Igreja do Rosário dos Pretos em Maceió

Igreja do Rosário dos Pretos em 1925, na então Rua 15 de Novembro, atual Rua do Sol
Igreja do Rosário dos Pretos no século XIX, ainda com o Cruzeiro à sua frente

Igreja do Rosário dos Pretos no final século XIX, ainda com o Cruzeiro à sua frente

Ernani Méro

A história da arquitetura religiosa do Brasil, mormente, na época Colonial, tem aspectos interessantes, influenciados dentro de uma ordem econômica, sociológica e antropológica. Maceió não fugiu à regra, mesmo, sendo, uma cidade da primeira metade do século XIX.

A Cruz foi o primeiro momento da nossa manifestação de catolicismo popular, seguindo-se: o oratório, as ermidas, as capelas e as igrejas.

No local da atual igreja do Rosário na rua João Pessoa, no início do século XIX, existiu, com certeza, um cruzeiro e em seguida uma capela que deu origem a atual igreja. Foi uma obra construída pelos negros escravos, sem recursos e em etapas. Razão porque nela não existe uma unidade em relação a sua gramática artística.

A Irmandade do Rosário dos Pretos

Igreja do Rosário dos Pretos em 1908

Igreja do Rosário dos Pretos em 1908

No século XVI, os Jesuítas começaram a criar as Irmandades de Nossa Senhora do Rosário para homens de cor, ou seja, para escravos. A origem dessas instituições vem de Portugal, todavia, é muito discutida a razão de ser de sua constituição. Uns opinam e nos parece viável, que o motivo foi o veículo para acolher os negros escravos, introduzindo-os no meio social, não para dar-lhes condição humana, mas, para torná-los dóceis às necessidades do uso, como força humana para a economia portuguesa.

Em nosso Brasil, porém, houve uma outra intenção e nos informa com muita propriedade Júlia Scarano em seu livro “Devoção e Escravidão“: “…um dos aspectos mais importantes dessas associações será o de dar dimensão humana ao escravo negro.” Realmente, a Igreja Católica, muitas vezes malhada, teve um papel importante na integração do negro na sociedade, pois, sabemos que eles eram tidos “como bestas e ser em inúmeras circunstâncias, tratado como tal, dentro da confraria ele já é alguém”.

Av. Moreira Lima nos anos 40 com a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos ao fundo

Av. Moreira Lima nos anos 40 com a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos ao fundo

A Irmandade da Senhora do Rosário dos Pretos espalhou-se pelo litoral do Brasil e depois pelo interior. Em Alagoas temos em Penedo, Marechal Deodoro e Maceió, com templos dedicados à Senhora do Rosário dos Pretos. A devoção do Rosário por parte dos negros, foi alimentada na Península Ibérica pelos Dominicanos, isto depois da vitória de Lepanto quando os hereges albigenses foram derrotados pela força do Rosário de Maria.

A Irmandade do Rosário dos Pretos de Maceió tem os seus Estatutos com 18 Capítulos, aprovado em 4 de outubro de 1830, em Olinda, pelo Bispo D. Perdigão. Esse Estatuto está publicado no Tomo 1 das Leis Provinciais das Alagoas nas páginas 225 a 233. Pela Lei n? 7, de 9 de março de 1837, foi pelo presidente Rodrigo de Souza da Silva Pontes sancionada, aprovando o compromisso.

Para comprovar que o negro era um integrante da irmandade, passaremos a transcrever um tópico do compromisso, em seu Capítulo 1 “…e sendo cativo se praticará o mesmo, tendo licença de seu senhor, que deverá apresentar por escrito”. Concluímos que um homem de cor negra, somente poderia participar da irmandade com a devida licença de seu senhor.

