Octávio Brandão e seus canais e lagoas

Laura Brandão e Octávio Brandão no casamento em 1921
Octávio Brandão

Octávio Brandão

Octávio Brandão Rego nasceu em Viçosa, Alagoas no dia 12 de setembro de 1896. Era filho de Maria Loureiro Brandão Rego e de Manoel Correia de Melo, um farmacêutico prático e ativista da causa republicana.

Perdeu a mãe quando tinha quatro anos e passou a ser tutorado pelo tio Alfredo Brandão, um médico-militar, poeta e escritor, a quem Octávio ajudou nas pesquisas sobre o Quilombo dos Palmares. Seu primeiro contato com o anarquismo se deu no Cinema Aliança, onde trabalhava e passou a conhecer as ideias dos imigrantes italianos.

Quem influenciou Octávio Brandão foi o tipógrafo Bernardo Canellas, que numa pequena gráfica produzia as propagandas dos filmes e o jornal Tribuna do Povo. Canellas, que era anarquista, foi quem deu os primeiros livros sobre o socialismo para Brandão.

O jovem Octávio Brandão

O jovem Octávio Brandão

Assim, o jovem viçosense tem contato com as obras de Humboldt, Ratzel, Darwin, Euclides da Cunha, Castro Alves e outros, além de começar a estudar Ciências Naturais, Literatura e História.

Aos 16 anos, rompe com o catolicismo, para o desespero de parentes e familiares, todos tradicionalmente católicos. Seus conceitos e atitudes libertárias se chocavam com os valores das classes dominantes alagoanas.

Em 1913, aos 17 anos, morando em Recife onde foi estudar Farmácia, escreveu dois trabalhos sobre a história pernambucana para o Diário de Pernambuco: Aspectos pernambucanos nos fins do século XVI e O Forte do Buraco. Os textos foram publicados somente em 1914.

Nesta época, também fazia pesquisas no Instituto Arqueológico e Geográfico de Pernambuco e as enviava para o tio Alfredo Brandão, que escrevia o livro Viçosa das Alagoas. Graduou-se em Farmácia pela Universidade do Recife.

A vida em Maceió

Laura Brandão

Laura Brandão

Quando acontece a Revolução Russa de 1917, Octávio Brandão estava morando em Maceió, na Rua Santa Maria, onde funda a Farmácia Pasteur, que logo passa a ser ponto de encontro dos intelectuais alagoanos.

Não demorou muito e Brandão já estava produzindo o jornal Semana Social. O jornal foi fechado quando passou a não defender a participação do Brasil na Primeira Guerra Mundial.

A vítima maior da experiência jornalística de Brandão foi Canellas, seu amigo anarco-socialista de Viçosa, que foi para Maceió ajudá-lo na edição do jornal. O tipógrafo teve que sair de Alagoas.

Envolvendo-se com estudos mineralógicos ligados ao petróleo, encontra 14 locais com indícios e anuncia, em 1917, a existência do óleo em Alagoas.

No Jornal do Commércio, de Maceió, em 1º de junho de 1918, Octávio publica uma matéria que tinha o título: Um evadido da realidade. Recebeu várias ameaças, inclusive de morte. Passou a escrever sob pseudônimo. Assinava como Salomão, Fogaréo e Salomão Bombarda, mas todo mundo sabia que era ele. Maceió era uma cidade pequena.

Octávio Brandão

Octávio Brandão

Em 12 de setembro de 1918, a cidade de Maceió acorda com o manifesto Apelo á Revolta colado nas paredes e assinado Os libertários. O cartaz explicava a manobra do governo contra os pequenos plantadores de cana de açúcar.

Sua primeira prisão acontece no dia 13 de março de 1919. Pregava a reforma agrária e funda a Congregação Libertadora da Terra. Inicia as viagens pelos canais e lagoas, percorre 1.500 km, para escrever o seu livro mais conhecido, Canais e Lagoas.

A primeira edição do livro é impressa com recursos próprios e chega a somente 500 exemplares. É lançada em outubro de 1919, quando já morava no Rio de Janeiro.

Deixa Alagoas no dia 18 de maio de 1919, a bordo do vapor Itapura. O secretário do Interior, Manoel Moreira e Silva, havia advertido: “Não me responsabilizo pela vida do Octávio Brandão”.

Militância comunista no Rio de Janeiro

Na Capital Federal, Octávio Brandão estabelece a Farmácia Belga na Rua São Francisco Xavier, 228, defronte ao Colégio Militar. Faz contato com José Oiticica, intelectual e militante anarquista, mas, aos poucos, se afasta do anarquismo.

Octávio Brandão, em pé, o segundo da direita para a esquerda, funda o jornal A Classe Operária, do PCB, em 1925

Octávio Brandão, em pé, o segundo da direita para a esquerda, funda o jornal A Classe Operária, do PCB, em 1925

Em 1920, liga-se ao Grupo Clarté de Paris e através do Grupo Comunista Brasileiro Zumbi, tem contato com o marxismo-leninismo e conhece Astrogildo Pereira, a quem ajuda a fundar o PCB, partido a que se filia somente no segundo semestre de 1922, tornando-se dirigente nacional.

Ainda em 1921, casa com a poetisa e militante comunista Laura da Fonseca Silva.

Realiza a primeira tradução brasileira do Manifesto Comunista de Marx e Engels, a partir da edição francesa de Laura Lafargue, que foi publicada no jornal sindical Voz Cosmopolita, em 1923.

