Nota sobre publicações literárias em Maceió, nas décadas de 20 e 30

Início da Rua Boa Vista, na Praça dos Martírios, nos anos 30
Escritor e poeta Carlos Moliterno

Escritor e poeta Carlos Moliterno

Carlos Moliterno*

O fim da Primeira Guerra Mundial assinalou, sem dúvida, um sentido renovador do processo cultural da província de Maceió. Novas correntes de pensamento e de especulação, provindas da Europa, influíram nas atividades culturais dos nossos homens de letras. No sul do país, resultou na movimentação da Semana de Arte Moderna, desdobrando-se, inclusive, no plano social e político. Em Maceió, fundara-se a Academia Alagoana de Letras, reunindo em torno dela o que tínhamos de mais eminentemente representativo da cultura local. A cidade pacata e provinciana absorvia, também, os fluxos da cultura europeia, sobretudo da França, país do qual recebia os surtos renovadores de sua civilização.

Na década de 20, Maceió era uma pequena cidade com reduzidos pontos concentradores, onde todos se encontravam e todos se conheciam. Tínhamos algumas sociedades dançantes, alguns cinemas, disputados encontros de futebol, de iole, corridas hípicas, missas solenes na Catedral aos domingos, bondes elétricos que eram os veículos preferidos para os passeios aos arrabaldes, excelentes festas de ruas, destacando-se o Natal de Bebedouro.

Depois das famosas matinés do cinema Floriano, inaugurado em 1927, seus frequentadores de ambos os sexos, procuravam as sorveterias, entre as quais a mais concorrida era a Santa Laura, na rua da Boa Vista. Moças e senhoras usavam chapéus e os rapazes trajes de passeio completo e chapéu de palhinha.

Esquina da Av. Moreira Lima com Rua Cincinato Pinto e Beco São José, nos anos 20

Esquina da Av. Moreira Lima com Rua Cincinato Pinto e Beco São José, nos anos 20

O Teatro Deodoro recebia companhias e artistas famosos, como o Pequeno Edson e Itália Fausta. As disputas entre o CSA e o CRB dividiam a sociedade local e os jogos eram frequentados pelo que tínhamos de mais requintado em nosso meio. A companhia de bondes, nesses dias, reforçava o tráfego com inúmeros carros chamados de “reboque”.

Também o Carnaval possuía atrações que ficaram no passado. Alguns clubes marcaram época naquele tempo, como o Sururu, os Morcegos, que arrastavam verdadeiras multidões pelas ruas da cidade. E além dos clubes, havia reuniões dançantes no terraço do Hotel Bela Vista, um dos prédios mais bonitos que já possuímos. E como uma espécie de ponto de referência da cidade, tínhamos o Relógio Oficial, na confluência da rua do Comércio com a Senador Mendonça, que começou a funcionar em 1922.

Nosso Mercado Público, na desaparecida Praça de São Benedito, onde está hoje a Secretaria de Educação, era ladeado por enormes tamarineiras, tanto na rua Augusta, como na Moreira Lima.

Era o tempo em que os ônibus eram chamados de “sopas” e os aviões desciam na Lagoa da Levada. Era o tempo da construção do nosso porto marítimo, no governo do professor Osman Loureiro.

