Quebra dos Terreiros e a queda dos Maltas

Não há como entender estes dois acontecimentos históricos sem conhecer a realidade de Alagoas nos primeiros anos após a República instalada a partir do movimento de 15 de novembro de 1899.

A República nasce em Alagoas sem ter uma base republicana expressiva. Douglas Apratto, no seu livro clássico Metamorfose das Oligarquias, identifica que esse pequeno núcleo republicano recebeu repentinamente “uma torrente de novos adeptos que surgiam eufóricos ou reservados de todos os lados, como se fossem republicanos desde o nascimento, oferecendo apoio incondicional ao novo regime”.

Com a nomeação, por decreto, do coronel Pedro Paulino da Fonseca para governar Alagoas, criou-se a expectativa de que um irmão de Deodoro da Fonseca teria autoridade de sobra para enquadrar os neorrepublicanos ávidos de poder.

Pedro Paulino era um alagoano que ficou muito tempo fora de Alagoas e logo foi engolido pelas artimanhas do jogo político local. Apratto analisa esse início de governo como um “típico período de transição”, marcado por disputas de grupos em busca de hegemonia. O governo de Pedro Paulino durou apenas 10 meses.

Depois de muitas atribulações e disputas, a República elege seu primeiro presidente civil, Prudente de Morais, que assume em 1894. Apratto considera que essa eleição encerra “o ciclo militarista republicano e as oligarquias ascendem ao poder”.

Palácio dos Martírios em 1902

Palácio dos Martírios em 1902

Em Alagoas, as classes agrárias ligadas à produção açucareira iniciam um longo período e domínio, mesmo que num primeiro momento fossem representadas por um sertanejo, Euclides Malta (governador por dois períodos: de 12 de junho de 1900 a 12 de junho de 1903 e 12 de junho de 1906 a 3 de junho de 1909). Em Alagoas, por 12 anos, os Maltas, com Euclides à frente, exercem o poder.

A partir da campanha civilista de Rui Barbosa, que sacudiu o país em 1910, o Partido Democrático em Alagoas criou ânimo para se contrapor à oligarquia dos Maltas, que já apresentava desgastes.

Outro fato novo é o crescimento da oposição aos Maltas, que começa a receber os descontentes com o presidente Hermes da Fonseca, recém-eleito em 1910 com apoio dos Maltas.

Com as eleições de 1912 no horizonte, a oposição articula a candidatura de Clodoaldo da Fonseca, filho de Pedro Paulino, parente de Hermes e chefe do Gabinete Militar da Presidência. A situação prepara a candidatura de Natalício Camboim de Vasconcelos.

A oposição continua a crescer começam a surgir nos bairros populares núcleos de oposição não partidários e a candidatura de Clodoaldo da Fonseca tem uma imensa repercussão no estado.

Clodoaldo da Fonseca, candidato oposicionista ao governo alagoano em 1912

Clodoaldo da Fonseca, candidato oposicionista ao governo alagoano em 1912

Douglas Apratto descreve o clima político em Alagoas. “Cresce a força dos jornalistas, dos estudantes, dos bacharéis, dos artistas, dos oradores de comícios que, unidos no vigor antigovernamental, cavalgam suas ambições junto com promessas transformadoras. A campanha contra as oligarquias chegava para ficar em Alagoas”.

Em Maceió, o clima é de sublevação. As ruas, dominadas pelos partidários de Clodoaldo, são consideradas inseguras e os seguidores dos Maltas são perseguidos a qualquer hora.

Nesse ambiente é que surge a Liga dos Republicanos Combatentes, no dia 17 de setembro de 1911. Liderada por Manoel Luís da Paz, um oficial do Exército que perdeu os membros inferiores na Campanha de Canudos, a Liga iria funcionar como uma organização paramilitar dos oposicionistas.

Seus objetivos eram os seguintes: “1 – Liberdade não se pede, conquista-se; 2 – A força é uma lei, um direito, quando não há união”.

