Rholine Sonde, o último preso político da Ditadura Militar

Rholine Sonde ainda na prisão em Itamaracá, Pernambuco
Presos políticos de Itamaracá, em Pernambuco, em pé: Samuel Firmino, Francisco Chagas, Luciano de Almeida, Arlindo Felipe; sentados: José Emilson Ribeiro, José Calistrato, Rholine Sonde Cavalcante, Alberto Vinicius do Nascimento, Francisco de Assis Barreto. Crédito. Paulo Jabur

Presos políticos de Itamaracá, em Pernambuco, em pé: Samuel Firmino, Francisco Chagas, Luciano de Almeida, Arlindo Felipe; sentados: José Emilson Ribeiro, José Calistrato, Rholine Sonde Cavalcante, Alberto Vinicius do Nascimento, Francisco de Assis Barreto. Crédito da foto: Paulo Jabur

Filho de Maria Cavalcante da Silva, Rholine Sonde Cavalcante Silva nasceu em Maceió no ano de 1948. Iniciou sua militância política no movimento estudantil, vindo a participar do Partido Comunista Brasileiro, o PCB.

Foi preso durante o golpe militar de 1964 e em seguida vai morar em Recife, onde rompe com o PCB e filia-se ao Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, o PCBR. No final dos anos 60 participa da direção do partido e toma parte de algumas ações armadas.

Foi preso no dia 31 de março de 1970. Contra ele existiam as acusações de ser assaltante de banco e de empresas para financiar o movimento armado de resistência à Ditadura Militar.

No primeiro julgamento, foi condenado à pena de morte, sendo um dos poucos brasileiros a receber esse tipo de condenação. Durante o processo, sua pena foi reduzida para prisão perpétua.

Cumpriu 10 anos de cadeia em Pernambuco e conseguiu liberdade provisória sem ser anistiado, algo que só aconteceu oficialmente em 2008. Foi o último preso político a deixar a prisão no Brasil pós ditadura.

Em liberdade, voltou a morar em Maceió, onde faleceu anos depois vítima de acidente automobilístico. Era casado com Fátima Torres.

Entrevista

Em entrevista ao Jornal da República, que foi publicada no dia 30 de agosto de 1979, Rholine estava preso na Penitenciária Barreto Campelo, na Ilha de Itamaracá, no litoral de Pernambuco e cumpria a pena que terminaria em 20 de maio de 2003.

A seguir a entrevista concedida ao repórter Ricardo Ribeiro de Carvalho:

Jornal – Aceitaria o indulto que o governo pretende conceder?

Fátima Torres, Rholine Sonde com sua mãe Maria Cavalcante da Silva e Ródio Nogueira

Fátima Torres, Rholine Sonde com sua mãe Maria Cavalcante da Silva e Ródio Nogueira

Rholine – Não. Nossa atividade foi sempre uma atividade política e não temos porque aceitar instrumentos que não correspondem a esse caráter político da atividade. O recurso ocasional à violência nela compreendido — e alegado pelo governo como causa da nossa exclusão da anistia capenga que concedeu — foi o uso de um direito garantido a todo o cidadão na luta contra as tiranias. Na verdade, ao acenar com o indulto, o governo tenta esvaziar o movimento pela anistia ampla, geral e irrestrita. Mas, se depender dos presos políticos brasileiros — que já se manifestaram expressamente em vários documentos — ele terá que arranjar outro mecanismo. Este do indulto, repelimos com energia, ainda que isso signifique alguns anos a mais de cárcere.

Jornal – Que tipo de crítica faria à ação do movimento desenvolvido à época de prisão?

