Mário César Viana de Melo (in memoriam)

Inauguração do Diretório Acadêmico de Engenharia no início dos anos 60
Vinicius Maia Nobre

Vinicius Maia Nobre foi professor e amigo de Mário César

Vinicius Maia Nobre

Ser professor é uma das maiores aspirações que um ser humano pode almejar. Lembro-me bem de todos os professores que me lecionaram desde a minha mãe com as primeiras letras, a todos os outros dos cursos primário e ginasial no Colégio Batista Alagoano. Guardo grandes recordações do meu tempo no Colégio Estadual de Alagoas, o velho Liceu Alagoano, quando para lá me transferi para concluir o curso de colégio. Professores Benedito de Morais, Aurélio Vianna, Paul Sonouillet, Deraldo Campos, Paulo Albuquerque, Adelmo Machado, Mário Broad, foram mestres que definiram o meu futuro como profissional.

Em Recife, na centenária Escola de Engenharia, conhecida pela Escola da Rua do Hospício, aprendi os ensinamentos e lições de vida dos professores Newton da Silva Maia, Luiz de Barros Freire, João Holmes Sobrinho, Ivan Loureiro, Álvaro Celso, Meyer Mezel, Arlindo Pontual, Pelópidas Silveira e tantos outros de saudosa memória, ensinando-nos o bastante para exercer a nobre profissão de engenharia, como se portar na vida perante a sociedade e como proceder frente aos futuros jovens estudantes. Sim, futuros estudantes, pois transmitir conhecimento e fazer-nos compreender era o bastante para me realizar no mister do ensino. Era tudo que me interessava e ainda hoje me interessa.

Mário César foi preso em 1964

Mário César Viana foi preso em 1964

Com esse espírito, ao ingressar nos idos 1957 como Assistente Voluntário e era este o título que o regimento da então Escola de Engenharia de Alagoas me permitiu ensinar, procurei repassar aos alunos tudo que sabia da forma mais compreensível possível, os assuntos das matérias que ensinei. Assim fui e permaneci até hoje sem qualquer mistério.

Ao tempo em que assim procedia, procurei também ser amigo dos alunos sem jamais distanciar-me. Conhecer seus problemas extraescolares era fundamental para o nosso relacionamento.

Sabia já por experiência como se fazia política estudantil e como todo jovem sempre tem tendências esquerdizantes. Todos e aí incluo nossos pais, adotaram em sua juventude essas tendências.

Lembro-me bem dos efervescentes dias que antecederam o 31 de março de 1964 tão vividos por todos e como não podia deixar de acontecer, no meio dos jovens alunos da recém fundada Universidade Federal de Alagoas.

Aquela geração já tivera conhecimento da Era Vargas, da 2ª Guerra Mundial e suas consequências, do período inovador para nós da redemocratização, dos pleitos eleitorais, de suas lideranças civis e militares a exemplo de Juscelino Kubistchek, João Goulart, Jânio Quadros, Afonso Arinos, Milton Campos, Carvalho Pinto, Carlos Lacerda, Dutra, Gois Monteiro, Eduardo Gomes, Henrique Lott e de outros mais novos daquele período como Brizola, Celso Furtado, Miguel Arraes, Castelo Branco, Olímpio Mourão, Amaury Kruel que fizeram viver em constantes debates a política nacional.

Conheci naquela época jovens de todos os matizes sendo um deles e talvez o mais impetuoso pela segurança que mantinha em suas posições, Mário César Viana de Melo. Em princípios de 1964, Mário iniciou o 5º ano do curso de Engenharia Civil juntamente com outros três empedernidos esquerdistas, Valter Pedrosa Amorim, Ogelson Acioli Gama e Roberto Mário Mafra. Desejoso de reviver fatos que me marcaram na então Escola de Engenharia da Praça Sinimbú, presto aqui uma homenagem aqueles jovens, principalmente por não mais se encontrar entre nós os três primeiros.

