Robson Costa, cientista, poeta e político

Antiga Faculdade de Medicina, onde Robson Costa concluiu o curso médico em 1973
Robson Costa, um dos maiores cientistas alagoanos

Robson Costa, um dos maiores cientistas alagoanos

Robson Geraldo Costa nasceu no dia 7 de outubro de 1947 em Marechal Deodoro, filho de Eliete Vilela Costa e Arrisson Prudente Costa. Iniciou os estudos primários ainda na antiga Alagoas. Depois, já em Maceió, para onde se mudou com sua mãe e quatro irmãos em 1960, estudou no Colégio Marista, onde concluiu o curso secundário em 1967.

Destacava-se por sua inteligência. Em 1967, ministrou o curso de Iniciação à Ciência realizado pelo CECINE e escrevia contos e poesias. Para ajudar no sustento da família, dava aulas particulares e trabalhava numa empresa no ramo fotografia.

Em 1968 foi aprovado no exame vestibular para Medicina na Universidade Federal de Alagoas. No segundo ano de Medicina passou a ministrar um Curso Extraordinário de Bioquímica. Era promovido pelo Diretório Acadêmico de Medicina e Odontologia e voltado para os alunos do primeiro ano. Esse curso existiu por vários anos.

Para o Diretório Central dos Estudantes, ministrava outro curso, o de Citologia e Evolução. A sua ativa participação no movimento estudantil, num período marcado pela repressão militar, levou Robson Costa a ter alguns entreveros com professores. Entretanto, mesmo sendo perseguido por alguns, fazia valer a sua inteligência e preparo intelectual.

Foi assim que antes de serem instituídas as monitorias na Ufal, foi convidado para ser monitor nas disciplinas: Fisiologia, Farmacologia e Bioquímica (1971/73). Nesse mesmo período foi professor de Química do Colégio Estadual de Alagoas (1973) e do Colégio Marista (1971/72), além dos vários cursos pré-vestibulares (1969/73).

Tinha Doutorado plea Universidade de Saint Andrews, na Grã-Bretanha e Mestrado na Universidade Federal de Peranmbuco

Tinha Doutorado pela Universidade de Saint Andrews, na Grã-Bretanha, e Mestrado na Universidade Federal de Peranmbuco

Ainda em 1973, os doutorando da Ufal, turma do Robson, foram convidados para fazerem estágio no navio-escola HOPE, ancorado no Porto de Maceió em Jaraguá. Ele e Wlade, sua companheira e também doutoranda, foram expulsos do navio,  dispensados do estágio e ainda tiveram que depor na Polícia Federal. Segundo Wlada, “em virtude da presença da filha do vice-presidente dos EUA e à paranoia política/militar”.

Quando terminou o curso de Medicina, em 1973, já estava totalmente envolvido com o ensino e a pesquisa, sendo admitido imediatamente como professor da Ufal, após ser aprovado em concurso público. Em 1977, concluiu o Mestrado em Bioquímica na Universidade Federal de Pernambuco, iniciado em 1974.

Por ser considerado um dos melhores alunos que já cursara aquele mestrado na UFPE, foi convidado para lecionar Química Geral, um dos tópicos do curso de pós-graduação em Nutrição daquela instituição (1976).

Em 1978 ministrava aulas no próprio curso de Mestrado que acabara de concluir. Na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, lecionava Tópicos de Bioenergética, Óxido-Redução e Cadeia Transportadora de Elétrons (1979) e Tópicos de Bioenergética em 1980.

Em 1980 vai para a Universidade de Saint Andrews, na Grã-Bretanha, realizar o Doutorado, que termina em 1983, especializando-se em Biotecnologia, especificamente em novas tecnologias para a produção do álcool, como contribuição para a redução da importação de petróleo.

De volta a Alagoas, reassume o ensino nos cursos de Medicina da Ufal e da Escola de Ciências Médicas. Criou o Grupo Biotecnologia na Ufal e assumiu a função de Consultor Científico do NATT (Núcleo de Absorção e Transferência de Tecnologia), órgão da Cooperativa Regional dos Produtores de Açúcar de Alagoas.

Foi subchefe do Departamento de Química da Ufal e do Departamento de Ciências Fisiológicas da ECMAL, além de Consultor Científico do CNPq.

Casou-se com a também médica Wlademir Gusmão do Nascimento, a Wlade, em 1974, com quem teve dois filhos: Juliano e Mariana. Usavam as alianças que ele tinha ganho em concurso de contos promovido por uma revista de circulação nacional. O conto Estória do nosso casamento lhe rendeu as joias da H. Stern, famoso joalheiro de Paris.

Destacou-se como cientista na área da Biotecnologia. Era consultor científico do NATT e do CNPq

Destacou-se como cientista na área da Biotecnologia. Era consultor científico do NATT e do CNPq

Antes, no II Festival de Verão de Marechal Deodoro, já tinha conquistado outro prêmio com o conto Um Dia, Um Juca. Robson Costa faleceu prematuramente aos 37 anos, vítima de choque elétrico, no dia 22 de junho de 1985.

