Na tela do cinema de Anadia

James Dean em Rebelde sem Causa

James Dean em Rebelde sem Causa

Sabino Fidélis de Moura (*)

Foi assim, a lâmpada apagou, a vista escureceu, um beijo então se deu, e veio a ânsia louca, incontida do amor”. Com dificuldade pra narrar algo que mora no meu íntimo e que faz parte dos inesquecíveis momentos que pelas nossas vidas são permeados.

Como descrever a emoção o encantamento de um jovem inebriado!

Há bem pouco tempo, a memória retida no cume calmo dos meus olhos, ainda era as das visitas à casa do meu amigo Paulo Messias – Paulinho, pois junto a um grupo de amigos adorávamos assistir, pra ser mais exato, ouvir no rádio Nordesom que seu Paulo Rodrigues tinha acabado de trazer de São Paulo, o clássico CSA e CRB, diante dele, onde o som dava umas fugidas nas ondas sonoras, fazendo com que nos aproximássemos cada vez mais quando isto ocorria.

Memoráveis são as lembranças! A casa do meu amigo Paulo Messias era um referencial de alegria, mesa farta, família grande e feliz. Além da beleza das suas irmãs e amigas que as visitavam. Era deleite para nós.

As esparsas experiências em ver a exibição de um filme era meio que improvisada no Salão da Sobra ou no mercado da farinha, apesar da emoção contida no filme faltava algo que completasse o mágico momento.

E como por encanto, Joãozinho Teixeira empresário da vizinha cidade de Maribondo, comprou duas casas antigas, uma delas aonde funcionava o fórum da cidade e ali começou a construir o cinema de Anadia, com uma fachada de azulejos coloridos, a porta ampla, dando entrada para o hall onde ficavam expostos os enormes cartazes do filme. Cativante, exuberante, impressionava pelo colorido das suas imagens.

Atônitos, inebriados estávamos todos nós ao ingressarmos naquele templo de fantasias e sonhos!

Não é preciso entrar em detalhes do frenesi que a cidade inteira vivenciava, o burburinho, a famosa propaganda do boca a boca. O cinema chegou efetivamente em Anadia.

E neste contexto eu com o vigor da minha adolescência, jogando futebol, dançando na Zueira Dancing Bar, vestindo camiseta e calça jeans e usando sandálias lepe-lepe, cabelos soltos ao vento, me iniciando na complicada tarefa de conquistar alguém para juntos curtirmos as nostálgicas e estreladas noites de Anadia.

Tarefa nada fácil, pois apesar de termos todo tempo do mundo, mas mesmo assim eram tantas as atividades que terminávamos solitários. A turma do futebol, a da escola, os amigos de infância estávamos em plena efervescência.

Praça Campelo de Almeida em Anadia, Alagoas

Praça Dr. Campelo de Almeida em Anadia, Alagoas

As conversas longas embaixo das frondosas árvores da Praça Dr. Campelo de Almeida, prazerosas e inconfessáveis histórias. Era como se estivéssemos em um divã. Falível a qualquer um soltar, confessar e até mesmo inventar beijos e amassos nas filhas alheias.

Partia dali também a estratégia, a forma como seria a atuação no cinema!

Como sempre gostei de contar e falar das coisas boas da cidade por quem sou apaixonado acrescento mais uma ao repertório. E desta vez falando da emoção de recordar um momento ímpar por mim vivenciado.

A turma toda tinha combinado que sábado era o dia da exibição de um filme legal – Nasce uma Estrela, que contava a história de um talentoso astro do rock-and-roll.

Lá estávamos nós no hall do cinema, mascando chiclete, observando as pessoas chegarem e em especial as meninas… Um frisson para quem é de uma cidade do interior.

A nossa turma era muita eclética, tinha os que já possuíam a experiência de assistir filme na capital e outros que ainda não. Portanto tinha muita coisa nova a ser vista e realizada.

Sempre fui uma pessoa muito tímida, calma e discreta. Mas hoje posso contar que senti um frio na espinha quando uma anadiense jovem adentrou ao recinto, meus olhos miraram a moça que gostaria de roubar um beijo. Disfarçadamente me afastei um pouco da turma e com o início da exibição do filme, mirei exatamente onde estava sentada a bela jovem.

Sentei-me do seu lado, começamos a assistir ao filme – nervoso, agitado, mas com o desenrolar da projeção, fui me acalmando, comecei a sentir o seu perfume, no escurinho notei sua respiração ofegante. Aproveitando-me da nossa proximidade, perpetuei o que tinha planejado, roubei-lhe um beijo!

Naquela época, estava impregnado em meus ouvidos a canção que dizia: “Procuro um amor que seja bom pra mim, vou procurar, eu vou até o fim… Pode ser que a encontre numa fila de cinema, num esquina ou numa mesa de bar”.

Na realidade não encontrei o meu amor nas condições descritas pela letra da música, mas não esqueci e não devo deixar de falar da empolgação que fiquei no dia seguinte, pois a turma toda estava bem próxima à cena – o que eu não sabia, era que inclusive o irmão da moça também tinha visto tudo.

Os comentários da turma passaram a ser o assunto predileto, se referiam mais aos beijos presenciados do que até mesmo ao filme!

Claro que a nossa cidade deve ter inúmeros casos e estórias a serem contadas a partir da inauguração do cinema. Repito, conto sempre que possível as minhas, para que elas possam ao se tornarem públicas, fazerem parte das coisas boas e inesquecíveis da nossa apaixonante Anadia.

Não dá pra apagar da memória o cinema, os filmes, os amigos, a bela moça, o beijo, são cenas encravadas na minha alma.

A canção continua com os versos “Nos seus olhos quero descobrir uma razão para viver e as feridas dessa vida eu quero esquecer”. No meu caso já encontrei a razão pro meu viver há bastante tempo, mas sempre que escrevo e falo sobre Anadia, as feridas dessa vida me ajuda esquecer.

Por isso que digo, na tela do cinema em Anadia!

(*) É filho de Anadia.

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