas Cavalcanti e Lima Júnior, da elaboração do projeto do Estatuto dos Funcionários Públicos.

Quando foi fundada a Faculdade de Direito de Alagoas, assumiu como professor a Cadeira de Filosofia do Direito. Foi também fundador e primeiro ocupante da cadeira 25 da Academia Alagoana de Letras. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas e do Centro Cultural Emílio de Maia. Fundador da Associação Alagoana de Imprensa e da Ordem dos Advogados do Brasil.

O intelectual

Falava Francês, Espanhol e Inglês e possuía uma das maiores bibliotecas de Alagoas. Segundo Douglas Apratto, Rodrigues de Melo era um intelectual da práxis que atuava em várias vertentes do universo cultural. “Parecia que precisava pagar com regularidade um elevado tributo à sua origem humilde, ao preconceito, à inveja ao seu talento. É notável que, numa sociedade elitista, racista como a de Alagoas nas primeiras décadas do século XX, um negro, filho de escravos, se equiparasse aos medalhões do seu tempo”.

Sarau na casa de Rodrigues de Melo

Sarau na casa de Rodrigues de Melo

Era reconhecido como um grande tribuno. Distinguia-se ainda como poeta, tenor, polemista, conferencista, jornalista, dramaturgo e prosador. Uma de suas peças, A Tormenta, foi apresentada com sucesso extraordinário no Teatro Deodoro no dia 7 de outubro de 1917 pela Companhia Maria de Castro. No dia 6 de novembro de 1919 foi a vez da peça Uma Página da Vida, que foi levada à cena pela famosa Companhia de Itália Fausta.

Conviveu com Jorge de Lima, Pontes de Miranda, Mateus de Lima, Monteiro Lobato e Edson Carvalho. Sua casa era frequentada por vários intelectuais da época. Segundo Douglas Apratto, entre seus admiradores estavam Ezequias da Rocha, Lily Lages, Lafaiete Belo, Júlio Auto e o governador Euclides Malta.

Sobre suas habilidades como cantor lírico, o padre Júlio de Albuquerque deixou o seguinte depoimento: “Gostava de ouvir o bom tenor que era, cantando à meia voz trechos de grandes mestres como Schubert, Verdi, Carlos Gomes. Discutíamos filosofia e discordávamos, pois era adepto de Spencer, Freud, Biné-Sanglé, Comte, Renan, Rousseau. Eu lhe admirava a eloquência, gabava-lhe a cultura, exaltava-lhe a fecúndia, temeroso por nossas discordâncias filosóficas, que nada viesse a toldar o céu de nossa larga amizade ou desatar o laço de nosso velho afeto”.

Rodrigues de Melo, após uma trajetória de vida marcada por conquistas, faleceu no dia 7 de julho de 1946.

Fonte: Pesquisa do professor Douglas Apratto para o fascículo nº 33 de Memórias Legislativas de 30 de agosto de 1998. 

1 Comentário on Rodrigues de Melo, negro triunfante num mundo de hegemonia branca

  1. edson acioli b junior- tofeu // 13 de Janeiro de 2016 em 10:19 //

    Não se supera o preconceito apenas com um tremendo esforço, mas o grande esforço não pode ser visto como MERITOCRACIA. É necessário que a pessoa tenha FOCO.

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