Outra heroína miguelense

História da escrava Rosa do Gentio da Costa, heroína da Revolução de 1817 em São Miguel dos Campos, Alagoas

Engenho de Açúcar
Almoço na roça. Litografia a partir de fotografia. Victor Frond

Almoço na roça. Litografia a partir de fotografia. Victor Frond

De Guiomar Alcides de Castro

Ao pensamento acode-me sempre as recordações da infância, aflorando-me a lembrança os vultos prosaicos que povoaram São Miguel dos Campos, minha gleba natal.

Entre outros, o ereto Nicolau da Costa, que fora escravo dos senhores do engenho Coité, velho banguê em que floresceu a estirpe de Marcos José Antônio da Silva.

Octagenário, aleixado, claudicante com as pernas formando X, tombando de todos os lados, aos efeitos, também, da cachaça, e conhecido, sobretudo, como monarquista obstinado, o negro Nicolau quebrava o silêncio das ruas com impropérios à República.

Quando das datas cívicas, principalmente, 13 de maio, 7 de setembro e 15 de novembro, a pinga lhe enchia, ainda mais, a cabeça e saía pela cidade a gritar.

Com o pau onde oscilavam dois pedaços de pano nas cores da bandeira monárquica, ele bradava em tom muito alto:

“Viva o Imperadô e a Princêsa!… Morra a República, Diadoro e Fuloriano!… Arrenego o sangue desgraçado da minha avó Rosa do Gentio da Costa, nêga traidera!… Vou cortá as veia pra tirar o sangue daquela nêga mardita, miseráve, vergonha da terra de São Migué!… Negra da peste, traidera da Coroa de Portuga!… Morra!… Morra!… Vou botá sal no terreno do Coité no chão da casa dela!… Casa excomungada em que ela nasceu!… Morra a Rosa da peste!…

No dia 13 de maio, então, quando do cortejo cívico, promovido, anualmente, pelo Jacinto Mongolô, descendente de escravos, a voz de Nicolau ecoava com a forca do sangue e dos nervos, justificando-lhe a ascendência afra. E, também, cantava:

“Parabéns! Estranha aurora
Vem brotando em céu d’anil,
É a ideia redentora
Do futuro do Brasil!”

Não conseguira saber porque Nicolau odiava tanto sua avó. Com minha idade infantil, não poderia alcançar fatos históricos, ainda. Após a morte do Cônego Júlio de Albuquerque, arrumando-lhe o arquivo, deparou-se-me a nota seguinte:

“Encontrei a certidão de nascimento do escravo Nicolau da Costa, nascido há 2 de maio de 1836, filho natural de Perpétua Maria da Costa e neto de Rosa do Gentio da Costa. 10 de dezembro de 1922.”

Conheci-lhe a irmã, Perpétua Maria da Costa, velha escrava, a quem comprava as cocadas gostosas, feitas por Dona Sinhá Jacó, senhora de prol, remanescente da aristocracia canavieira, empobrecida pela Lei Áurea, que tomara dos seus antepassados os escravos do engenho Coité de Cima.

Muitos anos empós, quando já era sócia do Instituto Histórico, em palestras com Jaime de Altavila, abordei o caso de Nicolau e lhe entreguei a nota do Padre Júlio. Entre a surpresa do então Presidente do Instituto e o entusiasmo meu, Rosado Gentio da Costa era miguelense. Passei a conhecer-lhe a história heroica através do discurso de Jaime de Altavila, sobre a revolução de 1817, publicado na Revista do IHGA, volume XVIII, 1935.

Com o fracasso da Revolução, presos os soldados insurretos em meio deles, encontrada fora uma escrava — Rosa do Gentio da Costa — “nação uça”, como confessara, forte, de dentes perfeitos, mais ou menos de 17 anos de idade, que negara, peremptoriamente, o nome de seu dono, certamente um ardoroso republicano como ela, que vestira a farda militar, idealizando a libertação da terra estremecida.

