Lourival de Mello Motta

Rua do Comércio na década de 1950, onde Mello Motta tinha o seu consultório
Mello Motta

Mello Motta

Nascido em uma família que criou 16 filhos, Lourival de Mello Motta chegou ao mundo em 9 de dezembro de 1906, em Palmeira dos Índios. Era filho de Leobino Soares da Motta e Adelaide de Mello Motta.

Ainda na terra dos Xucurus, concluiu o curso primário e depois transferiu-se para Maceió onde estudou nos colégios São João e 11 de Janeiro, finalizando o curso secundário no Liceu Alagoano em dezembro de 1923.

No ano seguinte foi para o Rio de Janeiro tentar a carreira militar na Escola de Realengo, mas foi desligado em dezembro de 1924 por motivo de saúde. Permaneceu na capital federal e prestou exame vestibular para a Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1925.

Enfrentando muitas dificuldades, já que tinha que trabalhar para sustentar os estudos, conseguiu se formar em 20 de dezembro de 1930. Como médico, volta a Palmeira dos Índios onde permanece trabalhando até que, em 1934, é eleito para a Assembleia Legislativa, o que força a sua transferência para a capital, onde continua a exercer a medicina.

Era reconhecido como um médico competente, sendo pioneiro em Alagoas na área da radiologia. Por sua especialidade, aproximou-se do tratamento da tuberculose, na época em que esta doença que tirava muitas vidas. Tornou-se uma referência no combate a este mal.

Deputados Constituintes de 1947

Deputados Constituintes de 1947

Entre 1936 e 1937, fez um curso no Rio de Janeiro sobre tuberculose e radiologia, atualizando seus conhecimentos e trazendo para Maceió o que havia de mais avançado em equipamentos para a radiologia. Seu consultório ficava na Rua do Comércio, 495 e funcionou de 13 de agosto de 1937 a dezembro de 1976, quando se aposentou como médico do Departamento de Saúde do Estado.

Presidiu o Conselho Regional do Serviço Social Rural de Alagoas, foi sócio fundador do Aeroclube de Maceió e piloto civil. Sócio fundador da Associação de Cultura Franco Brasileira e. durante a II Guerra, foi o diretor-regional do Serviço de Defesa Civil Antiaérea.

Mello Motta foi eleito deputado em três eleições: em 1934, 1947 e 1950. Durante a interventoria de Ismar de Góis Monteiro (1941/45), ocupou a secretaria do Interior, Educação e Saúde.

Sua trajetória política foi marcada pela contundência com que denunciava a violência, a injustiça e os privilégios. Essa postura lhe trouxe ameaças de morte, perseguições e até tentativa de assassinato.

Mello Motta como diretor-regional do Serviço de Defesa Civil Antiaérea

Mello Motta como diretor-regional do Serviço de Defesa Civil Antiaérea

O seu jornal, o Diário do Povo, fez história em Alagoas ao denunciar diariamente as violências dos Góis Monteiro. Mello Motta fazia a defesa da UDN e enfrentava a ditadura de Getúlio Vargas. Os Góis Monteiro responderam ao seu modo e no dia 22 de dezembro de 1949 o jornal foi empastelado, suas instalações foram destruídas e os funcionários foram presos.

Mesmo sendo um anticomunista convicto, Mello Mota não titubeava quando tinha que defender os direitos democráticos. Assim fez em 1947, quando a polícia, a mando de Silvestre Péricles, prendeu os três deputados do PCB em são Luiz do Quitunde. Mello Motta denunciou as prisões e a covardia dos demais deputados.

“Desgraçadamente o sentimento que nos invade é o de nojo e desprezo pela falta de autoridade e coragem com os que compõem o Poder Legislativo, que deveriam impedir a consumação de mais um ato que nos envergonha e nos aniquila como Poder do Estado”.

Da mesma forma Mello Motta agiu em 1964, quando já era professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Alagoas e a polícia invadiu a instituição para prender estudantes. Ele novamente não teve dúvidas e impediu a ação da polícia e protegeu os perseguidos.

No magistério, Mello Motta também teve uma carreira destacada. Sempre elogiado pelos seus alunos, foi agraciado como professor emérito da UFAL. Participou ainda da fundação da Escola de Serviço Social Padre Anchieta e cedeu um prédio de sua propriedade para que a Escola começasse a funcionar.

Mello Motta na tribuna da Assembleia Legislativa

Mello Motta na tribuna da Assembleia Legislativa

Recém-eleito deputado em 1950, Mello Motta surpreende a todos ao apresentar sua renúncia ao mandato já no início de 1951, logo após a posse de Arnon de Mello no governo. O que levou o deputado vitorioso a desistir do mandato nunca foi esclarecido.

Luiz Nogueira Barros, em A Solidão dos Espaços Políticos, revela que no dia da posse de Arnon de Mello, os comunistas realizaram um ato na Praça D. Rosa da Fonseca (Bar do Chopp) comemorando a derrota de Silvestre Péricles, que terminou na prisão de alguns deles, incluindo o jovem Jayme Miranda.

Nogueira indaga: “Não sabemos, por exemplo, como reagiu o vigoroso líder quando da prisão de Jayme Miranda, a primeira violência cometida pelo novo governo que ele ajudou a levar ao poder”. Seria uma pista para descobrir a causa da renúncia do mandato de Mello Motta?

Segundo depoimento de Ednor Bittencourt, Mello Motta “não tinha nenhum apego material. Vivia com simplicidade. Morreu no ostracismo. Já tinha fechado o consultório médico e vivia dos seus rendimentos como aposentado. Católico praticante, doou seus bens à Arquidiocese”.

Mello Mota morreu solteiro aos 84 anos, sem deixar família, no dia 17 de julho de 1989.

Obras:
Retrato de uma Época: Fonte de Estudos para a Interpretação de um Agitado Período Político em Alagoas, (Discursos Pronunciados na Assembleia Legislativa Estadual pelo Deputado Lourival de Melo Motta em 1947, 48, 49, 50, 51 e 53).  Maceió, Editora da UFAL, 1984.
Missão Social do Sacerdote. Conferência por ocasião do Jubileu de Ouro Sacerdotal de Monsenhor Luiz Barbosa, Maceió, [ s. ed.] 1962.
Função Social da CHESF (Companhia Hidro-Elétrica do S. Francisco), Maceió, Imprensa Oficial, 1961.

Fonte:
– Memória Legislativa, nº 15, pesquisa de Douglas Apratto Tenório.
–  A Solidão dos Espaços Políticos, de Luiz Nogueira Barros.

3 Comments on Lourival de Mello Motta

  1. José Aldo Buarque de Mendonça // 19 de agosto de 2015 em 21:19 //

    Um ser humano consciente de que a vida tem valor e que ele sabia que tinha este valor. Personalidade alagoana de primeira grandeza. PAZ e BEM.

  2. Ticianeli, muito boa sua matéria.
    Você teria mais informações sobre essa família Mello Motta?

  3. Milena, não tenho informações, mas não será difícil encontrar seus descendentes em Maceió.

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