História de uma praça chamada Martírios

Praça dos Martírios nos 50 em cartão postal da Coleção Allen Morrison
Vendedor de água no Largo dos Martírios em 1905. Foto de Luiz Lavenère

Vendedor de água no Largo dos Martírios em 1905. Foto de Luiz Lavenère

Quando, em 1820, José da Silva Pinto cumpriu ordens do presidente da província, Sebastião Francisco de Mello e Povoas, e desenhou uma das primeiras plantas da cidade de Maceió, lá estava o largo que é conhecido hoje como Praça dos Martírios. Era um descampado limitado por algumas poucas casas e pela encosta do Jacutinga, que era responsável pelo acúmulo de lama no local nos períodos de chuva.

As mercadorias transportadas por carros de bois para o povoado de Maceió chegavam a esse largo pela Estrada do Interior, passando pela Cambona dos Machados (hoje Rua General Hermes) e pela Rua do Comércio. Quando o destino era o embarque na enseada de Jaraguá, os almocreves continuavam até a Boca de Maceió (hoje Praça dos Palmares), depois percorriam os areais da futura Avenida da Paz até o porto.

Bonde saindo da Rua do Comércio para a Praça dos Martírios em 1915, ainda sem a Ladeira dos Martírios

Bonde saindo da Rua do Comércio para a Praça dos Martírios em 1915, ainda sem a Ladeira dos Martírios

Em 1836, com a construção de uma capela pela irmandade do Bom Jesus dos Martírios, o descampado passou a ser conhecido como Largo dos Martírios. A capela sobreviveu no sopé do Jacutinga até 1º de agosto de 1880, quando foi demolida para dar lugar à igreja do Bom Jesus dos Martírios, inaugurada em 30 de outubro de 1881. A obra só foi viabilizada graças ao esforço do missionário frei Cassiano de Comachio.

Entretanto, somente no dia 23 de outubro de 1887 é que o Largo dos Martírios foi utilizado pela primeira vez para um fim que não fosse o de estrada de carro de boi. Com o início das novenas do Senhor Bom Jesus dos Martírios, o largo foi ocupado por bazares de prendas, barracas para a venda de gengibirra e outras diversões populares. Era o início da Festa dos Martírios, que durante décadas foi uma das maiores festas da cidade, contribuindo decisivamente para a valorização do largo.

Recepção ao presidente da República Affonso Arinos em 1906. Foto de Luiz Lavenère

Recepção ao presidente da República Affonso Arinos em 1906. Foto de Luiz Lavenère

A segunda grande obra a ser realizada no Largo dos Martírios foi a construção do Palácio do Governo, que teve sua pedra fundamental lançada no dia 14 de setembro de 1893, durante o governo de Gabino Suzano de Araújo Besouro. Com vários atrasos, a inauguração do Palácio do Governo só aconteceu no dia 16 de setembro de 1902.

Os primeiros investimentos em melhorias para o Largo dos Martírios tiveram início no dia 30 de março de 1907 e foram autorizados pelo intendente da capital, engenheiro Antônio Guedes Nogueira. Com a presença do Palácio do Governo e da Igreja dos Martírios, o Largo dos Martírios foi reformado para ser uma das mais bonitas praças da capital.

Os trilhos de bondes de tração animal foram retirados do centro da praça e deslocados para uma via que ficava em frente ao Palácio do Governo. Do outro lado, a Igreja dos Martírios perdeu sua imponente escadaria, cedendo lugar a uma via que era o prolongamento da Rua do Sol, dando acesso a Caixa D’água (hoje Rua Gazeta de Alagoas). Essa obra foi proposta pelo consagrado pintor Rosalvo Ribeiro, que era o projetista da reforma.

Palácio do Governo em 1908

Palácio do Governo em 1908

Uma galeria de 24 metros foi construída, canalizando as águas pluviais que desciam do Planalto de Santa Cruz pela estreita Ladeira de Santa Cruz, que recebeu calçamento. Somente na década de 1920, durante o governo de Fernandes Lima, é que algumas casas foram desapropriadas e surgiu a Ladeira dos Martírios.

O destaque da nova praça era o monumento ao Marechal Floriano Peixoto. A ideia de homenagear ao ex-presidente da República foi apresentada pelo jornalista Joaquim Goulart de Andrade, que publicou no jornal Gutenberg, em 28 de janeiro de 1905, um convite para a fundação de uma associação que se encarregasse de promover a construção de um monumento à memória do Consolidador da República. Assim, no dia 2 de fevereiro de 1905, foi fundado o Centro Cívico Floriano Peixoto, cujo presidente honorário foi o senador Euclydes Malta.

Obras de construção da Praça dos Martírios em 1908

Obras de construção da Praça dos Martírios em 1908

O monumento foi solenemente inaugurado no dia 11 de junho de 1908 com a presença de muitas autoridades, incluindo Alexandre Peixoto, irmão do homenageado. Para facilitar a presença do público, o comércio fechou às 3 horas da tarde, por recomendação do Centro Cívico Floriano Peixoto. Naquela noite, a praça recebeu uma retreta executada pelas bandas do 33 e da Polícia Militar.

A Praça dos Martírios foi inaugurada meses depois, no dia 24 de dezembro de 1908, já contando com iluminação elétrica. Para a queima de fogos de artifícios foi contratada uma firma japonesa e, como já se estava em pleno Natal, à meia-noite foi celebrada missa campal pelo monsenhor Silva Lessa. Após as solenidades o Palácio do Governo recebeu convidados para um concerto e um sarau.

