História da Escola Aprendizes Marinheiros de Alagoas

A Escola de Aprendizes Marinheiro foi instalada oficialmente no dia16 de abril de 1896

A Escola de Aprendizes Marinheiros funcionou onde hoje estão construídos os edifícios da Administração do Porto de Maceió, no final da Rua Sá e Albuquerque em Jaraguá

A experiência pioneira na formação de militares da Marinha brasileira em Alagoas seu com a criação da Companhia de Aprendizes Marinheiros pelo Decreto nº 5.847 de 2 de janeiro de 1875. Instituída no dia 1º de julho de 1875, não se sabe a localização desta guarnição em Maceió. Mas pode-se afirmar que cumpria seu papel ao se constatar que em 1878 tinha 110 aprendizes marinheiros.

A Companhia foi extinta pelo Decreto nº 9.371 de 14 de fevereiro de 1885, que deu nova organização para estas Companhias.

Com um propósito diferenciado do exclusivamente militar, o jornal Gutenberg publica em 12 de setembro de 1894 um texto cobrando do governador medidas contra a vadiagem e apresenta a proposta de se “instituir nesta capital uma escola de aprendizes marinheiros onde, com a educação cívica que for distribuída aos menores, que não passam hoje de vagabundos, será ao mesmo tempo ministrado honesto e proveitoso meio de manutenção da existência de uma parte dos nossos patrícios”.

A campanha foi vitoriosa e no dia 26 de setembro de 1894 o Decreto do Poder Legislativo nº 207-B cria a Escola de Aprendizes Marinheiros de Alagoas. Ainda em setembro o jornal anunciou que já havia lei definindo orçamento para a construção da instituição em Alagoas e cobrou do marechal Floriano Peixoto a execução da lei.

Aula na Escola de Aprendizes Marinheiros do Ceará em 1917

Em março do ano seguinte o Gutemberg anunciou que a Escola de Aprendizes Marinheiros de Sergipe tinha sido inaugurada naquele mês, entretanto para escola em Maceió “nem ao menos se iniciaram ainda os trabalhos preliminares da acomodação do prédio”.

Somente em novembro de 1895 é que o ministro da Marinha autorizou a instalação das escolas de aprendizes marinheiros da Paraíba, Sergipe e Alagoas. O jornal Gutenberg informa ainda que o ministro da Guerra já teria naquela data entregue ao da Marinha o prédio, onde estava instalado o 26° Batalhão de Caçadores em Maceió, para sediar a escola em Alagoas.

O galpão que abrigava o 26º BC fora construído ao lado do antigo Forte de São Pedro, onde hoje estão construídos os edifícios da Administração do Porto de Maceió, no final da Rua Sá e Albuquerque em Jaraguá.

Ainda naquele mês surgem nos jornais de Maceió as primeiras nomeações dos futuros professores e funcionários da escola.

Como até março de 1896 a escola ainda não tinha sido inaugurada, o jornal volta a cobrar o início do seu funcionamento, mas poupa de responsabilidades o capitão-tenente Justiniano de Oliveira Souza e Mello, capitão do porto e comandante da escola. Atribui a demora aos atropelos da pasta da Marinha, “absorvida a sua atenção com assuntos transcendentes, ainda fruto da desastrada revolta de setembro de 1893.

Finalmente, no dia 16 de abril de 1896 foi instalada oficialmente a Escola de Aprendizes Marinheiros de Alagoas. Segundo comunicado do capitão do porto, Justiniano de Oliveira, não houve solenidade pela urgência da instalação e por não se ter verba destinada para tal fim.

Eram oferecidos os cursos técnicos e instrução primária e secundária, servindo de “amparo para todos que quiserem dela se utilizar, principalmente para a infância pobre e desvalida, de toda a condição social”, esclarecia o Gutemberg. Foram oferecidas inicialmente 150 vagas para jovens entre 13 e 16 anos.

Enfermaria Pereira Guimarães da Escola de Aprendizes Marinheiros do Ceará em 1917

Dias depois, o governador, Barão de Traipu, extinguiu o “Collegio Orphanologico” e asilou os alunos na Escola de Aprendizes Marinheiros. Avaliou o governo que na instituição recém instalada “mais vastos campos se oferecem à inclinação dos meninos”. O ato do governador foi questionado posteriormente na Justiça por um advogado que representava a família de vários dos transferidos.

Em 10 de maio de 1896, o Chefe de Polícia publica expediente informando que enviou ofício ao Capitão do Porto. “Com este vos serão apresentados os menores Silvino Azarias, Alfredo Mendes do Nascimento, Adriano Manoel Leite dos Santos, Manoel Sebastião de Moraes, Pedro dos Santos Ferreira e José Antônio de Oliveira, afim de serem alistados na Escola de Aprendizes Marinheiros de que sois digno comandante”.

