O Derby do Prado e os Bravos do Nordeste

Antigo Derby de Maceió, na Av. Manguaba, atual Av. Siqueira Campos, no Prado
Jockeys no Derby do Prado em Maceió.

Jockeys no Prado Alagoano em Maceió, construído em março de 1895. Depois o nome mudou para Jockey Clube

Ednor Bittencourt
(Extraído do livro Picadas e Ferroadas, 1987. O título do capítulo é do site História de Alagoas)

Chamavam-no de Bita, mas seu verdadeiro nome era Anthenor, nascido um mês antes da Proclamação da República e filho do seu Né e D. Maroca, senhores do engenho Mangabeiras, na cidade do Pilar.

Sua esmerada educação foi traçada no tradicional e austero estilo da época do Império e adotado por todo senhor de engenho que se prezasse, passando, inclusive, urna fase da infância no Seminário de Maceió. Aprendeu a ser um homem dedicado, de corpo e alma, ao trabalho e à família. Dotado de uma honestidade a toda prova, impunha a todos, o maior e merecido respeito. Tinha ar de nobreza e serenidade, gostando de andar elegantemente trajado. Era envolvente e sabia ser amigo. Compadre! Este caboclinho que, além de tudo, era um cabra macho, autêntico homem que vive neste sofrido Nordeste, era o meu saudoso e querido pai, de quem me orgulho de ter sido um de seus filhos.

Como todo menino de engenho, possuía boas montarias, tornando-se, em pouco tempo, um intrépido cavaleiro. Quando rapaz, cavalgando seu fogoso e belo mangalarga alazão, representava o clã Bittencourt nas corridas e cavalhadas da tradicional festa de Nossa Senhora do Pilar, padroeira da cidade e do velho Banguê da família. Parecia um garboso cavaleiro das cruzadas de Ricardo Coração de Leão.

Durante a peleja, sempre defendia o cordão azul, assinalado no gorro. Era a cor de seus olhos, — duas safiras brilhantes que lhe davam um olhar sincero e profundo. Conseguia colher, com destreza, muitas argolas, cujos prêmios eram entregues a suas inúmeras e bonitas paqueras, pilarenses e visitantes. Com elas valsava.

Final de um páreo no Derby do Prado

Final de um páreo no Prado Alagoano, que foi dirigido por Manoel Vieira Xavier e Ezequiel Pinto. Depois, já conhecido como Jockey Clube, foi dirigido por Luiz Leite e Oiticica

E como valsava, no dia dedicado à padroeira depois da procissão, com o andor ricamente ornamentado por vovó Maroca que, antes, oferecia suas saborosas peixadas de bagre e fritada de siri macho do Pilar! Não faltavam seus conhecidos e tão procurados licores de jenipapo e figo. Dançava-se ao som de um conjunto formado por músicos da banda Euterpe Pilarense. Esta, por sua vez, era dirigida pelo seu amigo de infância Aristóbulo Cardoso, autor da tão conhecida música carnavalesca “Sururu da Nêga“, com letra de Pedro Nunes.

Suas façanhas foram repetidas na Usina Estrada Branca, em Atalaia, onde passou algum tempo como guarda-livros e farmacêutico, tocando, ainda, saxofone. Era o Walter Toledo daquela época.

Forçado a deixar a salutar vida do campo, trocando-a pela vida da cidade, veio residir na então pacata e gostosa Maceió. Porém, não deixava de pensar nos equinos. Se tivesse seguido a carreira militar, na certa teria sido um respeitável oficial da cavalaria.

Felizmente, Maceió que contava com uma praça como a Deodoro, semelhante às existentes nos centros adiantados, possuía, também, um local destinado ao nobre esporte de corridas de cavalo. Seu Derby estava instalado na antiga Av. Manguaba, hoje Siqueira Campos, no local onde funciona a Pecuária. Sua existência dera ao lugar o nome de Prado que, abrangendo, posteriormente, outras ruas vizinhas, formou o bairro do mesmo nome.

E, para matar a saudade, o velho não deixava de assistir aos interessantes páreos, lá realizados em alguns domingos à tarde. Quando havia corrida, afixavam na Praça Deodoro, às vésperas, cartazes com o programa e o nome dos animais com os respectivos jóqueis. De lá, saíamos no bonde do Prado ou do Trapiche com o mano Fred e Ernandi Passos, seu amigo e também amante do belo e nobre esporte. No jóquei, juntávamo-nos aos não menos aficionados turfistas Américo Rego e Francisco Rocha Cavalcante (Chico Rocha).

Era um espetáculo fora do comum. Apostavam e vibravam nos momentos mais emocionantes da corrida, torcendo pelos animais por eles previamente escolhidos e tidos como favoritos. Às vezes, “entravam pelo cano” e procuravam não demonstrar fraqueza, aguentando o “galho”. Tomavam cerveja Cascatinha com pipocas, enquanto eu e Fred, usávamos Sisi, refrigerante de sabor agradável, hoje substituído pelo tradicional guaraná.

Ernandi era bom no cavalo e em arma de fogo. Tinha uma invejável pontaria, conseguindo atingir, com um tiro de revólver a distância, uma caixa de fósforos colocada na cabeça de qualquer cristão que tivesse a coragem de topar a parada.

Dotado dessa qualidade, fora escolhido como ator do primeiro filme produzido em Alagoas. Era o mocinho; Chico Rocha, o bandido e Nice Ayres, irmã de Plínio e Louvain, era a moça. Filmado pelo fotógrafo Chagas, tinha o título de “Bravos do Nordeste“, obtendo grande sucesso tanto aqui como em outros Estados nordestinos. Logo depois, seu colega Rogato lança “Casamento é Negócio?

O problema do cavalo estava resolvido, faltando apenas qualquer coisa ligada à cor azul, pois era azulino, desde menino, antes mesmo da criação do CSA, do qual passou a ser torcedor. No Pilar, além das cavalhadas, contava com grandes e bem ensaiados pastoris. Aqui, tomou parte na organização de um desse tipo de folguedo natalino. Funcionava no quintal da residência de seu Caldas, na Rua do Macena, junto ao prédio da Delegacia de Plantão. Era pai de Zezé, Mário, Ivan, Ivete e Creuza. Minha irmã Meluzinha, era a última pastora do cordão azul, é claro. Nele tomavam parte, também, os primos Bernadete e Diógenes Jucá. Era o maior e o mais bem organizado pastoril da paróquia e a patota da praça dava toda cobertura. A torcida era pra valer, indo até o sol raiar.

1 Comentário on O Derby do Prado e os Bravos do Nordeste

  1. Delma Conceição de Lima // 2 de outubro de 2015 em 19:31 //

    Que legal e interessante! então, tenho casa na rua que fica em frente à pecuária. Admiro muito nossa história. Obrigada!

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