O sanfoneiro de Anadia

Antônio do Baião, nascido em Belém, pertencente à antiga Anadia, era discípulo de Luiz Gonzaga. Foto Pei Fon
Feira de Anadia na década de 1950

Feira de Anadia na década de 1950

Sabino Fidélis de Moura

Em uma noite de inesquecível emoção ao assistir o show dos artistas Moraes Moreira e do sanfoneiro Osvaldinho, cheguei às lágrimas ao ouvir entre tantas músicas uma que falava da vida de um sanfoneiro que tocava e encantava a todos que o escutava. A letra da música dizia: ”era fã de um sanfoneiro bom e em um certo dia de festa da padroeira do lugar, calaram pra sempre a voz que mais animava com alegria e emoção as noites de São João”.

Neste momento confesso que chorei, enxuguei as lágrimas e lembrei-me de Antônio do Baião, nascido em Belém, pertencente à antiga Anadia, discípulo do mestre Luiz Gonzaga, a quem acompanhou em vários cantos deste País, mas fez uma opção, enchia o peito e dizia: “Eu adoro tocar em Anadia”. Antônio do Baião empolgou a plateia do nosso Estado e por onde tocou fora dele, emocionou a todos e conquistou um sem números de fãs.

Eu ainda pequeno comprovei a paixão que ele tinha por nossa terra Anadia. Várias vezes vi seus olhos cheios de lágrimas e emoção ao tocar para nosso povo.

Retrocedendo no tempo um pouco mais, lembrei da Arca e da Sobra, clubes sociais de Anadia. Quantos personagens e tantas inesquecíveis festas de Santo Antônio, São João e São Pedro.

No Palco, a voz e sanfona de Antônio do Baião somavam-se ao triangulo e a voz de Audálio e ao zabumba do Cacau… Enfeitiçados, ouvíamos todos, um canto verdadeiro que entrava em nossas almas como um tiro certeiro a nos falar: aproveitem esses momentos, pois, serão inesquecíveis.

Praça Dr. Campelo de Almeida em Anadia

Praça Dr. Campelo de Almeida em Anadia

Que pena, não imaginava que em pouco tempo ele seria somente recordação, lembrança, saudade.

O que me entristece ainda mais é saber que como na música do referido show, assassinaram em Anadia, violentamente, covardemente e barbaramente, o Antônio do Baião. A terra que tanto o apaixonou serviu de cenário para uma triste história, no dia da festa da nossa padroeira, quando de forma fria e cruel foi morto aquele que tantas alegrias nos proporcionou.

Se perguntarem o motivo de tamanha crueldade, lembro de uma canção de Bob Dylan, que diz: “Pergunte ao vento meu amigo, escute o vento, ele vai lhe responder”.

Coloco aqui uma interrogação, quem matou o artista mais popular daquela época de ouro? Respondo sem medo, os mesmos que hoje aniquilam as nossas tradições, como já fizeram no passado, assassinos de almas e sonhos, exterminadores das tradições e da cultura popular, disfarçados e impunes, que reeditam velhas novidades, novas caras com genes antiquados e reestreiam um filme que já sei o final melancólico.

Estão gravados em minha memória os versos da música que ao amanhecer do dia encerrava os festejos juninos. Com uma bananeira nas costas, juntos povo e o sanfoneiro, pelas ruas a cantar “Chora bananeira, bananeira chora, chora bananeira porque meu amor foi embora”. Anadia não esqueceu o artista de tantas festas e de tamanha doação a seu povo.

Aonde um toque de sanfona nos invadir o coração com certeza por perto estará à alma do eterno Antônio do Baião.

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