III Festival Universitário de Música em 1981

Maclein e Nelsinho no III Festival Universitário de Música

Em Alagoas, após terem sido interrompidos no final dos anos 60, os festivais foram retomados em 1981, pelo Diretório Central do Estudantes (DCE) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

Este festival retomava uma série iniciada em novembro de 1968, quando foi realizado no Ginásio do SESC o 1º Festival de Música Popular Brasileira.

Josimar França

Josimar França, vencedor do 1º Festival de Música Popular Brasileira, em 1968

As três músicas classificadas foram: 1º lugar: Carta, de Josimar Franca; 2º lugar: Batuque no Banzo, de Flávio Guido Uchôa; 3º lugar: Manchete, de Marcondes Costa.

Menos de um mês após a final do festival é editado o Ato Institucional nº 5, que instituiu a censura prévia, suspendeu o habeas corpus e teve início um período ditatorial marcado por muitas prisões, torturas, assassinatos e desaparecimentos.

Marcondes Costa

Marcondes Costa

O 2º Festival foi realizado em junho de 1970. Trinta e seis músicas foram inscritas, duas censuradas pela Polícia Federal. A música vencedora foi Casa Nova para André, de Vera Romariz e Wilma Miranda.

O 3º Festival foi realizado em dezembro de 1971 no Ginásio do Colégio Estadual. O vencedor foi o cantor César Rodrigues, interpretando a música América, América.

Para o DCE Ufal 81/82, da gestão Avançar na Luta, a decisão de realizar o 4º Festival em 1982 (foi erroneamente numerado como o 3º) não foi fácil. Aliada à falta de experiência, não havia segurança entre os diretores sobre como lidar com a censura exercida pela Polícia Federal.

As inscrições foram abertas e anunciados os prêmios. O primeiro lugar ficaria com Cr$ 50 mil, o segundo com Cr$ 40 mil, o terceiro com Cr$ 30 mil, melhor intérprete com Cr$ 10 mil e o melhor arranjo com Cr$ 10 mil.

Quando foram encerradas as inscrições, em outubro de 1981, surgiu o primeiro problema: as quase 200 músicas inscritas ultrapassavam as expectativas e inviabilizavam a possibilidade de todas se apresentarem para julgamento.

A saída encontrada foi criar uma pré-seleção. Um júri especial foi montado e, noite após noite, todas foram ouvidas a partir de um gravador conectado ao sistema de som do auditório da Reitoria. Assim, foram selecionadas 80 músicas, 16 para cada uma das cinco eliminatórias.

As eliminatórias aconteceram no Teatro Deodoro em dezembro de 1981 com a entrada custando Cr$ 100,00 (na final a entrada foi para Cr$ 200,00) e foram distribuídas da seguinte forma:

Dia 3 de dezembro de 1981, primeira eliminatória - Foto de Arlindo Tavares para a Gazeta de Alagoas

Dia 2 de dezembro de 1981, primeira eliminatória – Foto de Arlindo Tavares para a Gazeta de Alagoas

Dia 2 de dezembro: Cumplicidade, Gaivota, Cenário, Vida Maria, Guerra, Meu Seco Sertão, Sementes da Vida, Baleia, Tem Paciência, Allea Jacta Est, A Quem Falou das Flores, A História da Concha do Mar, Um Grito de Alerta, Sem Sonhar, Lições e Fuga da Noite para Dentro do Dia.

Classificadas: Allea Jacta Est, de Antônio Carlos, e A História da Concha do Mar (clique e ouça), de Nelson Braga.

Dia 3 de dezembro: Um Verso Bonito, Sonho Especial, Mundaú, Contra-Pressão, Renascer, Natureza Sofrida, Legião dos Condenados, Maldição desse Lugar, Roda da Vida, Raízes, Arrucho, Sem Remédio Sem Doutor, Anormais, Diploma, A Cerca e Tempo de Tristeza.