Gerson Ferreira de Souza (Medicina), Valter Pedrosa de Amorim (Engenharia), Mário César Viana de Melo (Engenharia) e Petrúcio Lages (Filosofia). Presos na Enfermaria Militar, atual CSM. Foto de Josias Ferreira de Souza

Gerson Ferreira de Souza (Medicina), Valter Pedrosa de Amorim (Engenharia), Mário César Viana de Melo (Engenharia) e Petrúcio Lages (Filosofia). Presos na Enfermaria Militar, atual CSM do Exército. Foto de Josias Ferreira de Souza

Mário César veio a falecer em 30 de dezembro último. Era filho de Aryosvaldo Lorques de Melo e Arlete Viana de Melo. Nasceu em Cabedelo, estado da Paraíba, em 28 de junho de 1941

O Sr. Aryosvaldo era contador da firma alemã Geobra que atuava no ramo de construção pesada no Brasil. Aryosvaldo ingressou na firma no Rio de Janeiro, de onde era natural, e pouco depois foi transferido para Cabedelo onde a firma estava construindo o porto da Paraíba. Lá conheceu Antonio Mário Mafra, então estagiário de engenharia do porto de Recife que fiscalizava as obras. Em Cabedelo conheceu e casou com Arlete tendo das núpcias nascido Glaura, Zuleide e Mário César.

Executada a obra naquele estado, a Geobra transfere a equipe para Maceió, e Mário Mafra (pai de Roberto Mafra) já engenheiro vem fiscalizar o porto de Maceió.

Com a conclusão do cais do porto de Jaraguá, Mafra assume sua direção e convida o Melo como era conhecido, para ser Chefe do Tráfego, cargo que ocupou até a aposentadoria. Em Maceió a família cresceu com o nascimento de Solange e Claudia.

Mário César estudou e morou com os pais em uma casa próxima ao porto, perto, portanto da praia da Pajuçara. Companheiro de brincadeira de Cid e Caio Porto, Roberto Mafra, João Luis Azevedo, Sebastião, Jorge e Manoel Lopes, Toroca Laranjeiras, Borges e tantos outros colegas e amigos de brincadeiras, pescarias de lagostas ou peixes no cais do porto ou proeiro de snipe nas regatas da Pajuçara. Futebol de praia fazia parte de clubes e chegou a jogar no juvenil do CRB. Estudou no Colégio Batista e no Liceu, concluindo o curso colegial no ano de 1959 ingressando na Escola de Engenharia no ano seguinte.

Em 1964 foi afastado do emprego de Conferente no Porto de Maceió por questões políticas. É preso junto com os colegas Ogelson Acioli Gama, Valter Pedrosa do Amorim estes da Escola de Engenharia e vários outros universitários e líderes sindicais.

Ficha na DOPS de Mário César Viana

Ficha na DOPS de Mário César Viana

Numa bela crônica comemorando 50 anos de sua formatura, seu cunhado, o também engenheiro Maurício Malta, escreveu: “Os inquéritos abertos tiveram a prisão relaxada até o julgamento. E voltam ás aulas em outubro, e agora como seria para recuperar o ano letivo. O Conselho da Faculdade de Engenharia dera uma chance, abonaria as faltas, entretanto eles teriam de se submeter a um exame dito Completo – escrito e oral de cada matéria. Caso fossem aprovados estariam a um passo da formatura. Aí entrou a figura altruísta do professor Vinícius Maia Nobre que na garagem de sua residência, todo final de tarde passou a lecionar a eles, as matérias do quinto ano e efetuar exercícios práticos. Com o acúmulo de conhecimentos e prática de anos de engenharia o professor instruiu àqueles alunos, foi para eles régua e compasso. Os pupilos foram aprovados nos exames finais graças ao empenho do mestre, que rompeu com paradigmas de comportamento da época”.

Destaco que para muitos professores da Escola de Engenharia as posições dos chamados “Três mosqueteiros” eram combatidas e não agradava a maioria do corpo docente. Seus companheiros de 5° ano sem distinção, foram visitá-los na prisão num gesto altamente significativo.

Percebi que aqueles jovens estavam em apuros e tinha chegado o momento de ajudá-los ensinando-os e os aconselhando. Muitas vezes após horas de ensino na garagem e como testemunha meu quadro-negro trocávamos ideias e as nossas visões sobre o futuro. Chamei a atenção que o regime militar iria se prolongar ao menos por 20 anos e eles não teriam chances para trabalharem em Alagoas pois o Estado era e foi sempre o grande empregador dos profissionais de engenharia. O sul do país seria a região mais apropriada para trabalhar e se desenvolver.

