Hugo Santana, o galã de novela e cantor do rádio que passou fome antes do sucesso

Hugo Santana e Aracy Cardoso em Anastácia - A Mulher Sem Destino

Hugo Santana com as fãs em São Paulo no começo a carreira

Pesquisa inicial de Claudevan Melo, ampliada pela editoria do História de Alagoas

Hugo Santana nasceu em Palmeira dos Índios, Alagoas, em 5 de dezembro de 1936. Com seus 1,90m de altura, foi literalmente um galã do rádio e da TV nos seus primórdios no Brasil.

Com três anos de idade, após perder o pai, mudou-se com a mãe para João Pessoa, Paraíba. Aos treze anos, quando cursava o segundo ano ginasial, foi expulso do colégio e abandonou os estudos.

Era considerado um jovem “terrível”, que passava o seu tempo na “Sinuca do Salú” e por isso foi recolhido a uma escola correcional, em Pindobal, onde fez contato com a música e aprendeu a cantar. Considerado recuperado, passou a trabalhar com os tios num armazém em Recife. Era o caixeiro-ciclista da empresa.

Aos 16 anos, pegou um “pau-de-arara” e foi tentar a vida no Rio de Janeiro, morando com outro tio que o empregou numa companhia de seguros. Não demorou e largou o emprego e a casa do tio para tentar a vida sozinho.

Em uma entrevista de 1960, revelou que um dia se surpreendeu em Copacabana sem ter onde dormir e o que comer. Trabalhou em carvoaria e foi entregador de pão, lavador de carros, porteiro de cinema, tintureiro e auxiliar de escritório.

Nesse período, conheceu um boêmio que o acompanhava ao violão nas horas de folga. Com o incentivo desse amigo, fez teste para cantar na Rádio Vera Cruz, mas foi “gongado”. Não desiste e continua a participar de outros programas de calouros. O melhor resultado conseguiu no “Aí vem o pato“, onde classificou-se em 2º lugar.

Capa de um compacto duplo de Hugo Santana

Em um destes programas conhece Sadi Cabral, que o levou para cantar no coral do Teatro João Caetano. Estreou numa peça de autoria do próprio Sadi Cabral, “Não vou no Golpe”, que tinha como atores principais Zeloni, Costinha, Berta Loran e Noelia Noel.

Com viagem marcada para São Paulo, a peça faz sua última apresentação no Rio de Janeiro tendo uma espectadora especial sentada na primeira fila: a mãe de Hugo, que chorava sem parar diante do filho ator e cantor.

Em São Paulo, ao final da temporada, Hugo abandonou a companhia e, para sobreviver, trabalhou numa fábrica de sorvetes. Voltou ao mundo artístico cantando no restaurante de um português, que lhe pagava cem cruzeiros por noite com direito a uma janta. “Desisti daquilo [teatro] e preferi cantar em boates. Do “Chicote” para as Associadas foi um pequeno pulo”, revela em entrevista para a Revista do Rádio em 1960.

Após peregrinar por várias boates, é apresentado a Cassiano Gabus Mendes pelo cantor Agnaldo Rayol. Convidado por Cassiano para fazer um teste nas Emissoras Associadas de São Paulo, causou tão boa impressão que ganhou imediatamente um contrato de dois anos.

Ao mesmo tempo, foi convidado por Geraldo Vieira para atuar como destaque na premiada peça “Os gatos pingados”, atuando como ator-cantor ao lado de Pery Ribeiro, Lolita Rodrigues, Dorinha Durval, Carmem Marinho e outros.

Em 1960, participou como animador do programa “Depois da Meia-noite”, na Rádio Tupi, que era transmitido diretamente da boate “Golden Ball”.

No final de 1960, a Revista do Rádio entrevista a cantora Denise Dumont, oficialmente batizada como Maria José Avelar, e ouve dela que estava namorando Hugo Santana. Informada pelo repórter que o casal era conhecido como “a bela e a fera”, respondeu: “ — Ah! Não fale isso. Hugo pode ser feio. Mas, é bonzinho para mim. Homem não precisa ser bonito para impressionar as moças. Eu gosto do Hugo, e está pronto!”.

Hugo Santana e Aracy Cardoso em Anastácia – A Mulher Sem Destino

A Revista do Rádio o escolheu como a revelação masculina entre “Os Melhores do Rádio” em São Paulo no ano de 1960. No ano seguinte faz sucesso na boate “Michel” e assina contrato com a gravadora Mocambo.

Na Mocambo, convidado por Izio Goss, gravou “Na rocha da siribeira” e “Seu sorriso”, este último um samba de Lupecy Fiorine e Oscar Castro Neves.

Em 1961, a coluna Mexericos da Candinha, da Revista do Rádio, revelou uma das facetas do artista alagoano. Entre as diversas notas dos Mexericos de São Paulo, surge o seguinte comentário: “Contaram-me que o Hugo Santana está perdendo muitos amigos dentro e fora do rádio. A razão disso é que ele ‘picha’ demais os colegas…”.

