Greve de Engenharia da Ufal em 1979

A greve dos estudantes de Engenharia Civil da Ufal, em 1979, foi responsável pela primeira passeata em Maceió após a violenta repressão que se abateu sobre o movimento estudantil alagoano no início dos anos 70.

Edberto Ticianeli, Thomaz Beltrão, Renan Calheiros e Aldo Rebelo com os estudantes de engenharia em greve

Em 1979, os estudantes de Engenharia da Ufal manifestavam profunda insatisfação com os níveis de repetência nas disciplinas ensinadas pelo professor Arlindo Cabús. Sem perspectiva de solução negociada, no final de outubro os estudantes entraram em greve cobrando do reitor Manoel Ramalho o afastamento do professor. Houve impasse a luta radicalizou.

Mesmo sob pressão da polícia, no início de novembro de 1979 foi realizada a primeira passeata de rua desse período de retomada dos movimentos sociais em Alagoas. Centenas de estudantes se concentraram na Rua Boa Vista, em frente ao Jornal de Alagoas, e saíram em marcha pelo centro da cidade.

Como a posse do novo reitor, João Azevedo, aconteceria no dia 29 de novembro de 1979, os estudantes preparam uma ação para impedir o ato, caso não houvesse proposta da Reitoria para as suas reivindicações.

Na quinta-feira (29) à tarde, a Reitoria, que ficava na Praça Sinimbu, foi tomada de assalto por centenas de estudantes. O auditório, onde haveria a transmissão de cargo, foi invadido e ocupado por jovens com faixas que cobravam o direito da UNE falar na solenidade. Houve uma negociação e ficou acertado que Aldo Rebelo, então secretário-geral da entidade nacional dos estudantes, usaria da palavra.

Assembleia na Ufal em 1979 - Foto José Feitosa

Assembleia na Ufal em 1979 – Foto José Feitosa

Como resultado da manifestação, o reitor João Azevedo assumiu o compromisso de que logo apresentaria uma solução.

Dias depois houve a reunião e o reitor João Azevedo explicou as dificuldades legais que tinha para afastar o citado professor, mas se comprometeu a “promovê-lo” para outro cargo. No final do ano letivo, Arlindo Cabús assumiu a presidência da Copeve, a comissão que organizava o concurso vestibular da Ufal.

Ainda durante a posse, o representante da UNE falou para os presentes.

DISCURSO DE ALDO REBELO

Magnífico Reitor João Azevedo,

Autoridades civis, militares e eclesiásticas aqui presentes,

Companheiros professores,

Colegas de Engenharia,

Companheiros grevistas aqui presentes,

Disse certo, correto e coerente o professor João Azevedo quando se referiu de maneira serena, de maneira sóbria, de maneira verdadeira à crise, à assombrosa crise que atravessa o ensino superior no Brasil, que atravessa a educação enquanto instituição em nosso País, que atravessa, também, por não fugir à regra, por não ser uma exceção observada, atravessa, também a crise, a Universidade Federal de Alagoas.

Temos conhecimento que, através dos anos, de governos autoritários que se sucederam, a Universidade, a Educação deste País foi a vítima maior da diminuição das verbas que afetou os serviços prioritários da Nação, principalmente a saúde, principalmente a educação, principalmente a assistência social. No orçamento de 1980, o governo brasileiro destinará, apenas, 4,28 % do Orçamento do País, como dotação para o Ministério da Educação.

Assembleia de estudantes em frente ao Jornal de Alagoas durante a greve de Engenharia de 1979

Assembleia de estudantes, em frente ao Jornal de Alagoas, durante a greve de Engenharia de 1979

Isto, senhores professores, magnífico reitor, companheiros aqui presentes, significa, infelizmente, a menor quota concedida à educação, nestes últimos quinze anos em nosso País. E isto, tem razão o Professor João Azevedo, é muito grave. É muito grave quanto sabemos que várias escolas de nível superior, neste País, ameaçam fechar, ameaçam cancelar seus vestibulares por não encontrar condições de pagar sequer aos funcionários da limpeza, como é o caso da Universidade Federal de Minas Gerais. O magnífico reitor daquela instituição de ensino superior, numa assembleia geral com seus professores, com seus estudantes e com seus funcionários, colocou a dura realidade de que várias escolas da Área de Ciências Humanas da UFMG fechariam suas portas, dispensariam seus estudantes, colocaria a serviço de outras instituições seus professores, por falta absoluta de verba.

