Miguel Omena

Esquina na Ladeira do Brito onde morava Zé Maria dos Balões, local do esconderijo de Miguel Omena
Miguel Omena em 1911, ano do seu assassinato. Foto encontrada graças à pesquisa de Etevaldo Amorim

Miguel Omena em 1911, ano do seu assassinato. Foto encontrada graças à pesquisa de Etevaldo Amorim

Félix Lima Júnior

Temos, no bairro da Levada, uma rua denominada Miguel Omena [antiga Rua do Supapo]. A maioria dos que habitam, presentemente, nesta capital, não sabe, ao certo, quem foi esse cidadão. Parece-me, pois, oportuno relembrá-lo.

Miguel Wenceslau de Omena Filho [nasceu no dia 25 de junho de 1870, filho do professor Miguel Wenceslau de Omena e Eugênia Maria de Omena] era jornalista e político combativo, dos mais destacados, dos mais destemidos nas hostes oposicionistas, no ano de 1906, quando o Partido Democrata, sob a direção do eminente Dr. Manoel Guedes Gondim, se arregimentava para uma luta decisiva com a política dominante no Estado.

[Era irmão do padre José Castilho de Omena, que foi o 2º Pároco de Pão de Açúcar, Alagoas, lá pelos idos de 1909 e vigário de Santa Maria na Bahia; do major médico Pedro Omena, do Exército brasileiro, que serviu em Curitiba; e da esposa do Major Benigno de Mello. Sua mãe faleceu no dia 19 de agosto de 1916. O Semeador de 21 de agosto de 1916].

Iniciou-se violenta campanha contra o que chamavam “a oligarquia maltina“, isto é, a situação política chefiada pelo Dr. Euclides Malta, Governador do Estado e Presidente do Partido Republicano Conservador.

Em 17 de agosto daquele ano, surgia o Correio de Maceió, órgão da oposição, dirigido pelo bacharel José Fernandes de Barros Lima.

Do Almanaque Alagoano de 1891 consta, entre os negociantes de Maceió, Miguel Wenceslau de Omena, com padaria à Rua 1° de Março. Onze anos antes, em 1880, nome idêntico constava como de um professor público na então Província.

Em 5 de agosto de 1894, circulou, pela primeira vez, nesta capital, A Jurisprudência, revista semanal de “legislação, jurisprudência e doutrina judicial”. Miguel Omena, que era diretor da revista, passara a ser líder popular, estimadíssimo, com grande prestígio, principalmente entre os moços, os auxiliares do comércio à frente. E mais ainda: além de sócio do Instituto Histórico de Alagoas, era figura de destaque da Sociedade Beneficente Gladiantes, com sede num sobrado à Rua da Alegria, esquina com a 1° de Março, prédio depois transformado no Edifício Ponzi.

A Gladiantes contava com um número elevado de sócios e gozava de grande prestígio na cidade. Fazia oposição ao governo do Estado, embora veladamente. Publicava um jornal, O Gladiante, com diversos redatores, editado por João da Silva Antunes, na Rua 1° de Março, 93, e cujo primeiro número circulou no dia 15 de novembro de 1903. Suspendeu a publicação, posteriormente, e reapareceu a 5 de outubro de 1907.

Euclides Vieira Malta

Governador Euclides Vieira Malta

Da Gladiantes faziam parte, entre outros: Pedro Lobo, Luiz Munguba, João da Silva Antunes, Leocádio Costa, Manoel Simões, Miguel Omena, Francisco Ponciano, Manoel Cassiano e Cosme Domingos Monteiro. Quando morria um sócio, faziam-lhe funeral de primeira classe e mandavam celebrar missa de 7° dia.

Era secretário, em 1903, um Sr. Salamandra, que pelo nome não se perdia…

Em 1909, assim estava constituída a diretoria da Gladiantes, ainda funcionando no sobrado da Rua 1° de Março (Avenida Moreira Lima), esquina com a Rua da Alegria (Rua Joaquim Távora): Presidente — Dr. Alfrêdo de Araújo Rêgo; Vice-dito — Luiz Castilho de Bulhões; Secretário dos Negócios Gerais — Antônio Francisco de Abreu; Secretário dos Negócios Internos — Macário Romão; Secretário dos Negócios Financeiros — Alfredo Arthur Espírito Santo; Secretário dos Negócios Externos — Júlio E de Araújo Besouro; Tesoureiro — Manoel dos Santos Morais; Diretor de Fundos — Manoel Sampaio Cordeiro; Orador – jornalista Carlos Araújo.

O Governo do Estado sentia a oposição crescer e fortalecer-se… Miguel Omena passou a ser visado, “marcado”, como se diz hoje. Avisado de que algo se tramava, de que deveria tomar as suas precauções, ele, que era homem de coragem, não se amedrontou, não se escondeu, não se acovardou. Continuou a trabalhar normalmente, andando armado, por precaução, disposto a vender caro a vida, se o agredissem. Notou que indivíduos suspeitos o espionavam e o seguiam. Sendo, como era, “homem com H maiúsculo”, não se trancou em casa, nem mudou de cidade. Continuou a tratar de seus negócios, evitando qualquer incidente.