Gravou seu primeiro disco pela Chantecler em 1962, ainda em 78 rpm (anterior ao LP). As músicas foram a guarânia “O passado não importa”, seu primeiro sucesso, e o samba “Procuro alguém”.

Recebeu o troféu Chico Viola (Francisco Alves) e tornou-se o cantor revelação de 1962. Neste mesmo ano atuou também como ator e cantor na novela “A canção que a noite levou”, de Alves Teixeira, apresentada na TV Tupi e que teve a participação de Edith Veiga e Celly Campello. A música tema da novela foi “Acho graça”, um sucesso de Celly Campello.

Na Rádio e Televisão Tupi participou ainda das novelas “A vida tem dois caminhos” e o “Mistério da Casa Grande”. Como animador do programa de rádio “Clube de Fãs”, levou a audiência a atingir altos níveis em São Paulo.

Deixou a Chantecler em junho de 1963 e assinou contrato com a Continental, onde estreia gravando o bolero “Calma, Coração”, de Kátia Rochane, e o samba bossa-nova “Adeus à Solidão”, de Dalton Vogeler. Depois grava também pela Odeon e Copacabana.

Em agosto de 1963, após voltar de uma excursão pelo Uruguai e Argentina, onde se apresentou nas boates “Gong”, em Buenos Aires, e “Cassino’ em Bariloche, anunciou que romperia com a Tupi para seguir a carreira artística como “free-lancer”. No dia seguinte surpreendeu o mundo musical ao aparecer cantando na TV Record.

Denise Dumont e Hugo Santana

Anunciado como uma das atrações da Telenovela Colgate “Corações em Conflito”, fez o papel de um bom filho pelo qual sua madrasta se apaixona perdidamente. A telenovela ficou no ar entre 10 de dezembro de 1963 a 5 de fevereiro de 1964 pela TV Excelsior, sendo exibida para o Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre.

Em julho de 1964, a Continental anunciou que lançaria em breve o primeiro LP de Hugo Santana. O título era “Chegou minha vez de amar” e a orquestra foi regida por Élcio Alvarez. São onze músicas e entre elas uma versão de um sucesso de Sammy Davis Jr. O disco chegou ao mercado somente no início de outubro daquele ano e tinha faixas como: Berimbau, Caminhos do Amor, Samba sem Porquê e O Amor Chegou, do próprio Hugo Santana.

Ainda na TV Excelsior, em agosto de 1964, atuou na novela “A Cidadela”, uma adaptação de Ciro Bassini em que os principais intérpretes eram Carlos Zara, Neide Pavani, Fernando Baleroni e Hugo Santana. No mesmo período também participou da Telenovela Colgate “A outra face de Anita”.

Também atuou, em 1965, como animador do programa “Show do Meio Dia” na TV Excelsior. Já trabalhava para esta emissora desde 1963, quando saiu da Tupi.

Em novembro de 1965, participou da novela “A Deusa Vencida” ao lado de Édson França, Tarciso Meira, Glória Menezes, Ruth de Souza, Raquel Martins, Altair Lima, David Neto e Maria Aparecida Alves. No final da desta novela, no início de 1966, uma nota da Revista do Rádio destaca que ele criou problemas nos últimos capítulos, “recusando-se a participar da gravação, o final do seriado teve de ser alterado”.

Capa de disco de Hugo Santana

O motivo do desentendimento foi a necessidade de tempo para gravar o disco com os mesmos motivos da novela, como “Balada para uma deusa menina” e “Pequena Paisagem de Amor”.

Rompeu o contrato com a TV Tupi e voltou ao Rio de Janeiro, onde, em 1966, participou do Festival da Canção defendendo a música “Canção Brasileira”, de Heckel Tavares e Luís Peixoto. Ficou entre as 14 melhores músicas da fase nacional. Em outubro do mesmo ano, também participou do Festival da Música Popular Brasileira da TV Record, interpretando “Fim de Sonho”, de Sílvio Mazzuca, classificada entre as 12 finalistas.

Ao lado do também cantor Orlan Divo, participou como convidado de várias edições do programa, Chico Anísio Show, em 1967. No mesmo ano, entre 28 de junho e 16 de dezembro, atuou na novela “Anastácia, a mulher sem destino”, na Globo. Nesta produção estão Henrique Martins, Leila Diniz, Neuza Amaral e Aracy Cardoso.

Ainda em 1967, lançou pela Odeon o LP “Momento a Momento”, que o recolocou nas paradas de sucesso.

No final de 1969, uma nota da revista InTerValo informa que “o talentoso cantor, apresentador e comediante Hugo Santana reapareceu na TV Jornal do Comércio, do Recife, com um show semanal (aos sábados). Dizem os fofoqueiros que os fãs de Wilson Simonal não estão gostando de seu show, porque Hugo Santana procura imitar o embalo e a onda do Simona. O que é perfeitamente possível desde que se tenha as qualidades de Simonal: o próprio Simona diz isso”.