E é particularmente mais grave ainda quando nós sabemos que esta crise não é, apenas, uma crise administrativo-financeira; quando sabemos que esta crise não é apenas crise que não permita que os estudantes da UFAL terem acesso ao restaurante universitário; não é uma crise, apenas, que não permita que estudantes da UFAL tenham uma biblioteca por cada curso, sem bebedouros funcionando; que obriga os estudantes de Direito e de outros cursos a perambularem de sala em sala atrás de uma cadeira onde sentar; não apenas uma crise desse tipo. É uma crise mais profunda. É a própria crise de identidade que separa a educação do povo, que separa a criatividade cultural, que separa a pesquisa científica das necessidades tecnológicas do País, das necessidades culturais, das necessidades econômicas e das necessidades sociais da comunidade. É a crise que afasta o médico, que afasta o engenheiro, que afasta o advogado, que afasta qualquer técnico de nível superior das camadas mais pobres e mais humildes porque não têm condições de pagar um serviço caro, um serviço de alto custo. É uma crise mais grave ainda porque não tem saída, porque não tem outra opção senão quando formado ir servir a interesses alienígenas, aos interesses dos exploradores, daqueles que transferem para cá, que transferem para a nossa pátria o seu dinheiro para aqui acumular, para aqui nos explorar e para aqui, também, levar o que existe de criatividade em nosso País. E esta crise precisa ser superada.

Estudantes cercam a Reitoria e preparam invasão do auditório

Estudantes cercam a Reitoria e preparam invasão do auditório

Fala o professor João Azevedo: o homem nordestino, humilde, sereno, altivo ao mesmo tempo, é aquele que só agradece quanto tem certeza de que faz com honestidade. Mas o agradecimento, a certeza da honestidade, a dignidade e a humildade ao mesmo tempo do homem nordestino traz, também, no seu bojo uma história de lutas e uma história de reivindicações que vem desde os tempos do Zumbi do Quilombo dos Palmares, que, rolando as serras, morreu ao lado de milhares de seus compatriotas africanos aqui presentes, ludibriados pelos latifundiários e donos dos engenhos de açúcar. Traz, também, a dignidade da luta dos cangaceiros de Lampião que não se submeteram à perseguição policial e que entraram nas brenhas resistindo o tempo todo.

E exata resistência, companheiros, é o que nos cabe aqui evocar. É a resistência dos brasileiros, é a resistência que vem desde o tempo dos portugueses quando os estudantes, ao lado deles, expulsaram daqui os franceses; quando os estudantes, ao lado deles, também expulsaram os invasores holandeses. E hoje, aqui presentes, nós temos novamente a dar este testemunho de resistência.

Convidados e manifestantes dividem o auditório da Reitoria

Convidados e manifestantes dividem o auditório da Reitoria

A universidade subjugada, a universidade submetida, a universidade escravizada, a universidade entregue de braços abertos aos interesses imperialistas, a universidade entregue de braços abertos aos interesses mercantilistas não pode continuar. Essa universidade exige dos estudantes, exige dos professores, exige de todos os homens de boa vontade, de todos os patriotas, de todos os democratas deste País um posicionamento firme.

Não podemos deixar, companheiros, – é também obrigação nossa – que a Universidade Federal do Acre, onde nós estivemos há pouco mais de um mês, seja transformada num campo de concentração que favorecerá, certamente com os cursos que lá estão sendo criados, aos grandes latifundiários que estão destruindo, de uma vez por todas, a Amazônia. Um companheiro nosso mostrava um mapa do Acre, construído há mais de dez anos, onde dezenas (…) estão hoje desaparecidas, morrendo na Cordilheira dos Andes, nas nascentes dos rios Tocantins e Purus. Esta ameaça que nos fuzila como se animais fossem, é esta ameaça que também paira sobre a universidade.