Nos meses seguintes, dezenas de jovens são encaminhados pelo Chefe de Polícia, alguns vindo do interior do Estado. O envolvimento dos órgãos estaduais no envio de jovens para o aprendizado da Marinha resultou em agradecimento do Ministério dos Negócios da Marinha ao governador do Estado. A correspondência é datada de 18 de junho de 1896 e tem a assinatura do almirante Elisiário José Barbosa, ministro da Marinha.

Banda Marcial da Escola de Aprendizes Marinheiros do Ceará em 1917

Ainda em julho de 1896, o juiz de Direito da 1ª Vara, encaminha ofício ao Chefe de Polícia manifestando desacordo com a forma como os jovens estavam sendo levados para a Escola, sem o seu conhecimento. Explica o juiz que a lei “orphanologica” previa a necessidade de uma audiência com o magistrado para então se proceder a entrega dos órfãos à Marinha. O chefe de Polícia concorda em cumprir as exigências e explica que se moveu com as melhores intenções, “dando meio de vida honesto a esses menores vagabundos”.

Em agosto daquele ano, a escola já atendia a 100 jovens, além dos remetidos à escola do Rio de Janeiro. Nem todos aceitavam a disciplina militar e logo aconteceram algumas fugas, como noticiou O Orbe de agosto de 1899: “Da Escola de Aprendizes Marinheiros desertaram 4 menores, tendo o sr. Capitão do porto empregado todas providencias afim de serem capturados”.

Prédio reconstruído

Após a publicação de uma portaria no dia 17 de setembro de 1896, desembarca em Maceió o capitão-tenente João Augusto Delphino Pereira Tamoio, que assumiu como capitão do porto e comandante da Escola de Aprendizes Marinheiro de Alagoas. Permaneceu no cargo até maio de 1898.

Prédio da Escola de Aprendizes Marinheiros entre Jaraguá e Pajuçara

Uma das principais realizações do novo comandante foi a reconstrução, em quatro meses, do prédio que abrigava a Escola. Inaugurado às 17h do dia 7 de setembro de 1897, o “bonito e confortável prédio”, como registrou o Gutenberg, era muito diferente do “antigo e feio galpão”, “aquela carunchosa velharia”.

O edifício, totalmente reconstruído, media 127m de extensão por 14m de largura. Os seus usos foram assim distribuídos, do norte ao sul: residência do comandante; farmácia e enfermaria; casa do patrão-mor; paiol e arrecadação desta seção. Um segundo compartimento foi ocupado pelo refeitório. O terceiro compartimento abrangia a cozinha, depósito de água e lavatórios, alojamento de cozinheiros e paiol de mantimentos. Junto ao portão de entrada ficava um grande salão de aula para as primeiras letras e uma sala de música.

Do outro lado da entrada estava o quarto compartimento, dividido em: corpo de guarda, xadrez, quatro solitárias e quatro alojamentos para inferiores. O quinto compartimento abrigava o gabinete do comandante, sala para expediente, refeitório para inferiores e o dormitório. Todas as unidades eram bem ventiladas.

Militares da Marinha visitam, em 10 de julho de 1955, o local da futura Escola de Aprendizes Marinheiros no Pontal da Barra em Maceió

O Gutemberg informa ainda que nesta última seção do prédio estavam seis privadas, “todas providas de canalização para o mar e de muita água”. Na área externa ficavam a caixa d’água e os tanques para lavagem de roupas.

Nos anos seguintes ocorreu um verdadeiro revezamento no comando da Escola, sendo possível identificar os seguintes comandantes: entre 1898 e 1899, capitão-tenente Eduardo Midosi. No final de 1899, o comandante era um alagoano, o capitão-tenente Francisco de Lemos Lessa.

O capitão de corveta Henrique Teixeira Sadock de Sá também esteve no comando. De 1905 até 8 de outubro de 1906, foi a vez do capitão de corveta Thedim Costa, que foi substituído interinamente pelo capitão-tenente Oscar Muniz.

Em fevereiro de 1907, o comando estava nas mãos do capitão-tenente Damião Pinto. Quatro meses depois já estava com o capitão de corveta Bernardino José Coelho, e em agosto com o capitão de fragata J. Borges Leitão.

Há registro de que no dia 23 de outubro de 1916 assumiu o comando o capitão-tenente Octávio Santos. Quem assumiu após ele foi o capitão de corveta Luís Bezerra Cavalcanti, cuja cunhada, Ádila, casou-se com o médico e escritor Jorge de Lima em 5 de fevereiro de 1917.

Portão da Guarda da EAMAL no Pontal da Barra. Foto do acervo de Agiberto Soares

Em junho de 1917 foi noticiado o afastamento do capitão de corveta Octávio Penido Burnier. Foi substituído pelo capitão-tenente José do Amaral Castello Branco. Em 1925, o comando estava com o capitão-de-Corveta Enéas Ramos.