Escola D. Pedro II nos anos 20. Hoje é sede da Academia Alagoana de Letras

Escola D. Pedro II nos anos 20. Hoje é sede da Academia Alagoana de Letras

São inúmeros os aspectos que poderíamos ainda focalizar para oferecer uma imagem mesmo deficiente da nossa província por esse tempo. Contudo, não se trata aqui de mostrar uma cidade, mas o movimento cultural de Maceió nas décadas de 20 e 30. Além dos jornais diários, tivemos algumas publicações de sentido nitidamente cultural. Em 1921 circulou a Revista “Educação“, dirigida por Virgílio Guedes e em 1925 a “Mundus“, com Moreno Brandão, Elias Sarmento, Carlos Paurílio, Amarílio Santos entre outros. Em 1931 surgiu “Novidade“, de Alberto Passos Guimarães e Valdemar Cavalcanti. Em 1932 surge a revista “Alvorada“, de Zaluar Santana, Otávio Menezes, José Maciel e Aristeu de Bulhões. Em 1933, foi a vez de “Alagoas Ilustrada“, que teve como redator-chefe Raul Lima. Em 1937, apareceu o primeiro número da revista “Natal“, de Luiz de Macedo, que circulava, como o próprio nome indica, no mês de dezembro. E em 1938, a livraria e tipografia Ramalho lançou “Alagoas“, uma revista dirigida por Joaquim Ramalho e Afrânio Melo.

Quanto aos jornais, publicavam colaboração de todos os nossos homens de letras, mas nenhum deles publicou, realmente, um suplemento literário. Em 1926 chegava a Maceió, a bordo de um navio, o escritor José Lins do Rego. Não era ainda o romancista, mas era o jornalista e o escritor já engajados no movimento modernista que subverteu o conceito das letras e das artes e sacudiu o Estado de São Paulo.

Jorge de Lima era o nosso príncipe dos poetas cuja glória maior era o seu soneto “O Acendedor de Lampiões”. A presença de José Lins do Rego teve uma influência extraordinária nos conceitos literários de Jorge de Lima. Seus artigos no Jornal de Alagoas conseguiram criar o clima propício para o reconhecimento, aqui, de todos os princípios que orientaram o Modernismo brasileiro. E Jorge de Lima se converteu ao Modernismo em 1927, quando publicou o seu poema “O Mundo do Menino Impossível“.

Alberto Passos Guimarães e Valdemar Cavalcanti, fundadores da Revista Novidade

Alberto Passos Guimarães e Valdemar Cavalcanti, fundadores da Revista Novidade

Na segunda metade da década de 20, ou seja em 1927, um grupo de rapazes fundou o Grêmio Guimarães Passos. Eram jovens estudantes secundaristas que se iniciavam na atividade literária, à frente dos quais estava Manuel Diégues Júnior. E é ele mesmo quem nos conta, em artigo publicado na “Gazetinha“, n° 1, de 15 de janeiro de 1971, do Rio de Janeiro, esclarecendo a preferência pelo nome do poeta de “O Lenço“: “Tratava-se. sem dúvida, da figura de maior projeção, como expressão literária das Alagoas. Outros grandes nomes Alagoas poderia apresentar no campo da cultura ou da intelectualidade: um Tavares Bastos, por exemplo: ou um Ladislau Neto, cientista; um Barão de Penedo, diplomata: um Sinimbu, político. No campo das letras, porém, a projeção de Guimarães Passos continuava a maior: poeta, boêmio, autor de um Tratado que ensinava a fazer versos, enfim, para os moços com pretensões literárias, era o patrono ideal”.

O Grêmio que chegou a ter 42 sócios efetivos. 10 honorários e três correspondentes, teve a sua primeira diretoria com os seguintes nomes: Presidente Manuel Diégues Júnior: Vice-Presidente Barreto Falcão: 1° Secretário Aurélio Buarque de Holanda: 2° Secretário Raul Lima; Tesoureiro Abelardo de França.

Podia-se dizer que Maceió estava se movimentando no sentido de uma renovação cultural e social. Frequentemente havia exposições artísticas, festas lírico-musicais, vesperais dançantes. Criou-se o Instituto Rosalvo Ribeiro, destinado ao ensino de Belas Artes, à frente o pintor Lourenço Peixoto. Tivemos a criação de uma Liga muito curiosa: a Liga Contra o Empréstimo de Livros, iniciativa de Valdemar Cavalcanti, Alberto Passos Guimarães e Moacir Pereira. Essa liga realizou uma Festa-Artística, uma conferência sobre música moderna, ilustrada com números de piano, violino e canto, e uma exposição do pintor Santa Rosa, além de uma Feira de Livros.

