História do Cemitério de São José, de Felix Lima Júnior

Avenida principal do Cemitério de São José

Avenida principal do Cemitério de São José

O texto a seguir é de autoria do historiador Felix Lima Júnior e foi publicado no jornal Correio de Maceió de 18 de maio de 1969. Conta a história do surgimento do Cemitério do Caju, que depois foi denominado Cemitério de São José em homenagem ao governador que o construiu, José Fernandes de Barros Lima.

Cemitério de São José

Em 24 de outubro de 1918, de bordo de um Ita, da Cia. Nacional de Navegação Costeira, desembarcaram em Jaraguá, vindas do sul do país, pessoas atacadas pela gripe chamada “espanhola”, a qual fazia sua sinistra excursão, vitimando centenas de milhares de pessoas nas cinco partes do mundo, abalado por quase um lastro de guerra desapiedada.

Antes de terminar aquele mês de amarguras, estava acamada a metade da população da cidade, que viveu três ou quatro semanas de desolação, de desorganização, faltando muita coisa, as ruas desertas, as escolas e colégios fechados, comércio paralizado, exceto, naturalmente, as farmácias, drogarias e casas mortuárias, cujo movimento dobrou, triplicou, quadruplicou.

Cemitério de São José logo após ser murado em 1921

Flores de sabugueiro, folhas de pitanga e de eucaliptus, capim santo, casca de laranja, tudo foi aproveitado para chás quentes. “Seu” Candinho da Farmácia (Cândido de Almeida Botelho) negociou, a bom preço, até a última gôta do grande “stock”” de aconitum em tintura de seu afreguesado estabelecimento, à rua do Comércio, 121. Encontrar médico era um problema, todos êles assoberbados de serviço. O Dr. Raiz ganhou gordos cobres vendendo seus afamados medicamentos na Feira de Passarinho, no Mercado, em Bebedouro, no Trapiche da Barra, na Ponta da Terra…

O venerando professor Goulart (Francisco de Barros Pimentel Goulart) — velho e cansado, deixou, inúmeras vêzes, sua confortável residência em Jaraguá para visitar doentes de famílias amigas, receitando medicamentos homeopáticos, quando não os fornecia, tudo gratuitamente. Registre-se que êsse benemérito cidadão não tem o seu nome, ainda, numa das artérias destra cidade!

Portão do Cemitério de São José

Portão do Cemitério de São José

De tanto arrancarem folhas de eucaliptus, estreitas e compridas, medicinais, recomendadas ainda hoje para resfriados, quase matam duas árvores das mais conhecidas da cidade: a da então residência do Cel. Antônio Souza Almeida, na rua Augusta, esquina com a Dr. Cincinato Pinto e a do sobrado que pertencia ao lusitano sr. Firmino Guimarães, na rua Angelo Neto, no Farol. A primeira ainda vive; a segunda foi derrubada em fevereiro de 1961.

Morreu muita gente, mais de medo do que de gripe… Poucas famílias não perderam um membro querido, rara a casa onde não entrou tecido preto para roupas de luto. Barros Lima, Cachimbo e Sátiro Marques não chegavam para as encomendas… A velha necrópole de Nossa Senhora da Piedade, superlotada, não podia receber senão poucos cadáveres. Tornou–se necessário abrir, as pressas, perto do Hospital de Isolamento, próximo ao Trapiche da Barra, um cemitério nôvo, o “do caju”, como logo ficou conhecido, devido à existência de muitos cajueiros no local, ou de São José, como o denominaram, oficialmente anos depois, em homenagem ao Governador do Estado, Dr. José Fernandes de Barros Lima, de quem partiu a iniciativa da abertura do campo santo.

Sem maior perigo para a saúde pública, naquela difícil emergência, não podiam efetuar enterramentos no cemitério da Piedade, nem nos outros do município.

Somente em 1921 foi o cemitério murado e construída a pequena — aliás excessivamente pequena — capela consagrada ao esposo da Virgem Maria. Os trabalhos foram realizados por um construtor português, sr. Joaquim Teixeira Madalhas. Lê-se no portão: “Mortos Moritum”.

Jazigos do Cemitério de São José

Jazigos do Cemitério de São José

Devido à abertura dessa necrópole, numa reunião creio que na Sociedade de Medicina, o dr. Afrânio de Araújo Jorge criticou a escolha do local, sendo rudemente agredido pela imprensa governista, e atacado, pessoalmente, certa noite, na rua do Comércio, em frente ao Cinema Floriano (atual São Luís), sendo disparados muitos tiros, registrando-se grande pânico.

Nessa noite trágica as ruas foram ocupadas grupos de guardas civis armados de rifles e contingentes da Polícia Militar, fuzis embalados, sendo revistadas as poucas pessoas que transitaram pelas artérias silenciosas. O dr. Afrânio foi preso, obtendo “habeas-corpus”. Enquanto ele esteve detido — dizia-se — ameaçado de ser massacrado na Penitenciária, interferiram algumas pessoas e, depois, o Presidente da República, dr. Epitácio Pessoa, creio que a pedido da esposa do dr. Afrânio.

