Maceió foi uma das primeiras capitais do país a ser iluminada por energia elétrica

Rua do Comércio ainda sem fiação elétrica e com a Igreja do Livramento ao fundo

Poste elétrico na Rua do Comércio no final do século XIX

As primeiras cidades brasileiras a serem iluminadas, ainda no século XIX, utilizavam lâmpadas que queimavam óleo de baleia. Em seguida passaram a utilizar óleos vegetais e animais. A cidade do Rio de Janeiro passou a utilizar estes combustíveis em 1794, que foi adotado em São Paulo somente no ano de 1830.

A iluminação a gás foi uma novidade instalada de forma pioneira em São Paulo no ano de 1854 e permanecendo ativa até meados de 1936.

Foi em Campos, no Rio de Janeiro, no ano de 1883, que a luz elétrica iluminou as ruas de uma cidade brasileira pela primeira vez, utilizando energia de uma usina termoelétrica. Rio Claro, em São Paulo, foi a segunda. Na cidade do Rio de Janeiro este serviço somente foi implantado nas ruas em 1904 e na capital paulista em 1905.

Maceió

Foi em 1887 a primeira vez que a luz elétrica foi vista em Maceió. O responsável por tal feito foi Argemiro Augusto da Silva, que era proprietário da Relojoaria Argemiro e tinha o “genial talento artístico em construções de motores mecânicos, relógios elétricos e em importantes trabalhos de arte…”, destacava o Gutenberg de 21 de janeiro de 1887.

Expectativa dos maceioenses dias antes da inauguração do fornecimento de luz elétrica. Gutenberg de 26 de janeiro de 1896

Auxiliado por José Simões, Argemiro anunciou naquele jornal que iria “expor um foco de luz elétrica à apreciação pública na noite de 18 corrente, em sua oficina de relojoeiro, à rua do Comércio”.

O Gutemberg assim recebeu a novidade: “Ao sr. Argemiro, o primeiro que apresentou luz elétrica em nossa capital, e ao sr. José Simões, seu auxiliar, nossos cordiais aplausos”.

Em outubro de 1895, o mesmo jornal se dirigia “Às mães de família” para explicar as vantagens na utilização da luz elétrica, após o anúncio da sua instalação. “Todos devem abolir o querosene, todos devem preferir sem hesitar a luz elétrica, porque não somente é econômica, higiênica, como é cômoda e bela”, justificava.

Ao entrar em funcionamento, a novidade foi saudada como sinal de progresso e até concurso foram promovidos para escolher quem melhor descrevia os benefícios da luz elétrica em Maceió.

Uma poesia de autoria do leitor Ovídio, foi publicada no Gutemberg de 6 de fevereiro de 1896.

A LUZ ELÉTRICA

A nova luz luarina
tudo traz em confusão,
o tolo fica espantado
o sábio perde a razão.

Vê-se agora pelas ruas
um pau fincado, e no ar
fios negros estendidos
vão as ruas circular.

Um pauzinho muito preto
em globo colocado
faz enorme, viva chama,
quando é eletrizado.

E esse grande chapéu
que eu vejo nas esquinas
é somente o capacete
das enormes lamparinas.

Já nas ruas, nas janelas
vê-se que o povo assoma
para ver a nova lua
metida numa redoma.

À noite, esses papalvos
que na rua sempre vejo
fazem lembrar a raposa
tomando a lua por queijo.

E o povo todo em massa,
gritando sempre dizia
Viva o Maia, o Loureiro,
que da noite fazem dia.

Maceió, que passou a utilizar iluminação elétrica no final de 1895, mas inaugurou seus serviços no dia 14 de janeiro de 1896, foi uma das pioneiras no Brasil. A iniciativa na capital alagoana coube à empresa Luz Elétrica de Alagoas, fundada em 1896 e tendo como sócios-proprietários Adriano Maia e João Antônio Loureiro.

Sede da Empresa Luz Elétrica de Alagoas, na Rua da Soledade, atual Rua José Bonifácio, ao lado do Palácio dos Martírios

A firma era oficialmente a Adriano & Loureiro e a Usina da empresa ficava à Rua da Soledade, atual Rua José Bonifácio, ao lado do Palácio dos Martírios. Anúncios nos jornais da época informavam que a empresa estava contratando o serviço de fornecimento de “lenha do mangue” para a fornalha da Usina.

Foi autorizada a explorar este serviço após assinar contrato com a Intendência Municipal em agosto de 1906. No ano seguinte, quando distribuição da energia elétrica passou a ser encargo do Estado, o governador assinou contrato e publicou o Decreto nº 148, de 24 de setembro de 1897. A concessão do serviço foi estabelecida para 50 anos e coube à empresa a instalação de 100 focos de iluminação pública, recebendo por este serviço a subvenção anual de 60:000$000.