A mesma revista que anunciava a volta de Chico Buarque ao Brasil em março de 1970, informava, na coluna do Chacrinha, que Hugo Santana estava em Buenos Aires estreando no teatro de revistas, “amando as portenitas e outros babados complicados… Quando voltar, o Hugo estará mais rico, mais doido e mais perturbador, sim senhor!”.

Ainda em 1970, outra nota na mesma revista InTerValo revelava que ele tinha sido contratado para o programa Super Sábado da TV Piratini, Canal 5 de Porto Alegre, a pedido de José de Maria, um argentino produtor da emissora.

Hugo Santana cantando no Miss Universo 1972 em Porto Rico

Não deve ter durado muito por lá. Pelo menos é o que deixa escapar o próprio contratante. “Pensei nele, que é brasileiro e artista conhecido todo o país, mas Hugo me decepcionou inteiramente. É metido a vedete e não cumpre suas obrigações. Além disso, brigou com todo mundo da emissora, e comete gafes, quando resolve improvisar, ao invés de seguir o roteiro. Improvisa tão mal, que até o público chega a reclamar”.

Em 1972, mudou-se para Porto Rico como cantor e produtor musical. Lá, em agosto, cantou no concurso Miss Universo. A revista O Cruzeiro de 9 de agosto de 1972, se refere a Hugo Santana como o único brasileiro que vivia em Porto Rico. “É um artista mito popular para os porto-riquenhos. Sua apresentação no espetáculo de Miss Universo, na transmissão semifinal, foi um sucesso. Hugo é um alagoano com toda a bossa do carioca e transformou o auditório do Ceromar num autêntico carnaval”.

O Diário de Pernambuco de 18 de agosto de 1973 anunciava que “Hugo Santana – O cantor brasileiro mais aplaudido no Caribe” participaria das Grandes Noitadas da Mouraria, em Recife. No show, também se estariam Galo Preto e seu Trio de Ouro, além de repentistas e “um movimentado show de música regional”.

Nos anos 70, participou como convidado de alguns programas de televisão, principalmente do Almoço com as Estrelas ou Clube dos Artistas, ambos comandados por Airton e Lolita Rodrigues.

O jornal Diário de Notícias de 16 de julho de 1976, publicou uma nota na coluna Noite, de Gilmar Torres, informando que Hugo Santana estava naquela data economicamente bem em Porto Rico, mas afastado do mundo artístico. “Hoje, retirado do mundo artístico local, é o líder de audiência em rádio quando o público ouvinte sintoniza seu aparelho para ouvir a voz do Pastor Hugo Santana. Juro por Deus!”.

Em 1978, foi divulgado nos jornais como o apresentador do humorístico “Os Pankekas”, em São Paulo. O programa teve a participação de Ronnie Cócegas (Maloneze), Mário Alimari (Fereguete) e Sandrini (Michilin). A direção era de Tittus de Miglio e a redação de José Sampaio e Emanuel Rodrigues, outro alagoano.

Tratado como um bom cantor, Hugo Santana foi anunciado pelo Diário de Pernambuco de 1º de maio de 1980, como um artista que “vai aparecer na televisão como ator. Ele será gerente de um Motel no episódio ‘Quem Matou Sandra?’, da série Plantão de Polícia”.

O mesmo jornal, meses depois, em 14 de julho de 1980, volta a se referir a ele como alguém que está “se defendendo”. “Além de uma participação no seriado ‘O Bem Amado’, vai aparecer como dono de uma gravadora em ‘Chega Mais’”.

Edécio Lopes, ao contar a história da sua passagem pela Rádio Palmares nos anos 80, lembra que a chegada de Hugo Santana para apresentar o programa Viva o Rádio, em 1982, tirou a emissora do último para o primeiro lugar na pesquisa do Ibope. Foi o próprio Edécio quem o trouxe de Recife.

Alguns profissionais daquela época lembram dele como uma pessoa problemática e de difícil convivência. Um dos operadores da Rádio Palmares que trabalhou com ele, disse que Hugo foi afastado da Rádio depois de ter se desentendido com todos os operadores. “Ninguém queria trabalhar com ele”, revela esse profissional. Depois da Rádio Palmares, foi trabalhar na Rádio Difusora de Alagoas.

Seu primo, Sérgio Santos, no blog Histórias do Serjão, revela que em conversa com uma prima, descobriu que ele faleceu em João Pessoa, para onde foi já doente. “Dirigiu o próprio carro até João Pessoa, mas já estava com a doença ruim. Ficou internado no hospital por quatro meses. Um dia ele pediu à nossa prima uma refeição com carne-seca desfiada, temperada com azeite Gallo, batida no liquidificador e coada. Foi atendido. Recebeu a refeição através da sonda”.

Não há informação precisa sobre a data em que faleceu e como viveu seus últimos dias.

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