Fundição Alagoana de Jacintho Leite

Fundição Alagoana na Rua do Saraiva em Jaraguá, Maceió
Anúncio da Fundição Alagoana no jornal O Orbe de 30 de março de 1983

Anúncio da Fundição Alagoana no jornal O Orbe de 30 de março de 1883

A primeira iniciativa para se ter uma fundição em Maceió surgiu em 1857, quando da criação da Companhia União Mercantil, que estabeleceu em seus estatutos que além da fábrica de tecidos, a empresa instalaria uma fundição.

Moacir Medeiros de Santana registra que em Alagoas, a mais antiga referência sobre uma fundição remonta a 1854, em Coruripe, ainda pertencente ao município de Penedo. A informação está em uma declaração do então presidente da província, Sá e Albuquerque, que visitou o local.

Em 1874, mesmo com o prédio construído e parte do maquinário comprado, a Diretoria da Companhia União Mercantil não estava satisfeita com os altos investimentos e resolveu se desfazer dos equipamentos da fundição, mesmo com prejuízos.

No relatório da Diretoria consta o motivo: “a Companhia não está em condições de montar a Fundição, nem é possível que encontre quem queira montá-la”. No ano seguinte, o maquinário não tinha sido vendido e nem podia ser mais aproveitado. Estava deteriorado.

Outro empreendimento com o objetivo de instalar uma fundição na capital voltou a ocorrer em 1882, quando no dia 23 de novembro é registrada a firma Lima, Leite & Cia, formada pelos sócios Jacintho José Nunes Leite e o engenheiro mecânico Eduardo Lima. A primeira iniciativa da empresa recém-formada foi solicitar favores fiscais para implantar uma fundição e caldeiraria.

O governo provincial consultou a Associação Comercial de Maceió, que respondeu favoravelmente. “Há muito que esta Província sofre as consequências da falta de uma fundição, vendo-se obrigados os proprietários de fábricas de açúcar e outras a recorrer a Pernambuco, Bahia e a Europa, a fim de obterem o que necessitam para suas propriedades, com grande dispêndio e maior delonga, o que é ainda mais prejudicial de que a soma que são obrigados a desembolsar”.

Interior da Fundição Alagoana em 1921, na Rua Barão de Jaraguá

Interior da Fundição Alagoana em 1921, na Rua Barão de Jaraguá

No dia 2 de dezembro de 1883, às 14h, foi inaugurada a Fundição Alagoana. Ficava na Rua Conselheiro Saraiva, depois Rua da Alfândega e atual Rua Sá e Albuquerque, em Maceió.

Dois anos depois, a indústria tinha um forno de derreter ferro com capacidade para uma tonelada de carga; um forno para fundir metais, com três fornalhas; um guindaste para quebrar ferro: uma forja a vapor, com algaviz patent e tanque d’água e uma máquina-motor a vapor de 6 HP, sistema Caledonian, com caldeira locomotiva multitubular.

Essa estrutura, entretanto, não estava produzindo como se esperava. Em relatório de 1885, a direção da empresa avaliava que as encomendas dos agricultores e senhores de engenho estava muito aquém.

A empresa se justificava dizendo estavam procurando “corresponder à expectativa da Província e à intenção louvável que animou os poderes públicos, ao concederem a este estabelecimento os favores consagrados no contrato de 23 de novembro de 1882″, com esforços e prejuízos.

Alegando que as razões para tal comportamento dos consumidores eram em parte conhecidas, “esta empresa não tem sido acolhida, como era de esperar, pelos agricultores, preferindo alguns recorrerem a outras fontes para fornecimento dos maquinismos de que precisam, negando proteção a uma empresa que foi estabelecida no intuito de lhes ser útil”.

A insatisfação da Fundição era por ter, em dois anos, vendido sete maquinismos a vapor e três rodas d’água, sendo duas máquinas de 8, uma de 6 e duas de 4 HP, todas com moendas inteiras; duas máquinas de HP, somente com caldeira, e três rodas d’água completas para engenho.

Em setembro de 1909, uma nota publicada no Gutemberg anuncia que Jacintho Leite colocava à venda a Loja de Ferragens e a Fundição Alagoana alegando que desejava se retirar de Alagoas. Como não vendeu a Fundição, em abril de 1910 é divulgada a criação da firma Jacintho Leite, Filho & Costa, uma sociedade que tinha a participação do engenheiro Jacintho Leite Filho e de Caetano de Albuquerque Silva Costa.

Anos depois a Fundição Alagoana foi vendida à firma Goulart & Cia e posteriormente à Andrade & Cia. Em setembro de 1921 foi adquirida por Alfredo Wucherer. Neste ano, a Fundição já estava funcionando na Rua Barão de Jaraguá, 65. Alguns anos depois passou a funcionar na Rua Buarque de Macedo, no Centro de Maceió, onde funcionou até fechar na década de 1980.

Rippol

Anúncio da Fundição alagoana no jornal Diário da Manhan de 14 de dezembro de 1885

Anúncio da Fundição alagoana no jornal Diário da Manhan de 14 de dezembro de 1885

A primeira grande perda da empresa ocorreu em 21 de julho de 1884 quando o engenheiro mecânico José Rippol pede afastamento da firma. Como conhecia os clientes da Fundição Alagoana, imediatamente anunciou nos jornais que tinha aberto um escritório em Jaraguá, “junto ao almoxarifado da Alagoas Railway”, onde poderia ser encontrado para realizar trabalhos em máquinas de toda qualidade.

