O Jornal de Alagoas por dentro

Audiência com o secretário de Segurança, coronel Amaral. Com Freitas Neto, Nilson Miranda, Bartolomeu Dresch e Jefferson Morais. Década de 80. Foto de Adaílson Calheiros.
Freitas Neto

Freitas Neto

Freitas Neto*
Publicado no livro Jornal de Alagoas 80 anos, em 1988.

O jornal por dentro. O Jornal de Alagoas por dentro da minha vida profissional. Um tema apaixonante, escrever um pouco da longa vida, dos 80 anos, deste jornal. Minha vida como jornalista foi plantada no jornal estudantil A Semente, na cidade pernambucana de Garanhuns. Era responsável pelo placar esportivo desse jornal, rodado em mimeógrafo. Era um panfleto estudantil que circulava em 1964. Fui convidado pelo então presidente da União dos Estudantes de Garanhuns — UEG, o hoje jornalista Gladstone Vieira Belo, um dos diretores do Diário de Pernambuco.

Com a semente plantada, voltei em 1965 para minha terra, com um compromisso pessoal de continuar estudando, mas com o objetivo de arranjar o primeiro emprego. E como boy, uma espécie de contínuo, do Sindicato dos Banqueiros, nas horas vagas, continuava atualizado com os resultados do futebol. Escrevia do próprio punho um jornal, com alguns gráficos e ilustrações, sob o título de O Esporte.

Era uma forma de praticar, de aprender e de gosto pelo esporte. O Esporte tinha todas as manhãs de segunda-feira um leitor privilegiado, que, só muitos anos depois, tomei conhecimento: meu pai — Vicente de Carvalho Freitas — lia o improviso de jornal e comentava o fato orgulhoso com seus amigos comerciantes, no Mercado de Maceió. Enquanto esses fatos aconteciam, continuava discutindo sobre futebol com amigos, no “Ponto Final”, o famoso “Bar do Dito”, em Bebedouro. Foi a partir daí que o Jornal de Alagoas começou a entrar na minha vida profissional.

Um desses amigos, o Edvaldo, conhecido por “Xiba”, era linotipista do Jornal de Alagoas. E de tanto ver, ouvir e discutir comigo sobre futebol, terminou me apresentando ao jornalista José Aldo Ivo. Lembro que a minha primeira reportagem publicada no Jornal de Alagoas versava sobre uma equipe de Garanhuns, que tinha em suas fileiras o lateral Evando, que depois veio atuar no futebol alagoano. Assim, em 1965, dava os primeiros passos, na minha profissão, sendo responsável pela coluna Coletânea Amadorista. Comecei a frequentar uma redação de jornal, passei a conhecer o jornal por dentro.

Há tantas histórias para contar, que não caberiam neste artigo. Mas vamos narrar algumas delas, que ficaram nos bastidores e outras que estão escritas nas páginas dos 80 anos do Jornal de Alagoas. Passei praticamente um ano aprendendo, sem ganhar um tostão. Naquela época não havia nem escola, nem curso de jornalismo. Estava ganhando experiência, pois sequer sabia me comunicar com meus companheiros. Com saudade, recordo o comentário do companheiro jornalista Hélio Jambo, que ao me ver subir as velhas escadas, para me deparar com a Redação do jornal, dizia que olhava de um lado para outro, baixava a cabeça e sem cumprimentar ninguém, timidamente me sentava numa das mesas para datilografar as notícias.

O primeiro grande jogo que ajudei na cobertura foi a goleada do Santos, com Pelé e outros talentos do futebol brasileiro, imposta ao CRB, no Estádio Pajuçara. Fiquei responsável pelo critério de notas, de acordo com a atuação de cada atleta. Como recompensa, ganhei o ingresso para assistir ao importante jogo. Já começava a aprender a marcar as matérias, procurar titulá-las, de acordo com a sua importância, recebendo para isso, a experiente orientação do amigo e jornalista Aldo Ivo. Lá encontrava o companheiro Juarez de Oliveira, que morreu praticamente à míngua, que preparava os textos dos jogos que iriam acontecer, ao lado do Batista, atualmente na circulação do Jornal de Alagoas.

Incentivado pelo Aldo Ivo, passei a integrar uma redação mesclada de jovens, como Válter Oliveira, Amauri Soares, Jurandir Queiroz, José Otávio da Rocha, Bezerra Neto, o saudoso Zito Cabral, Ricardo Neto e os mais experientes, como Hélio Jambo, Otávio Lima, Carivaldo Brandão, José Lima, Amoldo Jambo, Hélio Nascimento, Rubens Jambo, entre outros. Comecei a travar conhecimento com a composição, paginação e impressão de um jornal. Conhecendo profissionais gráficos experientes e amigos, como os saudosos Júlio, na Impressão, e o tituleiro, o nosso querido “Galego Doido”. Entre os vivos, difícil citar todos, mas como esquecer da experiência do Eliziário, que se encarregava da paginação do esporte, que dividia suas atividades entre as oficinas do jornal e uma cerveja aos sábados no “Bar do Chopp”. O velho Maurício, o “Piteco”, o “Xiba” e tantos outros vivos ou que nos deixaram, em vida, seu exemplo profissional e de grata amizade.

