MDB de Alagoas: uma história de luta contra a ditadura

Mendonça Neto, Djalma Falcão e Ulysses Guimarães discutem o futuro do MDB em 1977 - Foto da Revista Agora, de dezembro de 1977

Texto de Edberto Ticianeli

Como resultado da ação ditatorial do Golpe Militar, em outubro de 1965, o Ato Institucional nº 2 destruiu o sistema partidário vigente e instituiu o bipartidarismo, com eleições indiretas para presidente, governadores e prefeitos das capitais.

Os dois partidos consentidos deveriam cumprir, sob rígida vigilância, os papeis de situação e oposição. A Aliança Renovadora Nacional (ARENA) daria apoio ao governo militar, enquanto o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) seria encarregado de acomodar a oposição, além de não deixar a Ditadura Militar muito caracterizada como um regime de partido único.

Em 24 de março de 1966 o MDB fez o seu registro oficial e tratou de se livrar, imediatamente, da sigla que os militares queriam que fosse adotada: MODEBRA. Uma prova de que na caserna poderia se entender de tudo, menos de propaganda.ato-institucional-n-2-ai-2-assinado-em-27-de-outubro-de-1965-pelo-presidente-humberto-de-alencar-castello-branco-institui-eleicoes-indiretas-para-a-presidencia-e-vice-presiden

O partido nasce tendo como base principal os egressos do velho Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), cria de Vargas. Logo recebeu as importantes lideranças, oriundas do Partido Social Democrático (PSD), de Tancredo Neves e Ulysses Guimarães.

Grupos de esquerda também desembarcaram na legenda oposicionista. Era a única trincheira legal que possibilitava a luta pela democracia. Em Alagoas, o MDB recebe o grupo de Muniz Falcão, que tinha contas a ajustar com o Regime Militar devido à perseguição realizada contra o seu principal líder, que havia sido eleito governador em 1965, mas, por manobras “legais”, não conseguiu assumir.

Em 1966, o MDB consegue eleger sete dos 23 senadores do país, e 132 deputados federais das 409 vagas em disputa.

Neste ano, o senador eleito por Alagoas foi Teotônio Vilela (ARENA). Djalma Marinho Muniz Falcão, irmão de Muniz, consegue o mandato de deputado federal ao lado de Cleto Marques Luz e Aloysio Nonô.

Djalma Falcão, irmão de Muniz, é eleito deputado federal pelo MDB em 1966 e faz um bom mandato. Depois, 1985, chegou à Prefeitura de Maceió

Djalma Falcão, irmão de Muniz, é eleito deputado federal pelo MDB em 1966 e faz um bom mandato. Depois, 1985, chegou à Prefeitura de Maceió

Na Assembleia Legislativa, os deputados estaduais do MDB são os seguintes: Higino Vital, Elísio Maia, Rubens Canuto, Alcides Muniz Falcão, Diney Torres, Antônio Amaral, Antônio Lopes de Almeida, Moacir Andrade, Roberto Mendes, Luiz Coutinho e Ademar Medeiros.

Uma bancada de 11 deputados das 35 cadeiras. Alguns deles foram cassados em 1969.

Em 1970, mesmo sofrendo perdas políticas e eleitorais com as cassações autorizadas pelo Ato Institucional nº 5, o MDB em Alagoas apresenta como candidatos ao Senado, Mendes de Barros e Aurélio Viana, que enfrentam os candidatos da ARENA, Arnon de Mello e Luiz Cavalcanti. A chapa de senadores é derrotada e o partido consegue eleger apenas Vinicius Cansanção para a Câmara dos Deputados.

Na Assembleia Legislativa, o quadro de descenso se repetiu e o partido conseguiu eleger somente quatro deputados: Antônio Ferreira, Alcides Muniz Falcão, Walter Figueiredo e Higino Vital.

Mesmo com o recrudescimento da repressão do general Garrastazu Médici, em 1974 o MDB vai à televisão e surpreende o país ao receber uma votação expressiva, elegendo 67% dos senadores e ocupando 40% das cadeiras da Câmara Federal.

Em Alagoas, a candidatura do vereador Pedro Muniz Falcão é derrotada para o senado, mas conseguiu 98.213 votos contra 140.989 de Teotônio Vilela, com o detalhe de ter ganho a eleição em Maceió.

