Rebelião na Cadeia Pública

Casa de Detenção de Maceió nos anos 60
Cláudio Alencar fez história no rádio alagoano

Cláudio Alencar fez história no rádio alagoano

Cláudio Alencar*

Rodava, todas as noites, de 2ªs às 6ªs feiras, pelas ruas de Maceió, na camionete de Frequência Modulada da Rádio Gazeta de Alagoas, no programa “Tele-Noite”, experiência pioneira no rádio alagoano nos idos de 1965.

Arnoldo Chagas e Luiz Tojal, nos estúdios, ofereciam aos ouvintes boa música, informações úteis, com aquela forma bem agradável de comunicar desse excelente profissional de rádio.

Nas ruas buscava notícias, na faixa de 22 às 24 horas, nas noites maceioenses, fazendo a ronda noturna no Hospital de Pronto Socorro, que funcionava na Rua Dias Cabral, no Necrotério Público, anexo ao HPS, depois transferido para o largo da Faculdade de Medicina, e nas Delegacias e Subdelegacias de plantão no centro e nos bairros da cidade. Sempre havia o que noticiar, principalmente no Hospital de Pronto Socorro, onde, regularmente, todas as noites passava por lá.

Aprendi, nessas visitas, a compreender e a admirar o trabalho de médicos, enfermeiras, atendentes e policiais, no cotidiano de suas anônimas e meritórias tarefas, discordando embora das exceções, ou seja, da indiferença ao sofrimento alheio e da brutalidade da violência contra a integridade física praticada por parte de alguns.

“Flashes” de acontecimentos sociais, de encontros boêmios nos inúmeros bares e “inferninhos” da cidade, tudo era notícia. A lua, prateando as águas do mar da Avenida ou da Pajuçara, era notícia. Encetamos uma campanha, que deu bons resultados, pela reconstrução de subdelegacias de polícia de subúrbios de Maceió, funcionando precariamente e até em condições degradantes para os policiais de serviço, sem cama, sem água. Os presos, esses eram tratados como animais, em celas imundas, sem as mínimas condições de higiene. Sensibilizamos autoridades, algumas foram realmente recuperadas. Trabalho cansativo, mas profissional e pessoalmente, compensador.

Documentamos acontecimentos importantes, alguns até com riscos, como numa noite em que um acidente no momento do bombeamento de gasolina de um navio petroleiro para os depósitos das distribuidoras provocou o derramamento do combustível por toda a extensão do Porto de Maceió, escorrendo o líquido pelos trilhos da composição ferroviária, até Jaraguá.

Qualquer faísca e tudo aquilo explodiria. Para fazer a reportagem, tivemos de assinar – eu e o motorista da Rural da Rádio Gazeta – um termo de isenção de qualquer responsabilidade por parte da Administração do Porto de Maceió pelo que poderia acontecer conosco. Tivemos acesso ao cais, a camionete trafegando sobre milhares de litros de gasolina. Felizmente o pior não aconteceu. Os bombeiros fizeram, com eficiência, a sua parte.

Outra noite, estando no Farol, já chegando à praça Gonçalves Lêdo, vindo da Rua Com. Palmeira, avisto, na linha do horizonte, uma cortina de fogo como se toda a cidade de Maceió estivesse em chamas. Era o incêndio do Mercado Público. Graças à nossa informação os bombeiros foram avisados e apressaram a sua intervenção.

Mas, numa certa noite, ao circular pelas imediações da Praça da Independência, hoje ocupada pelos camelôs, onde se situava a Cadeia Pública, percebo que algo de muito grave estava acontecendo. A praça está tomada por soldados da Polícia Militar de Alagoas. Onde existia um pátio gramado, em frente à Cadeia, policiais militares embalados e armados, rastejam em direção ao presídio, enquanto outros recebem instruções.

Essa casa de detenção dominava grande parte da área e a sua demolição foi muito questionada pois, afinal, se tratava de um monumento histórico. Protestei, também, contra essa demolição por entender que tal edificação deveria ser preservada, a exemplo do que ocorreu com a Casa de Detenção do Recife, hoje transformada em museu e em centro cultural.

Pois bem, estava ocorrendo um motim no presídio. Os presos mantinham soldados da guarnição da penitenciária como reféns e exigiam a demissão do Diretor da Cadeia, melhoria de alimentação, essas coisas que sempre acontecem nos presídios brasileiros e que vão continuar ocorrendo, infelizmente, por omissão e incompetência das autoridades ditas competentes.

A situação é grave pois os amotinados e a polícia não chegam a um acordo. A Cadeia tinha um primeiro andar e é de lá, com as luzes apagadas, que os amotinados estão em vantagem, apontando, do alto, suas armas, apreendidas dos reféns, para os policiais que tentam tomar o presídio de assalto. Controlam toda a área em frente e dos lados da penitenciária, impedindo a aproximação dos policiais com advertências de que se insistirem os seus companheiros serão sacrificados.