A polícia, de ordem superior, procurava encontrar-se com ele para revistá-lo, desarmá-lo, desmoralizá-lo. Ao anoitecer do dia 1° de maio de 1906, passava Miguel Omena, acompanhado por dois homens de confiança, pela Rua do Comércio, em frente à loja de tecidos Quatro Cantos, do Sr. Joaquim Antônio de Almeida, Vice-Cônsul de Portugal, — onde depois funcionou a filial do Banco da Lavoura de Minas Gerais — quando foi abordado por uma patrulha de oito praças e um sargento do Batalhão de Polícia, dirigida — imaginem por quem?! — pelo próprio Comandante Salustiano Sarmento, homem que jamais alguém vira, uma vez sequer, ao que me afirmaram, à frente da força que comandava, mesmo nos dias feriados e de grandes solenidades. Há outra versão de que o encontro foi no Beco do Moeda.

Rua do Comércio no início do século XX

Rua do Comércio no início do século XX

O bravo jornalista e advogado não se submeteu à intimação recebida, de deter-se para ser revistado. E como quisessem os milicianos prendê-lo, sacou da arma que conduzia e atirou no Comandante Sarmento, ferindo-o gravemente. Os dois homens que o acompanhavam dispararam as armas, o mesmo fazendo a patrulha. Aproveitando a confusão, os dois guarda-costas fugiram. Miguel Omena conseguiu escapar, entrou no Beco do Moeda, atravessou a Rua do Sol, subiu a Ladeira do Cortiço, desceu a do Brito, indo se homiziar na residência do velho José Maria da Costa, o “Zé Maria dos Balões“, tipo popular, que morava na esquina da ladeira aludida com a que leva à Rua Ambrósio Lira. E lá ficou, impossibilitado de sair, pois a polícia cercou toda a zona. Imaginem o pânico, o rebuliço, o corre-corre em Maceió! Às 10 da noite, uma patrulha começou a varejar as casas da Rua do Sol, da Ladeira do Brito e parte da dos Martírios.

Zé Maria, mulato forte e disposto, antigo inspetor de quarteirão, em 1865, tinha em casa um pequeno arsenal. Resolveu resistir, com o Dr. Omena, que sabia, seria assassinado imediatamente se se entregasse ou se o capturassem. Armaram-se os dois, preparando-se para o que desse e viesse, ficando Miguel Omena num sótão, no fundo do prédio. De madrugada, às 2 horas, estavam eles, rifles em punho, aguardando a polícia, que já vistoriava casas próximas, quando chegou um oficial e mandou recolher a força. “Foi Deus!” – disse-me, muitos anos depois, já perto de morrer, o velho Zé Maria, “pois, do contrário, não estaria eu contando hoje a história. Teria ficado lá com o Dr. Omena, mortos ambos, pois faríamos fogo no primeiro soldado que entrasse em minha casa”.

Zé Maria explorava um caldo-de-cana, cuja moenda estava montada no quintal. Às seis e meia da manhã, abriu as portas normalmente. Entraram e saíram fregueses, enquanto Miguel Omena permanecia oculto no sótão, de onde saiu, dias depois, ainda no mês de maio, para embarcar, disfarçado de sargento do Exército, num vapor ancorado no porto de Jaraguá. Há versões de que se vestiu ele de marujo, de padre e de sargento, sendo a última a verdadeira, aliás confirmada pelo Gutenberg, jornal que circulava nesta capital e que foi empastelado no governo Clodoaldo da Fonseca.

Rua do Sol em 1908, quando ainda era conhecida como Rua XV de Novembro. À direita o local onde foi construído o Hotel Beiriz

Rua do Sol em 1908, quando ainda era conhecida como Rua XV de Novembro. À direita o local onde foi construído o Hotel Beiriz

No outro dia, a cidade amanheceu com as ruas principais ocupadas por forças da polícia, embaladas. Resolveu o comércio não abrir as portas, alegando falta de garantias. Não foi atendido o pedido de um capitão da polícia que solicitava, em nome do Governo do Estado, fossem abertas as casas comerciais, oferecendo a necessária segurança.

Alguns comerciantes procuraram o Juiz Secional Federal, Dr. Antônio Francisco Leite Pindaíba, que se entendeu com o Vice-Governador em exercício, Cel. Antônio Máximo, no sentido de ser recolhida ao quartel a força embalada, não sendo atendido. Ameaçou ele, então, requisitar força federal, tendo voltado ao quartel a força estadual. As casas comerciais foram abertas.

Um dos dois guarda-costas do Dr. Omena escondeu-se na residência de um português, conhecido por “Panqueca”, na Rua 15 de Novembro. Quando a polícia, que varejava as casas, penetrou na do lusitano, o sujeito escondeu-se dentro de uma mala, com um punhal numa das mãos e uma pistola noutra, disposto a morrer matando. Apesar de estar doente, de cama, uma das filhas do “Panqueca”, a casa foi corrida. Felizmente, não chegaram a abrir a mala.