Classificadas: Legião dos Condenados, de Ricardo Mota, e Sem Remédio Sem Doutor, de Máclein.

Dia 8 de dezembro: Matança do Boi, Menina dos Cabelos de Sol, Quando os Poetas se Encontram, Amanhecer no Sertão, Cem por Cento, Canto do Chão, Rua do Trem, Passarinho, Cana, Coração Palpitante, Amazônia, A Lei foi Feita para Todos, Conflitos, Arrependimento, Sem Lei nem Rei e Aonde está Aquela Chuva.

Classificadas: Matança do Boi, de Antônio Carlos, e Canto do Chão, de Edson Bezerra, César Rodrigues e Francisco Elpídio. Esta última foi a vencedora do Festival.

Zé Barros, Armando Assunção cantando) e Baygon

Zé Barros, Armando Assunção (cantando) e Félix Baygon

Dia 9 de dezembro: Abismo, Faz de Conta, Nordestino Sofredor, Terra Prometida, Sebo nas Canelas, Homem do Norte, Crise, Baião Alagoano, Porta-Voz, Gira-Sol, Tentação, Vivência, Cançãozinha de Ninho, Samba da Ilusão, João Pescador, Me diga há Quanto Tempo Você não Comeu e Homem?.

Classificadas: Sebo nas Canelas, de Pedro Rocha Fortes, e Tentação, de Frederico Nunes e Izabel Brandão.

Dia 15 de dezembro: Fúria de um Camponês, Faz mais um meu Canarinho, O Bêbado que é a Enigma, Nada como Antes, Sementes, Cabeça Feita, Entre Fogo e Facão, Sem Medo de Prisão, Nova Dimensão, Em Poucos Segundos, Vai e Vem, Renegados, Aquarela do Nordeste, Eu Vou Deixar para Você Ver, Um Estranho no Ninho e Para Não Confundir Cristo com Lampião.

Classificadas: Vai e Vem, de Maria Amélia Pessoa, e Renegados, de José Gomes Brandão.

Brandão, no violão, e Ricardo Mota

José Gomes Brandão, no violão, e Ricardo Mota

Para a final no Ginásio do CRB, que teve 12 concorrentes ainda se classificaram as músicas Raízes, de Francisco Elpídio e Eliezer Setton, que entrou por ser a melhor interpretação, e Samba da Ilusão, de João Melo e Zailton Sarmento, como o segundo melhor arranjo (que foi de José Gomes Brandão), já que Renegados (melhor arranjo, também de José Gomes Brandão) já estava classificada pela eliminatória. Todas as finalistas entraram no disco, que foi um feito histórico por ter a particularidade de ser o único LP (Long Play) produzido no Brasil por uma entidade estudantil.

Outra iniciativa inédita adotada pelo DCE para garantir a melhor qualidade musical do Festival foi colocar à disposição dos selecionados uma banda base, que ensaiava numa sala do Clube Português.

Quando tudo parecia definido, a direção do Teatro Deodoro informou que a velha estrutura do teatro não suportaria a lotação máxima. Depois de muita negociação, resolveu-se que a ocupação se limitaria somente aos dois primeiros pavimentos.

Paulo Poeta, diretor de cultura do DCE, entrega o prêmio de 1º lugar a Edson Bezerra e César Rodrigues

Paulo Poeta, diretor de cultura do DCE, entrega o prêmio de 1º lugar a Edson Bezerra e César Rodrigues

Nas quatro noites em que foram realizadas as eliminatórias, muita gente, sob protesto, teve que acompanhar o festival do lado de fora.

Para evitar mais descontentamentos, a final foi transferida para o Ginásio do CRB, na Pajuçara, que não tinha uma boa acústica, mas recebeu bem as mais de duas mil pessoas que aplaudiram a vitória de Canto Chão. Essa final foi transmitida, ao vivo, pela Rádio Gazeta.

A Censura

Com o festival ganhando repercussão, os organizadores decidiram que já existiam condições de enfrentamento com a censura.

