O partidarismo das flores

Théo Brandão explica a relação nos pastoris entre as cores dos cordões e as flores. Especial para o Diário de Notícias. Publicado no dia 24 de janeiro de 1960.

Pastoril Filhas de Maria de Matriz de Camaragibe
Pastoril dos anos 60 em Maceió

Pastoril dos anos 60 em Maceió

Théo Brandão*

MACEIÓ – Além das cores o partidarismo dos Pastoris alagoanos se manifesta através de flores que as simbolizam e que a elas estão intimamente ligadas nos Pastoris: a rosa que representa o encarnado e o cravo que representa o azul.

Que a rosa possa representar o encarnado ainda se concebe porque vermelho ou rosa tudo são graduações de uma mesma cor.

Mas para representar o azul é que não há justificativa pois ao que sei não há cravos azuis. Todavia nos Pastoris o cravo é símbolo do azul e os partidários desta cor se chamam também CRAVISTAS e os do encarnado de ROSISTAS; como se pode constatar nessa velha jornada.

MESTRA:
Nestas campinas me deram
O nome de D. Mestra.
Os rosistas já me chamam
Bela Rainha da Festa.

CONTRAMESTRA:
Nesta campina me deram
O nome de contramestra.
Os cravistas já me chamam
Bela Rainha da Festa.

Pastoril Senhor do Bomfim do Poço em 1967

Pastoril Senhor do Bomfim do Poço em 1967

Qual a razão? Talvez o antagonismo das flores que já se nota em prosa ou verso.

Se a História nos refere Guerras das duas Rosas que eram branca e vermelha na Inglaterra, se houve guerras e partidos de outras flores como se sabe das “Guerras do Alecrim e da Manjerona”, a verdade é que a tradição popular fala mais no antagonismo do cravo e da rosa.

Amadeu Amaral citou-nos exemplos do cravo e da rosa como símbolos dos amantes. Mas o que é certo é que a briga das duas cores está no trovário popular na deliciosa cantiga que Alexina Magalhães Pinto, por primeiro registrou e que é o motivo de uma das mais belas rondas infantis.

O cravo brigou com a rosa
Debaixo de uma latada,
O cravo ficou doente
E a rosa despetalada.

O cravo ficou doente,
A rosa foi visitar,
A rosa teve um desmaio,
O cravo pôs-se a chorar.

Pastoril no auditório da Rádio Difusora em 1963

Pastoril no auditório da Rádio Difusora em 1963

Em Portugal o antagonismo do cravo e da rosa se patenteia nesta quadrinha recolhida por Alberto Pimentel:

Eu sou o cravo, tu és a rosa.
Qual de nós valerá mais?
O cravo nasce à janela,
A rosa pelos quintais.

Será que se prende este simbolismo das flores também, como nas cores, a Jesus e à Maria? Em Portugal há uma quadrinha recolhida por Luís Chaves e que se diz:

Nossa Senhora é a rosa
O seu menino é o cravo,
S. José é o jardineiro
Daquele jardim sagrado.

Todavia, na quadrinha, se dá o contrário do que se passa em Maceió: Nossa Senhora é que é a rosa, isto é, do encarnado e o menino Jesus é que é o azul, isto é o cravo.

Aliás na imagem da quadrinha popular incorporada às jornadas “24 de Dezembro” e que foi aproveitada por Gil Vicente a comparação é justamente de Maria com a Rosa e de Jesus com o cravo:

Abre a rosa angelical (ou jericó)
Do botão nasceu a luz,
Nasceu um cravo encarnado,
Do cravo nasceu Jesus.

Outra quadrinha, recolhida por Alexina Magalhães Pinto, diz:

Foste bem nascido,
Foste bem criado,
Feito de uma rosa,
De um cravo encarnado.

Pastoril no auditório da Rádio Difusora em 1963

Pastoril no auditório da Rádio Difusora em 1963

Este partidarismo, se não estamos enganados de leitura, há tempos feita em Macedo ou Machado de Assis, se desenvolveu no Rio entre duas artistas dos meados ou fins do século passado cujos nomes se não estamos deslembrados foram Ester Guimarães e Cláudio del Mastro e que tinham como símbolos respectivamente a rosa e o cravo.

Não sabemos quem tenha influenciado um ao outro: se o partidarismo das artistas fluminenses (como se dizia na época) ou se a dos pastoris. O certo é que sua existência no Rio, mostra como o antagonismo da rosa e do cravo já é coisa antiga e tradicional.

Como já tivemos ocasião de referir o partidarismo das flores se manifesta nos pastoris, como o das cores, pelo porte de flores na lapela dos partidários.

Nas JORNADAS há referências ao cravo e à rosa, vemos na seguinte e tradicional JORNADA:

MESTRA:
Em meu jardim eu tenho
Para ofertar meu amor,
Lindas rosas e mil flores
Com seu cheiro embriagador.

CORO:
A linda mestra é uma roseira,
A contramestra é um craveiro,
A Diana é uma cravina
E as pastorinhas são as jardineiras.

CONTRAMESTRA:
Em meu jardim eu tenho
Cravos brancos e açucenas.
Escolhidos entre orvalhos,
Em manhã doce e serena.

CORO:
A linda mestra é uma roseira,
A contra-mestra é um craveiro,
A Diana é uma cravina
E as pastorinhas são as jardineiras.

Pastoril no auditório da Rádio Difusora em 1963

Pastoril no auditório da Rádio Difusora em 1963

Mas a principal manifestação do partidarismo através das flores são as ofertas de flores e buques e os leilões de flores.