Afrânio Godoy e Romero Vieira Belo, do Jornal de Alagoas, entrevistam o vereador Pedro Marinho Muniz Falcão

Afrânio Godoy e Romero Vieira Belo, do Jornal de Alagoas, entrevistam o vereador Pedro Marinho Muniz Falcão

Na Câmara dos Deputados, o MDB amplia para duas as vagas conquistadas, com José Costa e Vinicius Cansanção.

Na Assembleia Legislativa, seis deputados representam o partido: Mendonça Neto (o mais votado entre todos os deputados com 15.171 votos), Manoel Afonso de Melo, Alcides Muniz Falcão, Luiza Evangelista, Walter Figueiredo e Francisco Pimentel.

Em 1976, o MDB em Maceió ativa o setorial universitário do partido e começa a receber uma leva de estudantes de esquerda, que no ano seguinte vai formar, na clandestinidade, o núcleo principal da reorganização do PCdoB em Alagoas.

Da mesma forma, o PCB e outras lideranças egressas da esquerda passam a participar do MDB, rejuvenescendo as suas fileiras. A oposição ao regime militar já está suficientemente fortalecida para voltar às ruas. As manifestações acontecem em todo o Brasil.

Temendo o uso da televisão pela oposição, os militares decretam a Lei Falcão, reduzindo a propaganda eleitoral apenas às fotografias dos candidatos e seu currículo apresentado por um locutor.

Mesmo com estas restrições, os militares continuam a perder apoio, e em 1977, o general Geisel decreta o famoso Pacote de Abril, limitando as campanhas eleitorais e aumentando o mandato presidencial para seis anos.

Campanha do MDB em Capela nas eleições de 1978

Campanha do MDB em Capela nas eleições de 1978

Para o Senado, institui que nos anos em ocorresse a renovação de 2/3 do senado, um dos senadores seria indicado pelo colégio eleitoral, criando a figura do Senador Biônico. Além disso, inventou a sublegenda para as eleições de prefeito e senador.

Com a candidatura de José Moura Rocha ao senado, em 1978, o MDB empolga os eleitores em Alagoas e faz uma campanha histórica. Moura consegue expressivos 157.703 votos, mas perde para Luiz Cavalcante e Rubens Vilar, na sublegenda, que somam, 189.728 votos, beneficiados pelas artimanhas militares do Pacote de Abril.

Na disputa para a Câmara dos Deputados, o MDB mantém as suas duas vagas, com José Costa e Mendonça Neto. Na Assembleia, o partido amplia sua bancada para sete deputados: Agripino Alexandre, Manoel Afonso de Melo, Alcides Muniz Falcão, Francisco Pimentel, Renan Calheiros, Afrânio Vergetti e Alcides Andrade.

Ato de fundação do PMDB em Alagoas. Início de 1980, no Teatro Deodoro, com Ulisses Guimarães, Paulo Brossar e Teotônio Vilela. Foto de Adailson Calheiros

Ato de fundação do PMDB em Alagoas. Início de 1980, no Teatro Deodoro, com Ulisses Guimarães, Paulo Brossar e Teotônio Vilela. Foto de Adailson Calheiros

Em 1979, acaba o bipartidarismo e seus dois partidos. O MDB se extingue no dia 27 de novembro de 1979, sendo substituído pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), sob a liderança nacional de Ulysses Guimarães.

Em Alagoas, Teotônio Vilela é a maior expressão do novo/velho partido. Depois de cumprir papel destacado na luta pela anistia, Teotônio articula um forte grupo político para disputar o poder em 1982, quando descobre que está com câncer.

3 Comments on MDB de Alagoas: uma história de luta contra a ditadura

  1. Tadeu Barbosa // 27 de maio de 2015 em 20:22 //

    Acompanhei de perto o que escreveste, pois minha família era emedebista, minha tia Letícia Barbosa que foi a primeira vereadora mulher de Arapiraca, militava com Higino, Agripino, Claudenor(cassado), Claúdio(cassado), pai do Tumés, dentre outros.
    Gostaria que pudessemos pequisar a história política de Arapiraca. O que acha?

  2. josé ronaldo batista melo. // 10 de agosto de 2015 em 20:10 //

    Em 1970 o MDB não deixou de apresentar candidatos para o senado. Apresentou Mendes de Barros e Aurélio Viana. Para enfrentar os candidatos da ARENA Arnon de Mello e Luiz Cavalcanti.

  3. Obrigado pela correção, José Ronaldo, já alteramos o texto com a sua informação.

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*