Maceió e os primeiros banhos de mar em 1938

Praia da Av. da Paz em 1938

* Publicado em “Alagoas: Mensário Ilustrado”, nº 3, de outubro de 1938, um almanaque da Casa Ramalho. O título acima é da editoria do site História de Alagoas.

O Convite das Praias

Banhistas em 1919 na Praia da Avenida com o Museu Theo Brandão sem a cúpula mourisca

As praias estão chamando as meninas bonitas. E as meninas bonitas estão carregando os homens para o mar. Os homens julgam ir atrás do sol e da água. As ondas falam uma linguagem esquisita, estranha. Mas os apaixonados compreendem. Ha uma ânsia de mostrar músculos e pernas torneadas. Uma vontade incompreensível de apresentar aos olhos da gente corpos que deveriam ficar a vida toda cobertos por centenas de peças de pano…

Pajussara está repleta de gente boa. É o bairro mais povoado no verão. Rapazes de família, acostumados a dormir em colchões macios, aglomeram-se em quartinhos sujos de casas baratas. É a tentação das praias, do contato livre com a natureza. É a moléstia da época, a epidemia que está atacando a sociedade fina de Maceió. O banho-de-mar higieniza e revigora. E’ uma espécie de elixir de 914…

Ninguém pode fugir ao chamado das ondas. É um apelo desesperado e constante. As meninas bonitas tentam resistir, ficam na praia, passeando, olhando de longe. Outras jogam “wolley-ball”, andam de bicicleta, sentam-se comodamente na areia. Mas a tentação persiste imperiosamente.

Mulheres na Praia da Pajuçara em 1948. Foto de Umberto de Souza Plácido

As alvarengas balançam docemente. Os barcos de fora, convidam os banhistas a longas viagens. Rápidas ioles singram as águas, manejadas por remadores do Regatas. Na avenida da Paz as ondas cobrem violentamente os talhes mais esbeltos de mocinhas da elite. Os navios, com as chaminés furando o céu, limitam o horizonte. No Sobral o coqueiral imenso tenta o esquecimento para a beleza do mar. Murmurejam baixinho suas palmas, como a querer reclamar contra o ruído das ondas.

Aos domingos, a cidade transplanta-se para as praias. Desde cedo os bondes carregam os que gostam do mar. Roupões enormes de várias cores envolvem corpos gordos e magros. Os pés aparecem por baixo como a atestar que seus possuidores estão seminus. Rapazes fortes desmascaram-se com uma sem-cerimônia danada, mostrando braços esqueléticos e pernas que causam vergonha. Mocinhas lindíssimas fogem do banho-de-mar com medo que a água salgada descubra aos olhos dos curiosos os lábios arroxeados e as faces pálidas, descoradas. Os rouges e os batons não servem para nada, diante da indiscrição das ondas.

Os mais precavidos vão somente a passeio. Mas vão. Ninguém ousa contrariar o chamado do mar. Da Ponte do Sabão atletas saltam com gestos de câmara lenta. Donzelas imitam os gestos das artistas-de-cinema. Algumas falam até num inglês que não se entende… Os trintões correm de grupo em grupo, beijando com os olhos os palminhos de cara e as pernas bem feitas. Grupos de banhistas organizam passeios à Ponta Verde, lá na curva dos coqueiros. Outros abrem o apetite para gostosos quitutes que estão à sua espera num lugar qualquer das proximidades.

Praia da Pajuçara em 1927

As mulheres que a banha estragou usam o maillot como quem usa espartilho. Fazem pena pelo ridículo. Apertadas como sardinha em lata, afetam um bem-estar que estão longe de sentir. Falam apressadamente, quase sem fôlego. Os velhos que já brilharam nas cavalhadas e já foram o Deus-me-acuda do seu tempo não querem dar o braço a torcer. Aparecem nas praias com a cara mais cínica deste mundo. Andam para lá e para cá, esbravejando contra a falta de moralidade. Intimamente enchem os olhos com as belezas exposta e maldizem o tempo que não lhes permite viver entre as meninas de “frente-única”.

A inauguração da estação balneária fez reviver Maceió, que já estava morrendo de tédio. As praias estão chamando as donzelas bonitas. As donzelas bonitas estão carregando os homens para dentro do mar, estão revolucionando os jovens atletas e aqueles que nada podendo ostentar, ostentam somente a ignorância terrível das vantagens dos banhos-de-mar…

1 Comentário on Maceió e os primeiros banhos de mar em 1938

  1. Muito bom!

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