É provável que a Escola de Aprendizes Marinheiro de Alagoas tenha sido o local onde primeiro se praticou futebol em Maceió. Segundo o jornal Gutenberg de 28 de janeiro de 1908, o futebol era jogado nas tardes das quartas-feiras como parte do novo regulamento da Escola.

Em 1916, a Escola definia assim o perfil dos novos alunos: teriam entre 14 e 16 anos, no mínimo 1,40m de altura e precisavam da autorização dos pais.

A Escola foi fechada no dia 31 de dezembro de 1931 e a parte do seu prédio foi ocupado pela Capitania dos Portos. Em 1933, o prédio foi adaptado para receber a 1ª Feira de Amostras de Alagoas. Foi demolido em 1950 para dar lugar à Administração do Porto de Maceió e aos galpões de armazenagem.

No Pontal da Barra

Escola de Aprendizes Marinheiro no Pontal da Barra. Foto de Moacir F. Mendonça

A instituição voltou a funcionar após a Marinha receber do Estado de Alagoas, em 1953, um terreno para a construção da Escola de Aprendizes Marinheiro. A área ficava na Vila de S. Pedro do Pontal da Barra e a doação se deu pela Lei nº 1.734, de 13 de outubro de 1953.

Outra doação de um terreno na Av. da Paz realizada pela firma Irmãos Leão A. A. S/A, permitiu a construção da nova sede da Capitania dos Portos e a residência do Capitão dos Portos. O local é o mesmo onde hoje continua instalada a Capitania.

Para supervisionar estas obras, iniciadas ainda em 1954, o comandante do 3º Distrito Naval criou, em 1º de janeiro de 1954, o Escritório de Obras de Maceió, subordinado à Divisão de Obras do Comando do 3º Distrito Naval.

Poucos dias depois, tanto o Escritório, quanto a Divisão foram extintos com a criação da Comissão de Construção de Bases Navais. Em Maceió se instalou o Escritório Técnico-Administrativo. As obras receberam assistência técnica da Companhia Moraes Rego S/A, contratada em 2 de agosto de 1954.

A Escola foi recriada oficialmente pelo Dec. 57.646, de 17 de janeiro de 1966, pelo então presidente Castelo Branco. Chegou a ter mais de 400 alunos matriculados e formou quatro turmas, uma a cada três anos. Voltou a fechar em 1971, cumprindo determinação da AVE-000975/1971, quando o comandante era o capitão de fragata Edwin de Carvalho Blunt.

Campus Tamandaré, antiga Escola de Aprendizes Marinheiros no Pontal da Barra, em 1973

No ano seguinte, em julho de 1972, seu prédio foi cedido por convênio para o Ministério da Educação e Cultura e destinado à Universidade Federal de Alagoas, que ocupou o prédio a partir de 1973, com a denominação de Campus Tamandaré.

A partir de 1974, quando a Salgema Indústrias Químicas Ltda iniciou a construção da fábrica de cloro-soda, do campo de salmoura, do terminal marítimo e da unidade de dicloretano, no mesmo bairro, a UFAL resolveu transferir todos os seus cursos daquele Campus para a Cidade Universitária no Tabuleiro do Pinto, o que aconteceu em 1977.

O prédio ainda foi ocupado pela Secretaria de Segurança Pública de Alagoas e pelo Detran-AL, a partir de 1978. Somente foi devolvido à Marinha em 2014, quando foi anunciada pela imprensa a intenção de reativar a Escola de Aprendizes Marinheiro, obedecendo a estratégia nacional de defesa. O orçamento previsto era de R$ 25 milhões e as reformas deveriam ter sido iniciadas em 2015.

A editoria do História de Alagoas entrou em contato com o Comando do 3º Distrito Naval, em Natal, Rio Grande do Norte, para colher informações sobre o andamento do processo de reabertura da Escola e recebeu de sua Assessoria de Comunicação Social a seguinte nota: “A Marinha do Brasil, por intermédio do Comando do 3º Distrito Naval, esclarece que o Plano de Articulação e Equipamento da Marinha do Brasil contempla uma proposta de distribuição espacial das instalações militares e de quantificação dos meios necessários ao atendimento eficaz das Hipóteses de Emprego estabelecidas na Estratégia Nacional de Defesa, no horizonte temporal até 2030, não constando a reativação da ex-Escola de Aprendizes Marinheiros de Alagoas”.

1 Comentário on História da Escola Aprendizes Marinheiros de Alagoas

  1. Fui aluno da EAMAL, Turma BRAVO, de 1968, obrigado pelo historico. Lamentavel ler que… “não constando a reativação da ex-Escola de Aprendizes Marinheiros de Alagoas”. Ano que vem estamos organizando uma visita para comemorar nosso Jubileu. Saudades…

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