Padre Afonso de Albuquerque Melo, o primeiro jornalista alagoano

Tiphografia Americana em Jaraguá no final do século XIX
Padre Afonso de Albuquerque Melo

Padre Afonso de Albuquerque Melo

Afonso de Albuquerque Melo nasceu nos idos de 1802 na cidade de Alagoas, hoje Marechal Deodoro. Sua família, Calheiros de Melo, era muito influente em Santa Luzia do Norte. Seu avô, também Afonso de Albuquerque Melo, era o proprietário do Engenho Água Clara, que ficava às margens do Mundaú.

Seus primeiros passos na educação foram guiados por seu tio, cônego Antônio Gomes Coelho, vigário colado da freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Alagoas. Como acontecia com todos os jovens da capitania que tinham condições, completou seus estudos no Seminário de Olinda, de onde saiu ordenado presbítero em 1827. Voltou para a cidade de Alagoas para ser coadjutor do seu tio e primeiro mestre.

Com a morte do cônego Antônio Gomes Coelho, esperava-se que Afonso de Albuquerque Melo assumisse o seu lugar, mas a cúpula da igreja enviou um novo padre para essa freguesia. Não foi bem recebido. Na sua primeira missa, viu muitos jovens revoltados rasgando a sua provisão episcopal, forçando a sua saída da cidade. Este fato fornece indícios de que o jovem padre Afonso já exercia razoável liderança política na sua comunidade.

Em 1829, confirmando sua projeção no mundo da política, padre Afonso de Albuquerque Melo é eleito para a Câmara Municipal das Alagoas. Nessa condição é recebido na corte pelo Imperador D. Pedro I, que tendo conhecimento do episódio da expulsão do padre, se refere a Afonso como o “Capelão dos Moços”.

Na década de 30, já o encontramos como suplente eleito para o 2º Conselho Geral da Província, que funcionava na velha capital. Em 1932, ele já é titular deste Conselho. Para a 1ª Legislatura da Assembleia Provincial (1835-1837), Padre Afonso aparece como suplente, mas assume o mandato no período. Em seguida é reeleito para as seis legislaturas seguintes.

Na última legislatura (1845-1847), ocupou temporariamente uma cadeira na Câmara dos Deputados em substituição ao padre Lopes Gama. Voltou à Câmara como deputado-geral eleito por mais duas legislaturas, demonstrando ser um político destacado no cenário alagoano.

Matriz de Nossa Senhora da Conceição das Alagoas

Matriz de Nossa Senhora da Conceição das Alagoas, atual Marechal Deodoro

Com a polarização política na Capitania das Alagoas se dando entre Lisos e Cabeludos, a partir de 1844, padre Afonso toma partido dos Lisos, se vinculando ao grupo liderado por José Tavares Bastos. Essa celebre disputa, que herdava as contradições inicias da província entre conservadores e liberais, foi, de fato, o primeiro grande embate pelo poder político local envolvendo os principais grupos econômicos do norte e do sul da capitania. O episódio terminou por fornecer o embrião para formação política partidária de Alagoas.

Padre Afonso foi uma personagem destacada dos acontecimentos, alguns violentos, que marcaram este período da nossa história. Sua posição contundente lhes trouxe muitos desgastes. Quando da sedição dos Lisos, que contou com a ajuda de “bandoleiros” das matas de Porto Calvo, foi ele que viabilizou a participação do famigerado Vicente de Paula.

Com estes problemas, Padre Afonso encerra a sua participação na política em 1852 e volta a ser vigário na freguesia de Nossa Senhora da Conceição, já na condição de Cônego da Capela Imperial, visitador da Diocese e vigário-geral da província. Além disso, era também proprietário de terras em Atalaia. Faleceu aos 72 anos em Alagoas, atual Marechal Deodoro.

O primeiro jornalista alagoano

O incipiente jornalismo alagoano que surge na segunda quadra do século XIX é profundamente vinculado à política. Segundo o historiador Douglas Apratto Tenório, “os guias de opinião vão defender seus partidos sem nenhuma obrigação com o equilíbrio, com a crítica justa ou com as aspirações reais da população”.

Íris Alagoense

Íris Alagoense

Em 1831, o presidente da província de Alagoas era o paraibano Manoel Lobo de Miranda Henriques. Recebido com desconfiança, o governante resolveu se aproximar dos alagoanos e informá-los melhor dos seus feitos. Para tal, comprou do negociante pernambucano João Batista Franco uma tipografia no valor de 860$905. O dinheiro veio de uma coleta entre os seus partidários.

Assim, foi montada a primeira tipografia em Alagoas, A Patriótica, que foi instalada numa casa da Rua do Livramento, nº 3. Em seguida mudou-se para a Rua do Comércio, nº 6. O nome Patriótica era uma referência à Sociedade Patriótica Federal, organizada em todo o país pelos liberais.

Como eram raros os tipógrafos no Brasil, estrangeiros eram trazidos para operar as máquinas e fazerem as composições de tipos. A Patriótica trouxe do Recife o francês Adolphe Emílio de Bois Garin, que trabalhava no Espelho do Recife, que redigia bem em português e veio ganhando 10$000.

O primeiro jornal a ser impresso em Alagoas e na Tipografia Patriótica foi o Iris Alagoense, que já tinha lançado o primeiro número, em 1931, com impressão na Bahia. O redator era Adolfo Emílio de Bois Garin, auxiliado por dois jovens alagoanos, João Simplício e Bartolomeu de Carvalho.

No dia 18 de fevereiro de 1832, o nº 50 do Iris Alagoense circulou pela última vez. Quatro dias depois, o porta-voz dos liberais volta a circular com nova denominação, agora era O Federalista Alagoense.

O francês Garin, que redigia o jornal, terminou por ser alvo, literalmente, dos embates entre os grupos políticos locais. Seis dias depois de ter circulado o nº 50 do jornal, Garim foi atingido por tiros de pistola, saindo ferido no peito e com mais doze caroços de chumbo no corpo. Voltou para Recife imediatamente.

Auxiliado pelo advogado pernambucano Felix José de Melo e Silva, quem assume a editoria do jornal é um dos líderes dos liberais alagoanos, padre Afonso de Albuquerque Melo, que passa a ser o primeiro jornalista alagoano.

Fonte: Pesquisa do professor Douglas Apratto Tenório para o fascículo nº 8 de Memórias Legislativas, 1998, editado pela Assembleia Legislativa do Estado de Alagoas.

1 Comentário on Padre Afonso de Albuquerque Melo, o primeiro jornalista alagoano

  1. Apesar de não ter feito nenhum comentário tenho acompanhado todos os detalhes da história de Alagoas. Muitas histórias que não conhecia e guardei em nossos arquivos. Parabéns e agradeço pelas histórias.

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