O Quilombo dos Palmares de Moreno Brandão

O texto abaixo é parte do livro História de Alagoas, de Moreno Brandão. Lançado em 1909, reproduz a visão que o historiador pãodeaçucarense tinha sobre a experiência dos Quilombos dos Palmares e sobre os negros rebelados.

Moreno Brandão

Moreno Brandão

No livro, os negros são tratados como incorporados à sociedade brasileira, quando na realidade foram parte fundadora desse povo novo. Moreno Brandão ainda se refere à religião adotada nos quilombos como um misto do monoteísmo católico e de “aberrações fetichistas dos africanos”.

O Quilombo dos Palmares

Ao Marquez de Monte-Bello succedera na administração da capitania de Pernambuco, a 13 de Junho de 1696, Caetano de Mello Castro, em cujo governo effectuou-se a destruição do famoso Quilombo dos Palmares.

Caetano de Mello Castro

Caetano de Mello Castro

Fundado a cerca de 64 annos, na vigencia das invasões hollandezas, o quilombo estava localisado n’um bello logar, ensombrado de virente palmeiral, na encosta oriental das serras da Barriga e da Jussára.

Distava 120 kilometros do littoral e era banhado pelas aguas paludosas do Mundahú e do Jundiá.

O quilombo palmarino offerecia um esboço de organisação social, que, embora de caracter rudimentar, não deixava de fazer perceber os lineamentos de um futuro estado que não ficava em grande distancia d’aquelles Estados constituidos sob os modelos da civilisação europea. Dez ou doze aldeias, denominadas quilombos ou mucambos, eram dirigidas por sub-chefes que tinham a denominação de ambas, governados supremamente por um chefe superior a todos e chamado Zumbi, que residia na séde desse fac-simile de confederação.

O nucleo do famoso quilombo foi constituido por uns 40 negros fugidos ao predomínio sempre tyranno do senhor. Nota um provecto historiador que foi esse agrupamento em quilombos o segundo estadio das formas de protesto adoptadas pelos negros trazidos ao Brazil.

A principio, devorados pelo banzo incuravel, deixavam-se morrer, appellando para as multiplas modalidades do suicidio, em seguida reagiram com um vigor homerico, e depois encorporaram-se à sociedade brazileira de que foram um prestante auxilio.

Por juxtaposição de novos negros, muitos d’elles já libertos, foi crescendo a republica dos Palmares e á proporção que se expandia procurava garantir-se contra a mais do que provavel aggressão dos brancos.

Contava tambem o quilombo dos Palmares, alguns moradores pardos e mestiços que tangidos pela invasão hollandeza, se embrenhavam nos sertões. Ascendendo ao vultuoso numero de mais de 20.000 homens fortificaram-se, estabelecendo em sua republica minuscula uma cidadella circumvallada de trez estacadas de páu a pique, defendidas cada uma por 200 homens, que eram elevados a maior numero quando se receiava a possibilidade de um assalto que mesmo os proprios hollandezes infructiferamente deram.

PALMARE1Da parte exterior da cidadella levantavam-se as roças e os pomares.

Os moradores das paragens propinquas, por essa especie de complicidade que o mêdo impõe, estabeleceram com os palmarinos um tacito modus vivendi em virtude do qual mutuavam serviços e se davam a transacções reciprocas. Como um traço fundamental da unidade de vistas que os vinculava seguiam todos a mesma religião, mixto do monotheismo catholico, e das aberrações fetichistas dos africanos. Tinham leis repressivas do roubo, do homicidio e do adulterio.

Tornando a iniciativa do ataque aos insolentes confederados, os homens nobres do governo da vila de Alagôas, bem como o povo, enviaram um mensageiro, o capitão João da Fonseca, ao Governador da Capitania, Bernardo de Miranda Henriques, pedindo-lhe para mandar bater esses quilombos.

Coube, porem, a Caetano de Mello e Castro, prover a sua extincção.

O Governador Geral D. João de Lencastro com quem se entendeu, lhe mandou 1.000 soldados paulistas sob a chefia de Jorge Velho que exercia a profissão de capitão de matto.

Fez este uma primeira tentativa, que ficou sem proficuidade e resolveu-se então a, deixando de parte a estulta vaidade de ser elle o unico vencedor da Troya negra, sollicitar auxilios.

De Porto-Calvo, onde se havia refugiado, mandou aviso ao Governador de Pernambuco, pedindo reforços.

Ao nucleo de forças paulistas e mineiras reuniram-se contingentes de Olinda, Recife e lugares circumvisinhos, em numero de 3.000 praças, Penêdo, Alagôas, S. Miguel, S. Luzia do Norte, bem como o alcaide-mór Christovão Lins de Vasconcellos, capitão Rodrigo de Barros Pimentel, mestre de campo Cristovão da Rocha Barbosa, reuniram forças que orçavam por 7.000 soldados aos quaes tocou dirigir um dos typos mais singulares e suggestivos de nossa historia colonial, Bernardo Vieira de Mello, que de sua fazenda denominada Pindoba, situada talvez em Alagôas, troucera grande numero de voluntarios, e no posto de sargento-mór, Sebastião Dias. Avançaram em seguida para os Palmares, que puzeram em cerco, ferindo-se um combate sanguinolento e medonho, em que a resistencia dos quilombos fez vacillar o animo dos assaltantes.

PALMARE2Officiou então Bernardo Vieira de Mello ao Governador da Capitania de Pernambuco pedindo reforços em soldados e artilharia, que não vieram, porque chegara a Pernambuco a noticia de rendição dos Palmares.

Tinham já decorrido dois mezes depois do estabelecimento do cerco á confederação palmarina, quando os negros alli acoutados, avistando ao longe muito gado e cargas que vinham em adjuctorio aos assaltantes, sentiram esmorecer-lhes a coragem que de todo falleceu, quando os homens commandados por Bernardo Vieira de Mello começaram a escalar as trincheiras.

O Zumbi e o numeroso cortejo de seus seguidores suicidaram-se, atirando-se pelos esbarrondadeiros da serra da Barriga, votando-se assim em holocausto á liberdade.

Os sobreviventes foram reescravisados, embora muitos d’elles fossem homens livres. Os vencedores dos legendarios palmarinos ficaram cumulados de favores, cabendo-lhes as terras dos quilombolas em sesmaria, que tambem tocou a Domingos Jorge Velho.

Fez este ultimo erigir a igreja que foi depois matriz da freguezia da Atalaia.

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