A primeira ação da Liga, dias após a sua criação, foi invadir a casa do intendente da capital, Luís Mascarenhas, fugiu pelos fundos da casa com a família, pulando o muro. Outra ação da Liga foi a de panfletar a cidade conclamando o povo a não pagar impostos.

Euclides Malta tenta reagir e manda a polícia acabar com as manifestações da oposição, mas esta, com o respaldo de Clodoaldo, enfrenta violentamente as forças do governo.

A insurreição urbana cresce e o próprio Palácio dos Martírios é alvo dos ataques dos oposicionistas. A guarda do Palácio foi dominada, mas o governador consegue fugir para Recife. Na troca de tiros morreram dois atacantes. Na mesma noite, os revoltosos atiraram contra a casa do vice intendente da capital.

O povo é conquistado pelas sedutoras propostas de mudança e a oposição é reforçada pela participação dos mais humildes e ganha adeptos em todas as classes.

Euclides Malta

Euclides Malta

Apratto registra que a campanha criou uma situação de “bipolaridade entre uma situação apodrecida, comandada por um tirano que subjugava o heroico povo alagoano, e os ‘salvadores’ que deveriam receber o apoio de seus conterrâneos”.

As elites dominantes, que tinham sido defensoras da monarquia e avidamente aderido à República, agora disputavam o poder e queriam o apoio popular.

O Quebra

Euclides Malta era católico, mas como quase todo político, convivia bem com os cultos afros, que tinham milhares de adeptos (eleitores).

Esta boa relação fez com que alguns líderes religiosos comentassem que “trabalhavam” para mantê-lo no poder. A oposição, sabedora desta boa relação e dos comentários, passou a divulgar que Euclides Malta frequentava os terreiros e que tinham pedido a Xangô para que fechasse seu corpo contra os inimigos e que a divindade matasse Clodoaldo da Fonseca e Fernandes Lima antes das eleições.

Com estes boatos circulando intensamente, no dia 7 de fevereiro de 1912, a Liga dos Combatentes, motivada claramente por interesse político, promove o famoso Quebra dos Xangôs.

Matéria do Jornal de Alagoas, em fevereiro de 2012, acusando Euclides Malta de bruxaria

Matéria do Jornal de Alagoas, em fevereiro de 2012, acusando Euclides Malta de bruxaria

Douglas Apratto analisa o episódio assim: “… foi inquestionavelmente um ardiloso plano político. A pretexto de que Euclides Malta e seus correligionários do Partido Republicano Conservador afrontavam a elite branca, protegendo a prática de candomblé, os seus inimigos políticos deram um passo decisivo na sua destituição, silenciando os terreiros, acusando os euclidistas da prática de feitiçaria e jogando contra eles a população, principalmente a poderosa opinião da Igreja e do segmento mais influente da sociedade”.

E continua: “Esse episódio marca a extinção de velhas e tradicionais casa de culto afro-brasileiro em Maceió e nas cidades próximas. Pratica-se, por algum tempo, autêntica perseguição, nos moldes da inquisição medieval”.

Essa prática se deu também com a participação da polícia, após a derrubada dos Maltas e a vitória do Partido Democrata.

Informações do livro Metamorfose das Oligarquias, de Douglas Apratto Tenório.

Capacete Adê utilizado em culto afro da Coleção Perseverança do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas

Capacete Adê utilizado em culto afro salvo do Quebra de 1912. Coleção Perseverança do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas

1 Comentário on Quebra dos Terreiros e a queda dos Maltas

  1. Edro Tenório // 12 de outubro de 2015 em 01:17 //

    Dizem sobre esses escritos do Apratto “bons tempos”. Devemos atentar para a data do ocorrido fato, já que é sabido que o estudioso do Quebra, Ulisses Neves Rafael, em sua obra Xangô Rezado Baixo, informa a data 02/02/1912 e não dia 07 como encontramos no texto do Apratto.

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