José Rippol, que depois veio a ser o vice-cônsul da Bélgica em Alagoas e diretor gerente da Companhia Alagoana de Fiação e Tecidos, em setembro de 1886, já tinha expandido o escritório para um estabelecimento na Rua da Alfandega, 79, em Jaraguá (atual Rua Sá e Albuquerque), oferecendo equipamentos para o mesmo público da Fundição.

Sua projeção na sociedade alagoana se deu rapidamente e em fevereiro de 1890 já participava do Conselho de Intendência Municipal, o equivalente hoje à Câmara de Vereadores. No ano seguinte, o Almanak do Estado de Alagoas registra uma fundição de sua propriedade na Rua Barão de Jaraguá, 66.

Faleceu no dia 19 de setembro de 1910, em Cachoeira do Regente, Rio Largo (na época ainda era Santa Luzia do Norte). Tinha aproximadamente 60 anos e era diabético. Deixou sua esposa, Joanna Rippol, e um filho, José Rippol Júnior.

Em julho de 1884 a Fundição Alagoana perde o sócio e engenheiro mecânico Eduardo Lima. No dia 17 de agosto o jornal O Orbe publica nota da Fundição anunciando que Jacintho José Nunes Leite havia comprado os direitos societários da viúva de Eduardo Lima, sra. Francisca Cherubina Lima

Jacintho Leite

Comerciante português, Jacintho José Nunes Leite teve uma longa e vitoriosa carreira como empresário em Alagoas. Em Bebedouro, onde construiu sua residência, montou um engenho de açúcar e foi um dos responsáveis por melhorias na igreja-matriz de Santo Antônio, trazendo azulejos de Portugal e fabricando os sinos na sua Fundição Alagoana.

Solar Nunes Leite na Praça Lucena Maranhão em Bebedouro, onde morou o comendador Jacintho Leite

Solar Nunes Leite na Praça Lucena Maranhão em Bebedouro, onde morou o comendador Jacintho Leite

Um dos seus grandes investimentos ocorreu em 1857 na constituição da fábrica de tecidos União Mercantil, que depois veio a ser Fábrica Carmem em Fernão Velho. Foi fundada em 31 de janeiro de 1857 por sociedade de investidores sob a presidência do Conselheiro Antônio Coelho de Sá e Albuquerque.

O maior investidor foi o empresário José Antônio de Mendonça (Barão de Jaraguá) que empregou na obra a quantia de 200.000$000 (duzentos contos de réis). A Província de Alagoas ajudou com 30.000$000 (trinta contos de réis), e mais tarde 26.000$000 (vinte e seis contos de réis), pagáveis em vinte anos.

Em 1870, o comendador Jacintho José Nunes Leite arrematou a fábrica, que teve seu capital elevado para 300.000$000 (trezentos contos de réis). Foi ele quem ampliou e mandou construir a estrada ligando Fernão Velho a Bebedouro, trabalho entregue ao mestre geral da Fábrica, José de Souza Araújo.

O seu capital vinha se constituindo desde 1867, quando fundou a primeira loja de ferragens da capital, a Jacintho Leite & Cia, localizada na Rua do Comércio. Pelas informações divulgadas em jornais da época seus investimentos eram dispersos. Em setembro de 1880, o jornal O Liberal anuncia que vendeu à firma Leite, Ferreira & Cia, um estabelecimento de refinação situado a Rua do Comércio, nº 83 e 85. Há registros ainda de que era sócio do irmão em uma fábrica de vidros.

Teve participação ativa no grupo de empresários que fundou a Associação Comercial de Maceió em 7 de setembro de 1866. Teve também a participação de Jacintho Leite o empreendimento que constituiu a empresa Companhia Alagoana de Trilhos Urbanos, responsável durante muitos anos pelo transporte de passageiros em Maceió. Eram bondes movidos a tração animal.

Em 1883, Jacintho Leite se associa a Manoel José de Pinho na empresa Água Potável Maceioense, cujo escritório funcionava na Rua do Comércio, 77, e tinha como responsável pelos contratos om capitão Aprígio da Silva Pinto.

No início do século XX, a Fundição Alagoana continuava a prestar serviços à economia local, produzindo equipamentos importantes para o desenvolvimento de Alagoas. Um exemplo dessa produção está registrado no Gutemberg de 17 de janeiro de 1908. A Intendência Municipal encomenda um recalcador para o processo de macadamização das ruas da cidade. Puxado a bois, o enorme cilindro pesava três toneladas e tinha um raio de meio metro.

A importância do empreendimento também era reconhecida pelo Governo Estadual, que em 1908 publicou decreto prorrogando os favores fiscais da Fundição por mais dez anos. Neste mesmo ano, o Almanak Laemmert, publica uma relação de empresários alagoanos e Jacintho Leite é citado como diretor da Companhia União Mercantil.

Jacintho José Nunes Leite faleceu no dia 20 de maio de 1914.

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