João dos Reis Ramalho, comerciante nesta praça e meu velho amigo, contou-me: “O barulho foi em frente à casa comercial de Joaquim Antônio de Almeida, o ‘Joaquim Pinguinho’, como era conhecido, súdito e Vice-Cônsul português, na Rua do Comércio, às 7 da noite, mais ou menos. A casa do ‘Panqueca‘ era na Rua 15 de Novembro, antiga do Sol. Foi invadida e corrida pela polícia. Um dos soldados, de fuzil em punho, sentou-se até na mala onde estava escondido um dos ‘cabras’ de Miguel Omena. Quem deu o tiro no Comandante Salustiano foi um dos ‘cabras’ e não aquele advogado”.

José de Oliveira Loiola, alto funcionário aposentado da Alfândega, contou-me que Manoel Luiz da Paz lhe afirmara ter Miguel Omena fugido fardado de sargento, entre inferiores e soldados do Exército, no meio deles o próprio informante, que então servia aqui no 33° Batalhão de Infantaria. Manoel Luiz, que morreu, muitos anos depois, Tenente reformado, foi administrador do Cemitério de Nossa Senhora da Piedade e Presidente da famigerada Liga dos Republicanos Combatentes em homenagem a Miguel Omena.

No dia 1° de junho daquele ano, foi Omena preso, no porto de Paranaguá, Estado do Paraná, conforme consta do telegrama e da notícia abaixo, publicados no Gutemberg de 2 de junho de 1906:

“Rio, I — A bordo do paquete nacional Guasca, no porto de Paranaguá, foi preso o Sr Dr. Miguel Omena. S. S. a ia acompanhado de mais duas pessoas, que foram presas. Dizia chamar-se Dr. Rocha Saldanha. Confessou o crime cometido aí na noite de 1º de maio.”

e

“Dr. Miguel Omena – Sua Prisão — Conforme se vê do nosso serviço telegráfico, foi preso ontem, a bordo do vapor nacional Guasca, no porto de Paranaguá, Estado do Paraná, o Dr. Miguel Omena. S. S. a ia acompanhado de mais duas pessoas, que também foram presas. Dizia chamar-se Dr. Rocha Saldanha. Confessou às autoridades paranaenses o motivo de sua fuga — Em meados do mês passado, o Dr. Miguel Omena, disfarçado em sargento, embarcou às 6 1/2 da tarde, pela ponte de Jaraguá, em um dos navios do “Lloyd Brasileiro”, que seguiu rumo ao Sul.”

Conseguiu livrar-se da prisão, fixou residência em Ponta Grossa, naquele Estado [Era proprietário do Colégio Miguel Omena e redator-chefe do jornal O Progresso], onde foi assassinado com um tiro, pouco tempo depois. [Foi assassinado, na manhã do dia 21 de agosto de 1911, pelo alemão Augusto Muller, por não querer continuar advogando em uma questão perdida em que defendia o seu assassino].

Quando chegou ao Recife, em 26 de agosto de 1911, a notícia de que fora assassinado, no Paraná, o Dr. Miguel Omena, reuniram-se os alagoanos, acadêmicos de Direito, em sessão presidida por Luiz Figueiredo, secretariada por Bráulio Cavalcanti. Mário Wanderley da Costa propôs fosse feita uma conferência num dos salões de ensino do Recife, o que não foi aprovado “por motivos imperiosos”. Bráulio leu o artigo publicado no Jornal de Alagoas, de 23 daquele mês, sobre o assunto, convidando os colegas a enviarem pêsames à imprensa e ao Estado de Alagoas. Foram designadas duas comissões: uma para entregar cópia da ata da reunião ao Instituto Histórico de Alagoas; a outra para levar a notícia à imprensa do Recife.

Assinaram a ata, conforme cópia no Instituto Histórico de Alagoas: Luiz Ignácio de Figueiredo, Bráulio Cavalcanti, Manoel Teixeira, Arlindo A. de Gusmão Lira, Nominando Maia Gomes, Otávio Pereira da Costa, José Quintela Cavalcanti, Oscar de Aguiar, Mário Wanderley da Costa, J. Camelo da Silva, José de Anchieta Gondim, Antonino T. de Almeida Lins, Nelson Flores, Fernando Ribeiro, Martírio Rodrigues, Benedito Nunes Leite, Mário Mendonça, Manoel Buarque de Gusmão, Sidrônio Augusto de Santa Maria, Severino de Albuquerque Filho e Carlos Araújo.

(Publicado no Jornal de Alagoas, Maceió, 05.06.1955).

1 Comentário on Miguel Omena

  1. EXCELENTE MATÉRIA, SÓ ASSIM PUDE CONHECER MAIS UM POUCO DA HISTÓRIA DA MINHA FAMÍLIA.

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*