Jayme Amorim de Miranda, a maior liderança comunista de Alagoas

O alagoano Jayme Miranda foi sequestrado pela Ditadura Militar no dia 04 de fevereiro de 1975, após sair de casa, no bairro do Catumbi no Rio de Janeiro.

O jornalista e advogado Jayme Miranda nasceu em 18 de julho de 1926 em Maceió/AL e era o segundo dos dez filhos do casal Manoel Simplício de Miranda e Hermé Amorim de Miranda.

Jayme Miranda

Jayme Miranda

Ingressou na Faculdade de Direito de Alagoas, mas interrompeu o curso em 1946 para, aos 22 anos, tornar-se 3º Sargento de Engenharia do Exército.

Em 1950, Jayme reabriu o Jornal A Voz do Povo cujo objetivo, segundo Dirceu Lindoso era fazer uma crítica ideológica e radical marxista na vivência alagoana do século XX.

Por seu trabalho em defesa da classe trabalhadora e das ideias marxistas, A Voz do Povo é considerado subversivo e Jayme preso em 12 de março de 1951.

Solto no mesmo ano e retornando à Faculdade de Direito, Jayme colou grau em 1951 graças a seus amigos que o protegeram de mais uma prisão. Em 29 de setembro de 1954 prestou compromisso para inscrição na Ordem dos Advogados do Brasil – OAB, obtendo o registro nº 354.

Turma de Direito na formatura em dezembro de 1951

Jayme Miranda e sua turma de Direito na formatura em dezembro de 1951 (o segundo acima da direita para a esquerda)

Em 1964, de acordo com as informações constantes na ficha do Departamento de Ordem Política e Social – DOPS/RJ, Jayme foi preso em Recife e condenado a cumprir um ano de prisão em Maceió sob a acusação de ter articulado um movimento subversivo.

Preso, humanista que era, Jayme aproveitou o tempo para orientar outros detidos sem denúncia formal a fazerem habeas corpus e livrarem-se das prisões ilegais. Em virtude desta sua conduta, sofrera diversos atos de tortura e represálias na prisão, sendo novamente processado por supostos atos subversivos.

Após um período de prisões em Maceió, Jayme realizou diversas viagens internacionais, sempre designado para missões pelo Partido Comunista. Viajou para Cuba, onde esteve em reuniões com Fidel Castro e Che Guevara; para países do leste europeu e até ao oriente, quando participou da primeira delegação do Partido Comunista Brasileiro – PCB à China para reuniões com Mao Tsé Tung.

Na China com Mao Tsé Tung

Na China com Mao Tsé Tung

Jayme casou-se com Elza Miranda e teve quatro filhos: dois nascidos em Alagoas (Yuri e Olga) e dois nascidos do Rio de Janeiro (Jayme e André), para onde se mudou em 1965 com o fim de tratar da saúde e dar continuidade aos seus projetos políticos.

Jayme ingressou no Partido Comunista Brasileiro (PCB) ainda jovem e suas habilidades logo o alçaram a ocupar os cargos mais importantes do Partido Comunista. Foi considerado o terceiro homem na estrutura do PCB, tendo feito diversas viagens internacionais a serviço do partido.

Foi ainda suplente de Deputado Estadual em Alagoas, sendo o mais votado na capital do Estado, porém, teve cassado seu mandato após o Golpe Militar de 1964.

Com Rubens Colaço e outros amigos em Maceió

Com Rubens Colaço e outros amigos em Maceió

Em 07 de abril de 1964 o DOPS instaurou inquérito contra Luiz Carlos Prestes, Jayme Miranda e outras 72 pessoas.

Novo mandato de prisão contra ele foi lavrado em 03 de novembro de 1965, opor solicitação do ministro da Guerra e Exército. Para fugir da prisão, esconde-se no Rio de Janeiro.

Poliglota, trabalhava clandestinamente traduzindo textos para grandes jornais do Rio de Janeiro e São Paulo.

Em fevereiro de 1967, Jayme teve seus direitos políticos cassados e tratado pela Ditadura como terrorista. Para escapar do cerco da repressão Jayme mudava de residência com sua família periodicamente.

As marcas das torturas de prisões anteriores obrigaram Jayme a ausentar-se do País, em meados de 1973, para tratar sua saúde na União Soviética, retornando em 1974.

Em 04 de fevereiro de 1975, Jayme Amorim de Miranda saiu de casa, no bairro do Catumbi no Rio de Janeiro, para encontrar um colega de partido, encarregado de entregar-lhe alguns documentos. Nunca mais foi visto.

Jayme Miranda com sua esposa, Elza Miranda, e filhos

Jayme Miranda com sua esposa, Elza Miranda, e filhos

Foi sequestrado, torturado e morto pela repressão. Segundo o livro Desaparecidos Políticos, de Reinaldo Cabral e Ronaldo Lapa, Jayme foi executado em São Paulo e seu corpo jogado no Oceano Atlântico de um avião militar a 200 milhas da costa.

Na versão do ex-agente do DOI-CODI/SP, reconhecida pelo Governo Federal, Marival Chaves, em entrevista publicada pela revista Veja de 18 de novembro de 1992, Jayme teria sido morto sob tortura e seu corpo jogado no Rio de Avaré, interior de São Paulo.

Na página 25 da citada revista, o repórter da Veja questiona: “Voltando ao Rio Avaré. O senhor falou em oito nomes, mas contou só seis”. Em resposta, Marival Chaves revela o nome dos outros dois jogados no Rio Avaré: “Um é Jayme Amorim de Miranda, também preso na Operação Radar, numa das incursões do DOI de São Paulo ao Rio. Foi transferido para Itapevi (…)”.

Jayme Miranda chegando a Madrid talvez na sua última foto

Jayme Miranda chegando a Madrid talvez na sua última foto

Levantamento feito pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, publicado no livro Direito à Memória e à Verdade, também reforça a tese da morte de Jayme por tortura pelo DOI paulista.

Elio Gaspari, em A Ditadura Encurralada, por sua vez, afirma que Jayme, sequestrado no Rio, fora visto do DOPS/SP e assassinado no Centro de Informações do Exército – CIE de Itapevi/SP pelas mesmas pessoas posteriormente responsáveis pelas mortes de Vladimir Herzog e Manoel Fiel Filho.

Segundo Elio, “(…) nesse dia desapareceu, no Rio de Janeiro, Jayme Amorim de Miranda, ex-secretário de organização do PCB. Acabava de voltar de Moscou. Teria sido visto no DOPS de São Paulo. Foi assassinado no aparelho do CIE em Itapevi”.

Veja o excelente documentário Memórias de Sangue produzido pelo IZP, com produção executiva, textos e comentários de João Marcos Carvalho e imagens principais de André Feijó.

(Texto adaptado a partir de material publicado no site Jayme Miranda).

1 Comentário on Jayme Amorim de Miranda, a maior liderança comunista de Alagoas

  1. O documentário “Memórias de Sangue – Jayme Miranda, um lutador social,” do jornalista e historiador João Marcos Carvalho, pode ser visto no seguinte endereço: https://www.youtube.com/watch?v=39AdpxZ2k6I

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