Um outro aspecto bem próprio que diz o grande índice de cativos existente na citada irmandade de Maceió, podemos observar no bojo do Estatuto em seu Capítulo V —”Em razão desta confraria ser composta pela maior parte de pretos cativos para aproveitarem os dias de guarda que lhes são concedidos, se transfere a festa da Santíssima Virgem do Rosário, que em todos os anos cai no primeiro domingo de Outubro, para o dia 26 de dezembro de cada ano…”.

Observamos e estamos de acordo com a opinião do Mestre Felix Lima Junior em seu trabalho “IRMANDADES” que a Irmandade do Rosário era composta de pessoas de todas as cores. No entanto, no Brasil, houve a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos espalhada em todo o território, creio que a de Maceió ereta na Igreja do Rosário não fugiu à regra. Por determinados aspectos que iremos depois analisar, o templo da rua João Pessoa foi feito com dificuldades econômicas, pois, os cativos lutavam com sérias dificuldades. Para os trabalhos daquele templo também houve a ajuda de Loterias, conforme veremos a seguir:

Plano

Para as Loterias concedidas a favor das obras da Igreja de Nossa Senhora do Rosário desta cidade.

1.500 bilhetes…………..5$000…………….. 7.500$000
Prêmio de 12% a favor das obras………….. 900$000
Idem de 8 ditos por lei 600$000…………. 1.500$00
6.000$000

Esses dados estão contidos no Tomo II das Leis Provinciais das Alagoas — 1843 a 1850.

É importante notar que a comunidade participou da ajuda à construção do templo. Um outro fato de importância política envolve o templo da rua João Pessoa. Em 1840, Sinimbú designou o consistório daquela igreja para a reunião da Assembleia Legislativa Municipal. Os legisladores não aceitaram. Diz Craveiro Costa em seu Livro “Maceió” na página 107: “A Assembléia não aceitou, sob à alegação — a indecência do lugar e a sua inconstitucionalidade”.

Um outro acontecimento de valor sócio-religioso é que naquele templo abrigou-se a imagem da Padroeira, quando da construção da nova Matriz de Maceió.

Aspectos artísticos do templo

A igreja da Senhora do Rosário dos Pretos de Maceió é um templo do século XIX, logicamente, dentro de uma linha neoclássica. Todavia, a sua fachada, fiel ao estilo, apresenta dois aspectos que foge ao todo. O seu frontão que deveria ser triangular, apresenta-se em curvas, bem conforme à gramática de um barroco brasileiro, primoroso em seus detalhes. No tímpano do frontão deveria ter um nicho, todavia, no século XVIII, alguns frontões sofreram uma evolução, quando o nicho é substituído por uma janela. Maceió foi atingida por esse processo de evolução da arte brasileira.

O interior é simples, tanto a nave, como a capela mor não oferecem nada de particular. Na sacristia, algo existe de muito importante que é um lavabo de mármore, talvez, importado de Portugal. Voltando à fachada, merece uma consideração a torre, atarrancada e com cobertura bulbosa. Como ornato tem quatro coruchéus, sendo que a citada cobertura bulbosa, está coberta com “cacos de prato” em azul e não com azulejos, conforme eu mesmo pensava.

Esta constatação me foi possível, pois, meus alunos de Educação Artística do CESMAC lá estiveram e constataram que a decoração da parte bulbosa da torre não é de azulejo, como bem parece, mas de cacos de prato. Isto prova a pobreza dos cativos na construção do templo e ao mesmo tempo, o valor de nossos artesãos negros. Merece ainda, uma consideração a bela escultura da Senhora do Rosário, dentro de uma linha de estilo a século XIX, com um rico estofamento a ouro. O altar mor, bem fora do estilo do templo, em madeira mostra detalhes “neogóticos”. Tudo indica que o primitivo foi, lamentavelmente, demolido, como aconteceu já a outros templos de Maceió.

O galo da torre da Igreja do Rosário dos Pretos

São várias as histórias e lendas que falam do galo na torre das igrejas. Resolvi, arrematar esse trabalho, falando do Galo sob um aspecto que julgo importante — “O GALO NO SIMBOLISMO CRISTÃO” — Realmente, no topo da torre da igreja do Rosário dos Pretos na rua João Pessoa, existe um galo, elegante, tem a sua história e nos manda uma mensagem.