O político

Após a sua morte, o então vereador Fernando Costa propôs, e a Câmara aprovou, uma Lei dando o nome do Dr. Robson Geraldo Costa a uma das ruas de Maceió. O advogado e também professor Marcus Robson, seu amigo, escreveu um texto sobre a homenagem, ressaltando o lado político do Robson Costa.

“Minha amizade com Robson Geraldo remonta à nossa adolescência. Cedo experimentamos muitas alegrias e incontáveis decepções. Permanecemos sempre juntos, animados por uma impenitente preocupação: o futuro deste País que tanto amamos, motivo principal de nossos curtos momentos de euforia e das longas quadras de desilusão

Tornamo-nos amigos nos idos de 1968. Naquela época, o movimento estudantil, do qual participamos, crepitava em respostas insolentes aos humores persecutórios da ditadura militar, em plena era Costa e Silva, de triste memória. Sentamos praça ao lado dos oprimidos, dos deserdados de toda sorte de propriedade, dos perseguidos. Ligamo-nos, a partir daí, por laços indissolúveis, permanentemente reforçados pela “necessidade ideológica” de construir um futuro melhor para o povo brasileiro — sob a égide do humanismo socialista, da paz e da esperança…

A discussão dos grandes temas nacionais alimentava, dia e noite, nossa sede de justiça. Por caminhos diversos, travamos conhecimento com as obras de Marx, de Engels, de Lênin; os exemplos do Pe. Camillo Cienfuegos e do Comandante Ernesto Guevara tinha para nós a profundidade insondável do martírio que traduz uma doação definitiva — como em Jesus Cristo — à causa da permanência do ser humano enquanto meio de explicar a própria permanência do Universo.

Tínhamos consciência do que nossa participação na luta em favor do homem era importante, pelo mínimo que pudéssemos. Mas eu sentia que o Robson reverberava, mais que os outros companheiros de nossa geração, uma forte vocação para o sacrifício pessoal. Encantavam-lhe os versos de um poeta estrangeiro — talvez Agostinho Neto — que diziam só estar o homem preparado para a vida quando fosse capaz de deixar-se arrastar, como uma folha seca varrida pela tempestade, sem o menor ruído, em defesa de seus ideais.

Quando Robson viajou para a Europa, acompanhado de Wladi, sua mulher, e dos filhos, a fim de fazer seu PhD em Bioquímica, fomos todos os amigos — o Paulo Sílvio, o Marcelino, a Inocha, o Carlos Augusto e tantos outros despedirmo-nos dele. Era o momento da anistia política, da reconciliação da família brasileira. Os exilados voltavam para novos embates — e o amigo partia para enfrentar o seu maior desafio acadêmico.

Quando ele voltou, encontrou o País em marcha batida para a redemocratização. O quadro era outro, com novos partidos políticos surgindo para romper o factício maniqueísta do bipartidarismo imposto. O povo retornava às ruas, explorado ainda, humilhado como sempre, mas armado de justificadas esperanças.

O Robson voltou e sentiu-se mais em casa do que quando partiu. Agradava-lhe esta outra face da Pátria querida, bem mais risonha sem as rugas de uma juventude precocemente envelhecida, sem as lágrimas das viúvas do “talvez e do quem sabe”, sem as pústulas malcheirosas dos cemitérios clandestinos.

Alegrou-se. Deu vivas ao Brasil e foi à luta. Alistou-se num partido político e, confiante, entregou-se à obra de preparar o futuro de seus filhos. “Os homens fazem sua história, mas não a fazem como querem” sentenciou Marx. Numa tarde igual às outras, Robson partiu para sua última viagem, quase em silêncio, como Maiakovski, que escreveu pouco antes de morrer: “O incidente está encerrado /Inútil passar em revista /As dores, /As desgraças, /Os erros recíprocos. /Sede felizes”.

É também de Marx a frase: “A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”. Lembrou-me outra vez, o poeta, o pensador, o cientista Robson Geraldo Costa”.

A rua que homenageia Robson Costa fica na Serraria, em frente ao jornal Tribuna Independente, onde se situa o Colégio Isaac Newton.

Fonte: Boletim de Documentação Histórica das Atividades de Cientistas Alagoanos, nº 1, 1987, Secretaria de Planejamento do Estado de Alagoas – Coordenação de Desenvolvimento Científico e Tecnologia, organizado por Arrisete Costa e depoimentos de amigos.

2 Comments on Robson Costa, cientista, poeta e político

  1. Delma Conceição de Lima // 28 de outubro de 2015 em 21:02 //

    Tão jovem. Uma grande perda!!!

  2. Norah Costa // 3 de novembro de 2015 em 00:19 //

    Muito bom! Lindo trabalho de memória, entretanto senti muita falta do nome da autora org, também irmã do homenageado (Arrisete Costa), na fonte referenciada de forma incompleta.

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