Em 1925, esteve à frente da criação de A Classe Operária, o primeiro jornal de massas do Partido Comunista, da qual foi o primeiro editor. Dois anos depois foi editor-chefe do diário A Nação.

Ainda em 1925, após revolta tenentista ocorrida em São Paulo, entre os dias 5 e 28 de julho de 1924, publica Agrarismo e Industrialismo, considerado a primeira tentativa de interpretação marxista da realidade brasileira. A edição é argentina, com o pseudônimo de Fritz Mayer.

Octávio Brandão participa de um comício no Rio de Janeiro

Octávio Brandão participa de um comício no Rio de Janeiro

Em 1928 foi eleito para o Conselho Municipal (atual Câmara dos Vereadores) da cidade do Rio de Janeiro pelo Bloco Operário e Camponês, frente eleitoral criada pelo PCB que então estava na clandestinidade.

Logo após a guinada esquerdista da III Internacional, as ideias originais de Brandão sobre a revolução brasileira foram condenadas e acusadas de direitistas e menchevistas. Teve que fazer uma humilhante autocrítica e foi destituído dos cargos da direção partidária.

Após dezenas de prisões, é deportado pelo governo Vargas. Parte no dia 25 de junho de 1931, no navio Wiser, para Bremen, na Alemanha. De lá, foi para a União Soviética, onde permaneceu exilado por 15 anos trabalhando na organização da Internacional Comunista.

Octávio Brandão com as filhas

Octávio Brandão com as filhas

No exílio, foi acompanhado pela esposa, Laura Brandão, e pelas três filhas do casal: Sátiva, Dionysa e Vólia. No exílio, o casal ainda teve mais uma filha, Valná. Em novembro de 1943, a família de Octávio Brandão recebe uma carta dele comunicando o falecimento de Laura. A morte acontece nos Urais, para onde a parte administrativa de Moscou tinha evacuado, fugindo do Exército Alemão em plena Segunda Grande Guerra.

Otávio Brandão (segundo da esquerda para a direita, de pé), ao lado de membros da Internacional Comunista em 1931

Otávio Brandão (segundo da esquerda para a direita, de pé), ao lado de membros da Internacional Comunista em 1931

Octávio Brandão volta a casar ainda na Rússia. Sua nova companheira é uma brasileira funcionária da Rádio Moscou, Lúcia Prestes, irmão do líder comunista Luís Carlos Prestes.

Regressou do exílio em 1946 e no ano seguinte foi eleito vereador para a Câmara do Distrito Federal, RJ, logo em seguida, foi cassado, iniciando longo período de clandestinidade.

Em 1955, Octávio Brandão é preso pela 17ª vez. Apenas em 1958, durante a presidência de Juscelino Kubitschek, pôde voltar à vida legal. Aqueles, no entanto, foram dias dramáticos para os comunistas. Dois anos antes, Khrushchov havia denunciado os crimes de Stalin e aberto uma crise sem precedente no movimento comunista internacional. Brandão foi atingido por essa crise e acabou, lentamente, se afastando da militância partidária. O descaso da direção do Partido pelos seus antigos militantes também contribuiu para sua atitude.

Obras

Figura essencial para a compreensão da história sociocultural de Alagoas, somente nos últimos anos seu nome vem sendo lembrado. Estudioso e pesquisador que foi, deixou um acervo monumental, utilizado até hoje como fonte para vários estudos acadêmicos desenvolvidos no Brasil.

Escrito nos idos de 1916-1917, o livro Canais e Lagoas representa um dos poucos registros da natureza que circundava o complexo lagunar Mundaú-Manguaba, quando a intervenção humana ainda não havia provocado mudanças significativas nesse notável ecossistema.

João Cândido, o almirante negro e Octávio Brandão

João Cândido, o almirante negro e Octávio Brandão

O livro traça um roteiro preciso do quão exuberante era a mata atlântica e seus recursos hídricos à época em que foi escrito e, por isso mesmo, serve de precioso contraponto ao absurdo representado pelo processo de irresponsável ocupação do solo que caracteriza, principalmente, a zona costeira do Brasil e, particularmente, o litoral de Alagoas.

Octavio Brandão, na verdade, foi nosso primeiro ecologista. Era dono de um idealismo sem limites e de grande coragem cívica, ainda que sofresse a frustração de não encontrar entre grande parte dos intelectuais da época “calor e simpatia, apoio e estímulo, justiça e compreensão”.

O livro Agrarismo e Industrialismo, de Octávio Brandão, é pioneiro na reflexão dos comunistas sobre a sociedade brasileira.

Rara foto de Octávio Brandão com 19 anos no jornal A Pyrausta de 21 de março de 1917

Escreveu ainda: Mundos Fragmentários, Rússia Proletária, Intelectuais Progressistas, O Niilista Machado de Assis, Combates e Batalhas, Apontamentos de um Burguês, Desmoronamentos Divinos, As Forças Encadeadas, Apelo à Nacionalidade Brasileira e Vida do Novo Mundo.

Faleceu no dia 15 de março de 1980, no Rio de Janeiro, em Santa Teresa, na Estrada do Sumaré, onde viveu os seus últimos 16 anos.

Fontes principais:
Pesquisa de Luiz Nogueira para o fascículo Memória Cultural de Alagoas, editado pela Gazeta de Alagoas.
Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Oct%C3%A1vio_Brand%C3%A3o.

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