Em 1938 o Teatro Deodoro passou para a jurisdição da Prefeitura Municipal e foi instalada a Biblioteca Pública Municipal, no salão nobre daquele Teatro, sob a direção de Aurélio Buarque de Holanda. O Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas promovia umas vesperais, onde escritores como Lima Júnior, Guedes de Miranda, Paulino Santiago, Aurino Maciel, Orlando Araújo e outros homens de letras faziam conferências. Enfim, não apenas os nossos jovens escritores se movimentavam e movimentavam a província, mas também aqueles mais maduros, com a vocação das letras, davam a sua contribuição ao cenário cultural de Maceió, nas décadas de 20 e 30.

Contudo, a publicação da revista “Novidade” se constituiu, nessas duas décadas, no ponto alto da vida literária e cultural do Estado. Foi a que teve vida mais longa e publicou maior número de exemplares.

Em 11 de abril de 1931, aparece o primeiro número de “Novidade”, publicação que seria o veículo oficial dos intelectuais de vanguarda, dentro da província. Eram seus diretores Valdemar Cavalcanti e Alberto Passos Guimarães e nas suas páginas foram publicadas colaborações dos melhores homens de letras da terra e de outros Estados. “Novidade” conseguiu, naquela época, o milagre de atingir ao número 24, coisa que nunca mais se repetiu em Maceió, com qualquer outra publicação do gênero.

Valdemar Cavalcanti ainda conserva hoje o seu grande amor por essa revista. No seu “Jornal Literário“, edição José Olympio, 1960, ele recomenda: “Se algum pesquisador está interessado no levantamento e estudo das publicações periódicas, de sentido cultural, lançadas na província, depois de 1930, espero que não esqueça o semanário “Novidade”, que apareceu em Maceió, há precisamente 29 anos. Uma revista pobre, de 16 páginas, que durante seis meses cumpriu o seu destino, realizando um trabalho intensivo de agitação intelectual: pôs em debate os problemas da época e do meio, promoveu uma revisão de conceitos, difundiu ideias, estabeleceu correntes de opinião. E ao lado disso, divulgou boa poesia e boa prosa”.

“Novidade”, era editada na Tipografia Vilas-Boas, toda feita à mão, com tipo de caixa, e segundo a confissão do crítico Valdemar Cavalcanti, era impressa “numa pequena máquina desesperadoramente ronceira”.

Evidentemente, essa publicação constituiu o que de melhor já tivemos em matéria de veículo literário. Quem compulsa as suas páginas depara-se com poesias de Carlos Paurilio, Aloisio Branco, Aurélio Buarque de Holanda. José Auto, Théo Brandão, Rocha Filho, Carlos J. Duarte: crônicas, ensaios e estudos de ordem literária, social e política de Valdemar Cavalcanti, Alberto Passos Guimarães, Abelardo Duarte, Jaime de Altavila e outros. Os nomes desconhecidos que estão nas suas páginas, como por exemplo os de José Maria de Assunção, Rubens Cardoso e Mário das Neves constituem pseudônimos de Valdemar Cavalcanti. E é ainda Valdemar Cavalcanti quem nos vai levando pelas páginas de “Novidade”: “O pesquisador que se dispuser a correr os olhos pelas páginas de tal semanário achará coisas do maior interesse como documentos literários: em borrão, por exemplo, retalhos do primeiro romance de Graciliano Ramos, além de crônicas sobre tipos e aspectos do sertão, poemas inéditos de Santa Rosa (então funcionário do Banco do Brasil), Murilo Mendes e Mauro Mota; artigos de Jorge de Lima; panfletos de José Lins do Rego; e até, por incrível que pareça, poemas de Álvaro Lins e Ademar Vidal”.