Prédio da Intendência Municipal nos anos 50

Prédio da Intendência Municipal nos anos 50

Após a inauguração, a Praça exibia vinte postes de bronze e quarenta bancos no estilo “art-noveau”. O jornal Gutemberg, no dia seguinte, descreveu a nova praça. “Constituída de dois planos, sendo um ligeiramente inclinado e destinado à plantação de flores, no centro do qual ostenta-se um estético aquário, tendo aos lados dois elegantes repuxos contornados de simétricos canteiros e gramados de gracioso estilo, apresentando um conjunto rítmico formosíssimo; o outro plano, que não tem aclive, será aplicado a exercícios e evoluções militares, erguendo-se, ao meio deste, o vulto marcial do invicto Marechal Floriano Peixoto, modelado em bronze”.

A presença do marechal na praça era tão importante que logo ela deixou de ser dos Martírios para ser a Praça Floriano Peixoto. A Lei municipal nº 28, de 21 de maio de 1914, foi assinada pelo intendente e farmacêutico Firmino de Aquino Vasconcelos. O Palácio dos Martírios também foi afetado pela presença do consolidador da República e, em 1947, passou a ser Palácio Floriano Peixoto. A definição se deu pelo Decreto Estadual n° 417, de 17 de outubro, no governo de Silvestre Péricles de Góes Monteiro.

Praça dos Martírios em foto de Stuckert nos anos 50

Praça dos Martírios em foto de Stuckert nos anos 50

A primeira reforma da Praça dos Martírios aconteceu em 1936. No início dos anos de 1960, quando o Luiz Cavalcanti era o governador e Sandoval Caju o prefeito de Maceió, a praça sofreu nova intervenção. Desta feita foi construída a Galeria Rosalvo Ribeiro, cujo cobertura funcionava como palco para espetáculos, além da instalação de uma fonte sonora e luminosa. A inauguração se deu no dia 16 de setembro de 1963.

Para que a fonte fosse vista do Planalto de Santa Cruz, várias árvores foram derrubadas. Posteriormente houve a compensação com o replantio de novas mudas. O monumento a Floriano Peixoto foi deslocado e voltado para o antigo prédio da Intendência (esse edifício recebeu a CASAL e a sede da prefeitura de Maceió no governo de Kátia Born).

Praça dos Martírios durante a reforma de 1963

Praça dos Martírios durante a reforma de 1963

Além da Igreja e do palácio, a Praça dos Martírios tem no seu entorno outras edificações importantes, como a antiga sede da Guarda Civil (esquina da Rua Boa Vista), que depois serviu como base para a Rádio Patrulha e, já nos anos 70, agência do Produban. A desapropriação do terreno para a construção deste prédio ocorreu em 1876. Pertencia a Clodoaldo Soares dos Prazeres.

Outro edifício importante é o antigo palacete municipal, ou Intendência, uma obra do arquiteto Luiz Lucariny que foi inaugurada em 31 de janeiro de 1910. No outro lado da praça foi construído o palacete de Francisco de Assis, hoje abrigando o Museu Pierre Chalita. Antes recebeu a Rádio Difusora de Alagoas.

Em 2005 foi concluída a última reforma na Praça dos Martírios. As principais alterações dessa intervenção foram o fechamento da rua que ficava em frente ao palácio, transformada em pátio das bandeiras dos municípios alagoanos, e a demolição da Galeria Rosalvo Ribeiro, que teve o seu local ocupado por mais escadarias de acesso à praça pela parte superior, em frente à igreja.

Fonte:
– O Palácio do Governo de Alagoas e História de uma praça, de Moacir Medeiros de Sant’ana.
– Fotos do Museu da Imagem de Som de Alagoas.

5 Comments on História de uma praça chamada Martírios

  1. Iara Sampaio Moreira // 10 de agosto de 2015 em 21:43 //

    Sensacional, acabo de ter uma verdadeira aula de história, sempre digo: O homem que não tem sua própria história, como o povo que não conhece sua história, é como uma árvore, que não tem raiz. Esta tem um significado especial para mim. Meu marido,nasceu alí, vizinho ao palácio, morou até a vida adulta,hoje não se encontra mais entre nós, porém, suas memórias, sua infância, sua vida naquela praça, me são caras, portanto, a Praça dos Martírios, tem importância em minha vida emocional inenarrável, estou emocionada. Uma Praça, que foi palco de grandes eventos ,hoje…

  2. teresa cristina silva rodrigues // 11 de agosto de 2015 em 03:35 //

    Acho muito ótimo a divulgação de nossa história, precisamos divulgar a história de nossa cidade para avivar a nossa auto estima de cidadão, e com isto despertar o amor que precisa ser revisto pelas autoridades para conservar os poucos prédios que ainda temos para lembra-nos que também temos história.

  3. Gloria Andrade // 11 de agosto de 2015 em 13:19 //

    PARABÉNS! Muito bom passear pela história da cidade de Maceió, através de textos e imagens. Que venham outros e outros.

  4. Parabéns pela publicação! Excelente ação no resgate de nossa história e origens…

  5. Vinícius Maia Nobre // 13 de agosto de 2015 em 21:57 //

    Espetacular essa publicação. Siga em frente Ticianeli. Comento apenas para lembrar que o Major Luiz e o Sandoval Cajú não se bicavam, logo, a intervenção na praça não teve colaboração do Prefeito. Foi executada com recursos do Estado. O edifício onde atualmente é sede da Fundação Pierre Chalita foi desapropriada dos herdeiros do Sr. Francisco de Assis, proprietário da fábrica de tecidos da Saúde e sogro de Aloisio Nogueira. A mansão foi construída para residência da família Machado que a vendeu posteriormente ao Sr. Assis. mais uma vez meus parabéns!

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