Rholine – Criticaria seu caráter eminentemente pequeno-burguês — tanto nos métodos, quanto nas proporções — seu imediatismo, sua falta de embasamento teórico e consequentemente distanciamento da realidade brasileira. São fatores interligados. A grosso modo, podemos dizer que fomos uma reação ao acúmulo de erros que a esquerda brasileira vem carregando ao longo de sua história. Mas reação explosiva, incontida, que acabou se transformando também naquilo contra o que se estava reagindo. A despeito disso, não se pode subestimar a contribuição dada num momento em que refluíram todas as alternativas de atuação. A apresentação na prática de uma perspectiva de revolução popular — se bem que respaldada num erro básico de avaliação do nível real do movimento de massas — questionou a impunidade do poder e demonstrou ser possível achar formas de enfrenta-lo em qualquer situação.

Jornal – Solto, que tipo de atuação política pretende desenvolver?

Rholine – Meu futuro imediato ainda se encontra circunscritos pelas grades. Não tenho assim muita clareza quanto ao que possa fazer pessoalmente quando solto. Uma coisa porém é certa: estarei sempre ao lado dos que estejam batalhando por um aprofundamento das conquistas democráticas num sentido popular.

Jornal – Que tipo de luta política deve desenvolver a oposição para sensibilizar os segmentos mais representativos da sociedade brasileira?

Rholine – Fortalecer os mecanismos independentes da oposição popular. Trata-se de engrossar as fileiras dos movimentos surgidos naturalmente nos combates travados contra a ditadura, tais como os núcleos de anistia, os centros de defesa dos direitos humanos. O já citado Movimento contra o Custo de Vida, os sindicatos autênticos, etc. O que se tem que deixar claro é que o centro dessa luta não é o Parlamento — embora possamos admitir sua interligação como tribuna de denúncias.

Jornal – Como descreveria a experiência que teve nos cárceres? Foi torturado? O que aconteceu?

Rholine – A experiência com a tortura é antes de tudo uma experiência trágica. O torturador é o homem despojado de sua essência humana, reduzido a uma condição meramente animal. Quando um tipo assim passa a ser peça-chave na engrenagem política-militar destinada a defender a ordem estabelecida, é que o sistema todo está podre, corroído por uma mentalidade exclusivamente destrutiva. Pessoalmente, estava despreparado ideologicamente para um enfrentamento desse tipo. Esperava muito mais a morte que a prisão. Resisti quando a polícia cercou a casa onde estava. Um companheiro que se encontrava comigo (Maurício Anízio de Araújo) rompeu o cerco sendo ferido no peito e na coxa algumas ruas mais adiante. Eu fiquei na casa, dando cobertura à fuga, ocasião em que saiu ferido um policial e fui violentamente espancado por outro. Lascaram-me a cabeça a coronhadas de revólver. Mas não fui torturado. Na época, aqui no Estado, as torturas dependiam de estrutura muito mais primária e artesanal que a montada posteriormente através do DOI-CODI no QG do IV Exército. As sequelas das torturas não se esgotam no momento em que se realizam. As concessões feitas vão atuar permanentemente no sentido de uma destruição não apenas física, mas moral. O combate que então se trava para vender caro a derrota é realmente dilacerador. Apesar disso, a tortura é um profundo teste de conhecimento de nossa força real. Ali estamos nus. E não podemos recorrer às capas com que procuramos, às vezes, embelezar a imagem que fazemos de nós mesmos.

Jornal – E o governo Figueiredo? Acredita no seu modelo político?

Rholine – Nossa preocupação é sempre a de destacar soluções globais para a sociedade brasileira. O que se coloca diante de todos nós é a sua transformação revolucionária. Não acreditamos que possa haver modelo satisfatório dentro de uma estrutura econômico-social a serviço do capital financeiro e da burguesia ligada aos monopólios internacionais no Brasil. Figueiredo encaminha um governo de transição — ninguém sabe ainda bem para onde. Promove algumas aberturas. O de Médici foi o governo mais reacionário, obscurantista e ditatorial de nossa história recente. Mas figueiredo era o chefe da Casa Militar desse governo, de toda repressão no governo Geisel. Isso vem comprovar a correção de uma noção elementar do marxismo: não são os homens individualmente que respondem pelos destinos das nações: são os interesses econômicos-sociais sobre os quais eles estejam atuando.

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