A revista não se limitava a publicar apenas coisas da literatura. Possuía o seu cantinho para a reportagem, para os assuntos sociais e econômicos, para as finanças, enfim para os problemas brasileiros e os problemas do mundo, e bem assim para as notícias cinematográficas.

Flagrantes de rua, saídas de missa, ali se misturavam com as ilustrações dos nossos pintores e desenhistas, dando ao semanário de Valdemar Cavalcanti e de Alberto Passos Guimarães uma movimentação intensiva da nossa vida social e cultural.

Vale a pena transcrever o trecho final da crônica de Valdemar Cavalcanti sobre o desaparecimento de sua revista: “O interessante é que a revista não desapareceu, como em geral desaparecem essas publicações de província: sem choro nem vela. O semanário pobre de Maceió, ao contrário, teve enterro de luxo, com direito a epitáfio: a quatro mãos, os rapazes que o fundaram escreveram, num jornal da cidade, um artigo com o título de “Vida, Paixão e Morte de “Novidade”, contando a história de sua iniciativa e falando de suas lutas. Acentuaram que a revista se finara sem deixar dívidas, mas deixaram um exemplo. Não fugira aos seus objetivos, nem se poluíra por interesses subalternos. Fora fiel aos deveres da inteligência”.

Duas razões fizeram de “Novidade” a melhor revista literária que já circulou em Maceió: a presença de escritores de primeira linha em nossa terra e o nível intelectual do grupo que a dirigiu e nela colaborou. Não fazemos nenhuma concessão e nenhum favor declarando que nunca mais tivemos, em nossa província, um grupo de intelectuais tão vivos e tão atuantes, como aquele que aqui residia nos idos de 1930. E que nenhum outro grupo tão numeroso aqui na terra alagoana se interessou tanto pelos problemas culturais, como aquele que viveu em torno do semanário “Novidade”. Daquele grupo, os mortos deixaram uma obra e um nome dentro da história literária e os vivos continuam a constituir figuras que dão brilho e glória à nossa terra. E tanto isso é verdade que de 1930 até hoje, nenhuma outra publicação daquele gênero teve a irradiação de “Novidade”, reuniu tantos nomes ilustres e deu à nossa província uma movimentação tão intensiva no terreno das letras. O que veio depois, teve vida efêmera, foram tentativas que não vingaram, foram experiências que não passaram dos primeiros números.

As figuras mais destacadas das nossas letras emigraram para o sul do país, em busca de um campo mais largo para as suas atividades. E os que teimaram em ficar, foram abafados pela indiferença do meio. E se alguns construíram uma obra de que nos orgulhamos, isto resultou de um trabalho isolado e persistente, fruto de uma autêntica vocação.

OBRAS CONSULTADAS

– CAVALCANTI, Valdemar. — Jornal Literário. — Livraria José Olympio Editora. Rio de Janeiro. 1960.
2. DUARTE, Abelardo. — O Periodismo Literário nas Alagoas. Departamento Estadual de Cultura. Maceió, 1961.
3. JUNIOR, FELIX LIMA. — Maceió de Outrora. — Edição do Arquivo Público de Maceió. 1976.
4. JUNIOR, MANUEL DIEGUES. — Evolução Urbana e Social de Maceió no Periodismo Republicano — In. Maceió, de Craveiro Costa. Livraria José Olympio Editora. Rio de Janeiro, 1939.
5. MOLITERNO, CARLOS. — Notas sobre Poesia Moderna em Alagoas. — Edição do Departamento Estadual de Cultura. Maceió. 1965.
6. SANT’ANA. MOACIR MEDEIROS. — O “Guimarães Passos” — História de um Grémio. Universidade Federal de Alagoas, 1977. 7. Gazetinha — n° 1 — 15 de janeiro de 1971. Rio.

*Publicado originalmente na Revista da Academia Alagoana de Letras, Ano V, Nº 5, de dezembro de 1979.

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