O contrato estabelecia ainda que seriam gratuitas as instalações e iluminação do Palácio do Governo e os demais estabelecimentos públicos teriam abatimento de 30% nos custos do mesmo serviço. Além disso, a iluminação pública ocorreria entre 18h30 e 5h da manhã, e a particular das 17h30 às 4h da manhã.

A empresa recebeu do governo como auxílio um empréstimo de 150:000$000 em apólices, autorizado pela Lei nº 175, de 4 de junho de 1897.

Inauguração

A Casa Zanotti brindou a chegada da luz elétrica com “um modesto copo d’água”. Gutenberg de 17 de janeiro de 1896

Na noite da inauguração, “As ruas da cidade foram até alta hora da noite muito frequentadas, num desarrazoado trânsito de famílias e pessoas”, publicou o Gutenberg de 16 de janeiro de 1896. Nessa mesma edição há também o registro do primeiro incidente: um cidadão quebrou com uma pedrada uma das lâmpadas inauguradas. Dias depois, a polícia prendeu Anastácio Feliciano dos Santos “por ser encontrado querendo trepar em um dos postes da iluminação pública e tentar quebrar a lâmpada”.

Quatro dias após a inauguração, o Inspetor de Higiene de Maceió ordenou que o serviço de retirada de lama das sarjetas da cidade fosse transferido para o período noturno, por ser mais “cômodo para os seus encarregados” e “mais compatível coma a higiene e com a civilização”.

Para o carnaval daquele ano, o Chefe de Polícia interino, Clarêncio da Silva Jucá, fez publicar nota prevenindo “aos diversos clubes e grupos carnavalescos que naturalmente se hão de exibir conduzindo os seus respectivos estandartes, que não toquem nos cabos elétricos que se cruzam em algumas ruas desta capital, uma vez que o quebramento de um deles não só traz como consequência o pagamento da iluminação. Como também pode causar a morte dos transeuntes. Maceió, 15 de fevereiro de 1896”.

A Biblioteca Pública somente recebeu iluminação elétrica em 1901, quando foi instituído um novo horário de consultas, entre 18h e 21h, sendo bem frequentada nesse período.

Em 1902, o Indicador Geral do Estado de Alagoas informava que a iluminação particular era realizada por lâmpadas incandescentes e a energia de corrente alternada era fornecida por dois dínamos de 50 quilowatts cada um. Gerada em alta tensão, a energia era distribuída a 100 volts. O motor da empresa era a vapor, com três caldeiras de 75 cavalos cada uma.

A energia fornecida era cobrada aos usuários por valores estipulados em uma tabela que estabelecia os preços de acordo com a quantidade e potência das lâmpadas, que eram utilizadas somente durante as primeiras sete horas da noite.

Como Maceió tinha então 35.000 habitantes distribuídos em 20.000 unidades habitacionais, o serviço era muito limitado e caro. O Indicador Geral do Estado de Alagoas informava que a empresa não tinha condições de investir na ampliação do fornecimento de energia elétrica, “barateando a luz de maneira a facilitar sua aplicação nos domicílios mais pobres, abolindo o querosene e outros agentes iluminantes”.

Ainda em 1902, a Luz Elétrica de Alagoas passou também a fornecer iluminação pela queima de gás acetileno, obtido com o carbureto. A novidade foi utilizada em várias repartições públicas.

Esquina da Av. Moreira Lima com Beco São José, onde se percebe um poste de iluminação pública

O relatório do governador Paulo Malta em 1904 é duro com a empresa Luz Elétrica de Alagoas, que é acusada de não corresponder ao esperado pelo poder público, que “encheu-a de favores, continuando a dar-lhe elementos de vitalidade”. No relatório, o governo cobra investimentos para recuperar a Usina e ameaça com a estatização da empresa.

Em 1907, sem honrar a dívida com o Estado de Alagoas e sem conseguir recuperar seus equipamentos, a Luz Elétrica foi executada e arrematada em hasta pública pelo comendador José Antônio Teixeira Basto, que pagou 35:000$000 pela empresa e imediatamente encomendou novos equipamentos na Europa. O novo proprietário, que também controlava a Companhia de Trilhos Urbanos de Maceió, a partir de 1913 começou a substituir os bondes puxados a burros por veículos com tração elétrica.

A empresa passou a ser denominada Nova Empresa de Luz Elétrica. Houve nova mudança de nome em 1931, quando a “Amford” adquire a empresa e adota a denominação de Companhia Força e Luz do Brasil – Maceió. No final dos anos 50, foi criada Companhia de Eletricidade de Alagoas, vinculada ao Departamento de Águas e Energia do Governo do Estado de Alagoas.

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