Manoel Lopes Ferreira Pinto, o desembargador violinista de cinema

Tribunal de Justiça na Praça Deodoro nos anos 30

Arnon de Mello testemunhou a história contada por Costa Rego

Essa história foi contada por Arnon de Mello e publicada na revista Última Palavra de 8 de abril de 1988.

“Foi Costa Rego quem me conseguiu o primeiro emprego no Rio. Eu me dava bem com ele, desde quando o Grêmio Literário Guimarães Passos o elegera seu sócio honorário e eu fora indicado para saudá-lo em nome dos companheiros na sessão solene realizada no nosso Instituto Histórico.

No Rio, mantive sempre as melhores relações com Costa Rego, acompanhando-o quase sempre depois do jantar à redação do Correio da Manhã. Numa dessas caminhadas, pois fazíamos a pé o percurso da rua Buarque de Macedo, no Flamengo, onde residia o ex-governador, à avenida Gomes Freire, onde se localizava o jornal, contou-me ele o seguinte episódio:

— Quando eu era governador, deu-se uma vaga no Tribunal de Justiça, então presidido pelo desembargador Toscano Espíndola. Sabendo que eu iria nomear para a vaga existente o juiz de Maceió, Dr. Manoel Lopes Ferreira Pinto, procurou-me o Dr. Espíndola imediatamente e declarou-me que o mencionado juiz não devia ir para o Tribunal.

— Por quê? — Perguntei-lhe.

— Não sei se V.Ex.ª, sabe, mas o Dr. Lopes toca violino no Cinema Floriano (ainda era o tempo do cinema mudo, que mantinha uma orquestra que se fazia ouvir nos intervalos dos filmes), e não fica bem para o Tribunal tê-lo como um de seus membros.

Prontamente, vali-me do argumento em favor do juiz.

— Foi bom saber disso — assim falei ao Dr. Espíndola. Se o Dr. Lopes toca violino no cinema, é porque o ordenado de juiz não dá para ele manter a família. E o fato diz bem da dignidade porque comprova que se trata de um magistrado rigorosamente honrado, que não vende sentenças, apesar das dificuldades financeiras com que luta. Promovido a desembargador, estou certo de que o Dr. Lopes não tocará mais violino no Cinema Floriano, pois os seus vencimentos serão, então suficientes, para ele manter a família.

E, assim, o Dr. Manoel Lopes Ferreira Pinto foi nomeado desembargador e deixou de tocar violino na orquestra do Cinema Floriano, hoje São Luiz.”

Quem foi o desembargador violinista?

Dr. Manoel Lopes Ferreira Pinto não era um desconhecido em Alagoas quando foi indicado para o Tribunal de Justiça pelo governador Costa Rego em 1927.

Costa Rego foi o governador que nomeou Manoel Lopes para o TJAL

Católico praticante, sempre teve participação ativa na sociedade local. Na década dos anos de 1880, o jovem estudante já aparecia como dirigente de várias associações, entre elas a Sociedade União e Progresso e o Clube Literário Casemiro de Abreu. Em 1885 iniciou o curso superior na Faculdade de Direito do Recife.

Nos anos seguintes, participou também do Grêmio Dramático Alagoano e da Sociedade São Vicente de Paula, além da Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Martírios, onde era da comissão encarregada da realização das famosas festas na praça do mesmo nome. Foi ainda secretário da Confraria do Santíssimo Sacramento, presidente da Sociedade Luzeiro da Caridade e presidente da Sociedade Auxiliadora dos Cristãos

Como advogado, atuou em Maceió por pouco tempo. Logo foi indicado juiz de Traipu e Belo Monte, e depois perambulou por várias comarcas, ora como juiz, ora como promotor público, até ser promovido, em 27 de janeiro de 1895, Promotor Público da Capital.

Voltou a magistratura e em 1915 estava atuando no município de Paulo Afonso, hoje Mata Grande. Foi removido para Maceió como Juiz de Direito da Capital.

No início de outubro de 1920, perde sua esposa, Maria Neves Pinto. É nomeado desembargador pelo governador Costa Rego em 1927.  O jornal Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, assim comentou a nomeação: “O dr. Manoel Lopes, sem nenhum favor, é um juiz que honra a toga que o reveste, que enobrece as letras jurídicas, que cumpre com escrupulosa retidão os deveres mais sutis da sua augusta missão”.

Como músico — e às vezes tratado como maestro — foi contratado como professor do Lyceu Alagoano em 1896, mesmo ano em que perdeu uma filha recém-nascida. Participava de festas e até de apresentações no Clube Fênix. Também era professor particular de música. Em 1913, estendeu suas aulas para a Escola Normal.

Em 24 de maio de 1931, quando da fundação da Faculdade Livre de Direito de Alagoas, Manoel Lopes Ferreira Pinto é professor de Economia e Legislação Social. Outro fato importante na vida deste magistrado foi a ter sido ele quem presidiu a instalação do Tribunal Regional de Justiça Eleitoral de Alagoas, em sessão realizada no dia 4 de julho de 1932.

 

 

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*