O galo tornou-se um símbolo de vigilância, mediante o fato bíblico, conforme segue: “Pedro, antes que o galo cante, nesta noite, tu me negarás três vezes”. Os quatro evangelistas: Mateus, Lucas, Marcos e João, narram o fato dentro da mesma linha, tendo para o cristão uma significação profunda. Já entre os gregos e romanos era costume chamar o — canto do galo — de terceira vigília da noite, entre meia noite e três horas da manhã.

Em Vieira, comentando o acontecido bíblico, temos: “Pedro chorou amargamente com muita razão, porque o chorar pertence aos olhos e a amargura pertence à língua”. Essa tradição do galo, como símbolo de vigilância, remonta, pois, a tempos distantes.

Nas catacumbas existem desenhos com galos, tendo a seguinte inscrição: “Vigilate“, vigiai. No hino “Aeternum Rerum Conditor“, vemos alusão ao galo, isto provando, a sua presença na liturgia, sempre como símbolo da vigilância:

“Surgamus ergo strenue / Gallus jacentes excitat/ Et somno lentos increpat / Gallus negantes arguit”.

Desse simbolismo de vigilância cristã, nasceu o costume de se colocar no alto das torres das igrejas a figura evocativa do “galo”, substituindo o elegante pavão. Ele, o galo, alerta o homem e a natureza, quando dormem.

No século XII, surgem os galos nas torres das igrejas. Durante a Idade Média, esse símbolo, representou até a vigilância do vigário, do padre para com as almas. No século XVI na Itália aparece o galo. Um tapete da rainha Matilde representa um operário a colocar o galo simbólico na torre da Catedral de Westminster.

Em nosso Brasil, esse símbolo não só está nas torres das igrejas, como também, é tema de poesia folclórica, especialmente, na festa de Natal. Aliás, essa festa do Natal, vem desde o Papa São Telésforo, tornando-se fixa para 25 de dezembro no século IV, pelo Papa Júlio II:

“Já deu meia noite/ Já o galo cantou / Em Belém nasceu / Nosso Salvador”.

Portanto, o simbolismo do galo, tem a sua razão de ser, incluindo-se também na poesia popular, tão significativa a sua mensagem. Realmente, em uma noite de insônia, de preocupações, o canto do galo até parece nos transmitir uma sensação de novas esperanças. Em meio ao silêncio da noite, quando tudo parece desaparecer, o galo vigilante, solta o seu canto renovador e poético. Catulo da Paixão Cearense, com alma fala do galo:

“Coisa mais bela neste mundo/ nada existe do que ouvir / um Galo triste no sertão a cantar/ se faz luar!”…

Em Maceió, na torre da Igreja do Rosário dos Pretos está o Galo vigilante, mandando-nos a sua mensagem de vigilância e paz.

Bibliografia: Scarano, Juba — “Devoção e Escravidão”; Azzi, Riolando — “O Catolicismo Popular no Brasil”; Junior, Felix Lima — “Irmandades”; Junior, Felix Lima — “Escravidão em Alagoas”; Monterado, Lucas de — “História da Arte”; Barth, Alfred — “Enciclopédia Catequética”; Leis Provinciais das Alagoas.

*Publicado originalmente no livro Igrejas de Maceió, de Ernani Méro, Maceió, 1987.

1 Comentário on Igreja do Rosário dos Pretos em Maceió

  1. Delma Conceição de Lima // 27 de outubro de 2015 em 18:22 //

    Fantástica história da Igreja do Rosário dos pretos, lá pelo sec. XIX. A História nos traz conhecimentos e descobertas nem sempre a contento; como a forma que os escravos foram incluídos na igreja. Belo escritos! Parabéns!!!

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