A minha primeira carteira profissional, ainda menor de idade, foi assinada pelo Jornal de Alagoas. Afastei-me por um período do jornal, voltando na época do Oliveira Júnior como diretor, no início de 1969. O jornal tomou um impulso editorial. Circulou até com a edição do Jornal de Alagoas Esportivo toda segunda-feira, com a participação de Lauthenay Perdigão, José Machado, Adelmo dos Santos, Arlindo Tavares, entre outros. Essa edição circulava com os principais assuntos gerais do fim de semana, cobrindo, na época, fatos em primeira mão, como a enchente de São José da Lage. Trabalhavam, entre outros, José Djalma, Amauri Soares, Alberto Jambo, José Otávio e Zito Cabral.

A experiência do jornal esportivo foi rica. Mas vale lembrar um dos fatos mais pitorescos registrados na imprensa alagoana, durante aquela fase. Preocupado com o fechamento do grosso material informativo — o esporte — observava uma acirrada discussão dos companheiros para titular a matéria que seria manchete principal. E como não se chegava a um acordo, para o título principal, cheguei a chamar a atenção, para não sair o pior título. E não deu outra coisa: “Mataram a mulher e a enterraram viva”. Na segunda-feira, todo mundo lamentava a tremenda falha. Entrou para o folclore.

Quantas noites de sono, dormindo entre as bobinas de papel que servem para fazer rodar o jornal diário. A nossa resistência para continuar com o jornal esportivo já chegava ao fim. Perdi muitos quilos e cheguei a dizer ao Oliveira que, se as condições não fossem ampliadas, tanto eu, como o “Zé da Prova” precisaríamos de um caixão, em face do nosso esgotamento, trabalhando mês a mês, semana a semana, praticamente sem folga. A edição circulou por mais de seis meses. Quando não dormia nas bobinas, enfrentava a pé o retorno para casa altas horas da noite, contando os postos até Bebedouro. Ao lado do Roosevelt, do “Béu”, o nosso “Mateu”, do “Xiba” e de outros companheiros gráficos enfrentávamos o temido e escuro trecho das “Mangueiras”, já perto do nosso bairro.

Outras vezes, o sono era mais forte. E a gente adormecia nas mesas de redação ou debruçados em nosso instrumento de trabalho: a máquina de escrever, após ir à Praça do Relógio, comer um pão doce com refresco de maracujá. Numa dessas oportunidades, por curiosidade, fiquei encarando uma pessoa careca, que me perguntou por que estava olhando tanto para ele. No outro dia, constatei, ao ver sua foto no jornal, que se tratava do famoso pistoleiro, já morto, “My Friend”, que, a exemplo de hoje, sempre conseguia facilidade para sair e voltar para a cadeia pública. Como esquecer fatos pitorescos, como o “Piteco” sempre a colocar, na última linha dos textos de composição, a seguinte frase: “Galego, você é um…” E, às vezes, o nosso paginador esquecer e sair depois de uma notícia, por exemplo sobre a guerra do Vietnam, tamanho descuido. Como não esquecer o famoso erro de revisão na Coluna 8, do jornalista Amoldo Jambo, que ressaltava e saudava o aniversário da bunda de música da Polícia Militar de Alagoas. E com humor, o próprio Amoldo Jambo se justificava diante da presença indignada do então coronel Adauto Gomes Barbosa, comandante da PMA, pedindo explicações: “Coronel Adauto, o nosso erro foi usar a expressão no plural, porque a bunda não tem duas bandas”.

Do “Xiba” não consegui mais notícias. Até seus familiares não sabem de seu paradeiro. Desapareceu. Quem sabe, a gente se encontre qualquer dia neste mundo “sem porteira”, como dizia sempre Tobias Granja. Do panfleto estudantil A Semente, soube na formatura do amigo e camarada Laudo Braga anos mais tarde, num churrasco, em Brasília, através de um companheiro que na época foi dirigente bancário em Garanhuns, que o jomalzinho era um órgão que recebia apoio do Partido Comunista Brasileiro (PCB). A semente brotou. Tornei-me um jornalista profissional que cada dia amadurece e fui conduzido por minha categoria a dirigente sindical, passando antes por dois capítulos do histórico 80 anos de vida do Jornal de Alagoas. Ironia do destino.

* Jornalista, ex-secretário da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), já presidiu o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Alagoas e a Associação dos Cronistas Desportivos de Alagoas (Acda), fundador e sócio benemérito da Associação Brasileira de Cronistas Esportivos (Abrace), atualmente é debatedor do programa “A Vez do Povo na TV”, na TV-Alagoas — Canal 5, diretor de Comunicação Social da União dos Vereadores do Brasil — UVB, e vereador pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) na Câmara Municipal de Maceió. Começou sua vida como jornalista profissional, no Jornal de Alagoas.

1 Comentário on O Jornal de Alagoas por dentro

  1. Estou procurando consultar o Jornal de Alagoas na década de 80.

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