Foram enviadas à Polícia Federal as cópias das 80 músicas semifinalistas e, enquanto aguardavam a liberação, a divulgação foi feita já com os nomes de todas as músicas concorrentes.

A PF chamou os organizadores para avisar que não se podia divulgar nada enquanto eles não autorizassem. Mas a divulgação continuou normalmente.

Com a aproximação do dia da primeira semifinal, o DCE voltou ao Departamento de Censura para saber a situação das músicas. Ficou evidente que a PF estava segurando a liberação para inviabilizar o festival.

Carlos Moura faz o show de encerramento no Ginásio do CRB, em janeiro de 1982

Carlos Moura faz o show de encerramento no Ginásio do CRB, em janeiro de 1982

No último momento, o Departamento de Censura informou que quatro músicas estavam censuradas (Canto Chão, A Matança do Boi, Sem Remédio Sem Doutor e Renegados), mas que estavam liberadas para a apresentação exclusivamente no Festival, e que uma delas, Raízes, não poderia ser executada. Como não haveria tempo hábil para mudanças, a PF esperava que o Festival não acontecesse.

Na primeira eliminatória, lá estava, nos bastidores do Teatro Deodoro, o policial censor acompanhando tudo o que se fazia e se dizia no palco. Com o Discurso de Abertura do presidente do DCE, Edberto Ticianeli, e o anúncio das músicas, ele percebeu que o Festival iria desrespeitar a censura, antecipou-se e ameaçou paralisar o Festival se isso acontecesse.

O teste de fogo ficou para o segundo dia de eliminatórias, dia 3 de dezembro, quando Raízes, proibida pela censura, estava programada para se apresentar.

O DCE avaliou que a Ditadura Militar não estaria disposta a enfrentar o desgaste de ter que impedir um Festival Universitário, e jogou duro, mantendo Raízes e desafiando a PF. O policial ainda ameaçou cancelar o Festival, mas diante da firmeza dos estudantes, recuou e saiu do local afirmando que iria procurar o seu superior para tomar as providências. Mas nada aconteceu.

O agente Arivaldo Mendonça de Carvalho, da Polícia Federal, era quem respondia pela Divisão de Censura de Diversões Públicas em Alagoas, em entrevista a O Jornal de 20 de outubro de 2012, revelou que foi o censor responsável pela proibição das músicas no III Festival.

“Sempre quando a coisa era polêmica, quando surgia alguma dúvida, eu encaminhava para Brasília. Acontece que, naquela época, haviam algumas letras consideradas de duplo sentido, e a chefia exigia certas regras. Não foi covardia minha. Alguns autores ficaram chateados, mas quando eu mandava para Brasília ia com uma recomendação: ‘Se puder libere. O pessoal daqui é gente boa, não tem maldade’. Quando eu mandava com a recomendação, geralmente era atendido”, explicou o censor.

Encerrado o Festival, teve início o processo de gravação do LP. O DCE acertou com a Rozenblit, em Recife, que o disco seria gravado nos finais de semana, período em que todos os músicos podiam participar.

Passado o período de gravação, vieram os problemas para a prensagem dos discos, que foi feita na Fermata, em São Paulo. Era preciso uma autorização do Departamento de Censura da PF, coisa que, obviamente, eles não deram. O DCE apelou para o Conselho Superior de Censura (CSC), em Brasília, que agia muito lentamente.

Enquanto aguardavam a decisão do CSC, conseguiram adiantar a prensagem dos discos, com o compromisso de só distribui-los após a liberação da Censura, sob pena de prejudicar a empresa.

Capa do disco, arte de Enio Lins

Capa do disco, arte de Enio Lins

Com os mil discos nas mãos e temendo a sua apreensão, foi montada uma verdadeira operação de guerra para transportá-los para Maceió e escondê-los sob o mais absoluto segredo. De tempos em tempos, por segurança, havia uma mudança de esconderijo, e novamente se organizava sigilosamente o transporte dos discos.