Mário César faleceu no Rio de Janeiro em 30 de dezembro de 2015

Mário César faleceu no Rio de Janeiro em 30 de dezembro de 2015

Aceitaram os meus conselhos: todos foram vitoriosos nos locais onde os acolheram. Valter Pedrosa de Amorim e Mário César sempre me visitaram quando aqui vinham rever seus familiares. Era uma alegria rememorarmos os velhos tempos e os lembrava como acertei nos meus prognósticos. O Ogelson quando de uma nossa viagem ao sul, o encontrei no Rio de Janeiro e depois deixei de ter suas notícias, sabendo posteriormente pelo Mário César do seu falecimento.

Em troca permanente de e-mails observei que permanecia o mesmo Mário estudante de engenharia porem um ferrenho crítico dos desmandos e falcatruas empregados atualmente pelos “donos” do poder. E, para quem viveu atuando e participando dos acontecimentos daquela época, jamais vai concordar com o quadro porque passa hoje em dia o nosso país.

Mário César na Escola de Engenharia foi líder estudantil com participação no Diretório Acadêmico e no Diretório Central dos Estudantes DCE. Formou-se em 1964 e em 1965 foi trabalhar no Rio de Janeiro, pois não haveria lugar para um ex-prisioneiro político em uma comunidade pequena como a de Alagoas.

No Rio de Janeiro trabalhou na construção e pavimentação de rodovias em várias empresas com destaque para Construtora Cristo Redentor em obras de terraplenagem no Estado do Rio; Termaco na duplicação da pavimentação da Rio São Paulo; e durante toda a construção da Ponte Rio/Niterói como chefe da diretoria de suprimentos, em permanente contatos com projetista e fabricantes de materiais e equipamentos usados na obra. Concluída a ponte seguiu para a Esusa, firma com contratos no DNER, na prefeitura de Curitiba e outras obras em todo o Brasil. Por fim montou sua própria empresa a Terplan com sede no Rio e obras na Bahia e outros estados.

Aposentou-se e foi curtir sua casa em Iguabinha, distrito de Araruama no Estado do Rio ali plantou mangueiras, cajás e graviolas com mudas levadas de Maceió. Criava seus cães Cocker Spaneil e conviveu com papagaio “Tabaréu”. Passeou muito com sua jangada “Pajuçara” na Lagoa de Araruama. Apaixonado por fotografia exagerou no número de fotos no facebook. Síndico do condomínio Aldeia 97 efetuou várias reformas para conforto dos condôminos, câmeras de filmagens, campo de futebol soçaite e tantas outras reformas e construções. Não podia ficar parado estava em permanente movimento.

Torcedor doente do Vasco da Gama, sofria com as derrotas e alegrava-se na conquista de campeonatos. Quando vinha a Maceió trazia camisas do Vasco para a garotada e conquistava os novos torcedores antes que outros os encaminhassem para o rival Flamengo. Certa ocasião em uma de suas visitas, em sua homenagem abrimos uma garrafa de uísque 18 anos. Ficamos embevecido e papeando com o sabor do Buchanas, quando ele disse ser socialista, mas se rendia a um “12 anos”.

Durante sua estada na Termaco, trabalhando em São Paulo, conheceu Denise Berger, com quem se casou e teve dois filhos Arlete e Mário Junior. Vai para o Rio.  Pouco tempo depois se separa e une-se à sua ex-noiva Eliana Pedrosa, alagoana, filha de Pedro Pedrosa e Clélia Sarmento com quem viveu até os últimos dias.

Faleceu no Rio de Janeiro em consequência de vários agravamentos de saúde entre outros, circulatórios, infecções hospitalares e melanoma em 30 de dezembro de 2015.

Deixou saudades entre amigos e parentes como Carlos Esteves (nego Bhrama), Disnaldo Brandão de Almeida, Roberto Mafra, Jurandir e Jaílson Boia, Pedro Teixeira Duarte (Casa de Saúde Ulisses Pernambucano), Alfredo Brandão, Talvanes Silveira, Roberto Mendes, Pedro Anílson de Souza, Walter Guimarães e tantos outros que faziam a agenda dele em Maceió ficar lotada os 30 dias.

1 Comentário on Mário César Viana de Melo (in memoriam)

  1. Mauricio Malta // 1 de julho de 2017 em 15:01 //

    Lindo, exato, parabéns Prof Vinicius.

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