O pior é que o tempo vai passando e ninguém encontra uma solução para o problema. E agora? Transmito pela rádio um relato da situação e vou procurando novas informações. Fico sabendo que um dos líderes do movimento é Miranda, condenado pelo assassinato do médico Paulo Neto, fato que obteve grande repercussão em Maceió.

Coronel João Mendes de Mendonça

Coronel João Mendes de Mendonça

Chega o Governador do Estado, “Major” Luiz Cavalcante, toma conhecimento do que ocorre, reúne-se com o Cel. João Mendes de Mendonça, Secretário de Segurança Pública e oficiais do comando da Polícia Militar de Alagoas para uma avaliação do problema. A reunião é demorada. Já é quase meia-noite.

Obtenho permissão para continuarmos no ar com o “Tele-Noite“. O impasse, porém, continua. Tenho, então, uma ideia. Consigo autorização para utilizar o telefone do Quartel da Polícia e ligo para o presídio, ali defronte. O telefone chama, demoradamente. Ninguém atende. Insisto. Nada, mando, então, um recado, no ar, pela Rádio Gazeta, aos amotinados, avisando que estou telefonando e pedindo que alguém, dentro do presídio, me atenda. Dá certo. Alguém atende. Identifico-me e peço para falar com o Miranda, a que conhecia pois, como repórter, fiz cobertura do rumoroso caso em que se envolveu, do assassinato do Dr. Paulo Neto, como dito linhas atrás.

Conversamos ao telefone e, claro, tudo está sendo gravado nos estúdios. Miranda alega, para justificar a rebelião, maus tratos, péssima alimentação e vários outros problemas. Exigem os amotinados a destituição do atual Diretor da Cadeia. Argumento que seria inútil resistir por muito tempo pois estão cercados e em posição de inferioridade. Não se intimida e afirma que ele e seus companheiros não se entregarão enquanto não estiverem convencidos de que serão atendidos em suas reivindicações.

Ameaça matar os reféns, se necessário. Proponho-lhe que me permita entrar, juntamente com companheiros da imprensa, inclusive para entrevistá-los e fotografar as deficiências do presídio. Interessa-lhe a proposta. Pede tempo para conversar com os seus companheiros. Marcamos novo telefonema para daqui a dez minutos.

Transmito às autoridades presentes esses entendimentos. Recebo de uma delas, cujo nome prefiro omitir, uma sugestão que, por considerá-la indecorosa, não a acatei: a de, se concordarem os amotinados em permitir a entrada da imprensa, que a força policial, aproveitando aquele instante da abertura dos portões, invadisse o presídio. Recuso a sugestão por considerá-la indigna. Entendo que, apesar de presidiários, ali, por trás daquelas grades, estão seres humanos que pagam o seu débito com a sociedade, e que um acordo de palavra deve ser respeitado.

Volto a telefonar. Miranda atende e diz que ele e seus companheiros acham que estou fazendo o jogo da polícia. Empenho a minha palavra, mas não confiam. Proponho aproximar a camionete da Rádio Gazeta da frente da Cadeia, com as luzes internas acesas, a fim de que vejam quem está no interior da viatura. Não confiam. Desliga o telefone.

Transmito novas informações aos ouvintes. Volto a telefonar. Surge, então, uma possibilidade de entendimento. Eles abririam os portões e se entregariam se o Comandante do 20° Batalhão de Caçadores (hoje 59º Batalhão de Infantaria Motorizado) viesse ao local e empenhasse a sua palavra de que suas reivindicações seriam atendidas.

Coronel Nelson Rodrigues de Carvalho, comandante do 20 BC de 22 de setembro 1960 à 18 de setembro de 1961

Coronel Nelson Rodrigues de Carvalho, comandante do 20 BC de 22 de setembro 1960 à 18 de setembro de 1961

Telefona-se para o Comandante, que era o Cel. Nelson Rodrigues, e, algum tempo depois, ele chega ao Quartel da Polícia Militar. Toma conhecimento da situação e, destemidamente, dirige-se ao presídio. Acompanho o Comandante, juntamente com o meu colega jornalista Teófilo Lins.

Decididamente o Cel. Nelson avisa aos amotinados quem é e, chegando a uma das janelas gradeadas ao lado da Cadeia, sobe e chama para o diálogo. Garante a integridade física dos presos e promete conversar com as autoridades sobre as reivindicações. Manda abrir os portões, selecionando-se as pessoas que terão acesso: o próprio Coronel, a imprensa e alguns oficiais da PM.

Os portões são, então, abertos e as armas depostas. Ingressamos no presídio. Os enormes portões de ferro estavam escorados com sacos de mantimentos, móveis e entulhos. O mais emocionante, naquele momento de muita tensão, foi recebermos daqueles homens de fisionomias rudes, alguns seminus, outros maltrapilhos, as suas armas – fuzis, facas, estiletes e cacetes – depositados aos seus pés e, mais do que isso, uma inesperada e ruidosa salva de palmas em nossa homenagem. Não sei se valeu o esforço. Os problemas penitenciários, de lá para cá, são os mesmos. Talvez piores. Felizmente não houve derramamento de sangue…

*Publicado originalmente no livro Contando Histórias, Maceió, 1991.

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