O Reisado alagoano

O Reisado é uma espécie de revista popular em que os números de canto, danças e declamações de obras poéticas decoradas ou de improviso dominam quase a parte dramática

Theo Brandão*

Theo Brandão em 1979

A época das “Festas”, isto é, o período que vai da véspera de Natal até o dia de “Reis” é, em Alagoas, a época por excelência dos folguedos populares. Pastoris e Presépios, Cheganças e Fandangos, Reisados e Guerreiros, Cabocolinhos e Quilombos, Baianas e Taieiras, ensaiado às vezes com vários meses de antecedências, surgem em profusão nas “festas” de Maceió, Fernão Velho, Cachoeira, Utinga, Pilar, S. Miguel, Capela, Viçosa, Atalaia ou Camaragibe, para diversão das mais várias camadas sociais.

De todos estes folguedos, aquele que goza de maior prestígio, mormente no seio da população mais humilde das zonas suburbana e rural de Estado, é o que tem entre nós o nome de Reisado, ou, atualmente, o seu “alter ego” e sucessor — o Guerreiro.

É ele, em sua essência, nos tempos atuais, uma espécie de revista popular em que os números de canto, danças e declamações de obras poéticas decoradas ou de improviso dominam quase a parte dramática do folguedo constituída pelos ”entremeios” que são representações, na sua maioria curtas e pobres, e, elas próprias, quase sempre acompanhadas de cânticos e danças.

Especificando as influências formadoras do auto, o saudoso mestre Artur Ramos anunciou com muita precisão: “Resultado do esfacelamento de autos como o dos Congos-Cucumbins que evocam acontecimentos históricos dos Reis de Congo; cerimônias totêmicas ligadas ao patriarcado, com festas cíclicas de coroação; sobrevivências dos fastos africanos das embaixadas e cerimônias processuais; festas peninsulares do ciclo das Janeiras, saídas de velhas tradições onde era costume e escolha de um rei ou de uma rainha; autos ameríndios correspondentes”.

Indubitavelmente eles se ligam à tradição da “Janeiras” ou “Reis” portugueses, impregnadas das Saturnais pagãs, continuando o “stips” ou “Strena” dado como “omen boni anni” em que Janeireiros, em bando, vão pelas portas, tocando e dançando, na esperança de alguma dádiva ou presente. Tradição, aliás, que não se circunscreve a Portugal mas existe no resto da Península com as festas do “Aguinaldo” e podem ser rastreadas pelo menos sob a forma de pedinchas e de votos de Boas Festas pelo resto da Europa. “Janeiras e Reis” estes nos quais “bandos percorrem as ruas às caladas a surpreender em suas casas aqueles a quem vão pedir os Reis e cantar “Boas Festas” e a apresentar fragmentos de danças e de autos. Vindos para o Brasil, Janeireiras e Reisados, ou talvez mesmo antes, ainda em Portugal, incluíram-se no folguedo animais característicos dos presépios: boi, burrinha, etc., e personagens totêmicos e míticos outros europeus, ameríndios ou africanos: Sereia, Onça, Jaraguá, Caipora, Folharal, Manuel Pequenino, etc.

Reisado em Maceió no ano de 194. Foto de Marcel Gautherot do acervo do Instituto Moreira Sales

Unindo-se vários ranchos ou “Reis” num folguedo único: o Rancho ou Reisado do Bumba-meu-boi, talvez porque mais significativo para a região nordestina, quase toda ela enquadrada na “área do couro” e tendo ainda por cima a força das sugestões totêmicas europeias e africanas; foi ele engolindo todas as outras variedades de Reisados, incorporando por sua vez todos os outros personagens e fragmentos de autos e romances, num processo, como dizia Mário de Andrade: “de formação gradativa e essencialmente rapsódica”, de modo a constituir “uma verdadeira revista de números vários” do qual o mais importante, porque titular do Reisado, era o Boi, também chamado por causa da onomatopeia do estribilho da sua cantiga, de Bumba-meu-boi.

Complicando a sua estrutura, um outro folguedo ou auto se veio a misturar o Reisado (se é que ele não era realmente também um Reisado) — o dos Congos que, presumivelmente, se formara por imitação das danças guerreiras portuguesas, como as Mouriscadas e Dança dos Pauliteiros, e também por influência dos cortejos e danças das corporações de ofícios, segundo muito bem sugeriu Roger Bastide.

E de 10 a 15 anos para cá, incorporando elementos de outro folguedo — o auto alagoano dos Cabocolinhos (que são entre nós coisa diversa da dança dos Cabocolinhos de outros Estados) um auto completo, a nosso ver sobrevivência, sob outro nome, do auto dos Cucumbis e elementos dispersos de Pastoris, Cheganças e Fandangos, o Reisado se transformou no “Guerreiro” mas guardou, entretanto, a mesma estrutura básica e idêntico desenvolvimento.

