Pensão Mona Lisa e seus hóspedes famosos

A Pensão Mona Lisa ficava na esquina da Rua do Macena com a Rua Augusta

O Bar do Duda, no térreo da Pensão Mona Lisa, era frequentado por muitos intelectuais de Maceió

Uma das últimas grandes pensões de Maceió, a Mona Lisa, funcionou até o final dos anos da década de 1980.

Situada na esquina da Rua Augusta com a Rua do Macena, a pensão recebeu muitos estudantes e servidores públicos oriundos do interior de Alagoas.

Normalmente atendia a uma clientela que não tinha muitas posses e que fazia malabarismo para sobreviver na capital.

O nome da pensão era uma referência ao famoso quadro do pintor italiano Leonardo da Vinci. Não se sabe quem escolheu tal homenagem, mas o prédio pertenceu ao Dr. Samuel Cabus.

Do final dos anos 50 até o início dos anos 70, a pensão esteve sobre a administração de Anita de Sá Peixoto. Sua filha, Sônia Peixoto, lembra de alguns moradores que têm hoje seus nomes reconhecidos: “Lá moraram Geraldo Bulhões, Renan Calheiros, Moacir Andrade, Tobias Medeiros, José Arnaldo Lisboa Martins e muitos outros que hoje já nem existem mais. Eram jovens que vinham do interior estudar em Maceió. O prédio era de propriedade de Sr. Samuel Cabus e mamãe pagava o aluguel”.

No principal ponto comercial, no térreo do edifício, funcionou durante muitos anos o Bar do Duda, o José Jesuíno de Oliveira. Na loja contígua, a barbearia de Fausto Gonçalves atendia a uma clientela renomada. Outra loja era ocupada pela oficina de conserto de máquina de escrever de Arlindo Lourenço e existia ainda um pequeno restaurante.

Duda, em entrevista à revista Última Palavra de junho de 1989, reclamava que estava sendo despejado do prédio, mas lembrava dos antigos ocupantes da pensão: “Aqui morou muita gente que na época era um pé-rapado e que hoje são advogados, médicos, juízes e jornalistas”.

Numa rápida pesquisa entre os antigos moradores, nota-se nomes de hospedes que se destacaram por motivos diversos na história recente de Alagoas, como o artista plástico Sanduarte  e o deputado federal Albérico Cordeiro. O veterano jornalista Cícero Santana, o Bola, que convivia com parte destes moradores no Bar do Duda, lembra dos jornalistas Petrúcio Vilela, José Alves Feitosa e Iremar Marinho.

O jornalista Mário Lima lembra que esteve várias vezes com o colega Petrúcio Vilela em quartinho simples da pensão. “O pequeno espaço era ocupado por uma cama, um guarda roupa, uma mesa, uma cadeira, uma máquina Olivetti Linea e e um pequeno fogão onde preparava o café. A ventilação vinha de uma janela que dava para a Delegacia e o banheiro era coletivo, no final do corredor”. Essa delegacia foi denunciada por ter um tanque d’água onde os presos eram torturados com afogamento. Alguns moradores da pensão citam os gritos dos torturados

Jornalista e advogado Iremar Marinho foi um dos moradores da Mona Lisa

Iremar Marinho, advogado e jornalista, morou na Mona Lisa alguns meses de 1976, quando estava prestes a concluir o curso de Direito na Ufal. “Lembro que o administrador impunha uma disciplina rígida na pensão. Ninguém podia chegar bêbado ou fazendo barulho. Quem descumpria era convidado a arrumar as malas”. Hoje aposentado, o jornalista revela que na sua época já se falava que a Mona Lisa ia fechar.

Iremar relatou ainda que a mensalidade não era cara. “E circulei por 12 anos em várias pensões de Maceió, incluindo a UESA e a Residência Universitária. Era uma vida difícil para quem veio, como eu, de União dos Palmares para trabalhar e estudar na capital”.

O hoje desembargador Diógenes Tenório também teve uma estreita relação com a Pensão Mona Lisa. “Quando assumi a presidência da UESA em 1964, substituindo Neilton Silva, já tínhamos um contrato de locação com o prédio da família Lages na esquina da Rua do Comércio com a Rua Augusta. Lá funcionava a Casa do Estudante Secundarista, que não suportava mais a hospedagem de ninguém. A saída foi alugar todos os quartos da Pensão Mona Lisa”.

Dr. Diógenes Tenório era o presidente da UESA quando a Mona Lisa foi alugada pela entidade

Tenório revela que havia muita dificuldade para manter o pagamento destes prédios e que a dívida se acumulava. “Pagávamos um ano e passávamos dois sem pagar. Para completar, ainda alugamos uma casa para funcionar como anexo na Rua Humaitá, Farol, para ampliar a oferta de hospedagem. Quando deixei a UESA nos início dos anos 70, ainda tínhamos contrato com o Dr. Samuel Cabus, mas ele já tentava fechar a pensão”.

Responsável por acompanhar as condições de hospedagem da Mona Lisa, Diógenes Tenório lembra que a estrutura era muito deficitária, mas reconhece que o local recebia três vezes mais estudantes do que era suportado.

Não se conseguiu descobrir a data exata em que a pensão fechou, mas no final dos anos da década de 1980 foi movida uma ação de despejo pelo proprietário do imóvel e as lojas do andar térreo também fecharam.

Tempos depois, o ponto de esquina reabriu para funcionar um laboratório de análises clínicas voltado para atender a clientela gerada pelo Instituto de Identificação, que ocupava o prédio da antiga 1ª Delegacia da Capital, ao lado.

3 Comments on Pensão Mona Lisa e seus hóspedes famosos

  1. Gostei as lembranças sobrevivem a tudo, á época em que para se estudar, como sempre foi difícil, tínhamos que lutar por conta própria, até vencer. Sem medo, sem ódio sem drogas e sem recursos suficiente. Dedicação, coragem e a boa vontade de estudar vinha de nós, os incentivos, a vontade de vencer na vida! Acho amigo, IREMAR MARINHO que você andou tanto de pensão em pensão que acabei te encontrando numa dessas. Quando procurei seguir. Saindo de União dos Palmares para estudar na capital Maceió, nos anos 70. Encontrei você inclusive, o Cicero Melo, Gerdeão, todos nós de União, lembro-me que morávamos numa mesma pensão!

  2. Tânia Maria Silva de Araujo // 1 de junho de 2017 em 01:16 //

    Meu esposo hoje falecido,morou nesta pensão na década de sessenta Dr.Adones,era natural de Araripina Pernambuco nessa época era funcionário da secretaria de saúde de Alagoas.

  3. Ubirajara Mello de Almeida // 1 de junho de 2017 em 06:51 //

    Marinho Iremar, passei um mês na Mão na Lisa, para os íntimos. Um jornalista famoso, àquela época, e depois pirou, dizem que ele matou a mulher, tbm morou lá. Esqueci o nome dele. O lugar era uma festa, havia um Jornal na Rua das Árvores, uma mulher ficava sem sutiã mostrando os seios pra gente. Ao lado era uma cadeia, os presos gritavam sob tortura, dávamos pão a eles, jogando pela janela, restos de comida. Valeu amigo, ainda tou com seus livros. Abs fraternos.

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