E este grito uníssono, este grito bravo, este grito de resistência dos companheiros de Engenharia que aqui se encontram em greve é um testemunho de que, em nossa terra existe resistência; é um testemunho de que não morreu a luta de Tiradentes; é um testemunho de que não morreu a luta daqueles que tombaram, inclusive estudantes, ao longo desses quinze anos em defesa desta terra explorada e oprimida.

Aldo Rebelo, da UNE, fala pelos grevistas durante a posse do reitor

Aldo Rebelo, da UNE, fala em nome dos grevistas durante a posse do reitor

E agora, quando toma posse o digníssimo, o caríssimo, o magnífico reitor João Azevedo, de quem tomamos várias horas em diálogo quando representávamos aqui os estudantes, no seu gabinete de Vice-Reitor, de quem nos aproximamos através de embates sobre nossas reivindicações, agora à tarde, dou o testemunho desses companheiros que estão aqui em greve. Os companheiros de Engenharia querem aula. Os companheiros de Engenharia querem professores. Os companheiros de Engenharia querem melhores condições de ensino, mas os companheiros de Engenharia também querem justiça. Os companheiros de Engenharia exigem que a Universidade democrática seja democrática, também, com os estudantes; que a Universidade combativa tenha, em primeiro lugar, a participação daqueles que a conseguem com o seu saber e a sua cultura; dos professores, dos pesquisadores e, também, dos estudantes, como dos funcionários que, labutando dentro dos gabinetes, e também trabalhando dentro dos laboratórios, constituem a força de trabalho que botam o ensino, a educação e a cultura para frente.

E este testemunho, finalizando, é testemunho de que o Prof. João Azevedo se comprometerá, certamente, como sempre tentou se comprometer, apesar de não representar a sua própria vontade, apesar de não poder passar, certamente, pelos instrumentos de arbítrio que o prendem, que o amarram como amarram todas as instituições deste País, apesar de, como nós, ser fruto da mesma cadeia que cerceia a liberdade de pesquisa, que cerceia a liberdade da palavra, ele, certamente, se comprometerá com as reivindicações. Ele, certamente, tirará a Universidade, tirará da Escola de Engenharia – se for, realmente, reivindicação justa dos estudantes – um professor que não corresponde às suas aspirações. E ele, certamente, também, se colocará a favor da nossa luta pelo fim desse instrumento opressivo, pelo fim desse instrumento que não ajuda a construção de uma Universidade democrática que é o maldito instrumento do jubilamento.

Reitor João Azevedo negocia com os estudantes em greve

Reitor João Azevedo negocia com os estudantes em greve

O prof. João Azevedo, certamente, também, tenderá a compartilhar conosco da reivindicação pela média sete. E o professor João Azevedo que se coloca, realmente, ao lado dos estudantes, e ao lado do povo sofrido, do povo humilhado, do povo ofendido, do povo da favela, do povo ribeirinho, do povo das lagoas e do povo das grandes fazendas da cana-de-açúcar, ele, certamente, levará conosco a bandeira, levará conosco a luta de transformar esta Universidade em algo mais próximo dos estudantes e mais próximo do povo. E a luta também se constitui, não só na luta pela transformação da universidade, porque a universidade não está divorciada de toda uma sociedade que também sofre e é vítima. A nossa luta é a luta pela melhoria das condições de ensino; é a luta pelas reivindicações específicas, mas é, também, a luta pela transformação dessa sociedade brasileira numa sociedade justa, numa sociedade sem exploradores, numa sociedade sem oprimidos, numa sociedade onde homens vivam de barriga cheia. Que vivamos num País de liberdade!

Polícia Militar acompanha a saída dos estudantes após a posse do reitor

Polícia Militar acompanha a saída dos estudantes após a posse do reitor

 

1 Comentário on Greve de Engenharia da Ufal em 1979

  1. Fernando Dacal Reis // 29 de junho de 2015 em 07:38 //

    Edberto,
    Você foi fundamental liderando esse movimento nosso, estudantes de Engenharia Civil.
    Parabéns pelo site.

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