Em Mensagem ao Conselho Municipal, datada de 7 de janeiro de 1924, o Intendente (Prefeito) desta capital, dr. Ernande Teixeira Bastos, informou: o Governador Fernandes Lima entregara o cemitério à municipalidade, acrescentando que o Estado abrira a necrópole, devido à falta de recursos do município. Procurou o Estado beneficiar a população pobre “abrindo mão de qualquer emolumentos pela inumação de seus mortos”. Mas o município cobrava e continua cobrando suas taxas…

Está bem conservado o cemitério. Parte foi calçada a paralelepípedo reajustado a cimento, facilitando a passagem de automóveis e a condução dos féretros. É o maior desta capital. Em 1960 o administrador era o sr. Luís França Melo, e ajudante o sr. José Maria Barcelos Galvão.

Governador Fernandes Lima

Governador Fernandes Lima

Depois de visitar o campo santo, no dia de Finados daquele ano, escreveu um repórter: “Pela manhã, quando a nossa reportagem ali estêve, verificou que um homem soltava foguetes próximo ao túmulo de Petrucio. Fomos até próximo ao mesmo e viemos a saber que era o pagamento de uma graça alcançada de Petrucio. Um seu filho menor vinha sempre se alarmando durante a noite e ninguém de casa podia dormir. Procurou médicos, até sessões de baixo espiritismo e nada. Como o mal se tornava cada vez maior, e vendo que o menino, bastante nervoso, não tinha remédio, resolveu fazer uma promessa a Petrucio e os dias foram se passando e o pequeno ficou completamente curado. Agora, conforme prometeu, soltava foguetes em honra ao “Santo Petrucio”.

Notou o jornalista que, no portão, em vez de numerosos mendigos, como encontrara no da Piedade, “…verificava-se ali um movimentado comércio com tabuleiros contendo doces, pipocas, roletes, etc ., numa ofensa à saúde pública. Ainda outros faziam o comércio de velas, grinaldas e fósforos”.

Outro repórter, visitando o campo santo em junho de 1963, escreveu que a média, mensal, de sepultamento, é de 250 — “1700% mais do que no cemitério de Nossa Senhora da Piedade”. Informou o Administrador que não passa de lenda a afirmativa de que durante a gripe espanhola de 1918 — e não epidemia do cólera, como escreveu o jornalista — tinham sido enterradas pessoas vivas, “vindo a saber-se do equívoco irremediável somente dias depois, ao ser observado que a areia das covas fôra revolvida”.

Registrou o jornalista Correia Lima no “Jornal de Alagoas”, de 4 de novembro de 1965:

“Sepultura modesta do ex-Governador — No cemitério de São José, logo à entrada, à direita, vemos um túmulo de alvenaria de tijolo, revestido de cimento, quadrangular e com cêrca de um metro e meio de altura. É uma sepultura modesta e guarda no seu interior o corpo já transformado em cinza do ex-governador de Alagoas e ex-Senador Federal José Fernandes de Barros Lima. Morreu pobre e procurou, antes de partir dêste mundo, avisar a sua família que queria ser sepultado ao lado do túmulo de sua filha, falecida ainda jovem. Foi um homem de bem e um govêrno honesto em todos os sentidos. Morreu pobre e teve um dos maiores enterros já verificados em Maceió”.

Lê-se no “Jornal de Alagoas”, de 1° de novembro de 1966, reportagem de Otávio Rocha:

“É a necrópole dos pobres e sua fundação somente ocorreu em virtude de uma epidemia de peste que grassou em nossa capital naquele ano (1918) ceifando dezenas e dezenas de vidas. Em sua maioria as sepulturas ali existentes são armadas em alvenaria.

Menino Petrúcio tem o túmulo mais visitado do Cemitério de São José

Um total de 7000 sepulturas fazem parte do cemitério outrora chamado do Cajú, que ocupa uma área equivalente a 350 metros de comprimento e 150 de largura. É dividido em 10 quadras, das quais três são destinadas ao sepultamento de pequenas crianças — os anjos. Cinco avenidas nele foram abertas. Anualmente uma média de 2300 pessoas são ali inumadas.

A sepultura que mais visitas recebe no Cemitério de São José é a do menino Petrucio falecido em 24 de abril de 1939, com a idade de 11 anos. A êle são atribuídos, pela crença popular, poderes miraculosos. Grande número de pessoas afirma ter alcançado, por intermédio dêle, inúmeras graças. As promessas renovam-se a cada dia e segundo o sr. José Viana Filho, administrador do aludido campo santo, a pintura da “igrejinha” onde está sepultado Petrucio, é renovada por prosélitos que por uma forma ou outra tiveram seus pedidos atendidos. Até do Estado de São Paulo afluem pessoas para visitarem e rogar as graças do menino Petrucio …”.

Informa o CORREIO DE MACEIÓ, de 4 de fevereiro de 1968, haver o Prefeito, dr. Divaldo Suruagy, reformado e melhorado a necrópole.

3 Comments on História do Cemitério de São José, de Felix Lima Júnior

  1. Sim, é verdade tudo o que falam do Menino Petrucio… Meu filho fez um pedido a ele e alcançou a graça, e é com muito alegria e fé que também jamais deixarei de ir ao cemitério de São José sempre que for a Maceió irei visitar o seu túmulo.

  2. Niedja Guedes // 1 de Maio de 2017 em 12:29 //

    Sim minha avó e minha mãe alcançaram graças através do menino Petrucio com relação a graves enfermidades em crianças da família.

  3. Parabéns pelo artigo. Sobre o trecho que cita reportagem do Jornal de Alagoas, de 1° de novembro de 1966, onde consta “É a metrópole dos pobres (…)”, certamente seria “É a necrópole dos pobres (…)”.

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