Em São Miguel dos Campos, Rosa fora outra Maria Quitéria, da Bahia, com o fardamento verde dos “periquitos”, combatendo animada pela chama cívica da Independência.

No cárcere, de carnes rasgadas por ferros em brasa, corpo açoitado, salgado e, ainda, sob o suplício da sede e da fome, Rosa resistira às maiores torturas sem descobrir quem lhe era o proprietário. Estranharam os desalmados verdugos o silêncio de escrava tão fiel e, também do seu senhor, que não readquiria uma negra jovem, valendo 140$000!…

Com o fito de identificar o dono da escrava, que deveria, também, ser supliciado pelos sonhos anelantes de liberdade, afixado fora o edital de arrematação:

“Traslado da Carta de Editos com o termo de 30 dias para em seu cumprimento ser arrematada a escrava Rosa apprehendida pelo Comissário de Ausentes desta Villa, — O Doutor Antonio Batalha, do Dezembargo de Sua Magestada Fidelíssima seu Ouvidor Geral do Crime e Cível, Corregedor em toda esta Comarca das Alagoas e nella provedor dos bens e fazendas dos defuntos e Ausentes, Capellas e Residios, Auditor Geral da gente de guerra dos terço da Infantaria Militar paga da guarnição dos Palmares, Juiz dos feitos da Coroa e das Justificações da India e Mina, Intendente da lei novíssima e da Polícia, tudo com alçada pelo mesmo Senhor, que Deus guarde, etc. Faço saber aos que a presente carta de editos virem que por este Juízo comissario de ausentes se procedera sequestro e apprehenção da escrava Rosa do Gentio da Costa, a qual é de estatura hum tanto baixa, cabello pixahim, testa pequena, sombrancelhas finas, olhos grandes na flor do rosto, a menina puxando a preta, nariz chato, boca ordinária, lábios groços com todos os dentes na bocca, com cicatrizes de sua terra pelos peitos e ambos os hombros, digo pelos braços, e representa ter de idade pouco mais ou menos 17 annos, e he ladina, e fora apprehendida por fugida e avaliada em 140$000. “Aos 25 de outubro, o Porteiro das Audiências, Albino da Fonseca Telles, exarava, com a sua letra firme, nas folhas 9 do processado: — “Certifico que fixei e desfixei o original no local mais público desta Villa e lhe dei os pregões do estylo por vinte dias e não houve quem me desse notícia do senhor da escrava Rosa.”

Ao estudar a história de minha terra para a feitura do livro São Miguel dos Campos, entusiasmei-me com a bravura de Ana Maria Lins e nem sequer pensaria que Rosa do Gentio da Costa fosse outra heroína miguelense, porque não compreendia a lenga-lenga do escravo Nicolau.

Rosa integra o quadro dos mártires miguelenses, onde se emolduram Antônio de Leão, Sebastião Ferreira e Manuel Pinto, que não apoucaram os brios da consciência cívica diante de tantos sacrifícios e atrocidades.

Não mais se soube que destino tomara a pobre escrava. Presume-se todavia, morrera também, como os outros revolucionários, nos calabouços da Bahia ou chicoteada num pelourinho, em nome da justiça reinol, sob as ordens do cruel Ouvidor Batalha, fiel ao terrível Conde dos Arcos.

Os olhos esbugalhados da jovem Rosa, abrasados de civismo, se fecharam para sempre, guardando no coração o inviolável segredo do seu senhor. As retinas já apagadas fixaram a visão iluminante de um Brasil livre do domínio colonial.

Na história de São Miguel dos Campos, além de Ana Lins, imortalizada está mais outra valorosa figura feminina, glorificada pelo amor pátrio que a inflamara em meio dos maiores sofrimentos: ROSA DO GENTIO DA COSTA.

Publicado originalmente na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, Volume 39, Ano de 1984.

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