Jorge Chau, o Chacrinha alagoano

Jorge Sá em uma cobertura do carnaval pernambucano

Jorge Sá ao lado do pai, Luiz Gonzaga de Sá

Jorge Albuquerque Sá nasceu em Maceió no dia 12 de julho de 1921, filho de Luiz Gonzaga de Sá e irmão de Paulo Sá, cantor do conjunto Sambrasa. Ainda criança, foi estudar em Recife como aluno interno do Colégio Salesiano, onde começou a se destacar por sua irreverência e capacidade de fazer rir. Era a principal atração das festinhas da sua turma.

Em 1941, aos 20 anos de idade, atendendo ao convite da Rádio Tabajara de João Pessoa para substituir um radialista em férias, inicia sua carreira como apresentador de programas de rádio.

Poucos dias após iniciar seu trabalho como locutor, procura o diretor da Rádio Tabajara, Aderbal de Araújo Jurema, e lhe mostra um piloto de um programa musical que pretendia apresentar na emissora, que tinha como objetivo oferecer oportunidade para novos cantores.

O programa Valores Novos teve início imediato e Jorge Sá saiu à procura dos seus jovens cantores. Vizinho à rádio encontrou um menino sanfoneiro que demonstrava rara habilidade com o seu instrumento. Não pensou duas vezes e o levou para tocar no permanentemente no programa. Assim surgiu Sivuca, descoberto por Jorge Sá.

Sivuca foi descoberto por Jorge Sá quando iniciava sua carreira de radialista na Paraíba

Não demorou muito na Paraíba. Sabendo que em Salvador haveria concurso par duas rádios, deixa João Pessoa e consegue ser contratado pela a recém-fundada Rádio Excelsior da Bahia, uma emissora da Arquidiocese de São Salvador da Bahia.

Em um determinado dia, cansado por dobrar o horário ao cobrir a falta de um colega, anunciou ao microfone: “Vou dar uma parada, colocar só música, porque meu mal é fome”. Os ouvintes, acostumados com a sua extroversão, entenderam como brincadeira e entraram no jogo enviando para o estúdio acarajés, abarás e vatapás. A direção da rádio não gostou e tirou ele do ar por três dias.

Chateado com a suspensão, abandona a rádio baiana e volta para Maceió, onde monta um serviço de som pioneiro. Adquire um velho automóvel de Opel, pinta de azul e coloca duas cornetas de som sobre o teto. Dentro do carro, acomoda um toca-discos sobre almofadas para diminuir o impacto da trepidação, e sai pelas ruas da cidade a divulgar eventos e tocar os últimos lançamentos nos bolachões de 78 rotações.

Jorge Sá era alagoano de Maceió

Sua transferência para Recife se deu por acaso. Em uma de suas visitas à capital pernambucana, resolveu conhecer os estúdios da Rádio Tamandaré, de Assis Chateaubriand, e a saudade do rádio lhe tocou. Ali mesmo conversou com os diretores e acertou os detalhes da sua volta aos microfones.

Em 1952, quando Assis Chateaubriand adquire a Rádio Clube para os Diários Associados, leva Jorge Sá para a pioneira do rádio pernambucano, que teve seu auditório ampliado de 200 para 2.000 lugares.

Foi na Rádio Clube que começou a apresentar os programas policiais com muito humor, fórmula que o consagraria, principalmente quando, em 1960, já na TV Rádio Clube de Pernambuco (TV Tupi do Recife), passa a apresentar o Plantão Policial. Nessa época que passou a ser conhecido como Jorge Chau, referência a forma sempre diferente e inusitada como se despedia do público, às vezes de cabeça para baixo ou, em outras, imitando gatos.

Sua carreira atingiu o ápice em 1971, quando se transfere para a TV Jornal, dos mesmos proprietários da Rádio Jornal do Recife e do Jornal do Commercio, e passa a apresentar, ao vivo, o primeiro programa de auditório da emissora, A Hora do Chau. Em 1973, passa a se chamar Jorge Chau Show, e Programa Jorge Chau, em 1977, último ano em que esteve no ar.