Somente no dia 25 de fevereiro de 1983 foi que o Conselho Superior de Censura iniciou a análise das músicas do Festival e liberou Canto Chão, A Matança do Boi, Sem Remédio Sem Doutor e Renegados para serem gravadas.

O fato que ajudou o CNC a tomar essa decisão foi a defesa contundente da liberação da música Raízes feita pelo conselheiro e jornalista Roberto Pompeu de Souza, então presidente da Associação Brasileira de Imprensa – ABI.

O debate acirrado com Antônio Carlos de Moraes, representante do Conselho Federal de Entorpecentes, que classificava a música censurada como “um hino à subversão”, o levou a sentir um mal-estar cardíaco, sendo socorrido em um hospital local. O cineasta Geraldo Sobral Rocha adiou a decisão sobre Raízes ao pedir vistas.

Esse episódio ganhou o noticiário de vários jornais de circulação nacional, o que terminou por criar uma pressão favorável à liberação da música, o que veio a acontecer no dia 28 de março de 1983.

Com as eleições do DCE da Ufal, a nova diretoria, que teve à frente Thomaz Beltrão, foi quem distribuiu o disco.

Em 2006, o disco foi digitalizado em São Paulo por iniciativa de Edberto Ticianeli. Em 2009, a Ufal gravou e distribuiu mil cópias do CD, que tem uma nova faixa com o pronunciamento de abertura do festival em 1981.

9 Comments on III Festival Universitário de Música em 1981

  1. Que bom relembrar daqueles momentos que, a época, não tínhamos a menor noção que viraria história. Valeu, Ticianeli, trazer para o hoje a memória do ontem. Grande abraço e, no +, MÚSICAEMSUAVIDA!!

  2. Carlos Alexandre // 29 de junho de 2015 em 17:46 //

    Canto de Liberdade…
    Muito boa a matéria, para quem lembra um pouco dessa história. Eu não fazia parte dessa classe universitária, mas como sempre fui ligado à música (sem ser músico) e as questões relacionadas a cultura. Então participei indiretamente dessas etapas do festival e alguns anos depois consegui o bolachão (LP). Hoje se escuta com uma certa frequência a música Canto Chão na Educativa FM. Quanto ao discurso do Edberto Ticianeli mostra sua destreza política e a luta por liberdade como um grande idealista de esquerda no qual acostumamos a ver e que tanta falta nos faz nesse exato momento.

  3. Dimas Marques // 29 de junho de 2015 em 22:42 //

    Perfeito. Tenho esse Lp, sou muito fã, principalmente da Beira Banda da Lagoa. Como historiador apaixonado pela música alagoana, li aqui um ouro pra nossa história. Parabéns.

  4. Nelson Braga // 31 de outubro de 2015 em 10:30 //

    Muito bom relembrar estas histórias que marcaram os movimentos culturais de Alagoas. Orgulho de ter participado com Beira Banda da Lagoa que contribuiu, direta e indiretamente, com três faixas do LP: A história da Concha do Mar, Sem remédio e sem doutor e Sebo nas canelas!

  5. “Terra do sol, liberdade ouro
    Há de haver aqui vamos desbravar …

    ” Latinamente ser , livremente está
    brasileiramente …”

  6. José Gomes Brandão // 31 de outubro de 2015 em 11:17 //

    Não poderia ter outra origem essa publicação, senão do nosso amigo e companheiro, o combativo guerreiro EDBERTO TICIANELI.
    Parabéns por trazer às nossas memórias uma pequena mas significativa parte da história dos Festivais Universitários.

  7. Chico Elpidio // 11 de novembro de 2015 em 07:55 //

    Parece que foi ontem! Inesquecível ! Parabéns ao Ticianeli por preservar a memória dos festivais universitários alagoanos.

  8. Paulo Pedroza (Sardinha) // 3 de Janeiro de 2017 em 22:21 //

    Muito bom
    Lembrar época memorável

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