As ofertas de flores e buques, naturais ou artificiais, aos partidários, que se obrigam a retribuir com dinheiro às pastoras era outrora prática muito comum. Pedro Nolasco Maciel, nos fins do século passado assim se referia: “O Sinezando Pita a quem a velha do presépio, que por sinal era uma menina picante, oferecera um lindo buque de flores naturais, retribuíra com uma pelega de 3 mil réis, e mandara oferecê-la à Zulmira.

Atualmente embora ainda se use a prática em certos pastoris não há mais na capital as fórmulas para a chamada dos partidários como ainda se registra no interior:

— Seu Manuel
Queira se dignar:
Receba esta rosa
Que a mestra lhe dá.

Aliás há variantes da prática e Aurélio Buarque no seu conto: o CHAPÉU DE MEU PAI de DOIS MUNDOS registra esta fórmula:

“A contramestra vinha oferecer um cravo a meu pai:

Seu Manuel
Me faça um favor
Por sua bondade
Receba esta flor
Eu não venho dar,
Venho oferecer:
Seu Manué-el
Queira receber

Todo pachola, meu pai subiu ao palco, punha a flor na botoeira e uma nota no peito da contramestra. Em baixo, os correligionários deliravam em aplausos. Meu pai descia, satisfeito, feliz”.

Outra manifestação outrora muito frequente mas com tendência a desaparecer é o leilão das flores.

Nos pastoris antigos era o Velho ou Palhaço (nos pastoris de Dão de influência pernambucana) quem deitava o pregão dizendo:

— Pessoal, que valor tem essa rosa na mão da mestra?!
— Minha gente, que valor tem esse cravo na mão da contramestra?

Nos pastoris onde a prática ainda é encontradiça ao chegar a exibição dos pastoris ao fim, antes da jornada de despedida surgem a mestra no palco com uma rosa na mão e a contramestra com um cravo.

A Diana canta inicialmente:

DIANA:
Aqui, senhores, frescas, viçosas,
Estão flores as mais formosas,
Rosas vermelhas, simples, singelas,
E o cravo branco, de aroma franco.

MESTRA:
Eu sou a rosa de cor vermelha
Que tenta a abelha e o beija-flor,
Sou a mais bela e a mais cheirosa,
Simples, singela, de áurea cor.

CONTRAMESTRA
Mais que a rosa, bela e garbosa,
Eu, cravo branco, sempre cheiroso,
Cheio de vida, de aroma franco,
É o cravo branco o mais cheiroso.

Noutras vezes mestra e contramestra cantam as canções do Encarnado e do Azul:

MESTRA:
É a cor do manto de Jesus,
O encarnado,
E eleva nossa alma a flux,
O encarnado,
É a cor que encanta e reluz,
O encarnado,
E aos corações ternos seduz,
O encarnado.

CONTRAMESTRA:
Tem Virgem em seu lindo manto,
A cor azul, azul,
Simboliza o que há de mais santo,
A cor azul, azul,
É o emblema da caridade<
A cor azul, azul,
É querida da simplicidade,
A cor azul, azul.

Depois dos cantos da mestra e da contramestra é que começa propriamente o leilão. O apregoamento pode ser feito pelas próprias pastoras, pelo pastor e pelos locutores e animadores.

Os lances são às vezes alternados para haver a necessária emulação e entusiasmo:

— Quanto me dão por esse cravo?
— Quanto me dão pela rosa?

E o pagamento ora é no final do lance pagando o arrematante a importância total ou pagam os licitantes a diferença entre o lance anterior e o que faz.

*Especial para o Diário de Notícias. Publicado no dia 24 de janeiro de 1960.

2 Comments on O partidarismo das flores

  1. LUCIA REGUEIRA LUCENA // 17 de janeiro de 2016 em 21:50 //

    Realmente, saudosa memoria dos pastoris, de alguns anos atrás, em Penedo, existiu o Pastoril de D. Aidil Sotero, dedicada a Igreja, os pais consentiam que suas filhas participassem do Pastoril de D. Aidil, Sr. Antonio Pedro, pintor e escultor, Mestre da Escola de santeiros, pintava os painés que eram colocados no palco onde o Pastoril se apresentava, simulando o nascimento de Jesus, a Visita dos Magos, A fuga para o Egito etc. Pe. Aldo Brandão, seminarista à época, acompanhava sempre o pastoril nas apresentações em Junqueiro, São miguel dos Campos, Coruripe, geralmente nas paróquias da Diocese de Penedo. A mestra, a diana e a contramenstra sempre moças bonitas, que nos intervalos das jornadas eram convocadas a aparecer em cena, os partidários colocavam notas que eram pregadas com alfinetes em suas roupas, as torcidas do azul e do encarnado, vibravam e no final de cada apresentação era proclamado o azul ou o encarnado como vencendor, quando era o encarnado, todo o cordão entrava em cena cantando: nós somos do encarnado, cor do nosso coração, os nossos partidários, quando entramos em cena ficam cheios de emoção. Ah! quanta saudade, as minhas irmãs Marlene e Ubaldina dançavam como mestra e contramestra no pastoril de D. Aidil, quando chegavam em casa sempre discutiam sobre o cordão azul e ocordão encarnado, minha mãe, pediu a d. Aidil para colocar Marlene como diana, e assim pos fim as discussões, eu pequena, acompanhava com muita expectativa o final de cada apresentação.
    Obs. a renda das aprentações do Pastoril era destinada a formação de seminaristas.

  2. Fazem muitos anos que não vejo um pastoril, a última vez foi em Pirenópolis, Goiás para onde foi trazido na década de 1920 por um padre nordestino, provavelmente alagoano. A diferença entre o pastoril do Nordeste se dá principalmente pelo fato de que em Goiás ele faz parte das comemorações da Festa do Divino Espírito Santo mas ainda mantém a tradição da função de pastorinha ser bastante almejada pelas moças das famílias mais tradicionais da cidade.

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