Folguedo próprio do ciclo do Natal, ele inicia oficialmente sua atividade na noite de 24 de dezembro, véspera de “Festas” e termina também oficialmente suas atividades no dia de Reis à noite.

Contudo, só oficialmente assim mesmo na capital ele obedece a este período. Realmente começa três, quatro e até cinco meses antes do Natal aí pelos meses de agosto ou setembro com célebres “Ensaios” e se prolonga em excursões para o interior do Estado e mesmo fora deste até fevereiro ou março.

Tais “ensaios” realizam-se nas noites de quarta-feira, sábado e domingo, das 20 horas em diante, em barracões cobertos de palha de coqueiros ou palmeira, iluminados à luz elétrica ou por candeeiro de carbureto (acetileno). Nos arrabaldes de Maceió o dono da “festa” é um merceeiro que deseja incentivar os seus negócios ou que explora as eufêmicamente denominadas “diversões familiares” e que faz do “ensaio” de uma “função” (Guerreiro, Chegança, Baianas ou Pastoril) o chamariz da freguesia. Raramente é o “financiador” da “brincadeira” um amante dos folguedos populares ou membro das comissões de “Festas” dos bairros.

Guerreiro alagoano em 1943. Foto de Marcel Gautherot do acervo do Instituto Moreira Sales

A estes “ensaios” acorre toda a população mestiça dos subúrbios. Vendedores de barracas, de carrinho de mão, de tabuleiros, se estabelecem em torno do barracão e os assistentes, além das “bicadas” de “limpa” na “venda” do dono da festa, podem adquirir nos tabuleiros: o amendoim torrado, o sorvete raspado, as garapas geladas e coloridas, a cocada de coco verde, as batatas cozidas, os “manuês”, os roletes, os roletes de cana caiana, os pacotinhos de farinha de milho, as pipocas e tantas outras guloseimas peculiares de nossa região.

Transformam-se eles assim num ponto social importante na vida dos subúrbios de Maceió ou das localidades e engenhos do interior, e nos intervalos da “função” ou mesmo o seu desenrolar, as conversas, ou namoros, os diz-que-diz-que, os encontros se processam entre cafusos, mulatas, pretos, caboclos e “poor-white” e até mesmo com indivíduos das classes mais elevadas.

É bem de dizer-se que em tais “ensaios”, nos quais somente os Mateus e o Palhaço se encontram trajados a caráter, quase não se ensaia coisa alguma e ele não é mais que uma desculpa para a realização do folguedo antes da época tradicional e oficial.

Após a noite de Reis é praxe encerrar-se as festas natalinas na capital e principais cidades do interior. Não obstante, as “troupes” de Reisados e Guerreiros continuam a brincar pelo interior do Estado em excursões que duram até fevereiro ou março. Partindo de Maceió ou municípios vizinhos ganham os municípios do sul do Estado atingindo a ribeira do S. Francisco e atravessam o rio em Propriá ou se dirigem para o sertão, transpondo as fronteiras do Estado em Correntes, Bom Conselho, etc. Raramente vão ao Norte do Estado que tem seus folguedos próprios os quais, entretanto, nunca ultrapassam, em suas excursões, a sua zona.

Nau Catarineta armada para o fandango da Praça 13 de Maio em Maceió no mês de dezembro de 1947

Nestas “tournées” param em engenhos, vilas, cidades, lugarejos, onde se exibem à noite, partindo ao despontar do dia, em caminhões que passam pelas “rodagens”, raramente nos trens da “Great Western”, frequentemente a pé, sob a soalheira, baús e trouxas às costas em demanda de casas onde possam dançar. E quando em vilas ou cidades não encontram casa que os aceite (o que é muito mais comum hoje quando a aristocracia rural dos banguês e a classe média das cidades do interior e a ela ligada já possui outras diversões: rádios, vitrolas, cinemas, etc.), realizam-se os folguedos nos mercados públicos, cobrando-se como entrada pequena contribuição. Ou então, se algum chefe político ou pessoa influente da localidade patrocina a exibição, ela se efetua em armazéns, pátios cimentados, galpões e não mais nas salas de visita ou de jantar como acontecia nos tempos antigos.

O mesmo acontece nos engenhos. Raríssimos são ainda os senhores de engenho que cedem a Casa Grande para a realização do folguedo, como era costume há 30 ou 40 anos atrás. Ou colocam-nos a dançar nos picadeiros do engenho (de fogo morto geralmente) ou nos cimentados de secar açúcar, nas salas da escola ou em galpões de palha tal como se usa nos bairros de Maceió.

E aí, brinca o Reisado — velha folgança que, embora cada vez mais relegada às classes mais humildes e deseducadas, resiste como uma força tradicional e popular merecedora de estudo e de documentação.

*Publicado no jornal Diário de Notícias de 30 de dezembro de 1951.

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