Era o fim de um ciclo da televisão brasileira. A partir de meados dos anos de 1970, as redes nacionais passaram a predominar obedecendo a estratégia do regime militar que queria a unificação nacional. A programação local foi praticamente extinta.

Jorge Chau morreu no dia 21 de janeiro de 2002, aos 85 anos, no Recife. Era um homem pobre. Sua morte não foi sequer anunciada nas rádios e TVs pernambucanas que ajudou a construir. Segundo seus amigos, morreu triste e magoado com o abandono a que foi relegado.

Homem Show

Programa A Hora do Chau em 1971

O jornalista e escritor José Teles o definiu como “o último dos moicanos da TV nordestina”, reconhecendo que ele escreveu numa fase da história da TV pernambucana, que teve seu auge nos anos 60. “Época em que a televisão regional era autossuficiente, mesclando produções locais com enlatados. Os programas musicais e de variedades tinham público certo e sabido e audiência que justificavam suas existências”.

Identificado como “magérrimo, desbocado e irreverente”, José Teles avalia que Jorge Chau era uma espécie de Chacrinha, que muito longe do politicamente correto, achincalhava os participantes dos seus programas. A influência do Chacrinha em seus programas era tal, que até as suas bailarinas receberam o nome de “Chaucretes”.

“Seu público, absolutamente popular, aceitava com naturalidade todas as suas loucuras e brincadeiras no palco. As vezes era criticado por criar quadros inusitados no seu programa. Ele recebia doações de óculos usados e o povão fazia fila para receber, ao vivo. A pessoa escolhia um modelo, testava fazendo uma leitura e levava os óculos para casa. E as premiações? Quem se dava bem nas competições e brincadeiras no palco ganhava um pacote de macarrão, um litro de água sanitária, um pacote de sabão, passe de ônibus, era uma festa!”, lembra José Teles.

Na coluna Caderno C do site JC Online também fez referências à permanente alegria externada por Jorge Chau. O texto ressalta que não havia dia ruim para Jorge Chau, tudo era motivo para mais uma piada. “Ele não fazia graça só no palco, fora dele também. Ele mexia com as pessoas o tempo todo, era espontâneo, não precisava de maquiagem”, destacava o colunista social Alex, que também atuou na TV Jornal, nos anos 60 e 70.

Jorge Chau e uma das suas Chaucretes

Alex lembrou ainda que ele era sortudo com as mulheres. “Ele era baixinho e feio, mas sempre aparecia acompanhado de mulheres lindas, que ele cativava pela personalidade extrovertida e por ser popular. Ele tinha uma popularidade incrível naquela época”, disse Alex.

Outro colega de emissora, o jornalista Jota Ferreira, também lembra da sua carreira de sucesso: “Nós trabalhávamos juntos no Show do Meio-Dia. Ele era exatamente o que é o Ratinho hoje. Tinha as bailarinas, as ‘chaucretes’ e os quadros com a participação da plateia. No fundo, tudo era uma grande brincadeira para ele, que tinha uma audiência espetacular. Nos últimos anos, raramente aparecia na TV. A grande verdade é que não existe uma entidade que ajude essas pessoas no fim da vida. É triste”, lamentou.

O publicitário Luiz Geraldo destacou que a generosidade e o caráter eram outras qualidades marcantes do radialista. “Ele era muito criativo e, antes de tudo, um bom caráter. O que ele pudesse fazer de bom por alguém ele fazia”.

O professor Ed Cavalcante, no seu Blog Jornália do Ed, afirma que “é provável que sequer Pernambuco reconheça a importância de um dos nomes capitais para a história da Televisão daquele estado”.

1 Comentário on Jorge Chau, o Chacrinha alagoano

  1. José Aldo Buarque de Mendonça // 6 de março de 2017 em 09:29 //

    Acredito que um Memorial para situar todas estas personalidades alagoana seria uma boa. Jorge Sá e mais Haroldo Miranda, Ademar Paiva Buarque, Alex, e outros alagoanos que pontificaram suas atividades na cidade do Recife e os que trabalharam aqui em Maceió deveriam, ser lembrados de maneira permanente em um memorial aqui em nossa cidade. Gostei da homenagem a Jorge Sá. PAZ e BEM.

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*